Mostrando postagens com marcador Arquivo-X. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Arquivo-X. Mostrar todas as postagens

domingo, 11 de dezembro de 2022

ZÉ DA PINGA 20 ANOS

 Eram outros tempos! Maravilhosos tempos quando, por três inesquecíveis anos, a comunidade nerd ansiava pela chegada de dezembro. Significava que um novo filme da maior trilogia da história do cinema, O Senhor dos Anéis de Peter Jackson, estava chegando!

Arquivo-X estava indiscutivelmente chegando a seu fim, mas os excers continuavam fiéis às aventuras de Mulder e Scully. E, de uma Galáxia Muito, Muito Distante, ainda nutríamos esperanças de grandes histórias vindas da Lucasfilm.

Foi um tempo inesquecível para aqueles ávidos por boas histórias, e também para contadores de histórias. Mesmo aqueles que iniciavam sua trajetória.



Era a época gloriosa da revista Sci-Fi News, e foi uma alegria e uma honra inesquecíveis quando minha primeira publicação em mídia física, na edição 62 dessa saudosa revista, chegou às bancas. Tenho a grata satisfação de saber que Zé da Pinga ainda é lembrado pelos fãs de ficção científica, e devo a eles, e também à equipe da revista, Silvia, Lu, Fábio, Paulão e o Professor Walter, inúmeros agradecimentos por esse apoio e incentivo naquele saboroso mas difícil início.



Zé da Pinga ainda foi publicado em meu segundo livro, Filhas das Estrelas, em 2011 pela Editora Estronho. Que continua disponível como e-book, e vocês podem conferir lá embaixo, ao final deste post. Há algumas diferenças, evidentemente, em relação a versão que apresentarei a vocês daqui a pouco, que é a que foi publicada na Sci-Fi News 62. E, com os contos A Marca e Irmãos, também integrantes de Filhas das Estrelas, estabeleci que Zé da Pinga é uma história que faz parte do mesmo universo de meu primeiro livro, De Roswell a Varginha (Tarja Editorial, 2008).



Então, sem mais delongas, apresento Zé da Pinga em sua versão original para vocês, celebrando 20 anos de sua primeira publicação. Boa leitura!



ZÉ DA PINGA


- É verdade, seu moço. A luz veio de lá do morro, “alumiando” tudo por estas bandas!

- E “tumém” ali no fundo, na chácara de “seo” Armando, onde dizem que o “bicho” pousou.

O casal, simplório mas muito solícito, explicava tudo o que haviam testemunhado três noites antes. Célia perguntou:

- E os senhores têm visto essas luzes há quanto tempo?

O homem coçou os ralos pêlos que cobriam seu queixo, e por fim disse:

- “Óia”, dona, pelo que a gente se “alembra”, faz bem uns dez dias...

Célia trocou olhares com Marcos. Renato digitava o relato do casal com uma rapidez fenomenal no laptop, enquanto os irmãos Kássia e Leonardo andavam pelos arredores buscando mais evidências.

Salto do Avanhandava, pequena cidade do interior paulista a cerca de cinquenta quilômetros de Campinas, estava a poucos dias de comemorar os vinte anos de sua emancipação e transformação em município. Contudo, para alguns de seus pouco mais de seis mil habitantes, não era aquele o assunto principal naqueles dias, mas sim a grande quantidade de visões de estranhas luzes durante as noites. Na verdade, toda a região era assolada, há semanas, por uma onda de aparições de ovnis, mas, conforme o testemunho que acabavam de tomar de seu Waldir e de dona Iracema, sua esposa, há dez dias os fenômenos se concentravam nas menores cidades daquela região, em especial sobre Salto do Avanhandava.

- O que os senhores acham que é isso?

Seu Waldir perguntou com legítimo interesse, mostrando uma curiosidade típica da região para tudo que era novidade. Renato, no entusiasmo de seus 23 anos, respondeu:

- É uma onda ufológica como há tempos não víamos, seu Waldir! Praticamente desde o Caso Varginha não temos nada assim! Pelo visto, os “extras” estão se animando de novo!

- O padre Reginaldo diz que é tudo coisa do capeta, disse Iracema.

Sem que ninguém pudesse impedir, Renato continuou:

- Que nada, dona Iracema! Acreditamos que eles vêm de outros planetas, outros sistemas solares! Não tem nada do diabo nisso. Até mesmo o papa disse recentemente...

- Renato, menos, menos, cortou Marcos, o líder do grupo. Não queremos tomar mais o tempo dos senhores, não é mesmo? Agradecemos pela ajuda.

O jovem guardou o laptop a contragosto, e com os demais cumprimentou o pequeno grupo de moradores do Baixo Morro, bairro da periferia da cidade. Estavam entrando na perua, quando Waldir pareceu lembrar-se:

- Ah, nós esquecemos de avisar, o pessoal aqui do bairro tá dizendo que um bêbado, que todo mundo chama de Zé da Pinga, tá sumido há uns dois dias.

Eles voltaram a se interessar, pedindo mais detalhes. Ouviram que aquele homem costumava vagar pelo bairro mendigando, e era muito conhecido nos dois ou três bares das redondezas. Apesar de gostar de ficar de pileque, não incomodava ninguém, a não ser quando ficava mais animado, segundo diziam, e saía dizendo que “eles” chegariam em breve.

- Quem são “eles”, seu Waldir?

A pergunta de Marcos foi respondida com um erguer de ombros. Ninguém sabia mais nada sobre o Zé. Ele aparecera na região há uns quinze anos, e corriam boatos que tinha sido militar ou coisa parecida na época da ditadura.

- Uns e outros ainda falam que ele “teve” envolvido com alguma coisa séria do governo, disse dona Iracema. Mas nós não “crerdita” muito, não, esse povo gosta de contar história.

Agradeceram, e com todos a bordo da perua se encaminharam para o endereço de mais uma testemunha, logo na outra rua do mesmo bairro seguindo as indicações de seu Waldir. As ruas de terra batida dificultavam um pouco a marcha do veículo, e eles também haviam ouvido muitas reclamações sobre como o prefeito Eduardo não fazia nada para melhorar as condições de vida daquela parte pobre da cidade. Realmente, quando chegaram ali, precisaram pedir autorização para investigar o caso, e os funcionários e o próprio prefeito não foram muito prestativos. A única exceção fora o chefe da polícia local, capitão Flávio, que parecia ser a única autoridade na cidade realmente interessada em encontrar uma explicação para os acontecimentos.

Passaram mais meia hora entrevistando pessoas no novo endereço, e todos os relatos coincidiam. Algo de muito estranho estava acontecendo, o que era ainda mais respaldado por algumas marcas no solo e folhas queimadas de árvores, que encontraram quando foram investigar a chácara de seu Armando. Este, um pequeno produtor rural, também mostrou-se muito simpático, dando os endereços de diversas outras testemunhas.

Estavam nisso, quando viram uma pessoa chegar correndo pela rua, e reconheceram seu Waldir. O homem, esbaforido, disse quase gritando:

- É o Zé da Pinga! Ele apareceu!

Mais tarde, estavam no hospital da cidade, pequeno mas felizmente com capacidade de fazer um atendimento de boa qualidade. Zé havia aparecido com as roupas ainda mais esfarrapadas que de costume, e com um profundo ferimento na cabeça. Disse que havia caído depois que a “casa redonda” levantara vôo...

- Será que o senhor poderia repetir para nós o que se passou, perguntou Célia com todo carinho.

O médico que dava alguns pontos no corte balançou a cabeça em sinal de desaprovação, mas permaneceu calado. O homem voltou a contar sua estranha história. Disse que um grupo de “sacis” chegaram dentro de uma luz, e o convidaram para visitar sua casa.

- E eu fiquei espantado, dona, porque a casa dos “bichinhos” era redonda! Tudo era redondo, e muito “alumiado”, mas eu não conseguia ver nenhuma lâmpada...

Ele contou que os “sacis” como os chamava, fizeram um tipo de exame médico nele, em uma sala que foi descrita como semelhante a que se encontrava naquele momento. Depois, eles teriam contado muitas histórias para ele, e mostrado algumas imagens “numa espécie de televisão” segundo o Zé.

- E o que mostravam essas imagens, Zé, e o que eles contaram para você?

Ele olhou para Marcos, que do alto de seus quarenta anos e mais de vinte dedicados a pesquisa ufológica era o líder do grupo, e respondeu:

- Olha, “seo” Marcos, eles me mandaram dizer só que logo logo eles e mais uma porção de outras “gentes” do lugar de onde eles vêm vão chegar na Terra, porque “nóis” não “tamo” cuidando bem dela, e vão nos ensinar muitas coisas.

Os dois ufólogos se olharam, e até o médico havia parado para acompanhar as palavras, que soavam fantásticas e até loucas demais, mas eram ao mesmo tempo fascinantes. Zé ainda disse:

- Eles me contaram mais uma porção de coisa, mas ainda não posso “contá” elas “proceis”. Só quando eles me chamarem de novo.

- E quando vai ser isso, Zé, perguntou Célia.

Ele olhou para a moça, que tinha vinte e cinco anos, e respondeu:

- Logo, logo, dona...

Deixaram-no descansando um pouco na enfermaria, e saíram. No corredor, o prefeito e o capitão da polícia aguardavam.

- Gostaria de mais uma vez pedir aos senhores que terminem logo com isso! Não queremos que essas histórias se espalhem, e atrapalhem o aniversário da cidade.

Aquela parecia a única preocupação de Eduardo. Mostrava-se muito ansioso. Marcos respondeu:

- Temos algo estranho acontecendo, prefeito, e gostaríamos de continuar investigando.

- Vão dizer que acreditam nessa bobagem? Por favor, o homem é um pobre-diabo, vive bêbado pelos cantos!



- Mas ninguém o viu pelos últimos dois dias, prefeito, respondeu Célia. Todas as pessoas que entrevistamos disseram que Zé nunca sumiu por tanto tempo.

Eduardo parecia muito contrariado. Ficou com a cara ainda mais fechada quando Flávio disse que muitas pessoas estavam assustadas, e portanto era sua obrigação tentar desvendar aquele mistério:

- E, para isso, se pudermos contar com ajuda especializada melhor, não concorda, prefeito?

Ele não parecia nada feliz, resmungou algo incompreensível, cumprimentou todos com um leve aceno de cabeça e retirou-se dali. Na saída, quase trombou com dois repórteres do único jornal local, que também ajudavam nas investigações. A moça, Maria, cumprimentou os presentes e o chefe de polícia que também saiu, e dirigiu-se aos ufólogos:

- É, vocês conseguiram incomodar o prefeito.

- Maria, por que ele está assim, perguntou Marcos. Afinal, são poucas pessoas que acreditam sequer que esses fenômenos estejam acontecendo.

O outro repórter, Gustavo, chamou todos para um canto, e disse que a festa significava muito para o prefeito. O mesmo era de uma família de muita influência por toda a região, e se a mesma fosse um sucesso, poderia ser usada como propaganda eleitoral:

- Logo vai haver eleições, e Eduardo quer se candidatar a deputado estadual. Além de tudo, correm boatos que muita coisa nessa festa foi superfaturada. Não temos provas, mas empresas de familiares e amigos do prefeito estão entre os fornecedores...

Intrigas políticas, mais um complicador para uma situação já bem complicada! Eles trocaram mais impressões sobre o que parecia estar acontecendo, e já se dispunham a ir embora, quando o mesmo médico veio correndo, com uma radiografia nas mãos. Sua expressão dava mostras de profunda confusão.

- Estava examinando novamente as radiografias que tiramos do Zé, e acabei encontrando isso. Nunca vi nada igual!

Apontou diretamente para um estranho objeto na chapa, logo acima do osso da fronte do crânio do Zé. Todos puderam ver um estranho objeto alongado, de formato cilíndrico, alojado do lado oposto ao ferimento que acabara de ser tratado. Não havia qualquer sinal de um orifício de entrada. Os repórteres ficaram boquiabertos, enquanto os ufólogos se entreolharam pela enésima vez. O caso ficava mais interessante a cada nova pista encontrada.

Enquanto os outros ficavam no hospital, Renato, Kássia e Leonardo resolveram ir assistir a uma das missas de padre Reginaldo. Mal entraram na pequena igreja e sentaram-se em três lugares vazios, e as cabeças que haviam se virado para trás para observá-los já se voltavam para frente, e um “zunzunzum” de conversas paralelas começou a ser ouvido. O padre interrompeu o sermão por alguns instantes com expressão contrariada, e logo voltou a falar, com muito mais veemência que antes:

- E finalmente, aqueles entre vocês com idéias imorais, que se questionam sobre a Criação do Senhor, e até almejam acrescentar “coisas” a Sua Divina Obra, estejam avisados: nas Sagradas Escrituras está, há muito tempo, o relato do que irá acontecer ao Final dos Tempos! Está escrito que nos céus aparecerão prodígios, mas que são na verdade maquinações do Mal para dominar os fracos de espírito, para cobrir e denegrir a obra de Deus na Terra! Aqueles dentre vocês que derem ouvidos aos que espalham essas histórias de falsos prodígios padecerão na danação eterna, assim está escrito!

Longe de se intimidarem com as ameaçadoras palavras do padre, aquilo divertiu os ufólogos. Renato, que gravava tudo com sua câmera digital, mal conseguia evitar de dar gargalhadas. Os outros insistiam aos cochichos para que se contivesse. Finalmente, depois da comunhão e dos ritos finais, a igreja ficou vazia, e os três foram falar com padre Reginaldo.

- O que querem aqui? Esta é a Casa de Deus!

Leonardo, o mais diplomático dos três, pediu desculpas, mas assegurou que não estavam ali para incomodar ninguém:

- Desculpe, padre, não é nossa intenção trazer algo negativo para ninguém nesta cidade. Queremos apenas juntar provas, entender os fatos desses acontecimentos...

- Não há nada para entender, cortou o padre rispidamente. O diabo pode se manifestar de muitas formas, como deveriam saber se estudaram a Bíblia Sagrada.

Kássia, que trazia um crucifixo pendurado em uma correntinha, perguntou:

- Mas padre, a mesma Bíblia não nos ensina as palavras de Jesus, que não devemos julgar para não sermos julgados, e devemos amar o próximo como Ele nos amou?

O padre resmungou qualquer coisa, e ela ainda disse:

- Pelo que sei, a Bíblia não cita nada sobre os dinossauros, mas já encontramos seus ossos e outros vestígios, e portanto sabemos que os mesmos existiram. O senhor nega isso?

- E acho que se lembra há alguns anos, quando a NASA, a agência espacial americana, anunciou a descoberta de bactérias fossilizadas em um meteorito marciano, acrescentou Renato com todo entusiasmo. Vai negar isso também, padre? Os extraterrestres não existem só porque a Bíblia não os cita nominalmente?

Renato já ia falar dos sumérios, que nos legaram um relato do Dilúvio milhares de anos mais antigo que o das Escrituras, quando Kássia gentilmente o cutucou. Leonardo prosseguiu:

- Desculpe nosso amigo, padre. Aliás, nem é nosso trabalho convencer o senhor, nem qualquer pessoa, de nosso ponto de vista. Queremos apenas analisar os fatos. E ouvir todas as opiniões, foi para isso que viemos ouvir o que tem a dizer.

- Já sabem o que penso de tudo isso. Agora vão!

Com isso, estava encerrada mais aquela entrevista. O padre ainda lançou um olhar mal humorado para Kássia, que usava calças compridas, e retirou-se. Já haviam reparado que apenas as mulheres mais jovens da cidade vestiam-se daquela forma, e sabiam que uma razão para aquilo era exatamente os sermões de padre Reginaldo, que não admitia “pouca-vergonha” por parte de nenhum de seus fiéis, nem desvios do que chamava de caminho da virtude. Depois de enfrentarem outros olhares hostis e ameaçadores por parte de beatas e outros devotos que os esperavam fora da igreja, entraram na perua e foram ao encontro dos amigos.

Estavam no começo da noite no pequeno hotel da cidade conversando e verificando os dados que haviam coletado:

- Esta cidade parece parada no tempo, reclamou Renato.

- Nosso amigo é sempre muito radical, mas agora estou com ele, disse Kássia. Imagine, as mulheres e senhoras ficam me encarando e olhando feio só por causa de como me visto! Sentiu isso também, Célia?

- Acho que é isso que faz uma viagem dessas valer a pena, respondeu ela. Conhecer outras pessoas, outros lugares. O Brasil é tão grande, e é difícil imaginar que em nosso próprio país ainda exista gente que vive assim, não é?

Marcos, estava no quarto comunicando-se com colegas por e-mail. Haviam levado o Zé do hospital para um lugar que o mesmo chamava de casa, um barraco nos fundos da casa de um vizinho do seu Waldir. Lá, tiveram a chance de examinar o único documento que ele possuía, uma identidade já muito desgastada pelo tempo. Era isso que Marcos usava em sua pesquisa. Subitamente, desceu as escadas correndo, e veio a seu encontro. Disse, quase sem fôlego:

- Vocês não vão acreditar no que encontrei sobre nosso amigo Zé da Pinga!

Rapidamente enfiou um disquete no laptop de Renato, e abriu o documento. Todos puderam ver a cópia de uma identidade militar datada dos anos setenta. Ali constava o nome verdadeiro de Zé da Pinga:

- José Amaro de Freitas, chegou a patente de tenente na Força Aérea, serviu a maior parte da carreira no Pará, e deu baixa em 1988. Esse nome nos diz algo?

Leonardo estava sem entender nada. Porém Renato, dono de uma memória prodigiosa para fatos ufológicos, logo pareceu ter um tipo de “iluminação”. Digitou mais rápido do que os colegas podiam ver algum comando no teclado, e logo outro documento luziu na tela:

- O na época sargento José Amaro de Freitas foi um dos participantes de um projeto da Aeronáutica no sul do Pará que investigou ovnis no final de 1977, e que ficou conhecido como Operação Prato!

Todos conheciam o caso. O comandante da Operação dera uma entrevista há poucos anos, detalhando tudo que havia acontecido na época. Infelizmente, mais dados sobre a mesma nunca foram revelados, nem mesmo a grande quantidade de filmes e fotos que os militares haviam obtido, e que deviam continuar ocultos nos arquivos da Aeronáutica.

- Meu Deus, estão achando que José veio para cá... para fugir de algo com que tiveram contato naquela época?

A pergunta de Célia tinha razão de ser. Entre os relatos que haviam colhido, alguns diziam que Freitas, ou Zé da Pinga, chegara a ter numa ocasião meia dúzia de seguidores, e iniciaram uma espécie de culto extraterrestre. Logo, porém, todos sumiram menos Zé que, abandonado, passou a beber e vagar pela periferia da cidade.

- Gente, esse caso está ficando cada vez melhor!

Por incrível que possa parecer foi Marcos, o mais ponderado do grupo, que disse isso cheio de entusiasmo. Decidiram que deviam voltar a encontrar Zé o mais depressa possível.

No dia seguinte, forma procurar o Zé, mas não o encontraram em casa nem em lugar nenhum. Seu Waldir não sabia o que fora feito dele, até que uma outra vizinha disse que três jipes haviam chegado no meio da noite:

- Saiu um monte de gente armada e com roupas do exército, parece, e levaram o Zé. Pareciam muito bravos com ele...

Procuraram pela cidade, e finalmente chegaram a delegacia. De fato, três veículos com o tradicional verde, e com inscrições da força aérea, estavam estacionados defronte a mesma. Dois soldados montavam guarda na entrada, e não permitiram que entrassem.

Suas reclamações e protestos deveriam ter sido ouvidos lá dentro, pois logo o capitão Flávio saiu, acompanhado por um homem em uniforme militar, que parecia oficial. Entretanto, tal como os soldados de guarda, o mesmo não trazia qualquer insígnia ou identificação na roupa. Foi Flávio que disse:

- Lamento, mas tenho ordens de cooperar com o pessoal da FAB nesse caso. Devo pedir que se retirem daqui.

O outro não dizia nada, apenas os observava com um misto de indiferença e aborrecimento. Marcos respondeu:

- Capitão, o senhor é a única autoridade nesta cidade que mostrou um pouco de ética e respeito, tanto por nós quanto pelas pessoas que têm testemunhado esse fenômeno. Vai nos abandonar agora?

Gritos, de repente, foram ouvidos vindos de dentro da delegacia. Kássia e Renato, indignados, responderam quase gritando:

- Estão batendo nele? Estão maltratando o Zé? Mas o que ele fez?

- Vou ter que pedir novamente que saiam, por favor, do contrário os prenderei por desacato.

Flávio falou isso com firmeza, mas percebia-se em seu tom de voz que no íntimo a situação lhe repugnava. Sem alternativa, o grupo entrou na perua e afastou-se dali. Logo cruzaram com o carro do jornal que vinha em sentido contrário, e os repórteres fizeram sinal que os seguissem. Chegando a sede do mesmo, todos entraram, e Maria foi logo dizendo:

- Aquele safado! Foi Eduardo quem chamou os militares! Parece que tem algum conhecido ou parente oficial.

Gustavo ainda acrescentou:

- Quando descobrimos que prenderam o Zé, já era tarde demais. Dá uma raiva não poder fazer nada!

Eles pareciam hesitar em dizer algo que estavam guardando. Finalmente, Maria acrescentou:

- De manhã, logo depois de voltarmos da delegacia onde também não nos deixaram entrar, havia um envelope enfiado por baixo da porta. Vejam só...

Dentro do envelope, havia uma série de documentos, listas de compras, valores e números de telefone, tudo com carimbo da prefeitura. Todos puderam ver que aquilo era a prova que o prefeito havia beneficiado empresas de amigos e parentes na preparação da festa de emancipação da cidade, e em obras superfaturadas feitas para a ocasião. O anônimo autor da denúncia havia trabalhado direito.

- Quase direito demais, será que ele mesmo teria participado da negociata, perguntou Gustavo.

- O que vão fazer com isso, disse Leonardo.

Marcos teve uma idéia. Conhecia muita gente da imprensa em Campinas e cidades vizinhas. Logo cópias dos documentos eram enviadas via faz e e-mail para as redações de diversos jornais da região. O explosivo material seria publicado no dia seguinte.

- Com isso, pegamos o prefeito, disse Renato. Mas o que podemos fazer pelo Zé?

Maria disse que só havia uma pessoa a quem recorrer:

- Padre Reginaldo. Esperem, eu sei que ele não é muito de ficar do nosso lado, mas também sei que quando o próprio prefeito e alguns vereadores foram colhidos por denúncias que nosso jornal fez, ele ficou do nosso lado. Deve ser a pessoa mais respeitada da cidade, até o prefeito não se atreve a ignorá-lo!

Claro que Reginaldo não concordou com eles a princípio. Relutou muito em usar sua influência para ajudar o Zé, e ponderou, com o que a maioria do grupo concordou, que os militares dificilmente o ouviriam.

Finalmente o convenceram, e o padre disse que mais tarde, quando fechasse a igreja, iria a delegacia e tentaria fazer algo. Todos ficaram na expectativa, e duplas foram escaladas para alternadamente vigiar a casa onde a mesma funcionava, a fim de evitar que os militares fugissem com o Zé.

Renato e Célia faziam sua ronda cuidadosa por volta das nove da noite. As ruas, como era habitual, estavam quase vazias, rotina de cidade pequena. Caminhavam nas proximidades da delegacia, quando a moça apontou para o céu:

- Olha! Tem um ponto de luz lá no alto que está se movendo!

Renato percebeu, e apontou a câmera. O ponto de luz foi crescendo, até que deixaram de vê-lo depois de mergulhar atrás da delegacia. O lado da rua em que a mesma se encontrava era formado por uma série de terrenos baldios, e contornava um morro. Era por trás do mesmo que a estranha luz tinha sumido.

Resolveram se separar e ir investigar. Renato seguiu pela outra travessa que também contornava o morro, enquanto Célia voltava pela direção em que tinham vindo. Por isso, nenhum dos dois percebeu padre Reginaldo caminhando na direção da delegacia.

O padre vinha apoiando-se em seu inseparável guarda-chuva, maldizendo-se por haver concordado com os repórteres e ufólogos. Afinal, os mesmos pareciam sempre estar correndo atrás de confusão. Mas, apesar disso, não concordava em absoluto que alguém fosse preso de forma arbitrária, mesmo que fosse um mendigo como o Zé da Pinga. Resolveu que seria muito duro com Flávio e os militares. Estava quase chegando, quando percebeu um foco de luz intenso vindo de dentro da delegacia.

Aquilo definitivamente era fora do normal, e o padre ficou alerta, aproximando-se devagar. Estava a ponto de ficar adiante da porta, quando viu uma sombra que parecia sair da mesma:

- Alô, disse suando frio. Quem está aí?

Nenhuma resposta. Resolutamente, depois de segurar a grande cruz que trazia ao peito, avançou mais três passos e ficou diante da porta. Arregalou os olhos e ficou boquiaberto com o que viu, certificando-se em décimos de segundo que levaria aquela imagem consigo para o túmulo.



Flávio, seus auxiliares e os militares estavam caídos ao chão, parecendo mortos. No centro da sala, havia algo, ou alguém... padre Reginaldo não sabia descrevê-lo. Aquilo deveria ter um metro e vinte de altura, uma cabeça grande em relação ao corpo, e o que pareciam dois grandes olhos negros. Foi tudo que o padre conseguiu distinguir diante da forte luminosidade que inundava o ambiente.

Ficou ali, paralisado, sem conseguir esboçar qualquer reação. O ser virou-se para ele, e a seguir para outra porta, de onde saiu, cambaleando, o Zé da Pinga. O mesmo passou pelo padre depois de lançar-lhe um rápido olhar, seu rosto muito machucado pelas agressões de que havia sido vítima. Cruzou o umbral da porta e afastou-se pela rua.

Renato e Célia vieram correndo, um de cada lado, depois de avistarem um brilho estranho sobre a delegacia. Renato sentiu um calafrio ao ver um vulto cambaleando pela rua, e arrepiou-se novamente ao reconhecer o Zé, todo machucado e sangrando. Perguntou-lhe como havia saído, sem obter resposta. Quando ouviu o grito de Célia, pediu que ele ficasse ali, e correu os pouco mais de cinquenta metros de volta a delegacia.

Célia estava ajudando padre Reginaldo, que estava caído, apoiado na parede da casa. O homem parecia abobado, não falava coisa com coisa. Lá dentro, os militares continuavam caídos, mas Flávio já tentava se levantar, enquanto perguntava, gaguejando:

- O..., o q-que... acont... aconteceu?

Logo Marcos chegava com Kássia para render os companheiros, e ambos se mostravam espantados com o que havia acontecido. Finalmente, o padre disse:

- Eu vi... eu vi...

- O que o senhor viu, padre?

Renato repetiu a pergunta em tom febril, mas Reginaldo só falava isso. Finalmente, o jovem ufólogo lembrou-se do Zé, levantou-se e olhou na direção em que o havia deixado, mas:

- Cadê ele? Cadê o Zé? Eu o deixei bem ali! Estava todo machucado, esses canalhas devem tê-lo espancado horas a fio!

Resolveram sair para procurá-lo. Marcos levou Flávio e Kássia no carro, enquanto o resto seguiu a pé. Mais de meia hora depois, este último grupo encontrou o mendigo caminhando a esmo, perto de um bosque. Célia gritou:

- Zé, espere! Queremos ajudá-lo!

Ele se voltou, e todos se arrepiaram novamente ao ver seus ferimentos. Apesar de ainda estarem amparando o padre, apressaram o passo. Zé estava a ponto de entrar no bosque, quando avistaram os faróis do carro se aproximando. Renato gritou novamente:

- Zé, espere, podemos ajudar, vamos proteger você!

Nisso todos ficaram ofuscados por um brilho intenso que subitamente saiu do bosque. Renato virou-se assustado, enquanto que, protegendo os olhos, Célia e padre Reginaldo viram um cone de luz cair sobre Zé. Ele olhou novamente para o grupo, e todos se espantaram, pois seu rosto estava limpo, sem um arranhão!

- Como, como é possível?

Padre Reginaldo olhava sem acreditar. Renato, recuperado do clarão, apontou a filmadora. O cone de luz que envolvia o Zé desapareceu, e ele mergulhou no bosque. Marcos passou a toda por eles, tentando alcançar o mendigo. Subitamente, as luzes do carro se apagaram, e o motor do mesmo deixou de funcionar. Parou bem antes de chegar ao bosque.

Célia e Renato deixaram padre Reginaldo, que fora acometido por uma crise de tremedeira, e saíram correndo. Os ocupantes do carro também abriram as portas e tentaram alcançar o bosque, mas um novo clarão, emergindo por entre as árvores, fez com que todos parassem.

Um objeto, de mais de dez metros de diâmetro e intensamente iluminado, começou a se elevar. Aquela única massa luminosa subiu rapidamente até ficar com um tamanho semelhante a lua cheia, quando disparou para o céu com uma velocidade extraordinária. Tornou-se um pontinho de luz, e desapareceu em instantes sem deixar vestígios.

Voltaram na manhã seguinte bem cedo. Todos ficaram estarrecidos, mesmo padre Reginaldo, ao encontrar um grande círculo de grama revirada e em alguns pontos queimada, na clareira bem no centro do bosque. O círculo tinha um diâmetro de pouco mais de dez metros. Dentro do mesmo, quatro impressões redondas, obviamente resultantes de um grande peso. A terra dentro das mesmas estava bem compactada, confirmando aquela observação. Leonardo apressou-se a recolher amostras de toda a área, ajudado pela irmã, Kássia.

Os moradores das redondezas foram unânimes em confirmar as observações do grupo. Estavam todos muito assustados, e recorriam ao folclore ou a crenças religiosas para explicar o que ocorrera.

Os militares, depois de aparecerem no local pela manhã e rapidamente darem uma olhada fugaz em tudo, foram embora. Suas identidades e a unidade a que pertenciam não puderam ser determinadas.

Subindo nas árvores que rodeavam a clareira, encontraram diversas folhas queimadas, e também recolheram amostras para análise. O contador geiger que trouxeram, contudo, não acusou presença de radioatividade.

Padre Reginaldo, depois de passar boa parte da noite trocando idéias com Renato, e diante das evidências, fez um sermão muito diferente naquela manhã. Disse que a obra de Deus não pode ser nunca diminuída por nossas limitadas percepções, e que, segundo a velha sabedoria popular, “há muito mais coisas no céu e na terra do que sonha nossa vã filosofia”.

Todo o grupo de ufólogos fez questão de assistir a missa, e retribuíram com alegria o sorriso de padre Reginaldo. Haviam conquistado um importante aliado, o que já compensava a viagem e toda aquela confusão.

Os jornais de toda a região publicaram a documentação, comprovando as falcatruas do prefeito Eduardo. Dias depois, souberam que a câmara de vereadores, em tempo recorde, o havia afastado, e um processo criminal para que devolvesse os recursos de que havia indevidamente se apropriado fora instalado na comarca municipal.

A identidade da pessoa que enviou a documentação não foi conhecida por algum tempo. Semanas depois, Maria lhes enviara uma edição do jornal, em que Flávio explicava as razões de seu pedido de demissão. Segundo o ex-chefe de polícia, “tinha que acertar contas com o passado, pagar por coisas das quais sabia, mas que não fiz nada para impedir”. Foi convocado como a principal testemunha de acusação contra o prefeito, mas a oposição já reclama da demora no processo, e não concorda que o mesmo seja conduzido por um juiz que é primo do ex-prefeito.

Apesar de terem prolongado sua permanência em Salto do Avanhandava por mais dois dias, e buscado em todos os lugares possíveis, não havia sido encontrado qualquer sinal do Zé da Pinga, ou José Amaro de Freitas, antigo tenente da FAB, e que quando era sargento, por volta de 1977, teve contato com “algo” inexplicável no sul do Pará. Nunca mais ninguém da cidade viu ou ouviu falar nele, e muitos são os que agora sentem muitas saudades desse personagem. Outros, ao contrário, o consideram apenas uma lenda, “o mendigo que foi raptado por um disco voador”. A opinião de Renato, contudo, que escreveu o artigo que foi um dos destaques de capa da principal publicação brasileira do gênero dois meses depois, era bem diferente. O texto terminava assim:

“Apesar deste caso continuar sob investigação, não sabemos se algum dia realmente teremos alguma notícia de Freitas, ou como era conhecido, Zé da Pinga. Ele teve contato com  algo muito além de nossas pobres concepções, na Amazônia do final dos anos setenta. Talvez não estivesse preparado para tanto, pois os relatórios a que tivemos acesso dão conta que ele simplesmente sumiu logo após a Operação Prato ser desativada. Apesar de procurado, só foi encontrado pelos militares, aparentemente, quando da ocorrência dos fatos descritos neste artigo. Seu paradeiro permanece ignorado.

Quanto ao que dizia, sobre a chegada “deles”, só o que nos resta é aguardar...

Contudo, e se os leitores me permitem especular um pouco, talvez aqueles que o contataram em 1977 perceberam seu erro, perceberam o que o contato fez com o Zé, e finalmente vieram procurá-lo. Acreditamos que, vendo a forma como ele foi tratado por seus semelhantes, tenham concluído que levá-lo com eles fosse a melhor alternativa. Assim, é possível que Zé da Pinga seja, afinal, o primeiro embaixador da Terra em algum mundo distante. Fazemos votos, então, que fale de nós, de seu mundo, com a mesma tolerância, respeito e benevolência que muitos lhe negaram”.


Obrigado a todos que sempre me apoiaram, e faço aqui um pedido: continuem a fazer o que fazem! Nos leiam e nos apoiem, pois são vocês que fazem tudo valer a pena!



Como disse, Filhas das Estrelas continua disponível como e-book, cliquem aqui para adquiri-lo na Amazon.



Não deixem de seguir a Editora Estronho, @estronho.

E nos sigam também: @renatoa.azevedo , @corujiceliteraria , @2sobrevoandoporai .

Até a próxima!

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Superpato Novas Aventuras parte 10

SUPERPATO 50 ANOS

PKNA 15 Motore/azione


Retomando as publicações após o hiato da semana da Páscoa, iniciamos por esta trama, cujo título em português pode ser traduzido como Câmera/ação. Por sinal ela foi publicada na Disney Hiper 43 em 2016. Originalmente a história saiu na Itália em 20 de fevereiro de 1998. A história começa com o ator Sean Leduck interpretando o personagem Perceval Bentley-Royce em uma gravação na selva para a novela Anxieties. Ao mesmo tempo em que vemos a tela de uma TV com a imagem sendo gravada, lemos as opiniões de dois produtores, um deles sarcasticamente comentando a atuação altamente canastrona do astro.

Podemos até comentar que o sobrenome do personagem da novela é uma mistura de duas famosas marcas de carros de luxo, Rolls-Royce e Bentley. Para surpresa geral, Donald aparece por sobre uma moita do cenário e acena para a câmera, antes de ser removido. Em seguida a tomada deve ser interrompida, e descobrimos que estamos em plena selva, no set de filmagens da novela. Todos devem se recordar da parte 1, na qual mencionamos tanto Anxieties quanto Leduck, assim como o roteirista Sam Plot, que também participa desta história.


Uma rápida volta no tempo e descobrimos o Superpato voando no Spcar a fim de não perder mais um capítulo de Anxieties, além de ter uma conversa cheia de ironias com Um, que é fanático pela novela mas alega que seu interesse envolve somente “estudos antropológicos”. Além disso, como Leduck e Plot chegaram a estar em estado de semichama fria graças aos invasores evronianos, torna interessante que Donald aceite a posição de assistente que lhe foi arranjada pela I.A.

Assim nosso pato favorito se manda para a República de Providencia, onde estão sendo realizadas as filmagens. Ele logo estranha a maciça presença militar, alegadamente contra a atuação de um bando rebelde chefiado por certo Paco Ramiros. Na outra noite mais trabalhos de filmagens, em meio a ataques de estrelismo, muita canastrice dos atores e ideias nada geniais dos roteiristas. Nisso, acontece um ataque evroniano, os militares locais entram na luta, e o Superpato finalmente surge para ajudar.

Mesmo assim, parte do elenco é abduzida pelos alienígenas, e vemos que entre estes se encontram dois velhos conhecidos, o chefe científico Zoster e o general Zondag, que vimos em Sombras sobre Vênus, na parte 3 deste especial. Na nave a equipe da novela, sem perceber a gravidade da situação, continua com seus ataques de estrelismo e pouco caso diante dos invasores e dos testes a que devem ser submetidos, além de serem recebidos por Brad van Beck, ator de Anxieties que havia desaparecido.


Superpato percorre a selva com os militares, e luta contra um veículo comandado por Zondag, antes de ser revelado que os locais têm um acordo com os alienígenas, que inclusive lhes forneceram as armas que utilizam. Mas graças à intervenção de Ramires nosso herói consegue reverter a situação. Com o auxílio de Um e dos novos amigos o Superpato consegue invadir a fortaleza evroniana, e após resgatar a equipe da novela todos fogem quando esta se autodestrói ao comando de Zoster.

As gravações de Anxieties são retomadas, e com a volta de van Beck agora Perceval Bentley-Royce tem um irmão gêmeo com o mesmo nome. Além disso alienígenas foram introduzidos na trama por Sam Plot, que é chamado de gênio pelos diretores da rede.

Um episódio divertido desta série, mas bastante irregular. A subtrama relacionada à novela Anxieties é muito engraçada, uma ótima crítica contra o gênero, conhecido por reviravoltas que fazem pouco sentido, “invencionices” sem pé nem cabeça e claro, pelo estrelismo de muitos de seus atores. Como mostrado, sobrou até para a direção das redes, sempre dispostas a investir no pior do pior em nome da audiência.


Por outro lado, não havia a necessidade de nosso herói igualmente cometer tantas palhaçadas, como fugir de um felino perigoso (afinal ele enfrenta invasores alienígenas e piratas cronoespaciais!) e outras cenas de pastelão. Por cima a presença de Zondag e Zoster acrescentou uma grande carga de perigo, já que os dois evronianos querem vingança pelos acontecimentos de Sombras sobre Vênus. Além disso o general revela mais uma característica perigosíssima dos evronianos, que possibilitou que escapasse da destruição de seu cruzador. Esses seres, diante de perigo iminente, retornam à condição de esporos, tornando-se resistentes até mesmo ao vácuo do espaço.

Depois de resgatados, eles são introduzidos em aparelhos que fazem com que retornem à condição de adultos, processo que pode ser acelerado caso se trate de indivíduos das castas superiores. Mais uma grande ameaça, que poderia ter sido melhor explorada no episódio caso não houvesse o excesso de humor.

PKNA 16 Manutenzione straordinaria


O 16º álbum da série saiu em 20 de março de 1998. Nossos patrícios portugueses leram essa história na Disney Hiper 44 de 2016 como Manutenção Extraordinária. Começa com um bandido ameaçando um prédio em Patópolis, e o Superpato rapidamente o derrotando. Angus Fangus apresenta a notícia no telejornal, e comenta somente que a atuação poderia ter sido menos espetacular. Todos no 00 Channel estranham, já que nosso herói é o alvo preferido do repórter, mas este afirma que agora se dedica a um assunto muito mais interessante. Especificamente, o desaparecimento do gênio e bilionário Everett Ducklair.

Apesar dos apelos do diretor, Angus responde “quando os advogados não reclamam, a audiência o faz”, e passa a se dedicar a essa investigação. Graças a uma entrevista com um antigo funcionário das empresas de Ducklair, o repórter teve acesso a um código secreto. Inserido no teclado ao lado da porta do que seria um simples armário, este dá acesso a um cômodo secreto recheado de computadores. Fangus entra no elevador que encontra, porém acaba caindo nas profundezas do gigantesco edifício.

Donald está terminando seu turno na redação do 00 Channel, quando Um o chama. Um problema isolou a IA de todos os andares do prédio abaixo do 75º andar, incluindo os andares subterrâneos secretos. A única alternativa é nosso herói percorrer os intermináveis corredores a fim de encontrar e resolver o problema.


Enquanto isso, o turno do Câmera 9 igualmente se encerrou. Ele veste chapéu e sobretudo e se prepara para sair, quando vê o Superpato passando por um corredor. Curioso, ele o segue. Angus, por sua vez, tem sua queda amortecida e, graças a uma subrotina que conversa com ele, vai percorrendo os setores secretos da Ducklair Tower. Ele mexe em comandos que causam uma sobrecarga no sistema de energia, e um dos dispositivos quase amassa nosso herói, que é salvo pelo Câmera 9, aliás Stefan Vladuck. O Superpato se recorda do nome, autor de inúmeras fotografias que retratam vários acontecimentos dramáticos, um talento agora quase esquecido. Enquanto Stefan fala, surgem cenas em flashback que parecem indicar um passado como correspondente de guerra.

Angus encontra um depósito de armas, enquanto Superpato e Vladuck percorrem um corredor de resfriamento e precisam enfrentar um robô de reparos. O jornalista ainda diz que, muito tempo antes, enfrentou coisa muito pior. Um, nesse meio tempo, observa o diretor do 00 Channel cada vez mais irritado com Fangus, e incumbindo Lyla de apresentar o telejornal. Mas a I.A. ainda não acredita que o repórter seja o invasor da Ducklair Tower. Nisso Angus encontra outros dispositivos bélicos, e passa a acreditar que Everett Ducklair não desapareceu, mas atua nas sombras com o objetivo de dominar a cidade com aquelas máquinas. Quase automaticamente ele chega a uma dramática conclusão: Everett Ducklair é o Superpato!

Enquanto isso nosso herói e seu novo amigo percorrem outros surpreendentes lugares do edifício, e Stefan, sempre sem mostrar o rosto, diz que mudou de emprego pois ninguém mais está interessado no tipo de registro que ele fazia. Ele diz que agora trabalha na televisão, mas interrompe o Superpato quando parecia que o herói iria descobrir quem ele é.


Angus Fangus acaba acionando um sistema de defesa, liberando drones que são de fato perigosos. O repórter se protege, enquanto cabe ao Superpato e a Vladuck impedir os robôs. Assim, surpreendentemente, é Stefan que, armado com as ferramentas e o escudo extranformer, que realiza os reparos necessários, fazendo Um retomar o controle de todo o prédio. Porém Angus viu muita coisa, e fez uma interpretação absurda da situação, o que pode complicar tudo.

Mas a I.A. tem um plano, e graças à I.I.T., Interface de Total Imersão, que vimos na parte 2, eles conseguem deixar o inconsciente Angus em um sofá no 00 Channel. Quando ele tenta explicar suas descobertas a todos, incluindo mostrar a passagem secreta, ninguém acredita e todos o gozam. Donald chega e oferece um remédio para dor de cabeça. Angus imediatamente se sente melhor e nem lembra o que causara o mal estar, e Donald comenta de si para si que os bons e velhos car-cans funcionam. Estes são os caramelos canceladores de memória, uma invenção do professor Pardal ainda nos primeiros tempos do Superpato, e que comentamos na resenha de Lendas Disney 1 no Corujice Literária.


Nosso pato preferido ainda cruza com o Câmera 9, que lhe entrega um envelope endereçado para o Superpato. Câmera 9, ou Setefan, comenta que todos sabem que Donald é o melhor amigo do herói, e o pato confere com Um as fotos da odisseia, com direito até aos negativos.

Esta edição saiu na Itália com a ficha do Câmera 9, que aqui foi publicada em Superpato vs Demolidor, que vimos na parte 3. Infelizmente, esta foi também a última aventura em que este importante coadjuvante teve destaque. Lamentavelmente os roteiristas da série não voltaram a dedicar a ele a atenção que merecia, e ficamos sabendo a seu respeito somente as informações fragmentárias apresentadas até aqui. Mas isso não diminui o brilho desta história, sem dúvida bem melhor que a anterior.

PKNA 17 Stella cadente


A trama, publicada em 20 de abril de 1998, saiu em 2016 em Portugal na Disney Hiper 45 como Estrela Cadente. Começa com Xadhoom atacando uma nave batedora dos evronianos, mas é uma armadilha dos alienígenas que a atingem com armas novas. A xerbiana cai em meio a uma chuva de destroços vista por toda Patópolis, mas consegue parar no topo da Ducklair Tower. Um rapidamente chama Donald, e manobrando as paredes de determinado andar, consegue criar um cômodo para abrigar a alienígena. As reações dos ocupantes das salas vizinhas são hilárias, afinal ninguém vai dizer que as paredes foram reajustadas como nossa I.A. preferida o fez.

Ao mesmo tempo, dois MIBs (Men in Black, ou Homens de Preto) de nomes Delta e Gamma, localizam um destroço que vem a ser um vestígio das pranchas usadas pelos evronianos. Donald conversa com Xadhoom e percebe que a alienígena fica raivosa com facilidade e altera até mesmo a cor de sua aura. Depois, conversando com Um, recebe a notícia de que a xerbiana foi atingida com mais seriedade do que admite, e a inteligência artificial diz que precisará usar todos os seus recursos somente para analisar sua fisiologia.


Um mercado na periferia de Patópolis é atacado por uma gangue, e algo muito sério acontece, quase explodindo o local. Os dois MIBs retornam, e o chefe da polícia depois reclama com o PBI que invadiram sua jurisdição. A agente Mary Ann Flagstarr promete investigar, e claro que os leitores se lembram dela, não é mesmo? Para refrescarem a memória, sugiro que releiam a parte 4 e a parte 6. Nisso, Donald se esforça para conter Xadhoom, e sai para sua patrulha como o Superpato. Em seguida vemos os MIBs conversando sobre alienígenas e tecnologia avançada, que muitos gostariam de comprar pagando um bom preço.


A próxima cena é no metrô, onde a mesma gangue que assaltou o mercado tem um encontro com um personagem misterioso, que termina muito mal para eles. A polícia cerca o local e logo os MIBs surgem, desaparecendo antes da chegada de Flagstarr e do Superpato. A agente admite que precisa da ajuda do herói, e pensando em como enfrentar um inimigo poderoso quanto aquele misterioso personagem, lembra de Xadhoom e a convida para acompanhá-lo na patrulha.

Eles cruzam com um grupo armado tentando assaltar um caro forte, e o Superpato luta com os bandidos. Xadhoom, porém, os enxerga como evronianos. Os MIBs surgem armados, mas a xerbiana pouco precisa fazer para derrotá-los. Um, que vinha evitando o amigo a fim de realizar sua análise, percebe finalmente que Xadhoom consegue passar através de objetos sólidos, tendo saído assim da Ducklair Tower. Ele finalmente diz ao Superpato que a alienígena experimenta uma alteração mental significativa, o que pode explicar o fato de estar disparando seus raios a esmo na cena do carro forte. Sobra até para nosso herói antes que ela se vá.


O Superpato consegue dar uma desculpa a Mary Ann quando a agente chega, e depois conversando com Um é informado que a arma evroniana causou uma total descompensação de energia em Xadhoom, diminuindo suas forças e mesmo seus processos mentais. Eles preparam uma armadilha para a xerbiana, e um parque industrial abandonado, mas Flagstarr logo descobre a localização e para lá se dirige, bem como os dois MIBs.

Nosso herói dispara um dispositivo fornecido por Um contra sua aliada, mas os acontecimentos se atropelam com a chegada de Flagstarr e dos MIBs. Estes imobilizam a equipe de resposta trazida pela agente, e usam armas especiais do PBI contra Xadhoom. Mas o efeito não é o que esperam, Mary Ann derruba um dos sujeitos, e Xadhoom cuida do outro antes de fugir. Flagstarr revela que os dois MIBs eram agentes do PBI que se tornaram fanáticos pelos “arquivos impossíveis”, e por isso foram expulsos, passando a atuar na clandestinidade, ao que nosso herói comenta “ah, aqueles telefilmes” em uma referência bem explícita! O Superpato explica pouco da situação, mas garante que tudo está sob controle, e a agente aceita, dizendo que ela mesma sabe que é preferível que certas verdades permaneçam ocultas, e que ela própria já arquivou muitos dos casos “impossíveis”.


De volta a Ducklair Tower Um comenta que tudo acabou dando certo, e que Xadhoom aguarda por Donald no teto. A xerbiana pergunta como ele pôde pensar que ela iria embora sem se despedir, e nosso herói fica com o bico chamuscado após o agradecimento da amiga!


Um episódio cheio de ação, que se não chega a acrescentar muito à saga como um todo, é divertido. E com evidentes referências não só à série de filmes Homens de Preto, como também a Arquivo-X! Quem pode querer mais?

Até a próxima!

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

A CASA DOS ETÊS

Nesta terça-feira, 15 de janeiro, terá início no maior canal de televisão do país aquele reality show frequentado por certa espécie que poderia ser chamada de Subdesenvolvidus Intelectus, e assistido por outra subespécie chamada Rusticus Analphabetus Extremus.

Como aqui no Escritor com "R" prezamos sempre a cultura e o conhecimento, decidimos "comemorar" essa estréia com um conto bem leve, seguramente protagonizado por espécies mais adiantadas do que as descritas acima! Espero que se divirtam!

A Casa dos Etês


O conhecido apresentador finalmente surge, no palco e nas telas de todo o Brasil:

- Ma... ma... mas vai prá lá, vai prá lá! Olá, minhas colegas de trabalho, ih, ih, ah, ah!

Silvio recebe aplausos entusiásticos, enquanto o locutor oculto anuncia:

- Bem, vindo, Silvio!

- Olá, Lombadi – diz Silvio entusiasmado O apresentador se vira para a platéia do auditório e diz:

- Ma, ma, mas minhas colegas de trabalho, como todos sabem, já é sucesso em todo o Brasil, todos estão ligados no CBT, Canal Bozo de Televisão! Há alguns anos nós fizemos um programa inovador, e tenho certeza que todos se lembram!

O auditório aplaude, e Silvio pergunta:

- Vocês se lembram ou não?

Todos levantam, aplaudem, gritam, e Silvio finalmente confirma:

- Sim, não faz muito tempo, nós fizemos a Casa dos Quase Artistas! E foi um sucesso, o Brasil inteiro acompanhou... quem ganhou mesmo, Lombadi?

Lombadi ia responder, mas Silvio cortou:

- Deixa prá lá, deixa prá lá, ih, ih, ah, ah! Ma, ma, ma, mas veja bem, como sabem, a concorrente já começou a nova edição, como é mesmo o programa deles? Ah sim, o Big Brother! Mas é com muita alegria, minhas colegas de trabalho, e muita satisfação, que vamos entrando em mais uma semana em nossa mais nova atração!

Alguns aplaudiram enquanto a maioria do auditório continuava em tensa expectativa. Silvio, comunicador com décadas de experiência, conhecia obviamente seu público, e não tardou para perguntar:

- E qual é a atração, minhas queridas colegas de trabalho?

Repetiu-se o mesmo roteiro, gritos, palmas, berros, e Silvio com evidente satisfação finalmente diz:

- Sim, a Casa dos Etês! Vamos para lá, Lombadi!

Já era a quarta semana da atração, a maior audiência do canal em anos. Uma seleta gama de convidados, terráqueos e alienígenas, convivia 24 horas por dia na casa. A audiência, e naturalmente os negócios da rede, cresciam.
Silvio chamou finalmente a primeira atração:

- Ih, ih, ah, ah, agora sim, vamos primeiro ao quadro do confessionário. Como vocês sabem, cada participante pode ir a qualquer hora até o quartinho fechado, e fazer seu desabafo em frente as câmeras. Quem é o primeiro, Lombadi?

O locutor oculto, que nunca havia aparecido, sempre fora alvo de boatos e rumores, e as mais novas teorias da conspiração diziam ser uma Inteligência Artificial, que era desenvolvida com propósitos escusos pelo CBT havia muitos anos, nada respondeu. Silvio, que não era bobo nem nada e conhecia cada teoria disse, como se falasse com alguém da produção:

- Ô, produção? Alôôô. Produção, ih, ih, ah, ah, ainda não arrumaram o problema? Como é produção? Bug? Que bug é esse? O Lombadi foi andar de bug? Ah, bug como o Bug do Milênio? Teremos que reformatar o Lombadi? Ah, produção, logo agora? Desse jeito os teóricos da conspiração vão continuar dizendo que o Lombadi é só um programa de computador! Logo o Lombadi, nosso amigo de tantos anos!?

- Ô, Silvio, aqui estou eu! – disse Lombadi. – Meu microfone deu problema, patrão!

- Mesmo, Lombadi? – perguntou Silvio morrendo de rir. – Tem certeza que não deu algum pau em sua programação?

- Puxa, patrão, o quê é isso? Já trabalhamos juntos há anos, e o senhor sabe muito bem que eu sou de verdade! Quer ver?

Passos se aproximaram dos bastidores, produto obviamente da sonoplastia, mas Silvio disparou:

- Vai prá lá, vai prá lá, Lombadi! Nada de aparecer, eu sei que você é de verdade, e você também sabe, vamos ficar assim. Então, agora, vamos ao quadro do confessionário!

O primeiro no confessionário foi Dado Frota, conhecido pit-bad-boy, produtor de shows de funk, marombeiro, criador de casos, frequentador assíduo de páginas de fofocas e policiais, e ator e diretor de filmes eróticos que cultivava uma aura de machão, mesmo quando atuava em cenas “calientes” e muito explícitas com outros atores tão másculos quanto ele com os quais era frequentemente visto em casas noturnas. Parecia muito aborrecido:

- Essa semana foi horrível! Malditos ETs! Como puderam nos colocar com um baitôla filho da ppppppiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii (campainha colocada pela equipe de edição de som a fim de abafar palavras de baixíssimo calão pronunciadas dentro da Casa dos Etês) que troca de sexo?

Frota foi destilando suas lamúrias, enquanto a tela dividida mostrava seu tórrido e rápido relacionamento com Reneeh, maravilhosa, gostosona e voluptuosa loira alienígena que era uma das principais atrações da Casa dos Etês.

Os visitantes provinham de várias culturas, e muitos eram de fato altos, loiros, de olhos azuis e corpos deslumbrantes. Como usualmente vestiam roupas inteiriças e justas, sua aparência não chegava a ser uma unanimidade em termos de popularidade.

Alguns, óbvio, adoravam aqueles corpos femininos e masculinos quase perfeitos e emoldurados pelas roupas alienígenas. Uma conhecida e muito veterana apresentadora do canal de Silvio fazia questão de ter os visitantes em seu programa, e dizia que eram “uma gracinha”, e “pedaços de mal caminho”, e até chegava a dar suas apalpadelas quando os aliens, entusiasmados com os ritmos tropicais e funkeiros, se dispunham a dançar com a mulher no meio.

Mas entre estes alienígenas, havia aqueles que não poderiam realmente ser qualificados como simples seres aparentados aos humanos. Havia uma porcentagem que se constituía de transmorfos, seres que alternavam seu gênero a determinado transcorrer de tempo. Normalmente a cada 10 ou 20 dias, quem era mulher passava a ser homem, e vice-versa. Passado o mesmo tempo, ocorria nova troca de gênero.

- Pode parar, pode parar! – pediu Silvio. - Já estamos ao vivo com os participantes na sala? Ótimo, vamos para lá!

Alguns dos participantes já estavam presentes, e sentado ao lado de Arizinho, o participante gay da Casa dos Etês, estava Reneeh, com os mesmos cabelos longos e loiros, mas agora na forma de um belo e másculo rapaz.

- Reneeh, está me ouvindo? – pergunta Silvio.

- Sim, estou, Silvio! É um prazer estar de novo com você e suas colegas de trabalho. Um beijo a todos!

O auditório aplaude, enquanto Reneeh deixava claro que os visitantes haviam se acostumado bem rápido ao calor humano brasileiro. Silvio espera um pouco, e diz:

- Mas então, Reneeh, tem uma coisa que acho que toda a audiência do Brasil quer saber, como funciona isso?

- Isso o quê? – Reneeh, ao longo dos dias de confinamento, havia sido mais uma comprovação, como outras vistas nos noticiários, que muitos dos visitantes não eram assim tão adiantados.

- Essa história de uma hora ser homem, outra hora ser mulher...

Todo mundo que assistia já havia reparado que Reneeh e Arizinho estavam de mãos dadas, e o alienígena finalmente respondeu:

- Bem... é como somos, Silvio. As vezes homem, as vezes mulher... Acontece com todos em meu planeta.

- E se você ficar grávida enquanto é mulher? – intrometeu-se Shyang, que se apresentava como cantora, atriz, modelo, escritora e pornógrafa. Estava de mãos dadas com Zé, que balançou a cabeça cinza e piscou os olhos negros.

- Ah, nesse caso, se eu enquanto sou mulher engravido, aí a mudança fica bloqueada até eu dar a luz. Imagine o problema que seria, não é mesmo?

Todos riram, e Silvio resolveu perguntar outra coisa:

- Mas então, Reneeh, estou vendo que está de mãos dadas com Arizinho, e então, o que vocês tem para nos contar?

- Ah, Silvio – começa Arizinho todo contente – Foi uma alegria essa semana! Desde que Reneeh mudou, virando esse bofe escândalo, nós nos aproximamos e ficamos... bem, muito íntimos, não é, meu anjo loiro?

Reneeh confirmou com um sorriso, e os dois se beijaram, o que estava sendo motivo de muita confusão e polêmica desde que a atração havia começado. Duas modelos e atrizes, Soraia e Maria, já haviam sido eliminadas nas semanas anteriores, mas enquanto estiveram na casa seus beijos e pegações em todos os momentos fizeram os eternos monitores e guardiões dos bons costumes na televisão brasileira começar uma verdadeira cruzada, com o fim de tirar a atração do ar.

“Pouca vergonha” e “baixaria” eram os termos menos pesados que essas pessoas usavam, e uma guerra estava para começar entre os grupos moralistas e aqueles que defendiam os gays, mas Silvio, obviamente, adorava, pois a audiência quebrava recordes a cada dia. Para ele, nada poderia ser melhor que o novo relacionamento entre os dois.

Como Reneeh e Arizinho trocassem beijos cada vez mais ardentes, Silvio os interrompeu, chamando:

- Ma, ma, mas, Reneeh... Pára um pouco, esfriem um pouco vocês dois, ih, ih, ah, ah.

Eles se separaram, mas continuaram de mãos dadas, e Silvio perguntou:

- Mas Reneeh, quando você mudou, e Frota não te quis mais, você a princípio quis ficar com Anabela. Falando nela, por onde anda?

Anabela era apresentadora de um telejornal do canal, e fora convocada para a atração, onde reviveu os dias de modelo e dançarina. Havia dado em cima de Frota e de Carlos, este um surfista com pretensões de ator que só queria saber de Shyang. Depois Anabela ainda tentou seduzir o nerd Valmir e os alienígenas Zé e Joel, sem sucesso. As intrigas, futricas, fofocas e traições envolvendo todos esses personagens estavam sendo o tempero que fazia a Casa dos Etês um sucesso.

Quando Reneeh e Anabela começaram a se aproximar, surgiu Arizinho que acabou convencendo o alienígena a ficar com ele. A uma nova pergunta de Silvio, Reneeh disse que sua raça não nutria preconceito, e que gostavam de experimentar de tudo.

- Tudo mesmo, querido? – perguntou Shyang.

- Claro, querida Shyang! – respondeu Reneeh. Quem sabe uma noite dessas podemos fazer algo nós quatro, eu, Arizinho, você e Zé.

“Não contem comigo!” - disse Zé. Todos na Casa e a equipe de produção nas proximidades “ouviram” dentro de suas mentes a fala telepática dele. Zé era um alienígena gray, ou cinza, cujo verdadeiro nome era impronunciável aos humanos, como era o caso de todos os seus compatriotas. Para facilitar, escolhiam nomes terráqueos bem simples, e ele optara por aquele. Era um dos que tinha a maior base de fãs na Casa dos Etês.

Sua mensagem telepática era transmitida para a central técnica do canal e enviada na forma de legendas por meio de um aparelho de sua tecnologia alienígena. Mas para auxiliar, e dar ainda um pouco mais de graça ao programa, Silvio havia contratado Pai Ubu-Lelê, conhecido médium, macumbeiro, contatado e guru espiritual e sexual. O homem naturalmente tinha uma ficha corrida, envolvendo estelionato, curandeirismo, exploração da fé alheia e até assédio sexual. Claro, nada que os bons advogados pagos pelo próprio Silvio não resolvessem, pois se algo havia permanecido o mesmo desde a festiva chegada dos visitantes, era a justiça brasileira.

Por cima, associações umbandistas totalmente idôneas e respeitáveis também protestavam contra a presença de Pai Ubu-Lelê, considerada por eles uma afronta. Mas claro, nada daquilo importava a Silvio. Audiência antes de tudo!

E entrou então o folclórico Ubu-Lelê, com suas roupas coloridas, jogando beijos para o auditório que o aplaudia, enquanto dizia:

- Consulta espiritual, aconselhamento energético, encaminhamento e tradução telepática, ligue para o Pai Ubu-Lelê, “ligue djá”!

Aquele era seu refrão, mas Silvio logo cortou, dizendo:

- Vai prá lá, vai prá lá, Ubu! Mas afinal, todos lemos na legenda que Zé parece discordar de você. Ubu, veja bem, isso é muito sério!

Dedo em riste, Silvio fazia o máximo de esforço para tentar esconder que se divertia horrores com aquele quadro. Repetiu:

- Veja bem, Ubu! Você foi chamado para, com suas faculdades telepáticas, ajudar na tradução dos pensamentos de Zé. Como os ETs cinza não falam, só se comunicando por telepatia, eles ofereceram sua máquina tradutora, mas temos por via das dúvidas.. ih, ih, ah, ah – Silvio tentava não rir, mas a situação já era suficientemente ridícula. – Por via das dúvidas, temos que ter um paranormal eficiente para traduzir os pensamentos de Zé.

Pai Ubu-Lelê estendeu as mãos, virou-se para o auditório e disse:

- Pois não, Seu Silvio, vou fazer o meu melhor! Sabe, entrar em contato com uma mente tão evoluída é sempre um grande esforço, mas esse imenso desafio é enriquecedor, pois é uma experiência transformadora, que...

Nesse momento, no telão atrás de Ubu, que focalizava os participantes já reunidos da casa, e nas telas de todo o Brasil, todos puderam ler a seguinte legenda:

- “Experiência transformadora o pppppiiiiiiiiiiii. Esse imbecil, representante de uma facção subdesenvolvida da raça humana... bem, chamar “isso” de “humano” talvez seja uma afronta a todos vocês, nossos anfitriões... o caso é que esse idiota é tão telepata quanto eu sou um modelo para um comercial de roupas de banho!”.

Silvio, sentado atrás de Ubu e de frente para o telão, sacudia o corpo de tanto rir. O auditório ria junto e aplaudia, e Ubu achava que era com ele:

- Neste momento, nosso amigo iluminado Zé, pertencente a um povo superior e muito evoluído, está dizendo que temos que abrir nossas mentes para as energias cósmicas, a fim de podermos passar para a próxima dimensão, e sermos seres de luz e amor como eles...

Zé novamente se manifestou. Os Cinzas normalmente tinham uma tremenda paciência, mas parecia que a de Zé já havia sido toda esgotada, pois sua manifestação telepática, transmitida para as legendas, foi a seguinte: - “Se fizermos isso com você, abrir sua mente, o fedor será realmente nauseabundo... tremo só em pensar!”.

E Silvio e o auditório riam mais ainda. Mas Silvio não gostou quando Zé ainda comentou: - “Deveria ter seguido o exemplo de Axtar, e me recusado a participar”.

Axtar era o líder da delegação de alienígenas da mesma raça que os seres que surgiram em Varginha, alguns anos antes. Aparentavam ser os mais inteligentes de todos os visitantes, e logo Silvio entrou em contato com eles ao surgir a idéia da Casa dos Etês. Mas Axtar recusou-se, preferindo ser o astro de um novo programa justo do canal concorrente, um programa de auditório nas madrugadas de sábado para domingo onde o destaque eram as apresentações sobre a ciência dos alienígenas.

O programa estava indo bem de audiência, e Silvio já havia contratado o astrofísico Marcus Gleidir, cujo lugar foi ocupado por Axtar na grade do outro canal. O cientista era profundo desafeto dos ufólogos, que há anos diziam que os alienígenas chegavam a Terra, e agora que haviam de fato chegado, tornara-se desafeto dos próprios visitantes.

O ponto positivo desses programas científicos era melhorar a qualidade do que era mostrado na TV, apresentando novos conhecimento, e sua audiência crescia. Nem tanto, claro quanto a da Casa dos Etês.

Silvio obviamente não gostou nada da menção a Axtar, e precisou disfarçar para não externar seu desejo de se livrar de Zé. Mas o problema é que sua interação com os outros habitantes da casa, e especialmente com Joel, era segundo as pesquisas de opinião o que mais garantia a audiência do programa.

- Então, Zé – disse Silvio – Como anda seu relacionamento com Shyang? E você, Shyang, como tem sido os dias na Casa dos Etês?

A legenda começou a aparecer, mas os pensamentos de Zé foram interrompidos quando a pornógrafa o abraçou, beijou a grande cabeça cinzenta, e disse:

- Ai, Silvio, tenho tido momentos tão maravilhosos com meu Zezinho... Não é, querido?

- “Ah, claro” – surgiu na legenda. - “Tem sido uma experiência fascinante... se isso significa ter uma maluca ninfomaníaca no seu pé o dia inteiro!”.

Todos riram, e enquanto o pobre gray tentava sem sucesso se desvencilhar, todos notaram um curativo enrolado em torno de seu dedo indicador, que era o maior dos quatro que tinha na mão. Silvio perguntou:

- Ma, ma, mas, mas Zé, o que foi esse machucado em seu dedo?

- “Silvio, como já ficou claro” – nesse momento, o alienígena ergueu o dedo, cuja ponta se acendeu. O detalhe fez ressurgirem na Internet as famosas teorias conspiracionistas que descreviam Steven Spielberg como um contatado ou “escolhido”, e dessa forma pôde acrescentar o detalhe ao adorável alienígena de ET, o Extraterrestre. – “Nós grays possuímos capacidades muito além dos humanos, com nossos cérebros muito evoluídos. Dessa forma, posso satisfazer a todas as necessidades sexuais desta fêmea sem qualquer contato físico”.

- É verdade, Silvio! – intrometeu-se Shyang.. – Meu Zé tem me dado orgasmos maravilhosos aqui na casa! É tão gostoso ficar do seu ladinho, meu etê gostoso!

- “Ninguém merece!” – surgiu na legenda. – “Como eu estava dizendo, o problema é que esta estranha criatura a meu lado faz questão do primitivo contato físico, e como resultado, muito aprecia introduzir meu dedo em... vejam como é difícil tratar desse assunto até para nós, grays altamente evoluídos! Ela insiste em introduzir meu dedo em um certo local de sua anatomia reprodutiva, onde infelizmente há um estranho objeto metálico sem qualquer função”.

O pessoal o auditório ria e gritava, e Silvio, satisfeito, percebeu que aquilo com certeza daria margem a novas polêmicas, ou seja, mais audiência para a Casa dos Etês, e muito mais lucro para ele. Zé concluiu:

- “Então, enquanto durar minha participação neste experimento, lamentavelmente terei que conviver com essas estranhas peculiaridades da raça humana. Especialmente dos brasileiros, que são realmente desconcertantes”.

- Só, véio! Zé, cê se deu bem com essa gostosa, hein, brou?

Nesse momento, chega Joel. Era com certeza o mais pavoroso e pitoresco habitante da Casa dos Etês. Mas era também o mais popular, já com uma enorme base de fãs que não saíam dos fóruns da Internet falando sobre qualquer assunto ligado a ele.

Joel era da raça chamada de chupacabras. Tinha mais ou menos a mesma altura de Zé, ao redor de 1,20 m, olhos vermelhos, uma boca da qual sobressaíam dentes afiadíssimos, uma crista composta de elementos córneos que começava no alto da cabeça e percorria sua espinha dorsal, e mãos de três dedos com garras também afiadas. Mas apesar da aparência de fera, eram criaturas incrivelmente amáveis e sociáveis, que gostavam de aprender os costumes de outras raças, e apreciavam especialmente tomar contato com suas manifestações artísticas.

A razão de sua má fama vinha de incidentes de antes do contato com os visitantes. Em suas viagens a Terra vinham como a maioria, com objetivo de pesquisar. Eram uma raça curiosa e um tanto deslumbrada com as novidades, e também muito distraída. Frequentemente esqueciam companheiros aqui (outra característica que alimentava as teorias conspiratórias envolvendo Spielberg), e um traço biológico desses seres é que sua base alimentar era muito específica. Sem os alimentos que traziam de seu planeta, o único composto que lhes servia na Terra era sangue de aves e mamíferos, com o agravante que um chupacabra com fome acaba regredindo em poucos dias ao estágio de fera faminta.

Os chupacabras tinham uma veia artística muito pronunciada, e o próprio Zé havia composto o próximo samba-enredo de uma famosa escola do carnaval paulistano, e após o final do programa já tinha convites similares de agremiações do Rio. Na Casa dos Etês, logo fez amizade com todos, menos com Frota, e assimilou o vocabulário de surfista de Carlos, que havia sido eliminado na semana anterior.

Joel chegou roendo um grande osso e usando uma bermuda bem florida, sentou-se em uma poltrona e soltou:

- E aí, galera!?

Naturalmente as colegas de trabalho de Silvio aplaudiram de pé, e o apresentador ficou ainda mais satisfeito. Já havia passado ordens expressas ao departamento jurídico para que fosse preparando um detalhado contrato para poder criar novas atrações com o chupacabra. Joel fora literalmente um achado para ele!

- Joel, e então, o que estava dizendo, concordando com o que o Zé comentou de nós, brasileiros?

Joel não parava de roer o grande osso, e Silvio ouvia pelo ponto eletrônico a conversa dos responsáveis pela produção, que se perguntavam onde havia um osso daqueles na casa. Tentando não se distrair, o apresentador se concentrou na resposta do chupacabra:

- Olha, tio Silvio, o Zé aqui disse que os brazucas são peculiares, e são mesmo!

- “Sempre comento” – disse Zé – que o Brasil, com suas belezas naturais, sua veia artística, mas com suas contraditórias idiossincrasias, poderia tanto redimir quanto condenar a humanidade”.

- Isso, brou! – concordou Joel. – As grandes músicas, no meu caso os sambas, os esportes...

- “Mas os espertos de todas as áreas...”.

- E os políticos, então? – perguntou Joel sem deixar de roer o osso. – E essas novelas? O que é aquilo?

- “Lembro-me de algumas das transmissões que captamos da Terra. Jornada nas Estrelas foi divertido, meio cômico, mas perfeita no que tange ao melhor da raça humana, a superação de desafios”.

- Eu gostava dos klingons, brou!

- E eu do Dr. Spock – quis colaborar Arizinho na conversa.

Valmir fez menção de protestar contra essa afronta, mas foi Joel que teve um acesso, ergueu-se e quase pulou no pescoço do rapaz, berrando:

- DOUTOR O SEU pppppppiiiiiiiiiiiiiiiiii, seu boiola!

- “Acredito, Joel” – disse Zé por telepatia – “Que não seja correto aos olhares dos humanos, e talvez também por qualquer ser sensiente, insultar alguém por sua opção sexual, ou qualquer outra opção. Mesmo diante dessas estranhas e primitivas práticas de intercurso físico dos terrestres”.

- E eu acredito que se não ficar com essa sua cabeçona em silêncio, você vai logo, logo levar a sua, Zé! Não acredito que ainda exista algum terráqueo que, diante de uma das melhores manifestações culturais de sua civilização, não saiba que é SENHOR Spock!

Valmir e os demais ainda iam comentar alguma coisa, mas Joel, pelo visto muito animado, acrescentou:

- E olha que alguns entre nós chegaram a sugerir uma votação, prá decidirmos o que fazer com os terráqueos. Não rolou, mas se rolasse, eu votaria por preservar os humanos, pois ao menos tiveram a capacidade de fazer algo tão da hora como Jornada nas Estrelas, falou, brou?

A seguir, os alienígenas engataram um animadíssimo papo, falando agora de livros. Tanto Zé quanto Joel gostavam muito de 2001 de Arthur Clarke, A Fundação de Isaac Asimov, Contato de Carl Sagan... Joel lamentava andar meio sem tempo de ler mais, por causa das tais provas e desafios que havia na casa.

- Pô, brou, agora descobri Julio Verne, meu... Mó da hora!

- “Acho incrível que sua raça tenha tanta facilidade com linguagem. Você pegou até mesmo as irritantes gírias de alguns grupos sociais brasileiros”.

- Cê tem problema com isso, meu? Tá me estranhando?

Zé ergueu o dedo com a ponta acesa, e Joel se levantou de novo, apontou-lhe o osso que ainda roia, e gritou:

- Cê não vem com esse dedo aí, bródi, que eu enfio ele onde não bate sol, falô?

Toda a platéia ria. A cada reunião no sofá da Casa dos Etês, Zé e Joel discutiam por algum assunto. O público adorava, e no final os alienígenas sempre faziam as pazes.

Silvio, voltando a rir, resolveu mudar o rumo da conversa:

- Ih, ih, ah, ah, ma, ma, mas veja bem, vocês dois! Eu não aguento, ih, ih, ah, ah, só usando a Força, mesmo!

- Esses filmes são mó da hora, tio Silvio!

- “Prefiro a Trilogia Clássica, os novos para mim deixam a desejar” – comentou Zé.

- Ô, meu, cê põe defeito em tudo, é?

- Mas parem vocês, seus malucos! – disse Silvio. – Como eu estava dizendo, Zé, você andou meio de mau humor nos últimos dias.

- Meu rango tinha acabado, Silvio.

- Mas a produção não trouxe mais?

- E eu sei lá onde você arruma esses lerdos, tio Silvio!? Tenho certeza que nosso embaixador mandou todas as instruções de como lidar com pessoas como nós. Eles sabem que poderia rolar treta, e ficaram enrolando, enrolando...

Nesse momento, um grito lancinante e aterrorizante veio dos fundos da casa. Surge finalmente Anabela, encharcada de sangue:

- Eu... eu... tropecei e caí... quando fui ver, estava coberta de vermelho... e quando vi o que tinha no chão...

Nesse momento, todos ouvem um enorme e grotesco arroto, e as câmeras se viram para Joel. Da boca aberta do chupacabra, onde se via a temível dentadura do ser, saiu um pequeno objeto cintilante que caiu sobre a mesa de centro, rodopiou um pouco, e finalmente parou.

As câmeras focalizaram, e quando foi dado um close no objeto, todos viram um brinco dourado em forma de aro, igual ao que Dado Frota costumava usar.

Nesse momento, quase todos que estavam na ampla sala olharam pálidos para Joel, que continuava a roer o que algumas pessoas já identificavam como um fêmur.

- Quê qui é, galera? Cês não falaram nos últimos dias que estavam pensando em votar para eliminar o Frota? Ou Fruta, como  Zé o chamava, e quem disse que os grays não têm senso de humor!? Eu estava doido de fome, não queria atacar nenhum de vocês, e como ninguém gostava mesmo dele...

Pandemônio total. Todos se levantaram, até mesmo Reneeh, e saíram correndo em direção a saída da Casa dos Etês, que só seria aberta mais tarde naquela noite. Silvio, ainda sem entender muito bem, saiu-se de primeira com mais um bordão:

- Ele morreu, ele morreu, ele morreu... ahn!? O que foi produção? Ah... mas morreu mesmo?

Como, logo após a chegada dos visitantes, foram assinados acordos que garantiam total e completa imunidade a seus representantes, nada aconteceu a Joel.

Por cima, ninguém mesmo sentiu falta de Dado Frota. O pit-bad-boy conseguiu arrumar briga com todos os habitantes da casa, partindo o coração de Reneeh e Arizinho, saindo arranhado de uma briga que custaram a separar dele com Joel, e quase sendo partido ao meio pelos poderes telecinéticos de Zé.

A audiência daquela noite foi recorde histórico para o Canal Bozo de Televisão. E permaneceu altíssima para o canal e para todos os programas de fofocas dos demais canais, que exploraram o caso por semanas a fio. Discutiu-se o direito a imunidade dos etês, em canais de certas seitas eles continuaram a ser genericamente chamados de coisa do demônio, e para quem gostava de sensacionalismo era o paraíso.

A reprise da Casa dos Etês, que durou até que a segunda edição estreasse, continuava com grande audiência, superando o Big Brother da concorrente.

O número de inscrições para a segunda edição de A Casa dos Etês já era recorde apenas dois dias após o incidente que encerrou prematuramente a primeira edição. Joel finalmente assinou contrato com o CBT para ser apresentador de um programa de auditório nos domingos a tarde. Zé foi contratado por uma editora para escrever o livro “A Casa dos Etês, a Astrofísica e a Filosofia, como melhorar sua vida com os conhecimentos dos visitantes”. E continuava negando sofrer qualquer influência da civilização humana.

Mas antes de tudo isso, depois que todos haviam fugido, as câmeras continuaram a mostrar Zé e Joel, ainda sentados no sofá. O chupacabra não largava seu osso.

- E aí, brou, quer um teco?

- “Definitivamente não. Não sei como consegue comer isso”.

- E eu não sei como você consegue comer aquela pirada que estava com você.

- “Eu fui praticamente sequestrado aqui dentro desta casa”.

- Para isso seu dedo não serve? Por que diacho não deu um jeito nela?

- “E quem disse que não tentei? Nunca falhou antes”.

Joel deu risada, dizendo:

- Então deve ser o amor, mesmo, brou!

- “Algo tão indefinível quanto primitivo é para mim simplesmente incompreensível”.

- Se vocês grays são mesmo tão evoluídos quanto gostam de alardear, então deveriam ser capazes de aprender. É o amor, brou, tudo que importa! Amor por uma boa comida... por uma boa música...

- “Este mundo definitivamente está nos contaminando. Quero dizer, contaminando você. Um chupacabra falando de amor”.

- É o único jeito de te ensinar, brou, eu explicando prá você, sacou?

- “Sua forma de falar me irrita. Conheço uma maneira melhor de você me transmitir essa informação”.

Zé já ia erguendo o dedo com a ponta luminosa, mas Joel, ressabiado, levantou-se e pulou para longe, assumindo posição de ataque e gritando:

- Vai com essa pppppppiiiiiiiiiiiiii de dedo prá lá, Zé!

FIM

Gostaram? Comentários abaixo, por favor!

O sujeito simpático da primeira foto, claro, é Paul, o alienígena mais engraçado e desbocado do cinema, astro do filme de mesmo nome de 2011. Justificadamente odiado por dez entre dez criacionistas, adeptos do design inteligente e mistificadores, o que ao lado das inúmeras referências nerds, o torna obrigatório! Confiram o trailer!


Aproveitando o tema alienígena, sugiro a todos o site da revista Ovni Pesquisa, onde podem conferir a edição 3, para a qual dei uma pequena contribuição com um artigo a respeito dos 25 anos de Arquivo-X. Como sabem me afastei da ufologia em 2018, mas aceitei o convite para comentar uma das produções de Ficção Científica mais importantes e influentes de todos os tempos. E ainda mencionei alguns grupos de amigos que fazem o bom trabalho de divulgação desse nosso mundinho nerd, como Sindicato do Fã, Arquivo-X Brasil, Calendário Geek e Aumanack!


Continuando no tema, na Amazon está disponível minha coletânea de contos Filhas das Estrelas, e-book pela Editora Estronho. Porque, afinal...


Não deixem de conferir meu roteiro fanfiction Ducktales: O Implacável Vingador. E na próxima quarta, mais um texto da série de artigos sobre Fantomius, o Ladrão de Casaca!

Até a próxima!