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domingo, 11 de dezembro de 2022

ZÉ DA PINGA 20 ANOS

 Eram outros tempos! Maravilhosos tempos quando, por três inesquecíveis anos, a comunidade nerd ansiava pela chegada de dezembro. Significava que um novo filme da maior trilogia da história do cinema, O Senhor dos Anéis de Peter Jackson, estava chegando!

Arquivo-X estava indiscutivelmente chegando a seu fim, mas os excers continuavam fiéis às aventuras de Mulder e Scully. E, de uma Galáxia Muito, Muito Distante, ainda nutríamos esperanças de grandes histórias vindas da Lucasfilm.

Foi um tempo inesquecível para aqueles ávidos por boas histórias, e também para contadores de histórias. Mesmo aqueles que iniciavam sua trajetória.



Era a época gloriosa da revista Sci-Fi News, e foi uma alegria e uma honra inesquecíveis quando minha primeira publicação em mídia física, na edição 62 dessa saudosa revista, chegou às bancas. Tenho a grata satisfação de saber que Zé da Pinga ainda é lembrado pelos fãs de ficção científica, e devo a eles, e também à equipe da revista, Silvia, Lu, Fábio, Paulão e o Professor Walter, inúmeros agradecimentos por esse apoio e incentivo naquele saboroso mas difícil início.



Zé da Pinga ainda foi publicado em meu segundo livro, Filhas das Estrelas, em 2011 pela Editora Estronho. Que continua disponível como e-book, e vocês podem conferir lá embaixo, ao final deste post. Há algumas diferenças, evidentemente, em relação a versão que apresentarei a vocês daqui a pouco, que é a que foi publicada na Sci-Fi News 62. E, com os contos A Marca e Irmãos, também integrantes de Filhas das Estrelas, estabeleci que Zé da Pinga é uma história que faz parte do mesmo universo de meu primeiro livro, De Roswell a Varginha (Tarja Editorial, 2008).



Então, sem mais delongas, apresento Zé da Pinga em sua versão original para vocês, celebrando 20 anos de sua primeira publicação. Boa leitura!



ZÉ DA PINGA


- É verdade, seu moço. A luz veio de lá do morro, “alumiando” tudo por estas bandas!

- E “tumém” ali no fundo, na chácara de “seo” Armando, onde dizem que o “bicho” pousou.

O casal, simplório mas muito solícito, explicava tudo o que haviam testemunhado três noites antes. Célia perguntou:

- E os senhores têm visto essas luzes há quanto tempo?

O homem coçou os ralos pêlos que cobriam seu queixo, e por fim disse:

- “Óia”, dona, pelo que a gente se “alembra”, faz bem uns dez dias...

Célia trocou olhares com Marcos. Renato digitava o relato do casal com uma rapidez fenomenal no laptop, enquanto os irmãos Kássia e Leonardo andavam pelos arredores buscando mais evidências.

Salto do Avanhandava, pequena cidade do interior paulista a cerca de cinquenta quilômetros de Campinas, estava a poucos dias de comemorar os vinte anos de sua emancipação e transformação em município. Contudo, para alguns de seus pouco mais de seis mil habitantes, não era aquele o assunto principal naqueles dias, mas sim a grande quantidade de visões de estranhas luzes durante as noites. Na verdade, toda a região era assolada, há semanas, por uma onda de aparições de ovnis, mas, conforme o testemunho que acabavam de tomar de seu Waldir e de dona Iracema, sua esposa, há dez dias os fenômenos se concentravam nas menores cidades daquela região, em especial sobre Salto do Avanhandava.

- O que os senhores acham que é isso?

Seu Waldir perguntou com legítimo interesse, mostrando uma curiosidade típica da região para tudo que era novidade. Renato, no entusiasmo de seus 23 anos, respondeu:

- É uma onda ufológica como há tempos não víamos, seu Waldir! Praticamente desde o Caso Varginha não temos nada assim! Pelo visto, os “extras” estão se animando de novo!

- O padre Reginaldo diz que é tudo coisa do capeta, disse Iracema.

Sem que ninguém pudesse impedir, Renato continuou:

- Que nada, dona Iracema! Acreditamos que eles vêm de outros planetas, outros sistemas solares! Não tem nada do diabo nisso. Até mesmo o papa disse recentemente...

- Renato, menos, menos, cortou Marcos, o líder do grupo. Não queremos tomar mais o tempo dos senhores, não é mesmo? Agradecemos pela ajuda.

O jovem guardou o laptop a contragosto, e com os demais cumprimentou o pequeno grupo de moradores do Baixo Morro, bairro da periferia da cidade. Estavam entrando na perua, quando Waldir pareceu lembrar-se:

- Ah, nós esquecemos de avisar, o pessoal aqui do bairro tá dizendo que um bêbado, que todo mundo chama de Zé da Pinga, tá sumido há uns dois dias.

Eles voltaram a se interessar, pedindo mais detalhes. Ouviram que aquele homem costumava vagar pelo bairro mendigando, e era muito conhecido nos dois ou três bares das redondezas. Apesar de gostar de ficar de pileque, não incomodava ninguém, a não ser quando ficava mais animado, segundo diziam, e saía dizendo que “eles” chegariam em breve.

- Quem são “eles”, seu Waldir?

A pergunta de Marcos foi respondida com um erguer de ombros. Ninguém sabia mais nada sobre o Zé. Ele aparecera na região há uns quinze anos, e corriam boatos que tinha sido militar ou coisa parecida na época da ditadura.

- Uns e outros ainda falam que ele “teve” envolvido com alguma coisa séria do governo, disse dona Iracema. Mas nós não “crerdita” muito, não, esse povo gosta de contar história.

Agradeceram, e com todos a bordo da perua se encaminharam para o endereço de mais uma testemunha, logo na outra rua do mesmo bairro seguindo as indicações de seu Waldir. As ruas de terra batida dificultavam um pouco a marcha do veículo, e eles também haviam ouvido muitas reclamações sobre como o prefeito Eduardo não fazia nada para melhorar as condições de vida daquela parte pobre da cidade. Realmente, quando chegaram ali, precisaram pedir autorização para investigar o caso, e os funcionários e o próprio prefeito não foram muito prestativos. A única exceção fora o chefe da polícia local, capitão Flávio, que parecia ser a única autoridade na cidade realmente interessada em encontrar uma explicação para os acontecimentos.

Passaram mais meia hora entrevistando pessoas no novo endereço, e todos os relatos coincidiam. Algo de muito estranho estava acontecendo, o que era ainda mais respaldado por algumas marcas no solo e folhas queimadas de árvores, que encontraram quando foram investigar a chácara de seu Armando. Este, um pequeno produtor rural, também mostrou-se muito simpático, dando os endereços de diversas outras testemunhas.

Estavam nisso, quando viram uma pessoa chegar correndo pela rua, e reconheceram seu Waldir. O homem, esbaforido, disse quase gritando:

- É o Zé da Pinga! Ele apareceu!

Mais tarde, estavam no hospital da cidade, pequeno mas felizmente com capacidade de fazer um atendimento de boa qualidade. Zé havia aparecido com as roupas ainda mais esfarrapadas que de costume, e com um profundo ferimento na cabeça. Disse que havia caído depois que a “casa redonda” levantara vôo...

- Será que o senhor poderia repetir para nós o que se passou, perguntou Célia com todo carinho.

O médico que dava alguns pontos no corte balançou a cabeça em sinal de desaprovação, mas permaneceu calado. O homem voltou a contar sua estranha história. Disse que um grupo de “sacis” chegaram dentro de uma luz, e o convidaram para visitar sua casa.

- E eu fiquei espantado, dona, porque a casa dos “bichinhos” era redonda! Tudo era redondo, e muito “alumiado”, mas eu não conseguia ver nenhuma lâmpada...

Ele contou que os “sacis” como os chamava, fizeram um tipo de exame médico nele, em uma sala que foi descrita como semelhante a que se encontrava naquele momento. Depois, eles teriam contado muitas histórias para ele, e mostrado algumas imagens “numa espécie de televisão” segundo o Zé.

- E o que mostravam essas imagens, Zé, e o que eles contaram para você?

Ele olhou para Marcos, que do alto de seus quarenta anos e mais de vinte dedicados a pesquisa ufológica era o líder do grupo, e respondeu:

- Olha, “seo” Marcos, eles me mandaram dizer só que logo logo eles e mais uma porção de outras “gentes” do lugar de onde eles vêm vão chegar na Terra, porque “nóis” não “tamo” cuidando bem dela, e vão nos ensinar muitas coisas.

Os dois ufólogos se olharam, e até o médico havia parado para acompanhar as palavras, que soavam fantásticas e até loucas demais, mas eram ao mesmo tempo fascinantes. Zé ainda disse:

- Eles me contaram mais uma porção de coisa, mas ainda não posso “contá” elas “proceis”. Só quando eles me chamarem de novo.

- E quando vai ser isso, Zé, perguntou Célia.

Ele olhou para a moça, que tinha vinte e cinco anos, e respondeu:

- Logo, logo, dona...

Deixaram-no descansando um pouco na enfermaria, e saíram. No corredor, o prefeito e o capitão da polícia aguardavam.

- Gostaria de mais uma vez pedir aos senhores que terminem logo com isso! Não queremos que essas histórias se espalhem, e atrapalhem o aniversário da cidade.

Aquela parecia a única preocupação de Eduardo. Mostrava-se muito ansioso. Marcos respondeu:

- Temos algo estranho acontecendo, prefeito, e gostaríamos de continuar investigando.

- Vão dizer que acreditam nessa bobagem? Por favor, o homem é um pobre-diabo, vive bêbado pelos cantos!



- Mas ninguém o viu pelos últimos dois dias, prefeito, respondeu Célia. Todas as pessoas que entrevistamos disseram que Zé nunca sumiu por tanto tempo.

Eduardo parecia muito contrariado. Ficou com a cara ainda mais fechada quando Flávio disse que muitas pessoas estavam assustadas, e portanto era sua obrigação tentar desvendar aquele mistério:

- E, para isso, se pudermos contar com ajuda especializada melhor, não concorda, prefeito?

Ele não parecia nada feliz, resmungou algo incompreensível, cumprimentou todos com um leve aceno de cabeça e retirou-se dali. Na saída, quase trombou com dois repórteres do único jornal local, que também ajudavam nas investigações. A moça, Maria, cumprimentou os presentes e o chefe de polícia que também saiu, e dirigiu-se aos ufólogos:

- É, vocês conseguiram incomodar o prefeito.

- Maria, por que ele está assim, perguntou Marcos. Afinal, são poucas pessoas que acreditam sequer que esses fenômenos estejam acontecendo.

O outro repórter, Gustavo, chamou todos para um canto, e disse que a festa significava muito para o prefeito. O mesmo era de uma família de muita influência por toda a região, e se a mesma fosse um sucesso, poderia ser usada como propaganda eleitoral:

- Logo vai haver eleições, e Eduardo quer se candidatar a deputado estadual. Além de tudo, correm boatos que muita coisa nessa festa foi superfaturada. Não temos provas, mas empresas de familiares e amigos do prefeito estão entre os fornecedores...

Intrigas políticas, mais um complicador para uma situação já bem complicada! Eles trocaram mais impressões sobre o que parecia estar acontecendo, e já se dispunham a ir embora, quando o mesmo médico veio correndo, com uma radiografia nas mãos. Sua expressão dava mostras de profunda confusão.

- Estava examinando novamente as radiografias que tiramos do Zé, e acabei encontrando isso. Nunca vi nada igual!

Apontou diretamente para um estranho objeto na chapa, logo acima do osso da fronte do crânio do Zé. Todos puderam ver um estranho objeto alongado, de formato cilíndrico, alojado do lado oposto ao ferimento que acabara de ser tratado. Não havia qualquer sinal de um orifício de entrada. Os repórteres ficaram boquiabertos, enquanto os ufólogos se entreolharam pela enésima vez. O caso ficava mais interessante a cada nova pista encontrada.

Enquanto os outros ficavam no hospital, Renato, Kássia e Leonardo resolveram ir assistir a uma das missas de padre Reginaldo. Mal entraram na pequena igreja e sentaram-se em três lugares vazios, e as cabeças que haviam se virado para trás para observá-los já se voltavam para frente, e um “zunzunzum” de conversas paralelas começou a ser ouvido. O padre interrompeu o sermão por alguns instantes com expressão contrariada, e logo voltou a falar, com muito mais veemência que antes:

- E finalmente, aqueles entre vocês com idéias imorais, que se questionam sobre a Criação do Senhor, e até almejam acrescentar “coisas” a Sua Divina Obra, estejam avisados: nas Sagradas Escrituras está, há muito tempo, o relato do que irá acontecer ao Final dos Tempos! Está escrito que nos céus aparecerão prodígios, mas que são na verdade maquinações do Mal para dominar os fracos de espírito, para cobrir e denegrir a obra de Deus na Terra! Aqueles dentre vocês que derem ouvidos aos que espalham essas histórias de falsos prodígios padecerão na danação eterna, assim está escrito!

Longe de se intimidarem com as ameaçadoras palavras do padre, aquilo divertiu os ufólogos. Renato, que gravava tudo com sua câmera digital, mal conseguia evitar de dar gargalhadas. Os outros insistiam aos cochichos para que se contivesse. Finalmente, depois da comunhão e dos ritos finais, a igreja ficou vazia, e os três foram falar com padre Reginaldo.

- O que querem aqui? Esta é a Casa de Deus!

Leonardo, o mais diplomático dos três, pediu desculpas, mas assegurou que não estavam ali para incomodar ninguém:

- Desculpe, padre, não é nossa intenção trazer algo negativo para ninguém nesta cidade. Queremos apenas juntar provas, entender os fatos desses acontecimentos...

- Não há nada para entender, cortou o padre rispidamente. O diabo pode se manifestar de muitas formas, como deveriam saber se estudaram a Bíblia Sagrada.

Kássia, que trazia um crucifixo pendurado em uma correntinha, perguntou:

- Mas padre, a mesma Bíblia não nos ensina as palavras de Jesus, que não devemos julgar para não sermos julgados, e devemos amar o próximo como Ele nos amou?

O padre resmungou qualquer coisa, e ela ainda disse:

- Pelo que sei, a Bíblia não cita nada sobre os dinossauros, mas já encontramos seus ossos e outros vestígios, e portanto sabemos que os mesmos existiram. O senhor nega isso?

- E acho que se lembra há alguns anos, quando a NASA, a agência espacial americana, anunciou a descoberta de bactérias fossilizadas em um meteorito marciano, acrescentou Renato com todo entusiasmo. Vai negar isso também, padre? Os extraterrestres não existem só porque a Bíblia não os cita nominalmente?

Renato já ia falar dos sumérios, que nos legaram um relato do Dilúvio milhares de anos mais antigo que o das Escrituras, quando Kássia gentilmente o cutucou. Leonardo prosseguiu:

- Desculpe nosso amigo, padre. Aliás, nem é nosso trabalho convencer o senhor, nem qualquer pessoa, de nosso ponto de vista. Queremos apenas analisar os fatos. E ouvir todas as opiniões, foi para isso que viemos ouvir o que tem a dizer.

- Já sabem o que penso de tudo isso. Agora vão!

Com isso, estava encerrada mais aquela entrevista. O padre ainda lançou um olhar mal humorado para Kássia, que usava calças compridas, e retirou-se. Já haviam reparado que apenas as mulheres mais jovens da cidade vestiam-se daquela forma, e sabiam que uma razão para aquilo era exatamente os sermões de padre Reginaldo, que não admitia “pouca-vergonha” por parte de nenhum de seus fiéis, nem desvios do que chamava de caminho da virtude. Depois de enfrentarem outros olhares hostis e ameaçadores por parte de beatas e outros devotos que os esperavam fora da igreja, entraram na perua e foram ao encontro dos amigos.

Estavam no começo da noite no pequeno hotel da cidade conversando e verificando os dados que haviam coletado:

- Esta cidade parece parada no tempo, reclamou Renato.

- Nosso amigo é sempre muito radical, mas agora estou com ele, disse Kássia. Imagine, as mulheres e senhoras ficam me encarando e olhando feio só por causa de como me visto! Sentiu isso também, Célia?

- Acho que é isso que faz uma viagem dessas valer a pena, respondeu ela. Conhecer outras pessoas, outros lugares. O Brasil é tão grande, e é difícil imaginar que em nosso próprio país ainda exista gente que vive assim, não é?

Marcos, estava no quarto comunicando-se com colegas por e-mail. Haviam levado o Zé do hospital para um lugar que o mesmo chamava de casa, um barraco nos fundos da casa de um vizinho do seu Waldir. Lá, tiveram a chance de examinar o único documento que ele possuía, uma identidade já muito desgastada pelo tempo. Era isso que Marcos usava em sua pesquisa. Subitamente, desceu as escadas correndo, e veio a seu encontro. Disse, quase sem fôlego:

- Vocês não vão acreditar no que encontrei sobre nosso amigo Zé da Pinga!

Rapidamente enfiou um disquete no laptop de Renato, e abriu o documento. Todos puderam ver a cópia de uma identidade militar datada dos anos setenta. Ali constava o nome verdadeiro de Zé da Pinga:

- José Amaro de Freitas, chegou a patente de tenente na Força Aérea, serviu a maior parte da carreira no Pará, e deu baixa em 1988. Esse nome nos diz algo?

Leonardo estava sem entender nada. Porém Renato, dono de uma memória prodigiosa para fatos ufológicos, logo pareceu ter um tipo de “iluminação”. Digitou mais rápido do que os colegas podiam ver algum comando no teclado, e logo outro documento luziu na tela:

- O na época sargento José Amaro de Freitas foi um dos participantes de um projeto da Aeronáutica no sul do Pará que investigou ovnis no final de 1977, e que ficou conhecido como Operação Prato!

Todos conheciam o caso. O comandante da Operação dera uma entrevista há poucos anos, detalhando tudo que havia acontecido na época. Infelizmente, mais dados sobre a mesma nunca foram revelados, nem mesmo a grande quantidade de filmes e fotos que os militares haviam obtido, e que deviam continuar ocultos nos arquivos da Aeronáutica.

- Meu Deus, estão achando que José veio para cá... para fugir de algo com que tiveram contato naquela época?

A pergunta de Célia tinha razão de ser. Entre os relatos que haviam colhido, alguns diziam que Freitas, ou Zé da Pinga, chegara a ter numa ocasião meia dúzia de seguidores, e iniciaram uma espécie de culto extraterrestre. Logo, porém, todos sumiram menos Zé que, abandonado, passou a beber e vagar pela periferia da cidade.

- Gente, esse caso está ficando cada vez melhor!

Por incrível que possa parecer foi Marcos, o mais ponderado do grupo, que disse isso cheio de entusiasmo. Decidiram que deviam voltar a encontrar Zé o mais depressa possível.

No dia seguinte, forma procurar o Zé, mas não o encontraram em casa nem em lugar nenhum. Seu Waldir não sabia o que fora feito dele, até que uma outra vizinha disse que três jipes haviam chegado no meio da noite:

- Saiu um monte de gente armada e com roupas do exército, parece, e levaram o Zé. Pareciam muito bravos com ele...

Procuraram pela cidade, e finalmente chegaram a delegacia. De fato, três veículos com o tradicional verde, e com inscrições da força aérea, estavam estacionados defronte a mesma. Dois soldados montavam guarda na entrada, e não permitiram que entrassem.

Suas reclamações e protestos deveriam ter sido ouvidos lá dentro, pois logo o capitão Flávio saiu, acompanhado por um homem em uniforme militar, que parecia oficial. Entretanto, tal como os soldados de guarda, o mesmo não trazia qualquer insígnia ou identificação na roupa. Foi Flávio que disse:

- Lamento, mas tenho ordens de cooperar com o pessoal da FAB nesse caso. Devo pedir que se retirem daqui.

O outro não dizia nada, apenas os observava com um misto de indiferença e aborrecimento. Marcos respondeu:

- Capitão, o senhor é a única autoridade nesta cidade que mostrou um pouco de ética e respeito, tanto por nós quanto pelas pessoas que têm testemunhado esse fenômeno. Vai nos abandonar agora?

Gritos, de repente, foram ouvidos vindos de dentro da delegacia. Kássia e Renato, indignados, responderam quase gritando:

- Estão batendo nele? Estão maltratando o Zé? Mas o que ele fez?

- Vou ter que pedir novamente que saiam, por favor, do contrário os prenderei por desacato.

Flávio falou isso com firmeza, mas percebia-se em seu tom de voz que no íntimo a situação lhe repugnava. Sem alternativa, o grupo entrou na perua e afastou-se dali. Logo cruzaram com o carro do jornal que vinha em sentido contrário, e os repórteres fizeram sinal que os seguissem. Chegando a sede do mesmo, todos entraram, e Maria foi logo dizendo:

- Aquele safado! Foi Eduardo quem chamou os militares! Parece que tem algum conhecido ou parente oficial.

Gustavo ainda acrescentou:

- Quando descobrimos que prenderam o Zé, já era tarde demais. Dá uma raiva não poder fazer nada!

Eles pareciam hesitar em dizer algo que estavam guardando. Finalmente, Maria acrescentou:

- De manhã, logo depois de voltarmos da delegacia onde também não nos deixaram entrar, havia um envelope enfiado por baixo da porta. Vejam só...

Dentro do envelope, havia uma série de documentos, listas de compras, valores e números de telefone, tudo com carimbo da prefeitura. Todos puderam ver que aquilo era a prova que o prefeito havia beneficiado empresas de amigos e parentes na preparação da festa de emancipação da cidade, e em obras superfaturadas feitas para a ocasião. O anônimo autor da denúncia havia trabalhado direito.

- Quase direito demais, será que ele mesmo teria participado da negociata, perguntou Gustavo.

- O que vão fazer com isso, disse Leonardo.

Marcos teve uma idéia. Conhecia muita gente da imprensa em Campinas e cidades vizinhas. Logo cópias dos documentos eram enviadas via faz e e-mail para as redações de diversos jornais da região. O explosivo material seria publicado no dia seguinte.

- Com isso, pegamos o prefeito, disse Renato. Mas o que podemos fazer pelo Zé?

Maria disse que só havia uma pessoa a quem recorrer:

- Padre Reginaldo. Esperem, eu sei que ele não é muito de ficar do nosso lado, mas também sei que quando o próprio prefeito e alguns vereadores foram colhidos por denúncias que nosso jornal fez, ele ficou do nosso lado. Deve ser a pessoa mais respeitada da cidade, até o prefeito não se atreve a ignorá-lo!

Claro que Reginaldo não concordou com eles a princípio. Relutou muito em usar sua influência para ajudar o Zé, e ponderou, com o que a maioria do grupo concordou, que os militares dificilmente o ouviriam.

Finalmente o convenceram, e o padre disse que mais tarde, quando fechasse a igreja, iria a delegacia e tentaria fazer algo. Todos ficaram na expectativa, e duplas foram escaladas para alternadamente vigiar a casa onde a mesma funcionava, a fim de evitar que os militares fugissem com o Zé.

Renato e Célia faziam sua ronda cuidadosa por volta das nove da noite. As ruas, como era habitual, estavam quase vazias, rotina de cidade pequena. Caminhavam nas proximidades da delegacia, quando a moça apontou para o céu:

- Olha! Tem um ponto de luz lá no alto que está se movendo!

Renato percebeu, e apontou a câmera. O ponto de luz foi crescendo, até que deixaram de vê-lo depois de mergulhar atrás da delegacia. O lado da rua em que a mesma se encontrava era formado por uma série de terrenos baldios, e contornava um morro. Era por trás do mesmo que a estranha luz tinha sumido.

Resolveram se separar e ir investigar. Renato seguiu pela outra travessa que também contornava o morro, enquanto Célia voltava pela direção em que tinham vindo. Por isso, nenhum dos dois percebeu padre Reginaldo caminhando na direção da delegacia.

O padre vinha apoiando-se em seu inseparável guarda-chuva, maldizendo-se por haver concordado com os repórteres e ufólogos. Afinal, os mesmos pareciam sempre estar correndo atrás de confusão. Mas, apesar disso, não concordava em absoluto que alguém fosse preso de forma arbitrária, mesmo que fosse um mendigo como o Zé da Pinga. Resolveu que seria muito duro com Flávio e os militares. Estava quase chegando, quando percebeu um foco de luz intenso vindo de dentro da delegacia.

Aquilo definitivamente era fora do normal, e o padre ficou alerta, aproximando-se devagar. Estava a ponto de ficar adiante da porta, quando viu uma sombra que parecia sair da mesma:

- Alô, disse suando frio. Quem está aí?

Nenhuma resposta. Resolutamente, depois de segurar a grande cruz que trazia ao peito, avançou mais três passos e ficou diante da porta. Arregalou os olhos e ficou boquiaberto com o que viu, certificando-se em décimos de segundo que levaria aquela imagem consigo para o túmulo.



Flávio, seus auxiliares e os militares estavam caídos ao chão, parecendo mortos. No centro da sala, havia algo, ou alguém... padre Reginaldo não sabia descrevê-lo. Aquilo deveria ter um metro e vinte de altura, uma cabeça grande em relação ao corpo, e o que pareciam dois grandes olhos negros. Foi tudo que o padre conseguiu distinguir diante da forte luminosidade que inundava o ambiente.

Ficou ali, paralisado, sem conseguir esboçar qualquer reação. O ser virou-se para ele, e a seguir para outra porta, de onde saiu, cambaleando, o Zé da Pinga. O mesmo passou pelo padre depois de lançar-lhe um rápido olhar, seu rosto muito machucado pelas agressões de que havia sido vítima. Cruzou o umbral da porta e afastou-se pela rua.

Renato e Célia vieram correndo, um de cada lado, depois de avistarem um brilho estranho sobre a delegacia. Renato sentiu um calafrio ao ver um vulto cambaleando pela rua, e arrepiou-se novamente ao reconhecer o Zé, todo machucado e sangrando. Perguntou-lhe como havia saído, sem obter resposta. Quando ouviu o grito de Célia, pediu que ele ficasse ali, e correu os pouco mais de cinquenta metros de volta a delegacia.

Célia estava ajudando padre Reginaldo, que estava caído, apoiado na parede da casa. O homem parecia abobado, não falava coisa com coisa. Lá dentro, os militares continuavam caídos, mas Flávio já tentava se levantar, enquanto perguntava, gaguejando:

- O..., o q-que... acont... aconteceu?

Logo Marcos chegava com Kássia para render os companheiros, e ambos se mostravam espantados com o que havia acontecido. Finalmente, o padre disse:

- Eu vi... eu vi...

- O que o senhor viu, padre?

Renato repetiu a pergunta em tom febril, mas Reginaldo só falava isso. Finalmente, o jovem ufólogo lembrou-se do Zé, levantou-se e olhou na direção em que o havia deixado, mas:

- Cadê ele? Cadê o Zé? Eu o deixei bem ali! Estava todo machucado, esses canalhas devem tê-lo espancado horas a fio!

Resolveram sair para procurá-lo. Marcos levou Flávio e Kássia no carro, enquanto o resto seguiu a pé. Mais de meia hora depois, este último grupo encontrou o mendigo caminhando a esmo, perto de um bosque. Célia gritou:

- Zé, espere! Queremos ajudá-lo!

Ele se voltou, e todos se arrepiaram novamente ao ver seus ferimentos. Apesar de ainda estarem amparando o padre, apressaram o passo. Zé estava a ponto de entrar no bosque, quando avistaram os faróis do carro se aproximando. Renato gritou novamente:

- Zé, espere, podemos ajudar, vamos proteger você!

Nisso todos ficaram ofuscados por um brilho intenso que subitamente saiu do bosque. Renato virou-se assustado, enquanto que, protegendo os olhos, Célia e padre Reginaldo viram um cone de luz cair sobre Zé. Ele olhou novamente para o grupo, e todos se espantaram, pois seu rosto estava limpo, sem um arranhão!

- Como, como é possível?

Padre Reginaldo olhava sem acreditar. Renato, recuperado do clarão, apontou a filmadora. O cone de luz que envolvia o Zé desapareceu, e ele mergulhou no bosque. Marcos passou a toda por eles, tentando alcançar o mendigo. Subitamente, as luzes do carro se apagaram, e o motor do mesmo deixou de funcionar. Parou bem antes de chegar ao bosque.

Célia e Renato deixaram padre Reginaldo, que fora acometido por uma crise de tremedeira, e saíram correndo. Os ocupantes do carro também abriram as portas e tentaram alcançar o bosque, mas um novo clarão, emergindo por entre as árvores, fez com que todos parassem.

Um objeto, de mais de dez metros de diâmetro e intensamente iluminado, começou a se elevar. Aquela única massa luminosa subiu rapidamente até ficar com um tamanho semelhante a lua cheia, quando disparou para o céu com uma velocidade extraordinária. Tornou-se um pontinho de luz, e desapareceu em instantes sem deixar vestígios.

Voltaram na manhã seguinte bem cedo. Todos ficaram estarrecidos, mesmo padre Reginaldo, ao encontrar um grande círculo de grama revirada e em alguns pontos queimada, na clareira bem no centro do bosque. O círculo tinha um diâmetro de pouco mais de dez metros. Dentro do mesmo, quatro impressões redondas, obviamente resultantes de um grande peso. A terra dentro das mesmas estava bem compactada, confirmando aquela observação. Leonardo apressou-se a recolher amostras de toda a área, ajudado pela irmã, Kássia.

Os moradores das redondezas foram unânimes em confirmar as observações do grupo. Estavam todos muito assustados, e recorriam ao folclore ou a crenças religiosas para explicar o que ocorrera.

Os militares, depois de aparecerem no local pela manhã e rapidamente darem uma olhada fugaz em tudo, foram embora. Suas identidades e a unidade a que pertenciam não puderam ser determinadas.

Subindo nas árvores que rodeavam a clareira, encontraram diversas folhas queimadas, e também recolheram amostras para análise. O contador geiger que trouxeram, contudo, não acusou presença de radioatividade.

Padre Reginaldo, depois de passar boa parte da noite trocando idéias com Renato, e diante das evidências, fez um sermão muito diferente naquela manhã. Disse que a obra de Deus não pode ser nunca diminuída por nossas limitadas percepções, e que, segundo a velha sabedoria popular, “há muito mais coisas no céu e na terra do que sonha nossa vã filosofia”.

Todo o grupo de ufólogos fez questão de assistir a missa, e retribuíram com alegria o sorriso de padre Reginaldo. Haviam conquistado um importante aliado, o que já compensava a viagem e toda aquela confusão.

Os jornais de toda a região publicaram a documentação, comprovando as falcatruas do prefeito Eduardo. Dias depois, souberam que a câmara de vereadores, em tempo recorde, o havia afastado, e um processo criminal para que devolvesse os recursos de que havia indevidamente se apropriado fora instalado na comarca municipal.

A identidade da pessoa que enviou a documentação não foi conhecida por algum tempo. Semanas depois, Maria lhes enviara uma edição do jornal, em que Flávio explicava as razões de seu pedido de demissão. Segundo o ex-chefe de polícia, “tinha que acertar contas com o passado, pagar por coisas das quais sabia, mas que não fiz nada para impedir”. Foi convocado como a principal testemunha de acusação contra o prefeito, mas a oposição já reclama da demora no processo, e não concorda que o mesmo seja conduzido por um juiz que é primo do ex-prefeito.

Apesar de terem prolongado sua permanência em Salto do Avanhandava por mais dois dias, e buscado em todos os lugares possíveis, não havia sido encontrado qualquer sinal do Zé da Pinga, ou José Amaro de Freitas, antigo tenente da FAB, e que quando era sargento, por volta de 1977, teve contato com “algo” inexplicável no sul do Pará. Nunca mais ninguém da cidade viu ou ouviu falar nele, e muitos são os que agora sentem muitas saudades desse personagem. Outros, ao contrário, o consideram apenas uma lenda, “o mendigo que foi raptado por um disco voador”. A opinião de Renato, contudo, que escreveu o artigo que foi um dos destaques de capa da principal publicação brasileira do gênero dois meses depois, era bem diferente. O texto terminava assim:

“Apesar deste caso continuar sob investigação, não sabemos se algum dia realmente teremos alguma notícia de Freitas, ou como era conhecido, Zé da Pinga. Ele teve contato com  algo muito além de nossas pobres concepções, na Amazônia do final dos anos setenta. Talvez não estivesse preparado para tanto, pois os relatórios a que tivemos acesso dão conta que ele simplesmente sumiu logo após a Operação Prato ser desativada. Apesar de procurado, só foi encontrado pelos militares, aparentemente, quando da ocorrência dos fatos descritos neste artigo. Seu paradeiro permanece ignorado.

Quanto ao que dizia, sobre a chegada “deles”, só o que nos resta é aguardar...

Contudo, e se os leitores me permitem especular um pouco, talvez aqueles que o contataram em 1977 perceberam seu erro, perceberam o que o contato fez com o Zé, e finalmente vieram procurá-lo. Acreditamos que, vendo a forma como ele foi tratado por seus semelhantes, tenham concluído que levá-lo com eles fosse a melhor alternativa. Assim, é possível que Zé da Pinga seja, afinal, o primeiro embaixador da Terra em algum mundo distante. Fazemos votos, então, que fale de nós, de seu mundo, com a mesma tolerância, respeito e benevolência que muitos lhe negaram”.


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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

O Sexto Gatinho


Os gatinhos corriam pelo mato em desabalada carreira. O assassino de sua mãe vinha logo atrás, rosnando e resfolegando.
Maria era por alguns minutos a mais velha de seus cinco irmãos. Todos haviam completado dois meses, e ainda mamavam. Agora, sem a mãe, e correndo cada vez para mais longe de sua casa, sua sobrevivência dependeria exclusivamente da sorte.
A gatinha na verdade não refletiu muito tempo sobre isso. Em pânico como seus irmãos, só o que importava naqueles momentos de terror era salvar a própria vida.
E seu perseguidor se aproximava cada vez mais...
Um súbito clarão que iluminou toda a área fez todos os gatinhos pararem, e buscarem um lugar seguro. Maria escondeu-se com dois de seus irmãos, enquanto os outros dois enfiavam-se por baixo de uma moita próxima. Felizmente, ali o mato era bem mais alto, cheio de lugares para se esconderem.
Maria percebeu quando o imenso cachorro parou ao ver o clarão, afastando-se um pouco em seguida, ganindo baixinho. Mas ela não tinha ilusões, sabia que ele voltaria para tentar pegá-los.
Pegá-los como fizera com sua mãe. A pequena gatinha sentia-se triste, pois não teria mais o calor materno, nem seu quente leite que a alimentava tão bem. Não era justo!
Esses sentimentos abandonaram sua jovem mente, quando uma sombra grande veio andando em sua direção. Era vagamente semelhante aos humanos que já conhecia, mas havia algo errado. Seus braços, pernas e cabeça eram diferentes, as proporções dos mesmos não eram de um humano normal. E definitivamente nenhum humano seria tão magro.


Maria viu a sombra aproximando-se cada vez mais. As folhas que a cobriam foram afastadas, e a gatinha olhou para dentro de imensos olhos negros, mais escuros que a noite que os envolvia.
Algo aconteceu a seguir, enquanto ela sentia uma onda infinita de carinho e amor. A sombra que via diante de si encolheu com uma rapidez espantosa, até ficar não maior que sua própria sombra. Maria decidiu sair de seu esconderijo e investigar, enquanto seus irmãos ainda se escondiam, temerosos.

Ela era a mais velha, e agora tinha que cuidar da família.
Sua surpresa chegou ao infinito ao ouvir um miado, idêntico aos que ela e seus irmãos soltavam frequentemente.
Outro gatinho surgiu, quase idêntico a todos eles. Maria aproximou-se devagar, preparada para tudo, farejando e por vezes sibilando. Se fosse outro agressor, ao menos dessa vez ela confiava que poderia encará-lo. Ser do seu tamanho ajudava em muito.
Voltou a sentir a onda de carinho, que inundou todo seu ser. Aparentemente também o de seus irmãos, pois todos aproximaram-se do recém-chegado. Ele foi farejado longamente por todos, e logo era aceito como parte da família, ao se esfregarem mutuamente, ronronando de satisfação.
Algo disse a Maria que o nome de seu novo irmão era Zed. Por que o sabia, não conseguiria explicar. Na verdade, a gatinha estava muito satisfeita por ter mais um irmão, mais um que ajudaria a defender o grupo.
Nesse exato momento, ouviram um rosnado por trás deles.
Era o cachorrão, o mesmo monstro que assassinara cruelmente sua mãe. A fraca luz da Lua em quarto crescente, os gatinhos olharam aterrorizados para os olhos faiscantes, e os dentes que breve, certamente, iriam destroçá-los impiedosamente.
Todos se encolheram, menos aquele recém-chegado. Zed encarou o cachorro com ar de paciência, parecendo em sua muda linguagem, estar tentando fazê-lo desistir de seus planos de trucidar aquela família.
O cachorrão continuou rosnando, aproximando-se devagar. Quando mais próximo, mais forte o rosnado. Maria manteve-se a frente dos irmãos, tentando ao máximo protegê-los. Afastaram-se o quanto puderam, e ela via apenas as sombras de Zed e do cão.
O que seu novo irmão estava fazendo?
O cachorro passou a latir, e finalmente atacou, soltando um rosnado que arrepiou os pêlos de todos eles. Zed não poderia ter qualquer chance.
O rapidíssimo movimento das sombras que Maria viu não lhe permitiu acompanhar direito a cena. Mas os ruídos medonhos que escutou provaram que alguma coisa espantosa estava acontecendo. Pois o cachorrão, aquele monstro temível que os aterrorizara, de repente soltou um ganido, logo substituído por uivos de desespero. Estes, por sua vez, logo deram lugar a urros de dor, uma dor horrenda, indescritível...
O mais arrepiante para Maria foi ouvir ruídos de mastigação, carne sendo dilacerada, ossos sendo quebrados... Em instantes, tudo passou, e os arredores voltaram a mergulhar no silêncio.

Maria viu a sombra de Zed, e percebeu quando ele voltou a fechar uma boca estranhamente imensa, muito maior do que se poderia esperar de um gatinho de seu tamanho. Ela também ouviu quando ele emitiu alguns sons borbulhantes, como se vomitasse algo.
Zed por fim aproximou-se deles, sentou-se, e lambeu os pêlos sujos de sangue das patas. Maria aproximou-se dele, cheirou-o, e percebeu que não estava ferido. Ele ainda soltou um soluço, e cuspiu um grande objeto circular de couro, com uma fivela de metal.
Como esse objeto fora parar dentro de Zed, Maria também não sabia. Só o que sabia era que, milagrosamente, estavam a salvo. Ronronou, esfregando-se em Zed, e finalmente ambos conduziram seus ainda trêmulos irmãos para longe dali.
A difícil e perigosa viagem de volta para casa havia começado.

Na manhã seguinte, o sítio nas proximidades da periferia de Campinas estava bem movimentado. Era aniversário da esposa do dono, e um churrasco estava sendo preparado. Mas nem tudo era festa.
Fernanda não havia parado de chorar, desde que dera pela falta da gata e dos filhotes. E tudo piorou ainda mais, ao encontrarem o corpo dilacerado da mesma. Dos pequenos, nenhum sinal.
Quem não estava envolvido na preparação do churrasco encarregou-se de dar buscas na propriedade, ver se encontrava os gatinhos. Já passava de onze da manhã, e nada.
Leonardo Ramos havia chegado, pedindo desculpas por haver se atrasado. Cumprimentou o tio e a tia aniversariante, e explicou que seu telefone não havia parado a manhã inteira:
 - Muita gente viu um objeto brilhante no céu, exatamente aqui pela região. Pode se outro caso de ovni.
- Quando é que você vai abandonar essas lorotas, rapaz, isso não existe!
Seu tio sempre fora cético, só acreditava em coisas que pudesse ver e tocar. A tia, com a mente menos fechada, gostava muito de ouvir e contar histórias, ligadas a folclore, misticismo, e casos estranhos.
A prima, Fernada, veio e abraçou Leonardo. Ainda tinha os olhos vermelhos, e explicou o que havia acontecido. O tio, fazendo piada, disse:
- Vai ver, esse tal de disco voador que você falou raptou os gatinhos...
A menina, que fizera treze anos havia pouco, brigou com o pai e saiu andando. Leonardo disse que o tio não tinha jeito, e foi atrás da prima, dizendo que iria ajudá-la. E ainda completou:
- Daqui a pouco Kássia chega com o namorado, eles podem ajudar também.

Zed conduziu o grupo pelo mato alto com grande segurança. Maria não sabia em que direção estavam indo, mas confiava que o amigo iria levá-los para casa.
Por volta do meio dia, estavam todos com fome, e enquanto Maria ficava com os irmãos, Zed foi caçar. Voltou minutos depois, trazendo dois peixes que havia pego no riacho próximo. Saiu novamente, e voltou com mais dois. Maria não se preocupou em refletir como um gato tão pequeno como Zed, do mesmo tamanho que todos eles, poderia pegar peixes tão grandes.
Todos comeram, e ainda ficaram um bom tempo ali descansando. A viagem poderia ser bem longa, e valia a pena perder um pouco de tempo.

Kássia, irmã de Leonardo, chegou por volta do meio dia com Roberto Azevedo. Desde que se conheceram, enquanto pesquisavam um estranho caso ufológico na região de Jarinu, eles sempre se falavam, e haviam afinal começado um namoro.
Assim que chegaram, foram informados dos acontecimentos por Leonardo:
- E enquanto preparam o churrasco, estamos tentando encontrar os gatos, mas sem sucesso. Encontramos uma pista, em um terreno próximo ao limite da propriedade, e...
O casal estranhou que Leonardo parasse de falar de repente, e Roberto, por fim, perguntou:
- E o que mais, Leonardo?
Sem dizer nada, ele apenas fez sinal para que o acompanhassem. Seguiram por uma trilha até a cerca que delimitava a propriedade, onde havia uma porteira. Depois de a atravessarem, ainda andaram uns cinco minutos, e de longe viram um pequeno grupo de pessoas, colonos e funcionários daquele e de outros sítios, reunidos em uma roda. Todos olhavam algo estranho no chão.
Quando chegaram perto, já sentiram um cheiro esquisito. Roberto aproximou-se mais, protegendo o nariz daquele fedor, e observou o que haviam encontrado.
Era um amontoado de carne, ossos esmigalhados, sangue e outros materiais, obviamente de origem animal. Um objeto nas proximidades era inconfundível, e parecia denunciar que tipo de bicho era aquele.
Roberto apanhou um graveto, erguendo a coleira, enquanto dizia:
- Acho que pegaram o cachorro de alguém.
- Mas o que é essa... coisa, essa baba toda? Eca, que coisa nojenta!
Leonardo riu da observação da irmã, aproximando-se para também examinar o achado. Foi quando outras pessoas se aproximaram, e ele logo as reconheceu:
- São do sítio aqui ao lado, meu tio odeia o proprietário, vivem brigando.
Como que para confirmar isso, o sujeito mal encarado que vinha na frente, vendo o que Roberto sustentava pendurado no graveto, agarrou a coleira e disse:
- O que vocês estão fazendo aqui? Essa é a coleira do meu cachorro, o que é que...
Apenas então viu os restos, olhou para a coleira em sua mão, e a jogou no chão com asco. Roberto sorriu com leve ironia, voltou a erguer a coleira com o graveto, e disse:
 - Reconhece isto, senhor...
- Meu nome é Osvaldo. Sim, é a coleira do meu cachorro. Esse monte de... coisa, aqui, não está querendo me dizer...
Roberto deixou a coleira cair ao chão, jogou o graveto longe, olhou para os amigos, a seguir para Osvaldo, e respondeu:
- Acho que isso é o que restou de seu cão, senhor...
O homem vociferou, ameaçou, xingou, mas Leonardo devolveu a ofensa, dizendo:
- Acho que sabemos quem matou a gata de minha prima, ela foi praticamente mastigada, e sei que esse seu cachorro vivia invadindo a propriedade de meu tio!
- Eu sempre falei para ele reforçar essa cerca, mas não, sempre tem que ser como ele quer!
- E o senhor não facilita em nada também, disse Kássia. Não é a primeira vez que acontece, seus cachorros vivem invadindo aqui e matando a criação de meu tio! E agora ele espantou os filhotes da gata, não sei como faremos para encontrá-los.
Osvaldo chamou os funcionários que o acompanhavam, se afastando. Parou, virou-se e ainda disse:
- Se encontrar essas pragas em minha propriedade, eu mesmo os esfolo, estejam avisados. E vocês também, nem tentem entrar em minhas terras!

Depois que haviam se afastado, Roberto comentou:
- Que panaca!
Todos riram, e o funcionário de outro sítio vizinho comentou:
- Ele anda bravo, ainda mais depois que perdeu a criação de galinhas faz uns dois meses.
Os ufólogos ficaram interessados, e o homem disse que houve mortes estranhas de animais nos sítios da região. Alguns falavam em cachorros do mato, outros em criaturas estranhas.
- Andaram dizendo que até o tal de chupacabras tem atacado por estas bandas...
Eles se entreolharam, sem encontrar uma explicação. Leonardo e Kássia dispunham-se a continuar a procura, e Roberto, diante do que o amigo dissera, sobre o avistamento da noite anterior, começou a ligar os pontos.
Acabaram todos sendo chamados para o churrasco, e assim ficaram, saboreando muitas variedades de carne até o final da tarde. O sítio estava lotado, e todos bebiam e se divertiam.
- O que acha dessa história de chupacabras?
Leonardo fizera a pergunta, e depois de mais um pedaço do delicioso bolo que era parte da sobremesa, Roberto respondeu:
- A maioria absoluta dos casos é de animais nativos, predadores naturais. Até mesmo cachorros abandonados viram feras.
- E aqui na região, será que algum caso pode ser exceção?
Roberto limpou os lábios da namorada, ganhando um beijo em retribuição, e disse:
- Duvido. O cercado onde seu tio mantém os animais, por exemplo, não seria problema para um cachorro faminto. Agora, quando animais aparecem mortos dentro de um cercado, onde existe uma porta mais elaborada... Aí fica mais complicado.

Mantiveram aquele papo por algum tempo, até que Fernanda veio correndo, desta vez acompanhada pela irmã Paola, dois anos mais velha, e disse:
- Disseram que viram seis gatinhos andando pelo acostamento da estrada, não muito longe daqui!
- Seis? Mas eram cinco filhotes, não, Fernanda?
Ela olhou para Kássia, que fizera a pergunta, ergueu os ombros, e respondeu:
- É meio estranho, outro grupo de gatinhos perdidos, não acham?
Roberto voltou, depois de colocar o prato de sobremesa na mesa, e por fim disse:
- Já que terminamos de comer, o que acham de pegarmos o carro e irmos investigar?
O tio de Kássia e Leonardo ainda apareceu, e fez outras piadas sobre o assunto ovni, mas acabou deixando que as meninas fossem com eles.

A noite já ia caindo, e os seis gatinhos continuavam andando. Maria estava cansada, e sabia que seus irmãos também deveriam se sentir assim.
Por outro lado, Zed os conduzia com segurança, e parecia nunca ficar cansado. Quando paravam para recuperar as forças, era ele que sempre ficava de guarda.
Chegaram finalmente a uma vila, na entrada da cidade. Continuaram andando, esgueirando-se pelas ruelas, encontrando aqui e ali pessoas, indo e vindo do trabalho, ou de qualquer outro lugar. Maria achava aqueles humanos muito estranhos.
Só não se sentia assim com sua dona. Fernanda sempre cuidara deles com carinho, e subitamente a gata percebeu que era a única mãe que lhes havia restado.
- Olha só, que gatinhos lindos, vem, vem...
Todos olharam na direção de onde vinha a voz. Maria, com horror, viu que eram três ou quatro moleques, que apanharam pedras e começaram a atirar neles. Todos correram, com Zed fechando a fila para assegurar que nenhum ficaria para trás.
Correram muito, o máximo que suas forças permitiam, quando chegaram em um beco sem saída. O medo não lhes permitira ver onde estavam indo.
Maria olhou para trás, e viu os moleques. Um deles apanhou um estilingue, colocou uma pedra no mesmo, e puxou o elástico até o máximo de seu curso, enquanto dizia:
- Agora vamos nos divertir...
O maldito mirou em dois de seus irmãos, que estavam encolhidos em um canto. Maria sentiu uma infinita raiva, e eriçou os pêlos, sibilando para tentar espantar os moleques. Um outro entre eles comentou, rindo:
- Me passa aquela pedra, acho que essa gatinha tem que aprender uma lição...
A pedra finalmente deixou o estilingue, voando com uma velocidade tremenda na direção dos dois indefesos gatinhos.

Foi quando algo extraordinário aconteceu. A pedra bateu em uma barreira invisível. Os moleques lançaram outras pedras, mas a mesma coisa aconteceu.
 - “Troço” esquisito!
 - O que “tá” acontecendo?
- É coisa ruim, meu, “vamo” embora!
 - Não mesmo, vou acabar com eles!
O que falou por último pegou um pedaço de pau, avançando em seguida contra os gatinhos. E Maria viu outra coisa extraordinária.
 Zed avançou, urrando de uma forma como nunca a gata julgaria possível em um gato igual a ela.
O mais aterrorizante foi sua boca, aberta e imensa, quase maior que o próprio corpo dele. E, pensando bem naqueles rapidíssimos instantes, todo o corpo de Zed parecia pulsar e aumentar de tamanho.
 De qualquer forma, foi mais que suficiente. Ele não machucou os atacantes, que saíram em disparada, gritando apavorados. Quase no mesmo instante, Zed voltou ao normal.
Logo estavam sozinhos e em paz novamente.
Os demais acariciaram e lamberam Zed, e Maria finalmente conseguiu fazê-lo entender que queriam ir para casa. Ali, na cidade, só o que encontrariam era mais perigos.
Zed pareceu concordar, e uma luz intensa surgiu sobre eles. Maria e seus irmãos olharam para a mesma com expressão de assombro, mas por algum motivo sabiam que não havia perigo. Sentiram-se flutuar, e depois descobriam que pisavam chão firme novamente.

Roberto conduziu o carro pela estrada, parando aqui e ali para perguntar a algum andarilho se tinha visto os gatinhos. Com exceção de um, mais ninguém os havia visto.
- Pela direção que estamos seguindo, eles já podem ter chegado a cidade, comentou Kássia.
Concordaram, e Roberto acelerou. Leonardo, no banco de trás, conversava com as meninas para tentar animá-las, e casualmente olhando pela janela, observou algo estranho no céu:
- Olhem lá, gente!
Todos viram um ponto de luz se erguer, aproximadamente sobre a vila para onde estavam indo, quase e Campinas. A luz ergueu-se lentamente, para a seguir passar a deslocar-se na horizontal, aumentando a velocidade. Depois deu um salto, desaparecendo em instantes por trás dos morros, na mesma direção do sítio de onde haviam vindo.
Todos ficaram espantados, e Roberto acelerou. Talvez houvessem testemunhas adiante.
Chegaram a vila, indagando aqui e ali se alguém havia visto um grupo de gatinhos. Uma senhora disse que havia visto uns moleques perseguindo alguns filhotes, e acrescentou:
- Essa molecada é muito “arteira”. Mereciam uma bela sova!
Agradeceram, e foram adiante. As meninas nada falavam, com medo do que pudesse acontecer aos filhotes.

Finalmente, chegaram a uma praça, onde havia um grande número de pessoas. Algumas olhando para o céu, outras conversando animadamente.
 Kássia ficou com Fernanda e Paola, enquanto Leonardo e Roberto iam sondar o ambiente. Para surpresa dos ufólogos, todos falavam exatamente na estranha aparição.
- Uma luz brilhante, que saiu “avoando” prá longe!
- Deve ser coisa do capeta!
- Que nada! É uma sonda, um aparelho dos ets.
- Você “tá” delirando!
Com jeito, os dois fizeram, aqui e ali, algumas perguntas, e parecia mesmo ser um caso interessante para ser pesquisado. Entretanto, tinham pressa, e a prioridade ainda eram os gatos.
- Eu “tava” lá, moço, com os outros que queriam “tacar” pedras nos bichinhos!
Um garoto, de uns dez anos, parecia muito assustado ao descrever a cena. Roberto animou-o a continuar:
- E o que aconteceu?
O menino olhava para todos os lados, e parecia sentir frio, pois estava encolhido e abraçava-se. Depois que Roberto repetiu a pergunta, ele respondeu:
- Não sei como, mas um dos seis gatos avançou, abrindo uma boca enorme, inchando, e urrando “que nem” um leão! Os olhos ficaram vermelhos, e foi a última coisa que vi, pois saí correndo com meus amigos!
 Roberto e Leonardo se entreolharam, e fizeram mais perguntas, sempre rodeando e voltando a determinado aspecto da narrativa, para tentar apanhar o garoto em contradição. Mas não conseguiram, e pela expressão do mesmo, sua experiência parecia mesmo real.
- Eram seis gatos, então?
Leonardo perguntou pela última vez, e o garoto confirmou, para ainda acrescentar:
- Juro que nunca mais jogo pedras em animal nenhum! Depois dessa...
Os ufólogos agradeceram, e se afastaram depois de falar com mais algumas pessoas. Roberto comentou com o colega, em voz baixa:
- Ao menos, esse aí irá se comportar melhor daqui por diante.
Leonardo estava confuso, e comentou:
- Muito estranho! Nunca vi um gato que fizesse o que esse garoto descreveu!
- Será que era um gato mesmo? Ou esse sexto gatinho apenas se parece com um?
A pergunta de Roberto ficou no ar.
Ainda foram até o beco, e não encontraram nada. Roberto lembrou-se que havia calibrado a bússola digital de seu relógio no mesmo dia, e a apontou para onde sabia que era o norte.
Havia uma diferença considerável. Mesmo descontando que a calibragem fora feita em São Paulo, a leitura não iria variar tanto assim.
- Efeito eletromagnético?
A pergunta de Leonardo, lembrando um dos efeitos físicos mais comumente associados a aparições de ovnis, tinha razão de ser. Seria mais uma, entretanto, que ficaria sem resposta.
Decidiram que a melhor coisa a fazer era retornar ao sítio.
Uns vinte minutos depois, estavam de volta. E havia uma certa movimentação. Entraram, e quando encontraram o tio de Kássia e Leonardo, este disse:
- A coisa mais estranha que já vi! Uma luz diferente, esquisita, desceu ali atrás do bosque! Mas não deixei ninguém ir até lá.
Evidentemente, isso não iria impedir Roberto e Leonardo. Kássia foi com eles, e Fernanda também, apesar dos protestos do pai.

Maria não saberia dizer como haviam chegado ali. Seguramente não vieram andando. Mas ela reconheceu o terreno, e sabia que estava próxima de casa.
Seus irmãos mostraram-se animados também, andando e saltitando, esquecendo completamente o cansaço e o medo que sentiram.
Zed os conduziu, e finalmente, reconheceram uma clareira, que se situava em um bosque bem próximo da casa.
Definitivamente, era o final de sua aventura.

Subitamente, focos de luz varreram o terreno, e Maria viu-se ofuscada quando foi iluminada diretamente. Uma voz juvenil disse alegremente:
- Maria! Que bom que encontrei você!
Fernanda abraçou a gata, que também parecia muito feliz por encontrar a dona. Roberto e o casal de irmãos aproximaram-se, e ficaram comovidos com a cena. E também curiosos, pois um gatinho extra subitamente saiu correndo, desaparecendo no mato alto.
- Maria!
Fernanda gritou quando a gata escapou de suas mãos, seguindo o outro bichinho. Todos enfiaram-se pelo mato.
Logo encontraram Maria, ronronando satisfeita. Olharam para cima, e ainda tiveram tempo de ver uma luz, similar a uma estrela, fazer movimentos que pareciam erráticos e finalmente desaparecer no céu.

Todos os gatinhos foram levados ao veterinário. Apesar de cansados e sujos, estava bem de saúde, sem qualquer sequela da aventura.
- Todos vocês viram aquele sexto gato, correndo para o mato, não é?
Roberto parecia inseguro. Kássia riu, e respondeu:
- Claro que sim, até reparei que era igualzinho a Maria e seus irmãos.
- Agora, essa sua teoria...
Leonardo fazia piada, mas de fato não havia qualquer explicação para o que haviam visto. Procuraram no dia seguinte pelas redondezas, mas não encontraram qualquer sinal de possível atividade ufológica.

Maria não se importava com aquilo. Todas as noites, ficava longas horas na varanda, e depois que cresceu o suficiente, no telhado da casa, olhando as estrelas.
Sabia que Zed voltaria um dia. Quem sabe, então, mostraria mais daquelas maravilhas a ela.


Eles dizem que agem com absoluta transparência.

Eles dizem que é evidente que não existem conspirações.
Eles afirmam que é absurda a ideia de extraterrestres nos visitando.
Eles estão mentindo!

O contato com alienígenas é um dos temas mais explorados na ficção científica, motivando histórias plenas de fascínio, terror, suspense, ação e mistério. Esses são elementos presentes em Filhas das Estrelas, uma coletânea de seis contos inspirados por histórias, teorias e conspirações a respeito de discos voadores e seres extraterrestres.



Até a próxima!

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

A CASA DOS ETÊS

Nesta terça-feira, 15 de janeiro, terá início no maior canal de televisão do país aquele reality show frequentado por certa espécie que poderia ser chamada de Subdesenvolvidus Intelectus, e assistido por outra subespécie chamada Rusticus Analphabetus Extremus.

Como aqui no Escritor com "R" prezamos sempre a cultura e o conhecimento, decidimos "comemorar" essa estréia com um conto bem leve, seguramente protagonizado por espécies mais adiantadas do que as descritas acima! Espero que se divirtam!

A Casa dos Etês


O conhecido apresentador finalmente surge, no palco e nas telas de todo o Brasil:

- Ma... ma... mas vai prá lá, vai prá lá! Olá, minhas colegas de trabalho, ih, ih, ah, ah!

Silvio recebe aplausos entusiásticos, enquanto o locutor oculto anuncia:

- Bem, vindo, Silvio!

- Olá, Lombadi – diz Silvio entusiasmado O apresentador se vira para a platéia do auditório e diz:

- Ma, ma, mas minhas colegas de trabalho, como todos sabem, já é sucesso em todo o Brasil, todos estão ligados no CBT, Canal Bozo de Televisão! Há alguns anos nós fizemos um programa inovador, e tenho certeza que todos se lembram!

O auditório aplaude, e Silvio pergunta:

- Vocês se lembram ou não?

Todos levantam, aplaudem, gritam, e Silvio finalmente confirma:

- Sim, não faz muito tempo, nós fizemos a Casa dos Quase Artistas! E foi um sucesso, o Brasil inteiro acompanhou... quem ganhou mesmo, Lombadi?

Lombadi ia responder, mas Silvio cortou:

- Deixa prá lá, deixa prá lá, ih, ih, ah, ah! Ma, ma, ma, mas veja bem, como sabem, a concorrente já começou a nova edição, como é mesmo o programa deles? Ah sim, o Big Brother! Mas é com muita alegria, minhas colegas de trabalho, e muita satisfação, que vamos entrando em mais uma semana em nossa mais nova atração!

Alguns aplaudiram enquanto a maioria do auditório continuava em tensa expectativa. Silvio, comunicador com décadas de experiência, conhecia obviamente seu público, e não tardou para perguntar:

- E qual é a atração, minhas queridas colegas de trabalho?

Repetiu-se o mesmo roteiro, gritos, palmas, berros, e Silvio com evidente satisfação finalmente diz:

- Sim, a Casa dos Etês! Vamos para lá, Lombadi!

Já era a quarta semana da atração, a maior audiência do canal em anos. Uma seleta gama de convidados, terráqueos e alienígenas, convivia 24 horas por dia na casa. A audiência, e naturalmente os negócios da rede, cresciam.
Silvio chamou finalmente a primeira atração:

- Ih, ih, ah, ah, agora sim, vamos primeiro ao quadro do confessionário. Como vocês sabem, cada participante pode ir a qualquer hora até o quartinho fechado, e fazer seu desabafo em frente as câmeras. Quem é o primeiro, Lombadi?

O locutor oculto, que nunca havia aparecido, sempre fora alvo de boatos e rumores, e as mais novas teorias da conspiração diziam ser uma Inteligência Artificial, que era desenvolvida com propósitos escusos pelo CBT havia muitos anos, nada respondeu. Silvio, que não era bobo nem nada e conhecia cada teoria disse, como se falasse com alguém da produção:

- Ô, produção? Alôôô. Produção, ih, ih, ah, ah, ainda não arrumaram o problema? Como é produção? Bug? Que bug é esse? O Lombadi foi andar de bug? Ah, bug como o Bug do Milênio? Teremos que reformatar o Lombadi? Ah, produção, logo agora? Desse jeito os teóricos da conspiração vão continuar dizendo que o Lombadi é só um programa de computador! Logo o Lombadi, nosso amigo de tantos anos!?

- Ô, Silvio, aqui estou eu! – disse Lombadi. – Meu microfone deu problema, patrão!

- Mesmo, Lombadi? – perguntou Silvio morrendo de rir. – Tem certeza que não deu algum pau em sua programação?

- Puxa, patrão, o quê é isso? Já trabalhamos juntos há anos, e o senhor sabe muito bem que eu sou de verdade! Quer ver?

Passos se aproximaram dos bastidores, produto obviamente da sonoplastia, mas Silvio disparou:

- Vai prá lá, vai prá lá, Lombadi! Nada de aparecer, eu sei que você é de verdade, e você também sabe, vamos ficar assim. Então, agora, vamos ao quadro do confessionário!

O primeiro no confessionário foi Dado Frota, conhecido pit-bad-boy, produtor de shows de funk, marombeiro, criador de casos, frequentador assíduo de páginas de fofocas e policiais, e ator e diretor de filmes eróticos que cultivava uma aura de machão, mesmo quando atuava em cenas “calientes” e muito explícitas com outros atores tão másculos quanto ele com os quais era frequentemente visto em casas noturnas. Parecia muito aborrecido:

- Essa semana foi horrível! Malditos ETs! Como puderam nos colocar com um baitôla filho da ppppppiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii (campainha colocada pela equipe de edição de som a fim de abafar palavras de baixíssimo calão pronunciadas dentro da Casa dos Etês) que troca de sexo?

Frota foi destilando suas lamúrias, enquanto a tela dividida mostrava seu tórrido e rápido relacionamento com Reneeh, maravilhosa, gostosona e voluptuosa loira alienígena que era uma das principais atrações da Casa dos Etês.

Os visitantes provinham de várias culturas, e muitos eram de fato altos, loiros, de olhos azuis e corpos deslumbrantes. Como usualmente vestiam roupas inteiriças e justas, sua aparência não chegava a ser uma unanimidade em termos de popularidade.

Alguns, óbvio, adoravam aqueles corpos femininos e masculinos quase perfeitos e emoldurados pelas roupas alienígenas. Uma conhecida e muito veterana apresentadora do canal de Silvio fazia questão de ter os visitantes em seu programa, e dizia que eram “uma gracinha”, e “pedaços de mal caminho”, e até chegava a dar suas apalpadelas quando os aliens, entusiasmados com os ritmos tropicais e funkeiros, se dispunham a dançar com a mulher no meio.

Mas entre estes alienígenas, havia aqueles que não poderiam realmente ser qualificados como simples seres aparentados aos humanos. Havia uma porcentagem que se constituía de transmorfos, seres que alternavam seu gênero a determinado transcorrer de tempo. Normalmente a cada 10 ou 20 dias, quem era mulher passava a ser homem, e vice-versa. Passado o mesmo tempo, ocorria nova troca de gênero.

- Pode parar, pode parar! – pediu Silvio. - Já estamos ao vivo com os participantes na sala? Ótimo, vamos para lá!

Alguns dos participantes já estavam presentes, e sentado ao lado de Arizinho, o participante gay da Casa dos Etês, estava Reneeh, com os mesmos cabelos longos e loiros, mas agora na forma de um belo e másculo rapaz.

- Reneeh, está me ouvindo? – pergunta Silvio.

- Sim, estou, Silvio! É um prazer estar de novo com você e suas colegas de trabalho. Um beijo a todos!

O auditório aplaude, enquanto Reneeh deixava claro que os visitantes haviam se acostumado bem rápido ao calor humano brasileiro. Silvio espera um pouco, e diz:

- Mas então, Reneeh, tem uma coisa que acho que toda a audiência do Brasil quer saber, como funciona isso?

- Isso o quê? – Reneeh, ao longo dos dias de confinamento, havia sido mais uma comprovação, como outras vistas nos noticiários, que muitos dos visitantes não eram assim tão adiantados.

- Essa história de uma hora ser homem, outra hora ser mulher...

Todo mundo que assistia já havia reparado que Reneeh e Arizinho estavam de mãos dadas, e o alienígena finalmente respondeu:

- Bem... é como somos, Silvio. As vezes homem, as vezes mulher... Acontece com todos em meu planeta.

- E se você ficar grávida enquanto é mulher? – intrometeu-se Shyang, que se apresentava como cantora, atriz, modelo, escritora e pornógrafa. Estava de mãos dadas com Zé, que balançou a cabeça cinza e piscou os olhos negros.

- Ah, nesse caso, se eu enquanto sou mulher engravido, aí a mudança fica bloqueada até eu dar a luz. Imagine o problema que seria, não é mesmo?

Todos riram, e Silvio resolveu perguntar outra coisa:

- Mas então, Reneeh, estou vendo que está de mãos dadas com Arizinho, e então, o que vocês tem para nos contar?

- Ah, Silvio – começa Arizinho todo contente – Foi uma alegria essa semana! Desde que Reneeh mudou, virando esse bofe escândalo, nós nos aproximamos e ficamos... bem, muito íntimos, não é, meu anjo loiro?

Reneeh confirmou com um sorriso, e os dois se beijaram, o que estava sendo motivo de muita confusão e polêmica desde que a atração havia começado. Duas modelos e atrizes, Soraia e Maria, já haviam sido eliminadas nas semanas anteriores, mas enquanto estiveram na casa seus beijos e pegações em todos os momentos fizeram os eternos monitores e guardiões dos bons costumes na televisão brasileira começar uma verdadeira cruzada, com o fim de tirar a atração do ar.

“Pouca vergonha” e “baixaria” eram os termos menos pesados que essas pessoas usavam, e uma guerra estava para começar entre os grupos moralistas e aqueles que defendiam os gays, mas Silvio, obviamente, adorava, pois a audiência quebrava recordes a cada dia. Para ele, nada poderia ser melhor que o novo relacionamento entre os dois.

Como Reneeh e Arizinho trocassem beijos cada vez mais ardentes, Silvio os interrompeu, chamando:

- Ma, ma, mas, Reneeh... Pára um pouco, esfriem um pouco vocês dois, ih, ih, ah, ah.

Eles se separaram, mas continuaram de mãos dadas, e Silvio perguntou:

- Mas Reneeh, quando você mudou, e Frota não te quis mais, você a princípio quis ficar com Anabela. Falando nela, por onde anda?

Anabela era apresentadora de um telejornal do canal, e fora convocada para a atração, onde reviveu os dias de modelo e dançarina. Havia dado em cima de Frota e de Carlos, este um surfista com pretensões de ator que só queria saber de Shyang. Depois Anabela ainda tentou seduzir o nerd Valmir e os alienígenas Zé e Joel, sem sucesso. As intrigas, futricas, fofocas e traições envolvendo todos esses personagens estavam sendo o tempero que fazia a Casa dos Etês um sucesso.

Quando Reneeh e Anabela começaram a se aproximar, surgiu Arizinho que acabou convencendo o alienígena a ficar com ele. A uma nova pergunta de Silvio, Reneeh disse que sua raça não nutria preconceito, e que gostavam de experimentar de tudo.

- Tudo mesmo, querido? – perguntou Shyang.

- Claro, querida Shyang! – respondeu Reneeh. Quem sabe uma noite dessas podemos fazer algo nós quatro, eu, Arizinho, você e Zé.

“Não contem comigo!” - disse Zé. Todos na Casa e a equipe de produção nas proximidades “ouviram” dentro de suas mentes a fala telepática dele. Zé era um alienígena gray, ou cinza, cujo verdadeiro nome era impronunciável aos humanos, como era o caso de todos os seus compatriotas. Para facilitar, escolhiam nomes terráqueos bem simples, e ele optara por aquele. Era um dos que tinha a maior base de fãs na Casa dos Etês.

Sua mensagem telepática era transmitida para a central técnica do canal e enviada na forma de legendas por meio de um aparelho de sua tecnologia alienígena. Mas para auxiliar, e dar ainda um pouco mais de graça ao programa, Silvio havia contratado Pai Ubu-Lelê, conhecido médium, macumbeiro, contatado e guru espiritual e sexual. O homem naturalmente tinha uma ficha corrida, envolvendo estelionato, curandeirismo, exploração da fé alheia e até assédio sexual. Claro, nada que os bons advogados pagos pelo próprio Silvio não resolvessem, pois se algo havia permanecido o mesmo desde a festiva chegada dos visitantes, era a justiça brasileira.

Por cima, associações umbandistas totalmente idôneas e respeitáveis também protestavam contra a presença de Pai Ubu-Lelê, considerada por eles uma afronta. Mas claro, nada daquilo importava a Silvio. Audiência antes de tudo!

E entrou então o folclórico Ubu-Lelê, com suas roupas coloridas, jogando beijos para o auditório que o aplaudia, enquanto dizia:

- Consulta espiritual, aconselhamento energético, encaminhamento e tradução telepática, ligue para o Pai Ubu-Lelê, “ligue djá”!

Aquele era seu refrão, mas Silvio logo cortou, dizendo:

- Vai prá lá, vai prá lá, Ubu! Mas afinal, todos lemos na legenda que Zé parece discordar de você. Ubu, veja bem, isso é muito sério!

Dedo em riste, Silvio fazia o máximo de esforço para tentar esconder que se divertia horrores com aquele quadro. Repetiu:

- Veja bem, Ubu! Você foi chamado para, com suas faculdades telepáticas, ajudar na tradução dos pensamentos de Zé. Como os ETs cinza não falam, só se comunicando por telepatia, eles ofereceram sua máquina tradutora, mas temos por via das dúvidas.. ih, ih, ah, ah – Silvio tentava não rir, mas a situação já era suficientemente ridícula. – Por via das dúvidas, temos que ter um paranormal eficiente para traduzir os pensamentos de Zé.

Pai Ubu-Lelê estendeu as mãos, virou-se para o auditório e disse:

- Pois não, Seu Silvio, vou fazer o meu melhor! Sabe, entrar em contato com uma mente tão evoluída é sempre um grande esforço, mas esse imenso desafio é enriquecedor, pois é uma experiência transformadora, que...

Nesse momento, no telão atrás de Ubu, que focalizava os participantes já reunidos da casa, e nas telas de todo o Brasil, todos puderam ler a seguinte legenda:

- “Experiência transformadora o pppppiiiiiiiiiiii. Esse imbecil, representante de uma facção subdesenvolvida da raça humana... bem, chamar “isso” de “humano” talvez seja uma afronta a todos vocês, nossos anfitriões... o caso é que esse idiota é tão telepata quanto eu sou um modelo para um comercial de roupas de banho!”.

Silvio, sentado atrás de Ubu e de frente para o telão, sacudia o corpo de tanto rir. O auditório ria junto e aplaudia, e Ubu achava que era com ele:

- Neste momento, nosso amigo iluminado Zé, pertencente a um povo superior e muito evoluído, está dizendo que temos que abrir nossas mentes para as energias cósmicas, a fim de podermos passar para a próxima dimensão, e sermos seres de luz e amor como eles...

Zé novamente se manifestou. Os Cinzas normalmente tinham uma tremenda paciência, mas parecia que a de Zé já havia sido toda esgotada, pois sua manifestação telepática, transmitida para as legendas, foi a seguinte: - “Se fizermos isso com você, abrir sua mente, o fedor será realmente nauseabundo... tremo só em pensar!”.

E Silvio e o auditório riam mais ainda. Mas Silvio não gostou quando Zé ainda comentou: - “Deveria ter seguido o exemplo de Axtar, e me recusado a participar”.

Axtar era o líder da delegação de alienígenas da mesma raça que os seres que surgiram em Varginha, alguns anos antes. Aparentavam ser os mais inteligentes de todos os visitantes, e logo Silvio entrou em contato com eles ao surgir a idéia da Casa dos Etês. Mas Axtar recusou-se, preferindo ser o astro de um novo programa justo do canal concorrente, um programa de auditório nas madrugadas de sábado para domingo onde o destaque eram as apresentações sobre a ciência dos alienígenas.

O programa estava indo bem de audiência, e Silvio já havia contratado o astrofísico Marcus Gleidir, cujo lugar foi ocupado por Axtar na grade do outro canal. O cientista era profundo desafeto dos ufólogos, que há anos diziam que os alienígenas chegavam a Terra, e agora que haviam de fato chegado, tornara-se desafeto dos próprios visitantes.

O ponto positivo desses programas científicos era melhorar a qualidade do que era mostrado na TV, apresentando novos conhecimento, e sua audiência crescia. Nem tanto, claro quanto a da Casa dos Etês.

Silvio obviamente não gostou nada da menção a Axtar, e precisou disfarçar para não externar seu desejo de se livrar de Zé. Mas o problema é que sua interação com os outros habitantes da casa, e especialmente com Joel, era segundo as pesquisas de opinião o que mais garantia a audiência do programa.

- Então, Zé – disse Silvio – Como anda seu relacionamento com Shyang? E você, Shyang, como tem sido os dias na Casa dos Etês?

A legenda começou a aparecer, mas os pensamentos de Zé foram interrompidos quando a pornógrafa o abraçou, beijou a grande cabeça cinzenta, e disse:

- Ai, Silvio, tenho tido momentos tão maravilhosos com meu Zezinho... Não é, querido?

- “Ah, claro” – surgiu na legenda. - “Tem sido uma experiência fascinante... se isso significa ter uma maluca ninfomaníaca no seu pé o dia inteiro!”.

Todos riram, e enquanto o pobre gray tentava sem sucesso se desvencilhar, todos notaram um curativo enrolado em torno de seu dedo indicador, que era o maior dos quatro que tinha na mão. Silvio perguntou:

- Ma, ma, mas, mas Zé, o que foi esse machucado em seu dedo?

- “Silvio, como já ficou claro” – nesse momento, o alienígena ergueu o dedo, cuja ponta se acendeu. O detalhe fez ressurgirem na Internet as famosas teorias conspiracionistas que descreviam Steven Spielberg como um contatado ou “escolhido”, e dessa forma pôde acrescentar o detalhe ao adorável alienígena de ET, o Extraterrestre. – “Nós grays possuímos capacidades muito além dos humanos, com nossos cérebros muito evoluídos. Dessa forma, posso satisfazer a todas as necessidades sexuais desta fêmea sem qualquer contato físico”.

- É verdade, Silvio! – intrometeu-se Shyang.. – Meu Zé tem me dado orgasmos maravilhosos aqui na casa! É tão gostoso ficar do seu ladinho, meu etê gostoso!

- “Ninguém merece!” – surgiu na legenda. – “Como eu estava dizendo, o problema é que esta estranha criatura a meu lado faz questão do primitivo contato físico, e como resultado, muito aprecia introduzir meu dedo em... vejam como é difícil tratar desse assunto até para nós, grays altamente evoluídos! Ela insiste em introduzir meu dedo em um certo local de sua anatomia reprodutiva, onde infelizmente há um estranho objeto metálico sem qualquer função”.

O pessoal o auditório ria e gritava, e Silvio, satisfeito, percebeu que aquilo com certeza daria margem a novas polêmicas, ou seja, mais audiência para a Casa dos Etês, e muito mais lucro para ele. Zé concluiu:

- “Então, enquanto durar minha participação neste experimento, lamentavelmente terei que conviver com essas estranhas peculiaridades da raça humana. Especialmente dos brasileiros, que são realmente desconcertantes”.

- Só, véio! Zé, cê se deu bem com essa gostosa, hein, brou?

Nesse momento, chega Joel. Era com certeza o mais pavoroso e pitoresco habitante da Casa dos Etês. Mas era também o mais popular, já com uma enorme base de fãs que não saíam dos fóruns da Internet falando sobre qualquer assunto ligado a ele.

Joel era da raça chamada de chupacabras. Tinha mais ou menos a mesma altura de Zé, ao redor de 1,20 m, olhos vermelhos, uma boca da qual sobressaíam dentes afiadíssimos, uma crista composta de elementos córneos que começava no alto da cabeça e percorria sua espinha dorsal, e mãos de três dedos com garras também afiadas. Mas apesar da aparência de fera, eram criaturas incrivelmente amáveis e sociáveis, que gostavam de aprender os costumes de outras raças, e apreciavam especialmente tomar contato com suas manifestações artísticas.

A razão de sua má fama vinha de incidentes de antes do contato com os visitantes. Em suas viagens a Terra vinham como a maioria, com objetivo de pesquisar. Eram uma raça curiosa e um tanto deslumbrada com as novidades, e também muito distraída. Frequentemente esqueciam companheiros aqui (outra característica que alimentava as teorias conspiratórias envolvendo Spielberg), e um traço biológico desses seres é que sua base alimentar era muito específica. Sem os alimentos que traziam de seu planeta, o único composto que lhes servia na Terra era sangue de aves e mamíferos, com o agravante que um chupacabra com fome acaba regredindo em poucos dias ao estágio de fera faminta.

Os chupacabras tinham uma veia artística muito pronunciada, e o próprio Zé havia composto o próximo samba-enredo de uma famosa escola do carnaval paulistano, e após o final do programa já tinha convites similares de agremiações do Rio. Na Casa dos Etês, logo fez amizade com todos, menos com Frota, e assimilou o vocabulário de surfista de Carlos, que havia sido eliminado na semana anterior.

Joel chegou roendo um grande osso e usando uma bermuda bem florida, sentou-se em uma poltrona e soltou:

- E aí, galera!?

Naturalmente as colegas de trabalho de Silvio aplaudiram de pé, e o apresentador ficou ainda mais satisfeito. Já havia passado ordens expressas ao departamento jurídico para que fosse preparando um detalhado contrato para poder criar novas atrações com o chupacabra. Joel fora literalmente um achado para ele!

- Joel, e então, o que estava dizendo, concordando com o que o Zé comentou de nós, brasileiros?

Joel não parava de roer o grande osso, e Silvio ouvia pelo ponto eletrônico a conversa dos responsáveis pela produção, que se perguntavam onde havia um osso daqueles na casa. Tentando não se distrair, o apresentador se concentrou na resposta do chupacabra:

- Olha, tio Silvio, o Zé aqui disse que os brazucas são peculiares, e são mesmo!

- “Sempre comento” – disse Zé – que o Brasil, com suas belezas naturais, sua veia artística, mas com suas contraditórias idiossincrasias, poderia tanto redimir quanto condenar a humanidade”.

- Isso, brou! – concordou Joel. – As grandes músicas, no meu caso os sambas, os esportes...

- “Mas os espertos de todas as áreas...”.

- E os políticos, então? – perguntou Joel sem deixar de roer o osso. – E essas novelas? O que é aquilo?

- “Lembro-me de algumas das transmissões que captamos da Terra. Jornada nas Estrelas foi divertido, meio cômico, mas perfeita no que tange ao melhor da raça humana, a superação de desafios”.

- Eu gostava dos klingons, brou!

- E eu do Dr. Spock – quis colaborar Arizinho na conversa.

Valmir fez menção de protestar contra essa afronta, mas foi Joel que teve um acesso, ergueu-se e quase pulou no pescoço do rapaz, berrando:

- DOUTOR O SEU pppppppiiiiiiiiiiiiiiiiii, seu boiola!

- “Acredito, Joel” – disse Zé por telepatia – “Que não seja correto aos olhares dos humanos, e talvez também por qualquer ser sensiente, insultar alguém por sua opção sexual, ou qualquer outra opção. Mesmo diante dessas estranhas e primitivas práticas de intercurso físico dos terrestres”.

- E eu acredito que se não ficar com essa sua cabeçona em silêncio, você vai logo, logo levar a sua, Zé! Não acredito que ainda exista algum terráqueo que, diante de uma das melhores manifestações culturais de sua civilização, não saiba que é SENHOR Spock!

Valmir e os demais ainda iam comentar alguma coisa, mas Joel, pelo visto muito animado, acrescentou:

- E olha que alguns entre nós chegaram a sugerir uma votação, prá decidirmos o que fazer com os terráqueos. Não rolou, mas se rolasse, eu votaria por preservar os humanos, pois ao menos tiveram a capacidade de fazer algo tão da hora como Jornada nas Estrelas, falou, brou?

A seguir, os alienígenas engataram um animadíssimo papo, falando agora de livros. Tanto Zé quanto Joel gostavam muito de 2001 de Arthur Clarke, A Fundação de Isaac Asimov, Contato de Carl Sagan... Joel lamentava andar meio sem tempo de ler mais, por causa das tais provas e desafios que havia na casa.

- Pô, brou, agora descobri Julio Verne, meu... Mó da hora!

- “Acho incrível que sua raça tenha tanta facilidade com linguagem. Você pegou até mesmo as irritantes gírias de alguns grupos sociais brasileiros”.

- Cê tem problema com isso, meu? Tá me estranhando?

Zé ergueu o dedo com a ponta acesa, e Joel se levantou de novo, apontou-lhe o osso que ainda roia, e gritou:

- Cê não vem com esse dedo aí, bródi, que eu enfio ele onde não bate sol, falô?

Toda a platéia ria. A cada reunião no sofá da Casa dos Etês, Zé e Joel discutiam por algum assunto. O público adorava, e no final os alienígenas sempre faziam as pazes.

Silvio, voltando a rir, resolveu mudar o rumo da conversa:

- Ih, ih, ah, ah, ma, ma, mas veja bem, vocês dois! Eu não aguento, ih, ih, ah, ah, só usando a Força, mesmo!

- Esses filmes são mó da hora, tio Silvio!

- “Prefiro a Trilogia Clássica, os novos para mim deixam a desejar” – comentou Zé.

- Ô, meu, cê põe defeito em tudo, é?

- Mas parem vocês, seus malucos! – disse Silvio. – Como eu estava dizendo, Zé, você andou meio de mau humor nos últimos dias.

- Meu rango tinha acabado, Silvio.

- Mas a produção não trouxe mais?

- E eu sei lá onde você arruma esses lerdos, tio Silvio!? Tenho certeza que nosso embaixador mandou todas as instruções de como lidar com pessoas como nós. Eles sabem que poderia rolar treta, e ficaram enrolando, enrolando...

Nesse momento, um grito lancinante e aterrorizante veio dos fundos da casa. Surge finalmente Anabela, encharcada de sangue:

- Eu... eu... tropecei e caí... quando fui ver, estava coberta de vermelho... e quando vi o que tinha no chão...

Nesse momento, todos ouvem um enorme e grotesco arroto, e as câmeras se viram para Joel. Da boca aberta do chupacabra, onde se via a temível dentadura do ser, saiu um pequeno objeto cintilante que caiu sobre a mesa de centro, rodopiou um pouco, e finalmente parou.

As câmeras focalizaram, e quando foi dado um close no objeto, todos viram um brinco dourado em forma de aro, igual ao que Dado Frota costumava usar.

Nesse momento, quase todos que estavam na ampla sala olharam pálidos para Joel, que continuava a roer o que algumas pessoas já identificavam como um fêmur.

- Quê qui é, galera? Cês não falaram nos últimos dias que estavam pensando em votar para eliminar o Frota? Ou Fruta, como  Zé o chamava, e quem disse que os grays não têm senso de humor!? Eu estava doido de fome, não queria atacar nenhum de vocês, e como ninguém gostava mesmo dele...

Pandemônio total. Todos se levantaram, até mesmo Reneeh, e saíram correndo em direção a saída da Casa dos Etês, que só seria aberta mais tarde naquela noite. Silvio, ainda sem entender muito bem, saiu-se de primeira com mais um bordão:

- Ele morreu, ele morreu, ele morreu... ahn!? O que foi produção? Ah... mas morreu mesmo?

Como, logo após a chegada dos visitantes, foram assinados acordos que garantiam total e completa imunidade a seus representantes, nada aconteceu a Joel.

Por cima, ninguém mesmo sentiu falta de Dado Frota. O pit-bad-boy conseguiu arrumar briga com todos os habitantes da casa, partindo o coração de Reneeh e Arizinho, saindo arranhado de uma briga que custaram a separar dele com Joel, e quase sendo partido ao meio pelos poderes telecinéticos de Zé.

A audiência daquela noite foi recorde histórico para o Canal Bozo de Televisão. E permaneceu altíssima para o canal e para todos os programas de fofocas dos demais canais, que exploraram o caso por semanas a fio. Discutiu-se o direito a imunidade dos etês, em canais de certas seitas eles continuaram a ser genericamente chamados de coisa do demônio, e para quem gostava de sensacionalismo era o paraíso.

A reprise da Casa dos Etês, que durou até que a segunda edição estreasse, continuava com grande audiência, superando o Big Brother da concorrente.

O número de inscrições para a segunda edição de A Casa dos Etês já era recorde apenas dois dias após o incidente que encerrou prematuramente a primeira edição. Joel finalmente assinou contrato com o CBT para ser apresentador de um programa de auditório nos domingos a tarde. Zé foi contratado por uma editora para escrever o livro “A Casa dos Etês, a Astrofísica e a Filosofia, como melhorar sua vida com os conhecimentos dos visitantes”. E continuava negando sofrer qualquer influência da civilização humana.

Mas antes de tudo isso, depois que todos haviam fugido, as câmeras continuaram a mostrar Zé e Joel, ainda sentados no sofá. O chupacabra não largava seu osso.

- E aí, brou, quer um teco?

- “Definitivamente não. Não sei como consegue comer isso”.

- E eu não sei como você consegue comer aquela pirada que estava com você.

- “Eu fui praticamente sequestrado aqui dentro desta casa”.

- Para isso seu dedo não serve? Por que diacho não deu um jeito nela?

- “E quem disse que não tentei? Nunca falhou antes”.

Joel deu risada, dizendo:

- Então deve ser o amor, mesmo, brou!

- “Algo tão indefinível quanto primitivo é para mim simplesmente incompreensível”.

- Se vocês grays são mesmo tão evoluídos quanto gostam de alardear, então deveriam ser capazes de aprender. É o amor, brou, tudo que importa! Amor por uma boa comida... por uma boa música...

- “Este mundo definitivamente está nos contaminando. Quero dizer, contaminando você. Um chupacabra falando de amor”.

- É o único jeito de te ensinar, brou, eu explicando prá você, sacou?

- “Sua forma de falar me irrita. Conheço uma maneira melhor de você me transmitir essa informação”.

Zé já ia erguendo o dedo com a ponta luminosa, mas Joel, ressabiado, levantou-se e pulou para longe, assumindo posição de ataque e gritando:

- Vai com essa pppppppiiiiiiiiiiiiii de dedo prá lá, Zé!

FIM

Gostaram? Comentários abaixo, por favor!

O sujeito simpático da primeira foto, claro, é Paul, o alienígena mais engraçado e desbocado do cinema, astro do filme de mesmo nome de 2011. Justificadamente odiado por dez entre dez criacionistas, adeptos do design inteligente e mistificadores, o que ao lado das inúmeras referências nerds, o torna obrigatório! Confiram o trailer!


Aproveitando o tema alienígena, sugiro a todos o site da revista Ovni Pesquisa, onde podem conferir a edição 3, para a qual dei uma pequena contribuição com um artigo a respeito dos 25 anos de Arquivo-X. Como sabem me afastei da ufologia em 2018, mas aceitei o convite para comentar uma das produções de Ficção Científica mais importantes e influentes de todos os tempos. E ainda mencionei alguns grupos de amigos que fazem o bom trabalho de divulgação desse nosso mundinho nerd, como Sindicato do Fã, Arquivo-X Brasil, Calendário Geek e Aumanack!


Continuando no tema, na Amazon está disponível minha coletânea de contos Filhas das Estrelas, e-book pela Editora Estronho. Porque, afinal...


Não deixem de conferir meu roteiro fanfiction Ducktales: O Implacável Vingador. E na próxima quarta, mais um texto da série de artigos sobre Fantomius, o Ladrão de Casaca!

Até a próxima!