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quarta-feira, 19 de outubro de 2022

A LISTA: OS EDITORES DA NAÇÃO


A Lista é um fórum e rede social da qual participam produtores e divulgadores de conhecimento. Escritores, professores, jornalistas, cientistas e muitos outros. Cada um deles habita um universo paralelo distinto, uma realidade, um mundo, um Brasil que pode ser semelhante ao nosso, mas também muito diferente. Acompanhe agora mais uma história, situada em um distante universo que pode estar muito próximo de nós.


Ás 19 horas em ponto, como vinha acontecendo há treze anos, todos eram obrigados a manter seus televisores ligados. O pronunciamento do presidente da Suprema Corte, Barnabé de Nonato, começou pontualmente, e ele começou como de habitual:

— Brasileiras e brasileiros, novamente lamento informá-los que as empresas e portais recusam-se a colaborar com as iniciativas sociais e de defesa da democracia brasileira capitaneadas por esta Suprema Corte. Continuam a resistir a esta iniciativa democrática, mesmo diante dos alertas de que o acesso à internet pode vir a ser cortado para nosso país, caso não se disponham a colaborar e exibir este pronunciamento ao vivo.

Machado Monteiro de Assis, batizado em honra ao grande escritor brasileiro que havia sido proscrito naquela realidade, pois a fina ironia, o humor sutilmente sarcástico e o refinamento linguístico eram intoleráveis para a ideologia dominante, pensou na época em que conseguia rir daquilo.

As multas pesadas e a ameaça de suspensão de acesso a quem não ligasse seu televisor para assistir ao pronunciamento do juiz dependiam inteiramente do monitoramento, via internet, desses mesmos televisores. E na prática era impossível para plataformas de vídeo obrigar os usuários a assistir aos pronunciamentos. Restava ao magistrado mandar prender jornalistas e humoristas que se atreviam a manter-se no ar no mesmo horário, fazendo troça e comentários irônicos quanto a sua fala.

— Sob minhas ordens – prosseguiu Barnabé – os deputados federais Walter Kovacs, Cristina Bernardes, Geraldo Aparecido e Dora Neves foram presos pela Polícia Federal. Sua recusa em votar a favor do Projeto de Lei 2630-2020, a Lei de Garantias de Diversidade, Inclusão e Verdade na Comunicação, uma iniciativa louvável destinada a restabelecer a paz, a liberdade e a democracia de forma definitiva em nosso país é incompreensível e inaceitável. No site da Suprema Corte também estão listados os nomes de outros parlamentares que infelizmente precisaram ser detidos e ter o seu mandato suspenso, por exercerem seus votos no Congresso Nacional de forma contrária aos interesses da sociedade.

“Contrária aos interesses da sociedade”, pensou Machado, significava contrária aos interesses de Sandero Salvador, líder do partido nanico Sustentação Social. Ele era, havia anos, o ocupante de um cargo novo criado pela própria Suprema Corte, o de Primeiro Fiscal da Justiça Social, um testa-de-ferro da corte no congresso. Assis verificou o site e constatou, sem qualquer surpresa, que entre os presos estava o senador Fernando Delagnol, autor de vários pedidos de impeachment contra Barnabé de Nonato.

Também sem surpresas, Nonato não se referiu a ele, mas exaltou seu cúmplice Salvador:

— Quero louvar e parabenizar as iniciativas e esforços incansáveis do senador Sandero Salvador, uma voz atuante e firme no combate às forças que ameaçam nossa democracia. Ele e seu partido, a SS, merecem o espaço que têm ocupado cada vez mais na cena política brasileira.

“Meus Deus” pensou Machado, “eles sequer têm vergonha de usar a sigla SS”. E novamente refletiu como a SS nunca teve votos suficientes para conseguir a aprovação de suas propostas no congresso, mas aprenderam depressa a judicializar sua atuação parlamentar e conseguir o que pretendiam na marra. Sempre, é claro, se dizendo “democratas”.

Cansado, ele fechou a janela do vídeo de Barnabé na tela do computador. Fazia anos que não tinha televisor, então não sofreria punição pelo gesto. Não que não tivesse problemas... Mas decidiu que a melhor maneira de desabafar seria com seus amigos na Lista.


De: Machado de Assis

Para: A LISTA

Assunto: Re: “Defender a democracia” destruindo a democracia


Olá, colegas da Lista. O cerco contra as liberdades e a democracia no Brasil de meu universo, feito pelas instituições que deveriam zelar pelas leis, pela Constituição e por essa mesma democracia, segue cada vez mais cerrado. Eu poderia encarar com ironia esse ataque contra a democracia feito alegadamente para defender a democracia, mas até mesmo a ironia está sendo abolida de artigos, textos, contos e livros por aqui.

Quando conseguimos colocar um fim ao governo populista de Kleyton Hernandes, que destruiu a economia da nação e tentou por inúmeras vezes instituir controles das liberdades, sempre por meio de eufemismos como “controle social da mídia” e “democratização e regulação dos meios de comunicação”, acreditamos que estávamos livres do tal “progressismo” que é na verdade o pior dos autoritarismos.

Infelizmente estávamos errados. Esse período tenebroso de quatorze anos deixou como legado a politização de inúmeros círculos da sociedade, da política e do aparato estatal, através da infiltração de militantes e ativistas que não buscam meramente defender uma causa ou agenda, mas sim impô-la pela força sobre todos os demais.

As primeiras infiltrações, evidentemente, foram na educação, e estima-se que gerações tenham sido perdidas para a ideologia “progressista”. O resultado são bandos de analfabetos funcionais e autênticos fanáticos ideológicos que não medem esforços para destruir cada pilar da civilização que nos separa do caos.

O virtual comando do país passou para a Suprema Corte, que se imiscuiu indevidamente nos demais poderes, colocando-se acima deles com literalmente poder absoluto sobre cada aspecto da vida da nação. Pelo visto acreditaram quando Tenório Damásio, antigo funcionário do partido de Hernandes e um dos juízes da mais alta corte, afirmou serem eles os “editores da nação”.

Houve, claro, os que aplaudiram e ainda aplaudem os abusos dos juízes sobre as liberdades mais fundamentais, base de qualquer democracia. Alguns entre estes não demoraram a sentir eles próprios a “defesa da democracia” comandada pelo presidente já duas vezes reeleito da corte, Barnabé de Nonato. O Congresso Nacional, que deveria ser a instituição que julga tais delitos, é comandado por autênticos covardes cujos próprios processos de que são réus, na mesma Suprema Corte, servem como elemento de pressão para que nada seja feito.

E foi até mesmo criado um novo cargo, Primeiro Fiscal da Justiça Social, ocupado pelo senador Sandero Salvador, autêntico fiscal dos juízes no congresso. “Equilíbrio e harmonia entre os poderes”, os colegas me perguntam? Ameaças de prisão e processo foram o que de mais leve se fez contra outros juízes, advogados, jornalistas, comentaristas e escritores que se atreveram a lembrar desse princípio civilizatório fundamental.

Tornou-se um perigo acreditar que continuamos a viver em um regime de plena liberdade de expressão.

Eles clamam por diversidade mas abominam a diversidade de expressão e opinião. Afirmam defender a inclusão, mas excluem e cancelam os que discordam de suas ideias e métodos. Se apresentam como promotores da paz, amor e união, mas segregam e calam os que recusam a exigência de se ajoelhar e lhes dedicar fidelidade absoluta.

A caterva operadora desses ideólogos nas fronteiras digitais, da internet e redes sociais, por sua vez, age por meio de derivados atuais e tecnológicos das fogueiras de livros da Alemanha nazista dos anos 1930, flagelo que sei que atingiu várias das paralelas dos colegas. Até mesmo Machado de Assis, com suas inteligentes e ácidas ironias e críticas sociais, foi “cancelado” por essa gente, ávida por defender a “inclusão”, a “diversidade” e a “democracia” combatendo de todas as formas a diversidade mais elementar que pode existir, a de opinião e expressão.

Batizado em honra ao grande Machado original, eu mesmo me tornei escritor graças à paixão que me foi transmitida por meu pai. Talvez tenha sido por isso que fui escolhido para esta misteriosa e fascinante Lista, onde há tantos e tantos outros colegas das letras e do conhecimento. E, embora tenha travado contato com aterrorizantes relatos de como a revelação da existência da Lista em diversas realidades resultou em catástrofes e até mesmo em eventos apocalípticos, não poderia mais virar as costas para o que vem acontecendo em meu Brasil.

Por isso tenho compartilhado todas as informações possíveis que me chegam, vindas desse impressionante Multiverso, na esperança de trazer racionalidade ao debate. Porém, como podem imaginar, o resultado não foi tão auspicioso quanto minhas esperanças.

Sou o mais novo a ter o nome vinculado ao Processo de Combate às Mentiras e Enaltecimento á Verdade, com o qual a Suprema Corte pretende dar o que descreve como o golpe final contra os que alega ameaçarem a democracia. Estou neste momento hospedado no maior edifício do país, a nova sede da Suprema Corte em Brasília, aguardando o momento de minha audiência com os juízes.

Tenho uma ótima advogada, amiga de muitos anos. A questão é que nem ela, nem os advogados dos demais réus, teve acesso aos autos do processo.

E eles dizem que o mesmo se destina a “defender a democracia”.

Ah, a ironia e o sarcasmo... quem diria que se tornariam tão perigosos?

Até breve, se for possível.



Assis enviou a mensagem para A Lista. Como ainda havia tempo, repassou as mais recentes notícias a respeito das violências cometidas contra a liberdade, travestidas de “defesa da democracia”. Ainda funcionava um fórum do qual era um dos fundadores em uma rede social, e ele leu os comentários sobre um sarau literário acontecido na noite anterior.

Vários autores, a maior parte seus conhecidos, participavam do evento em um bar em São Paulo. Diversos livros e antologias foram lançados, todos sem qualquer ligação com o tragicômico “progressismo”, o bar estava lotado e havia grandes filas para autografar os exemplares. O evento foi subitamente interrompido pela chegada da Polícia Federal, que impediu a saída das pessoas e interrogou cada um dos presentes.

Na ação, ordenada pelo juiz Nonato com base em um pedido do quase onipresente senador Salvador, todos os volumes foram apreendidos, incluindo os já comprados pelos frequentadores. Todos foram interrogados, e já era de manhã quando as primeiras pessoas foram liberadas para ir para casa. Editores e boa parte dos escritores presentes foram conduzidos à sede mais próxima da Polícia Federal para esclarecimentos mais detalhados, e conforme notícias postadas por quem estava no evento os profissionais das letras, escritores e escritoras, editoras e editores, estavam sendo mantidos incomunicáveis, sem comida ou água à disposição.

A mídia, em sua maioria, enaltecia a ação repetindo as palavras de Nonato, de que “toda e qualquer ameaça contra a democracia e as instituições deve ser investigada e, quando confirmada, duramente punida”. A alegação do Primeiro Fiscal para motivar a ação chegava a ser patética: “Esses pretensos escritores estão misturando política e justiça com ficção, buscando atingir as fundações das instituições”, disse ele em uma entrevista apresentada naquela manhã. “Inserir no palco sério do Congresso Nacional histórias mirabolantes e fantasiosas é certamente uma tentativa sub-reptícia de atingir a imagem e a honra dos congressistas”, afirmou ele a respeito de uma antologia lançada naquela noite, cujo tema a ser explorado pelos autores participantes era “Conspirações do Poder”. E da qual o próprio Assis era um dos participantes.

Em outros fóruns literários a operação da PF era saudada como uma “vitória contra os ‘fascistas’”, isso vindo do mesmo grupo que sempre defendeu que “política e livros sempre caminharam juntos”.

Machado pensou em responder aos comentários mais virulentos do pessoal “progressista”, mas desistiu. Havia coisas mais prementes com as quais ocupar a mente, e ele havia muito perdera qualquer vontade de discutir com fanáticos. A situação o lembrou de relatos similares que havia lido nA Lista. Como o de Amanda, que se arriscava a estudar Letras e a escrever em um Brasil onde o louvor à mediocridade vindo da versão deles de Kleyton Hernandes havia chegado a níveis estarrecedores. Sair à rua com um livro na mão naquele universo era arriscar a vida. A própria Amanda, ao corrigir um texto no computador de uma lan house havia alguns anos fora insultada de “elitista” por alguém que observara seu gesto.

Pior sorte teve Michelle, em uma realidade na qual o (des)governo de Hernandes impingiu uma tal “lei de proteção da cultura nacional” proibindo toda e qualquer manifestação artística que fosse considerada estrangeira. Perseguida por escrever, produzir e divulgar obras de artistas que faziam questão de permanecerem livres ela fora assassinada por agentes governamentais, e agora o membro dA Lista naquela realidade era seu namorado Marcelo.

Machado se lembrou então do momento em que decidira tornar públicos os arquivos e relatos dA Lista que recebia, na desesperada tentativa de mostrar ao público e as pessoas que tinham poder de decisão que a realidade era incomparavelmente, infinitamente maior do que qualquer um deles podia imaginar. Que erros como os que vinham sendo cometidos em seu Brasil trouxeram a ruína e a destruição a inúmeras outras versões deles através do Multiverso.

Lamentavelmente, só havia conseguido com isso chamar a atenção errada para si. Foi acusado de “conspirar contra a democracia” e “convidado” a ir a Brasília para prestar esclarecimentos. Alguns poucos corajosos jornalistas e instituições de imprensa estavam a seu lado, bem como a maior parte de seus colegas.

Mas a corrupção de grandes conglomerados de mídia, mancomunados com autoridades que abusavam de seus poderes cada vez mais, estavam tornando a liberdade uma mercadoria cada vez mais escassa na sociedade.

A porta do apartamento que fora cedido para ele se abriu após uma leve batida e Maria Cláudia, sua advogada, colocou meio corpo para dentro e disse:

— Machado, está na hora.

O escritor olhou para ela, sorriu levemente e suspirou. Antes de fechar o laptop e inseri-lo na maleta que levaria, viu uma última notícia.

Sandero Salvador havia acabado de postar em suas redes sociais o anúncio de que estava elaborando um projeto de lei emergencial de defesa da cultura brasileira, e um dos pontos era a proibição do uso de alegorias ou referências a qualquer instituição governamental nos três níveis da federação. Também escreveu “ser premente a necessidade de discussões no sentido de purgar a cultura brasileira, em todas as mídias, de gêneros sabidamente estrangeiros que conspurcam e tiram espaço da legítima e diversa cultura nacional”.

No vídeo era possível ver algumas manchetes nos jornais espalhados por sua mesa, descrevendo as divulgações que ele, Machado, havia feito do material recebido via A Lista.


O gigantesco edifício da Suprema Corte em Brasília, o mais alto do país com 400 m até o topo, tivera um custo estimado de quatro bilhões em moeda corrente. Fora alvo de inúmeras denúncias de corrupção e mal uso de verbas públicas, especialmente por parte do juiz Ladislau Neto, que comandou a obra. A imprensa em seus bons tempos esmiuçou as contas de sua construção, antes de o mesmo Barnabé de Nonato decretar sigilo de cem anos para os documentos.

Machado e Maria caminharam pelos corredores suntuosos, revestidos por alguns dos mármores mais caros disponíveis no mercado internacional. Depois de tomarem dois elevadores, pois por questão de segurança nenhuma dessas máquinas proporcionava acesso a todo o prédio, chegaram ao salão onde se davam as audiências e interrogatórios do Processo de Enaltecimento à Verdade, versão reduzida do título utilizada por todos os juízes da corte.



Maria verificou mais uma vez o comprimento da saia, arcaísmo que a presidência de Nonato havia retomado, ajeitou a beca preta que todo advogado deveria vestir em audiências na Suprema Corte, e deu uma última olhada no terno e gravata de Machado. Os seguranças e auxiliares dos juízes que os acompanhavam observaram a cena, e depois um auxiliar abriu a enorme porta, com detalhes banhados a ouro, e lhes franqueou passagem.

O salão, repleto de estátuas e retratos de juízes que se destacaram ao longo da história daquele tribunal, fazia os corredores que atravessaram parecerem os de um hotel de beira de estrada.

Estavam presentes os juízes Barnabé de Nonato e Tenório Damásio, além do senador Sandero Salvador. Andando para o assento central, diante da comprida mesa dos juízes e onde o político também se acomodava, Assis cochichou para a advogada:

— O que esse pulha está fazendo aqui?

Maria respondeu tão baixo que ele mal pôde ouvir:

— Pelo amor de Deus, Machado! Se controle, homem, que o Nonato é capaz de mandar prender nós dois! Pelo que ouvi de colegas é comum esse filho da puta estar presente, especialmente quando o interrogado é muito conhecido.

“Maria também não gosta de Salvador, que alívio”, pensou Machado, sorrindo de leve.

Ele se acomodou em seu lugar, ficando em pé enquanto não lhe mandavam sentar. Maria ficou ao lado, no lugar designado ao advogado.

— O interrogado trouxe seu computador, como requisitado? – perguntou um dos auxiliares.

Os juízes o olhavam com ar de nítida superioridade, ao passo que Salvador mantinha uma expressão de galhofa arrogante no rosto. Assis tirou o laptop da pasta e o colocou na pequena mesa diante dele. O auxiliar conectou o aparelho ao sistema de exibição do salão, ao mesmo tempo em que uma grande tela plana descia à direita de Machado. Então o escritor e sua advogada tiveram permissão de se sentar.

Nonato começou com um discurso em que burocrática e mecanicamente agradecia pela colaboração, e já começou pedindo esclarecimentos a respeito “dessa tal Lista”, como a chamou. Machado ficou em pé, respirou fundo, acionou os comandos apropriados no laptop e as informações foram exibidas no telão, ao mesmo tempo em que ele fazia sua apresentação:

— A Lista – disse Machado —  é parte um fórum de discussão e parte uma rede social, da qual participam escritores, jornalistas, professores, cientistas, advogados... todos, sem exceção, ligados de alguma forma à produção, divulgação e propagação do conhecimento. São incontáveis os participantes, divididos em grupos por afinidade, localização no Multiverso, áreas de interesse e afins. E, como já ficou claro, cada membro se situa em um universo paralelo distinto.

— O senhor afirma que existe esse... Multiverso, mas não apresenta provas – observou Damásio.

— Juiz, as provas estão aí para os senhores as verificarem. Já submeti os arquivos de meu computador a seus peritos, que tiveram total liberdade de copiá-las.

— Quem disse que o senhor não inventou toda essa fantasia? – questionou Sandero Salvador.

— E quem designou o senhor, membro do Parlamento, para participar do interrogatório de um processo de outro Poder? – inquiriu Assis sem se conter.

— Exijo que me respeite! – gritou subitamente Salvador com sua conhecida voz fina e estridente.

— O senador Salvador está aqui, como acontece em vários casos especiais, e o do senhor é um destes, como deferência a seu cargo de Primeiro Fiscal da Justiça Social – comentou Nonato, parecendo se divertir com a situação. – O senhor, Assis, irá tratá-lo com o mesmo respeito, urbanidade  e reverência reservado a nós, juízes da Suprema Corte.

“Pode apostar que sim”, pensou Machado divertindo-se. O escritor fez uma leve reverência inclinando-se para frente, e respondeu:

— Digo então ao nobre parlamentar para se lembrar de minha produção literária. Ainda sou relativamente jovem, e tenho nove livros publicados, além de participação em outras tantas antologias, e postagens de histórias curtas em meu site pessoal. A mais recente antologia, aliás, foi Conspirações do Poder, lançada na noite passada em São Paulo, como acredito que devem ter ficado sabendo. Ainda escrevo, por enquanto, para duas revistas e um jornal literários, lembrando que um desses veículos recentemente teve um de seus números recolhido por suposta “ameaça à democracia”. Então, senador, se pensa que com toda essa intensa e variada produção literária eu ainda teria tempo de criar A Lista e falsear todo o material divulgado, não posso deixar de ficar lisonjeado. Mas de fato seria impossível, com meu conhecimento, inventar as informações que disponibilizei a todos, incluindo os senhores.


— O senhor alega que em outras dessas... como se refere a elas mesmo? – questionou Nonato folheando suas anotações. – Sim, realidades paralelas, existem versões de todos nós, e situações que se assemelham às que vivemos aqui?

— Sim senhor.

— E sua intenção com essa pretensa revelação é alterar o rumo que os acontecimentos têm tomado em nosso país?

— Evidentemente, no sentido de corrigir enganos e abusos sendo cometidos em nome de... como é que os senhores se referem? — Machado consultou um caderninho que havia trazido, mas depressa o fechou e postou ao lado do laptop. – Ah, claro, “defesa da democracia”.

Foi visível a exaltação tomando a expressão de Barnabé, tanto que Maria se levantou e disse:

— Senhores, estimados juízes, entendam que meu cliente não pretende de forma alguma insultar esta Suprema Corte com suas observações. Ele é um escritor, um artista, e por vezes experimenta dificuldades em sair da linguagem literária.

A advogada lhe lançou um olhar furioso. Barnabé continuava com expressão de poucos amigos, e Assis respondeu aos dois com neutralidade no olhar.

— Pretendo, com a revelação da existência da Lista e a divulgação de quantas informações forem possíveis que dela recebo – prosseguiu o autor, — mostrar para todos que a realidade como a concebemos é infinitamente mais complexa do que podemos imaginar, e que não devemos cometer em nosso Brasil os mesmos erros que levaram outras versões de nosso país à ruína, em diversos universos paralelos.

— O senhor está brincando com esta Suprema Corte, e será punido por isso! – exasperou-se Tenório.

— Senhor juiz, tivemos em anos recentes uma pandemia que ceifou inúmeras vidas, e na qual um dos motes era “respeitar a ciência”. Muitas das informações científicas que tenho divulgado, recebidas dA Lista, têm sido corroboradas por membros da comunidade científica, aqui e no exterior. Recebi mensagens entusiasmadas de cientistas, afirmando que suas pesquisas poderão avançar anos com essas informações. Será que isso não bastará para os senhores? Devemos respeitar a ciência como um todo, ou como tem sido o caso em nosso país nas últimas décadas, especialmente no tocante à matemática, biologia, genética, e agora astronomia e astrofísica, depende da ciência?

Machado olhou para o lado, e Maria lhe implorava com o olhar para maneirar. Damásio ainda o olhava com fúria, Nonato demonstrava ganas de mandar colocá-lo a ferros. Por sua vez, Salvador parecia se divertir.

Foi do senador o aparte seguinte:

— Com a permissão do eminentíssimo juiz Barnabé de Nonato, gostaria de fazer uma pergunta ao interrogado.

Nonato olhou de lado, depois se virou para Assis e disse:

— O nobre senador da SS pode se manifestar livremente.

Machado de novo ficou embasbacado pela naturalidade com que usavam aquela sigla, e aguardou a palavra do político.

— Senhor Machado de Assis, o senhor aludiu a versões de nosso país, até mesmo versões de pessoas nessas outras realidades. Pode exemplificar?

O escritor olhou para o político com expressão neutra, mas por dentro sua mente fervilhava. Havia se preparado para aquela eventualidade, e abriu um arquivo que separara caso aquela oportunidade se mostrasse.

No telão luziam arquivos de reportagens de Brasis de outros universos, mostrando a atuação dos duplos de Barnabé de Nonato e Sandero Salvador. Até mesmo vídeos dos dois personagens foram exibidos, enquanto Machado explicava:

— Este duplo do senhor, juiz Nonato, é escritor e professor em sua realidade. Tornou-se o primeiro brasileiro a vencer o Prêmio Nobel na categoria de literatura. E recentemente precisou fugir do país a fim de escapar da perseguição movida contra ele pelo regime de Kleyton Hernandes.

O silêncio se instalou no grande salão. Machado olhou ao redor e reparou que mesmo os assistentes observavam, mudos de espanto, as informações. O autor prosseguiu:

— Quanto a seu duplo, senador, é um advogado em sua paralela, e muito conhecido por defender críticos e dissidentes do regime de Eusari Serra, cúmplice da versão deles de Hernandes que o sucedeu naquele Brasil.

Ele viu que Salvador conteve a respiração por um momento. Fora um dos mais radicais na defesa do governo inepto de Serra em sua realidade, na época em que a incompetente ocupava a presidência e fora impedida após o devido processo no congresso, que sua facção chamava de “golpe”. Assis prosseguiu:

— O advogado Sandero Salvador desse Brasil paralelo já foi hostilizado diversas vezes por grupos radicais defensores de Serra e Hernandes, e esse mesmo grupo costuma aparecer nas sedes dos veículos de imprensa e mídia quando ele concede entrevistas. Desnecessário dizer que muitas destas foram vandalizadas por esses criminosos.

— Quem o senhor chama de “criminosos” eu chamo de defensores da democracia plena! – disparou Salvador. – É realmente reconfortante saber que em outros lugares se praticam ações libertadoras como as nossas!

Machado aguardou um momento, e como o senador não se desse conta do que acabara de dizer, disparou:

— Quer dizer então que agora o senhor não considera mais que tudo isto são “fábulas”, senador?

Por um instante houve um nítido princípio de pânico na expressão do político. Era comum que ele fosse apanhado em contradição por seus adversários políticos no congresso, ocasiões em que sempre se desenrolavam cenas que dificilmente se enquadrariam no afamado “decoro parlamentar”. “Está mais para decoro para lamentar”, riu-se Assis. Mas depois que surgiu a cumplicidade entre ele e os juízes da Suprema Corte, Salvador se sentia livre para agir conforme lhe aprouvesse, enquanto boa parte de seus adversários políticos haviam sido presos ou perderam o cargo, graças às ações de Nonato e seus asseclas.

O juiz, por sinal, ainda se mantinha calado. Examinando-o com mais atenção, Machado quase podia dizer que ele ficara abalado com as revelações sobre seu duplo.

— Nonato, que foi? Acorde, homem!

As palavras de Salvador tiveram um efeito imediato, e o juiz tornou a exibir a expressão arrogante e superior de quem realmente se acha um dos “editores da nação”. Respondeu:

— Uma preleção interessante, senhor Assis, mas que não prova nada...

— Como não prova? – interrompeu Salvador. – Acredito, meu caro juiz, que podemos deixar eufemismos e manobras de lado, e conversar com nosso estimado escritor livremente!

Os dois se encararam, e a um gesto de Barnabé quase todos os assistentes se retiraram. Ficaram somente dois, sendo um o técnico do equipamento multimídia, além dos quatro seguranças armados. O técnico desconectou o equipamento do laptop de Machado, que este não desligou, e acoplou o computador do senador ao sistema de projeção.

— Meu caro Machado, quando o nobre juiz Nonato me confirmou que o havia convocado a aqui comparecer, fiquei realmente radiante! – começou Sandero. – No fundo, sua defesa da liberdade de expressão e seu apoio incondicional a seus colegas autores me provoca profunda admiração!

O senador acionou um comando em seu laptop, e prosseguiu:

— Todos lamentamos a operação da Polícia Federal em São Paulo na noite passada, isso é evidente. Ninguém pode se mostrar feliz por isso.

— Naturalmente – respondeu o escritor. – E continuo a, também naturalmente, considerar de difícil compreensão como alguém pode falar em “defesa da democracia” e apreender livros, além de prender escritores e editores.

— Todos estamos de acordo que esta situação não pode continuar. – respondeu Barnabé. – Algumas reportagens até mesmo na imprensa internacional tratam nosso país nos piores termos possíveis, e francamente injustos.

— Claro que sim, afinal todo ditador e censor não gosta de ser tratado como é.

Maria lhe deu um soco no ombro, mas Machado não ligou. Os dois inquiridores fizeram como se não tivessem ouvido as palavras do autor, e o juiz prosseguiu:

— Tenho discutido com o honrado senador Salvador algumas ideias e possibilidades para tornar esta situação menos exasperante. E o senador elaborou algumas propostas que considerei muito interessantes.

— Propostas que, a partir de agora, meu caro Machado de Assis, irei apresentar ao senhor. Veja, o que gostaríamos de fazer é convidá-lo para ser a face pública, a face da sociedade neste processo de renovação cultural democrática! Com você, uma figura já tão conhecida, nos apoiando, temos certeza de que o processo irá transcorrer no melhor ambiente possível!

Salvador apertou uma tecla, e no telão surgiu a seguinte sigla:


Programa de Promoção Igualitária e Democrática Online (P.P.I.D.O.).


— O caríssimo escritor já deve ter ouvido falar da iniciativa dos nobres ministros presentes – começou Salvador. – O Programa de Promoção da Informação Confiável e Autêntica da Suprema Corte, para o qual foram convidados vários notáveis da comunicação, das artes e do jornalismo, está sendo implementado, e as personalidades chamadas se mostraram, todas, encantadas em participar dessa iniciativa democrática.

Machado teve que se esforçar muito para não gargalhar alto. A sigla P.P.I.C.A. já havia se tornado motivo de chacota e de inúmeros memes, especialmente quando se soube que um dos designados para participar desse autêntico Ministério da Verdade era o conhecido youtubber Gervásio Neto, famoso pelas polêmicas em seu apoio incondicional à Hernandes, Salvador, Nonato e seu bando, e pelo conteúdo com a profundidade de um pires que exibia em seu canal.

“Celebridades palpiteiras a quem será concedido o poder de permitir ou não que publiquemos o que escrevemos ou produzimos. Como pudemos descer tanto?”, perguntou-se mentalmente Assis pela enésima vez.

— O P.P.I.D.O. é uma proposta de ampliar a atuação do P.P.I.C.A. – disse Salvador. Assis olhou para o lado, e Maria estava sacudindo o corpo e se esforçando para não rir. Vergonha, como sempre, parecia ser algo desconhecido para Salvador e seu grupo. O senador prosseguiu: — Deverá ser estruturado como um ministério, e terá autonomia para analisar, estudar, verificar, fiscalizar, corrigir e, se for o caso, punir todo e qualquer abuso contra a democracia cometido no ambiente virtual, abrangendo sites, blogs e redes sociais.



“Se pareceu insano, é porque é”, pensou Machado. O autor tentou imaginar o tamanho da estrutura necessária que estivesse à altura daquele desafio totalitário, mas logo desistiu. O mais provável é que fiscalizassem somente os grandes portais e um e outro produtor de conteúdo, como já o faziam. Evidentemente tal estrutura deveria ter um orçamento astronômico, e ele fazia ideia de para onde iria tal quantidade de dinheiro.

— Uma das propostas do senador que considerei mais interessantes foi a utilização de drones – comentou Damásio.

— Sim. – acrescentou Nonato. – Fiquei bastante impressionado com essa ideia, senador, se o senhor puder destacá-la.

— Claro que sim, juiz.

A um comando surgiu a ficha completa, com imagens e projeções 3D, de um dos drones mais avançados do mercado. Machado o conhecia, pois havia estudado a respeito para seu conto da antologia Conspirações do Poder. Um sofisticado modelo de quatro rotores, o mais moderno do mercado, e o escritor destacou um pormenor nítido na ficha exibida:

— Caro senador, senhores juízes, conheço bem esse modelo, pois foi um dos elementos que estudei para minha história da trilogia que, pelo bem da democracia, os senhores apreenderam na noite passada. Se importa em detalhar mais, senador?

— Pois não. Tenho assessores altamente versados em informática, que me garantiram que, por meio de drones, a fiscalização de postagens em redes sociais e no ambiente online em geral, que possam ser atentatórias contra nossa democracia, seria muito mais efetiva e eficaz.



— É uma coincidência impressionante com o que escrevi em minha história, senador! Na qual, por sinal, tais aeronaves seriam dotadas de armamento e rastreariam inimigos do regime por meio de vigilância pelas redes sociais. O alvo, claro, seria eliminado. E percebo que, em suas projeções, são visíveis ainda as armas dos drones. Serão utilizados dessa forma, então?

Barnabé olhou para Machado, depois para Salvador, e então fez um gesto como se cortasse sua garganta com o dedo indicador esticado. O senador comentou:

— Infelizmente essas foram as únicas imagens que o fabricante pôde me enviar a tempo. Naturalmente não pretendemos, em princípio, utilizar tais equipamentos com armamentos. Não há necessidade disso, por enquanto.

O sorriso costumeiramente cínico de Sandero Salvador reluziu com ainda mais nitidez do que Assis gostaria de ter visto. Depois de alguns instantes ele prosseguiu:

— Mas é claro que fiscalizar somente não basta! Muito mais importante é fomentar a produção cultural em todas as mídias e formatos! – disse triunfante o senador. – É por isso que também irei apresentar mais esta proposta!

Outra sequência de letras luziu no telão:


BRcultural.


— A BRcultural se destina a ser uma agência de fomento e promoção de todas as formas de cultura! – disse Salvador em tom triunfante. – Queremos proporcionar oportunidades e os justos e democráticos espaços e divulgação para artistas de todas as tendências, por todo o território nacional.

Como uma propaganda política dos tempos dos marqueteiros regiamente pagos, surgiram imagens de músicos, escritores, cineastas, artesãos e todo tipo de artista criando suas obras, e vindas de todos os lados as letras que formavam o nome BRcultural em várias cores, onde o vermelho suplantava o verde e amarelo.

— Então, caro Machado, o que acha? – perguntou o senador.

O autor olhou para Maria, que se esforçava para manter uma expressão neutra. Depois para o político e os dois juízes, suspirou fundo e disse:

— Se não me lembrasse de seus ataques contra a realidade da Lista ainda há pouco, senador, me acusando de ter inventado tudo, diria que tirou a ideia dessa BRcultural de outra entidade a serviço da censura e opressão, uma praga que estranhamente assola muitas das paralelas semelhantes à nossa, a Culturalbrás.

Salvador, sem deixar em nenhum momento de exibir o mesmo sorriso, olhou para Nonato, depois para Damásio, e então encarou Machado dizendo:

— Está vendo, caro Assis? Seu desejo de implementar mudanças em nossa realidade divulgando informações a respeito de outras já está funcionando.

Assis começou a rir. Surpreendeu-se por não ser admoestado por nenhum dos presentes, e demorou até conseguir se controlar novamente.

— De novo, senador, continua a me espantar o gosto como cada membro de sua facção política aprecia brincar com a inteligência dos outros! Vocês se intitulam democratas e “progressistas”, pregam a inclusão e a diversidade, mas combatem com vigor de fanáticos quem pratica a diversidade mais importante e elementar de todas: a de expressão e opinião. Criminalizam, excluem e “cancelam” todos que se atrevem a discordar de vocês, e tiveram a audácia de tornar proscrito o próprio 1984 de George Orwell, do qual tiram todas as ideias que buscam aplicar na realidade. O que é o tal Programa de Promoção da Informação Confiável e Autêntica e sua risível sigla P.P.I.C.A., além do seu próprio Programa de Promoção Igualitária e Democrática Online (P.P.I.D.O.), se não o Ministério da Verdade conforme imaginado por Orwell?

Ninguém respondeu, e Machado acrescentou:

— E como pretendem financiar essas assim chamadas “iniciativas democráticas”?

— Fico satisfeito por perguntar isso – respondeu Sandero. – Estudei, juntamente com minha assessoria, variadas formas de obtenção de recursos. Uma delas seria um tributo sobre a posse de bens culturais.

A um comando surgiu uma coleção de fotos evidentemente obtidas em redes sociais mostrando vastas bibliotecas. Machado reconheceu várias delas como pertencentes a amigos, e até mesmo uma de suas estantes ocupava lugar de destaque.

— Tenho certeza – disse o senador, – que a autores consagrados como o senhor e muitos de seus colegas, que possuem vastas bibliotecas como fazem questão de exibir em seus perfis em redes sociais, interessa o surgimento de mais autores, para ampliar o mercado e proporcionar mais oportunidades inclusive aos senhores. Daí que uma de minhas ideias é a introdução do Imposto sobre Propriedade de Livros e Literatura.

— Um pequeno levantamento nos apontou que o senhor e seus colegas, além de boa parte dos leitores que os seguem online, possuem vastos depósitos de livros, revistas, manuais e afins – completou Nonato. — Naturalmente, pelo bem do fortalecimento e democratização da cultura, e o incentivo ao surgimento de um número cada vez maior de leitores, os senhores não se furtariam a um pequeno gesto de generosidade social com o pagamento deste tributo.

— Está claro que seria incrivelmente benéfico para a sociedade que os mais jovens pudessem ser assim incentivados, não concorda? — acrescentou Salvador.

O tamanho da monstruosidade fez com que Machado de Assis ficasse sem fôlego. Os organismos de censura e de promoção dos amigos do regime, sendo ainda responsáveis pela perseguição aos que não se enquadrassem, e certamente por sua eliminação assim que a tecnologia dos drones assassinos fosse dominada...

— Então, senhor Assis – disse Barnabé de Nonato. – O que pensa da proposta do senador? Acredito estarmos sendo perfeitamente razoáveis ao expor esses planos democráticos, de promoção da diversidade e inclusão, ao senhor. Reforço o convite para que se una a nós nesse esforço para proteger as bases de nossa sociedade.

Machado começou a rir. Ria alto, e sabia ser aquela a gargalhada mais livre e catártica que dava em muito tempo. Maria, a seu lado, permaneceu em silêncio. A advogada se lembrou de juristas e outras figuras importantes que haviam denunciado sem cessar os abusos cometidos por Nonato e seus comparsas, muitos dos quais foram presos sem mandado e seus casos acrescentados ao mesmo processo contra os que “ameaçavam a democracia” que seu cliente também respondia. Começou a ficar com medo de que sua vez de também ser encarcerada estivesse próxima.

O escritor finalmente conseguiu se controlar, e perguntou:

— Há vários escritores que já defendem as arbitrariedades que todos os senhores praticam, por que não convidar um deles?

— Se o senhor aceitar – disse Salvador, – o que espero que faça, terá incomparavelmente mais impacto que um já convertido à nossa causa.

— “Converter” foi o verbo que o senhor acabou se usar, senador – disse Assis em tom triunfante. – Um verbo mais próximo da religião que da política. O senhor mais uma vez confirma que sua facção é uma seita que se dedica a fanatizar os que caem em sua lorota do “progressismo” e da “justiça social”.

— Agora chega! – berrou o político. – Vai fazer o que mandamos, ou caso contrário...

Um funcionário da corte entrou correndo, sem bater, e disse:

— Senhores juízes, está acontecendo uma coisa!

A um sinal, o técnico multimídia conectou o equipamento a vários canais de TV. Uma algaravia de vozes jornalísticas assustadas descreviam o pandemônio que tomou todas as regiões do país. Protestos simultâneos eclodiram simultaneamente em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília e muitos outros lugares.

Damásio foi até as amplas janelas do nonagésimo andar onde estavam e olhou para baixo.

— A praça está tomada! – disse com expressão de terror.




Os demais, abandonando qualquer protocolo, se aproximaram. Uma multidão incalculável tomava a Praça Democrática dos Três Poderes, como o governo de Kleyton Hernandes a havia renomeado, e se concentrava ao redor do edifício. Nonato, possesso, se dirigiu ao assessor que havia entrado:

— E nossa tropa especial? Para que temos atiradores de elite? Como permitiram que a desordem desses vândalos chegasse a esse ponto!

— Senhor... a multidão é enorme... há gente de todo tipo, homens, mulheres, idosos, até crianças!

— Não interessa! São fascistas! – berrou Sandero Salvador. – Mandem que atirem!

Notícias vindas dos andares inferiores davam conta que o prédio já havia sido invadido. As forças de segurança da corte tentavam conter os mais exaltados, mas a multidão era grande demais.

— Chame os outros juízes! – berrou Barnabé. – Temos que fazer um pronunciamento conjunto e restabelecer a ordem!

— De que nos adiantou tirarmos aquele fascista imundo da presidência, e colocar aquele banana do Pedron Ortega? – questionou Tenório Damásio. – Ele é um inútil, deveria ter dado ordens para os militares agirem!

Os juízes, o senador e seus assessores e seguranças deixaram o salão quase correndo, deixando Machado e Maria sozinhos como se houvessem perdido totalmente o interesse neles. O escritor sentou-se e calmamente fechou os arquivos do laptop e o desligou, guardando-o na pasta. Maria, espantada, disse:

— Você... você transmitiu tudo ao vivo!?

Assis deu de ombros, sorriu e respondeu:

— Ninguém me mandou desligá-lo, e portanto transmiti tudo para a Lista. Meus colegas repassaram a transmissão para o canal onde tenho compartilhado tudo livremente com nossos amigos deste universo. Pelo visto nem os grandes grupos de mídia aliados de Nonato e sua turma conseguiram resistir a esse furo!

As explosões e o tumulto se fizeram ouvir cada vez mais alto, e os dois se dirigiram para fora da sala. Voltaram ao apartamento onde o escritor fora instalado, em um andar bem mais baixo e onde o barulho do que já era um conflito aberto se tornou bem mais nítido.

Maria ligou a TV, que mostrava os juízes da Suprema Corte reunidos em seu salão principal, que ficava no centésimo e último andar da torre. Barnabé de Nonato falava em “união nacional”, “defesa da democracia” e “serenar os ânimos em um momento difícil”, a fim de “buscar o entendimento com todas as forças organizadas da sociedade”.

— Desta vez não vai colar – disse Machado. – “Nenhum ditador pode conter uma população aprisionada pela força para sempre. Não há poder maior no universo que o desejo por liberdade. Contra esse poder governos, tiranos e exércitos nada podem fazer”.

O escritor, depois de recitar a passagem dita por um de seus personagens preferidos, apanhou a pequena bagagem que trouxera e, junto com sua advogada e como ninguém os impedisse, tratou de fugir dali.


De: Machado de Assis

Para: A LISTA

Assunto: Re: “Defender a democracia” destruindo a democracia


Amigos dA Lista, cinco dias já se passaram desde que se iniciou uma espontânea revolta popular, com amplos exemplos de desobediência civil e até mesmo luta armada em várias cidades.

Devo confessar que por vezes me arrependo de minha decisão de divulgar a existência e as informações dA Lista para minha realidade. No momento estou escondido em casa de amigos aqui em Minas Gerais, e devo dizer que jamais pretendi que as coisas evoluíssem dessa maneira.

Assustam-me profundamente a violência e a grande perda de vidas.

O país está literalmente sem comando. Ninguém sabe do paradeiro dos juízes da Suprema Corte, que foram evacuados poucas horas após seu patético pronunciamento no início da revolta. Boa parte da classe política também está escondida.

Imaginar o medo que essa gente deve estar sentindo, ao se ver destituída dessa maneira do poder praticamente absoluto de que desfrutavam, quase me convence do acerto de minhas ações.

Não sei o que acontecerá. Há um movimento para trazer o presidente destituído por Nonato e sua trupe de volta, mas acredito que mesmo assim as turbulências ainda vão demorar muito tempo para amainar.

Nos desejem sorte.

A Lista retornará.


Havia muito que não retornávamos às origens dA Lista, dos tempos da saudosa revista Sci-Fi News e suas críticas sociais. Foi surpreendente como o Brasil mostrado nesta história se revelou nem tão distante assim de outro, nosso conhecido...

Brevemente deveremos ter ainda mais novidades, então fiquem atentos ao nosso grupo, que vem crescendo cada vez mais, o Clube Brasileiro de Ficção Científica.

As demais histórias e universos que habitam este modesto blog continuam aí para os caros leitores conhecerem, e naturalmente os convido a conhecer as demais histórias dA Lista, tanto utlizando as tags deste blog, quanto a publicada na Amazon, o e-book A LISTA: FENDA NA REALIDADE.



E virão mais novidades, muito mais!

Até a próxima!

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

A LISTA: A UCRÂNIA REAGE


Como os colegas dA Lista sabem, me chamo Leonid Popovich, e sou escritor. Antes, claro, como todos em meu país, fui soldado e agente da Inteligência e contra-espionagem.

Nós da Ucrânia, da mesma forma que muitos dos amigos dA Lista de incontáveis realidades, sofremos por décadas com o jugo soviético. Com o esfacelar do império no início dos anos 1990, quando o socialismo foi destruído por sua própria incompetência, incivilidade e amoralidade, fomos uma de muitas ex-repúblicas que conquistaram a independência. E, tal qual várias outras Ucrânias por todo o Multiverso, também fomos convencidos a abrir mão do arsenal nuclear soviético que estava estacionado em nosso território.
Mas aqui, em minha realidade, foi tomada a decisão de não desistir de toda e qualquer possibilidade de dissuasão ou retaliação. E foi por isso que houve o “extravio” de cerca de vinte maletas nucleares, dispositivos explosivos compactos e de fácil transporte, e que por meio de ucranianos ou seus descendentes atuando dentro das forças armadas da Rússia pudemos ocultar.

Por décadas mantivemos essas armas como última possibilidade de defender nosso país, ou para retaliar uma possível invasão.

Meu passado como soldado e agente da Inteligência me tornou a escolha óbvia quando, há quase um ano, as tensões tornaram a crescer. Lamento muito que líderes ocidentais fracos tenham deixado o tirano Putin atuar livremente, e já não tenho esperança de que qualquer apoio possa fazer esse autocrata e megalomaníaco desistir de seus intentos.

Sou escritor. Queria e quero somente viver para minha arte. E por isso mesmo, ao me tornar participante dA Lista, me maravilhei com os mundos de incríveis possibilidades sendo vividos pelos meus colegas. Admiro cada um de vocês.

Mas não posso fugir de meu dever. A comitiva de Putin já passou pela minha rua a caminho do Kremlin. Sei que, como ucraniano vivendo em Moscou, tenho pouco tempo. A maleta tem um dispositivo automático, que eu poderia utilizar se eu quisesse. Mas não desejo fugir do destino que irei provocar contra os muitos inocentes cujas vidas serão vitimadas por meu gesto. É um ato desesperado para salvar meu país, e eu espero que os amigos dA Lista compreendam isso.

A distância que meu apartamento fica do Kremlin é suficiente para que Putin tenha tempo de ver. Ele saberá o que está acontecendo. E saberá porque está acontecendo.

Lembrem-se de mim, e compartilhem minhas obras com o mundo, com os mundos dA Lista. Estou com o dedo no botão que dispara a arma. Irei pressioná-lo assim que enviar esta mensagem através demeu computador.
Boa sorte a vocês, boa sorte a todos nós, e boa sorte para minha Ucrânia. Adeus.


Dedicado ao povo da Ucrânia. Torçamos por eles, e torçamos para que o Ocidente resista à geração mais fraca, inútil e patética que já teve em termos de "lideres".

Em meio a tantas perdas, uma sendo muito lamentada é a do Antonov An-225 Mryia, maravilha tecnológica que era o maior avião do mundo, projetado inicialmente para transportar o ônibus espacial soviético Buran. Clique na foto para maiores detalhes.




Em meio à violência injustificável, histórias de esperança se misturam a lendas urbanas, e mesmo o governo ucraniano tem comentado as façanhas do Fantasma de Kiev, que teria abatido ao menos seis inimigos russos. Lenda ou verdade?



Seja como for, é uma história digna de ser contada. Saiba mais clicando aqui e aqui.

Já que este é um post sobre A Lista, conheça este Multiverso clicando nas tags abaixo, e aproveite para conferir o e-book A LISTA: FENDA NA REALIDADE.

E não deixe de seguir este Escritor com R no Instagram: @renatoa.azevedo

Até a próxima!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

A Lista: O Natal, o Mundo do Céu Perfeito e o Buraco Negro

  Lucas Oliva estava parado, pés descalços sentindo a areia da praia, e a poucos metros dele chegava a água de ondas plácidas de um oceano que parecia um espelho de tão calmo.

O céu acima era o mais espetacular que já vira. O tenente, em suas missões desde que entrara para o Projeto, havia visto coisas inacreditáveis, que superavam os mais audaciosos arroubos de sua imaginação de leitor voraz.

Mas nenhum autor jamais conseguira descrever o céu que Lucas observou ao erguer o rosto para cima. Absolutamente repleto de estrelas, nuvens interestelares de gás e nebulosas planetárias. Alguns discos escuros de matéria por vezes revelavam um centro muito brilhante, sistemas solares em formação que talvez com sorte, dentro de poucos bilhões de anos, ostentariam planetas de todos os tipos, alguns até com formas de vida.


Ele não estava em seu mundo. Sequer em seu universo.

O Projeto consistia basicamente em uma instalação ultrassecreta na Região Centro-Oeste em seu Brasil de origem, onde nos subterrâneos fora construída a Esfera, um portal capaz de tornar acessíveis inúmeros planetas e Terras paralelas. Cada um dos membros das equipes de Viajantes, nome informal com que se apelidaram, já havia visitado diversas variações de planetas como a Terra, e conhecido um correspondente número de outros Brasis, alguns bem diferentes, outros parecidos com o deles.

Mas, de vez em quando, o portal se abria para universos e planetas que se revelavam completas surpresas. Como aquele em que estava, que fora chamado informalmente de O Mundo do Céu Perfeito. De dia o firmamento era de um azul ainda mais intenso que o de sua Terra, com formações de nuvens brancas de todos os tipos.

Á noite faixas luminosas, similares às auroras das regiões polares da Terra, davam ao panorama um aspecto de permanente crepúsculo. O fenômeno era alimentado pelas fortíssimas emissões eletromagnéticas e de radiação provenientes do centro daquele sistema.

As datações indicavam que o planeta tinha pouco mais de 3 bilhões de anos, e surpreendentemente haviam encontrado alguns sinais de construções por obra de seres inteligentes. Pelo pouco descoberto, estes poderiam ser relativamente semelhantes a humanos e visitantes vindos de outra procedência. Mas não puderam encontrar nenhuma pista sobre qual fora o destino final deles.

- Pensando naquele filme do planeta oceânico na órbita do buraco negro?

Lucas se virou e ergueu a mão para bater continência, mas a major Sandra Botelho, que liderava a missão, fez um gesto para que dispensasse a saudação. O tenente olhou ao longe e viu que ela também havia tirado as botas e as deixado ao lado das suas. Depois Sandra dobrou as barras da calça e pôs os pés na água tépida do oceano.

Fazia calor, ao menos 35 graus, e a umidade da atmosfera era elevada graças ao oceano, que ocupava a maior parte da superfície daquele mundo. Eles estavam em uma península no extremo da maior massa de terra remanescente, existindo ainda um continente menor e inúmeras ilhas esparsas.

- Não senhora – comentou Lucas respondendo à pergunta enquanto também mergulhava os pés na água. – É verdade que o que aconteceu àqueles personagens sempre me volta ao pensamento, mas estava lembrando da imagem chamada de Galaxy Rise.

- O Nascer da Galáxia? – perguntou Sandra. – É de qual filme?

- Do livro Cosmos, de Carl Sagan. É o livro mais antigo que ainda tenho, e corri para comprar a série quando saiu o DVD.

Sandra riu, deu mais alguns passos na água e depois retornou para a areia clara. Comentou:

- Sempre preferi estas missões científicas a todas as outras. Até mesmo aquelas dedicadas a encontrar membros da Lista em outras realidades, na esperança de descobrirmos mais a respeito.

- Essas também têm seu valor, major – acrescentou Lucas. – A Lista é mesmo um mistério instigante, e acabamos aprendendo muito sobre outras versões do Brasil nessas viagens. Mas as missões científicas como esta são mesmo fantásticas, e minhas preferidas também!

Sandra sorriu, voltou-se para ele e disse:

- Você curte tanto esses assuntos, Lucas! É um entusiasta da ciência e sempre um dos que mais prestam atenção às explicações do André, por que não busca uma bolsa de estudos e entra em uma universidade?

- Acho que aprendo muito mais dentro do Projeto, major.

Sandra olhou para Lucas e sorriu. Sabia exatamente como ele se sentia.


Os dois ficaram ali, observando o céu tomado de estrelas e formações galácticas. Aquele sistema ocupava uma posição em sua galáxia aproximadamente equivalente a do Sistema Solar em relação a Via Láctea. Porém o céu absolutamente deslumbrante escondia, lá no horizonte, os sinais do recente crepúsculo do objeto celeste ao redor do qual o planeta orbitava. O brilho de jatos de matéria, emitidos a uma velocidade próxima a da luz, ainda iluminava o encontro do céu com o mar, como um lembrete de que aquele panorama paradisíaco não iria durar por muito mais tempo.

Sandra sentou-se em uma pedra para voltar a calçar as botas quando do bolso de seu colete saiu um sinal sonoro. Ela tirou o comunicador, que tinha a aparência de um celular, clicou no botão para a saída holográfica e colocou o aparelho sobre a pedra.

A imagem da bióloga Joana Medeiros surgiu, e ela imediatamente começou a falar:

- Major, terminamos aqui na maior ilha do hemisfério sul. A vista que temos é incrível!

Joana segurava o comunicador na mão, e o colocou um pouco de lado para mostrar o que estava no céu, em posição relativa atrás dela. Aquele era o principal motivo da presença deles naquele mundo.

O enorme buraco negro ao redor do qual o planeta orbitava, a uma distância média de pouco mais de um bilhão de quilômetros e diminuindo, era somente um pouco menor que o Sagittarius A*, o objeto da categoria supermassiva que ocupa o centro da Via Láctea. A galáxia onde estavam tinha pelo menos o dobro do tamanho da nossa, e seu buraco negro central era ainda maior.

Algum fenômeno celestial de proporções extraordinárias havia produzido aquela situação, provavelmente o choque com uma galáxia menor bilhões de anos antes. A existência de um mundo perfeitamente habitável como aquele em órbita do buraco negro, por sua vez, talvez se devesse ao colossal campo de destroços, asteroides, rochas, gás e outros tipos de matéria orbitando o objeto. Essencialmente, os tijolos básicos para a construção de um planeta e de um sistema solar, mas acumulados ao redor de um monumental sorvedouro espacial.

- Já terminamos aqui na ilha – comentou Joana. – Como no restante do planeta, a vida biológica se resume a bactérias e micro-organismos no oceano, e alguns poucos liquens e musgos na superfície. Todos felizmente inofensivos para nós. Mesmo que seja um mundo habitável, com uma camada de ozônio que é o dobro da nossa, ainda assim as condições são severas para formas de vida mais complexas.

- Por isso dependemos exclusivamente do que trouxemos – concluiu Sandra.

- Exatamente, major – respondeu a bióloga. – Bem, nosso trabalho aqui está concluído. Precisa de mais alguma coisa?

- Não, doutora, reúna sua equipe e retorne à base. Vamos aguardar as próximas 9 horas, até o nascer do buraco negro no horizonte, verificar a aparelhagem que deixaremos e aguardar os acontecimentos. Em breve também iremos para casa.

- Combinado, major. Não demorem muito. Lembrem de que a dilatação temporal, graças à gravidade do buraco negro, está aumentando.

Aquela fora a razão pela qual Sandra havia comentado a respeito do tal filme com Lucas. No Mundo do Céu Perfeito, graças à intensa gravidade do buraco negro e a consequente distorção do espaço-tempo contínuo em sua proximidade, o tempo passava mais lentamente do que na Terra. Até o momento, conforme o equipamento que haviam trazido, 18 horas no planeta, que era seu tempo de rotação ou dia, equivaliam a 36 horas na Terra.

Como a órbita do planeta estava decaindo lentamente, essa diferença temporal aumentava a cada momento, mas ainda era manejável. Para tornar tudo ainda mais urgente, eles haviam saído da Terra no dia 19 de dezembro, faltando seis dias para o Natal. Esperavam estar de volta em 22 de dezembro, contando com a variação experimentada no planeta.

O destino final daquele mundo paradisíaco era mergulhar no buraco negro, isso se não colidisse com algumas das rochas, asteroides ou até mesmo estrelas que orbitavam o colossal poço multigravitacional. Através do primeiro satélite que enviaram para a órbita do planeta haviam testemunhado uma estrela laranja pouco menor que o Sol ser “espaguetificada” e desaparecer bem no centro do objeto, o que permitiu a obtenção de inúmeros dados científicos que fizeram a alegria do departamento de Astronomia e Astrofísica do Projeto.


Joana agradeceu e desligou. O restante de sua equipe, outros dois cientistas e três fuzileiros, terminou de arrumar o equipamento e ela acionou no comunicador o comando de retorno.

Uma esfera luminosa surgiu diante deles, porém ao contrário de suas viagens anteriores a imagem piscou e lançou raios luminosos. Parecia um daqueles aparelhos de televisão antigos, nos quais para melhorar a recepção se colocava uma palha de aço na ponta da antena do aparelho.

Quando o portal se estabilizou todos se apressaram para cruzá-lo. Normalmente o viajante não sentia nada, e com um passo estava de volta à plataforma subterrânea na base secreta do Projeto.

Desta vez, Joana sentiu como se atravessasse um longo túnel luminoso.

A sensação durou por um tempo que ela não saberia definir. A moça sentiu ainda outra coisa, algo indefinível que começou a plantar o pavor no fundo de sua mente.

Teve o nítido pressentimento que alguma coisa estava desviando o caminho que percorria entre as inúmeras realidades, afastando-a do destino seguro.

Antes que percebesse sentiu os pés em uma superfície firme, abriu os olhos e se viu no familiar salão de concreto. Olhou ao redor, respirou aliviada pelos companheiros estarem a seu lado, pessoas gesticulavam na sala de controle do portal atrás de uma vidraça na parede adiante, e de uma porta blindada lateral entraram vários militares, cientistas de jaleco branco e o jovem André Lozano.

- Tudo bem com vocês? – perguntou este último com expressão aflita que era muito rara de ver nele.

Todos pareciam muito preocupados, mas Joana respondeu:

- Tudo bem, a passagem pelo portal pareceu mais demorada dessa vez, mas estamos bem.

André a olhou espantado, e enquanto desciam a rampa cada um deles era observado e questionado pelos demais cientistas. O jovem gênio graças ao qual o Projeto devia sua existência se aproximou de Joana e disse:

- Obtivemos seu sinal de retorno faz mais de seis horas. O portal ficou aberto todo esse tempo até atravessarem!

Somente nesse momento Joana observou a fileira de grandes relógios instalada na parede lateral. O que marcava o horário brasileiro apontava que era 06:42 h de 23 de dezembro.

A bióloga virou-se para André boquiaberta, e o cientista disse:

- Temos que alertar Sandra e sua equipe para retornarem agora. A influência do buraco negro aumentou mais do que prevíamos!


A noite no Mundo do Céu Perfeito durou pouco menos de nove horas. Havia muito a fazer, e ninguém quis dormir. Raquel Serendipi, novata no Projeto mas já conquistando seu lugar graças a seus conhecimentos em Astrofísica, ocupou-se com a montagem final do equipamento astronômico que seria deixado ali. Era um telescópio de grande abertura e três outros, incluindo um infravermelho e outro de raios-X que buscavam alvos para o principal, controlados por uma central computadorizada autônoma. Tudo fora instalado em um pequeno monte na base da península na qual estavam.

Raquel acompanhou a trajetória ao longo do sistema de uma estrela amarela, de tamanho equivalente ao Sol, que fora detectada ainda antes da vinda deles. Era do tipo conhecido como de hipervelocidade, sóis que percorrem longas trajetórias ao longo de uma galáxia em altíssimas velocidades. Os cálculos iniciais apontavam que iria contornar a curta distância o buraco negro, mas quando ela desapareceu pelo horizonte a astrofísica refez as contas e ficou em dúvida quanto a isso.

- É provável que acabe mergulhando no buraco negro – comentou.

Ela aproveitou a noite para fazer imagens dos demais planetas em órbita. Dois eram rochosos e pouco interessantes, situados mais próximos ao centro do sistema. Já o mundo situado a mais de dois bilhões de quilômetros do buraco negro era gasoso e classificado como um sub-Netuno, cerca de um quarto menor que o menor gigante gasoso do Sistema Solar. Tinha coloração verde-azulada e faixas multicoloridas que iam do amarelo ao vermelho, indicando compostos orgânicos na atmosfera. Também era o único que possuía satélites, e Raquel descobrira sua sexta lua naquela noite.

Ao se aproximar a alvorada Lucas, Sandra e Raquel desceram para a faixa de areia que era a extensão mais estreita da península, depois que a astrofísica ajustara os telescópios para captar desde o horizonte imagens do buraco negro. O céu escuro foi clareando até o intenso azul que já conheciam, e viram surgir primeiro a estrela amarela que vinham acompanhando. Depois apareceu o disco de matéria que orbitava o objeto central brilhando intensamente.

Raquel olhava alternadamente para o monstro cósmico e para a tela de seu comunicador, e finalmente disse:

- O computador confirmou! A estrela está caindo no buraco negro!


A olho nu conseguiam ver claramente o movimento da estrela, comprovando sua tremenda velocidade. Relativamente à posição do plano da órbita dos planetas aquele sol vinha de cima, e subitamente observaram um fio de matéria sair de sua superfície e mergulhar no centro negro do sorvedouro espacial.

A astrofísica deu pulos no mesmo lugar e correu para o equipamento, impaciente para conferir os dados.

Lucas e Sandra riram e ficaram na faixa de areia contemplando o espetáculo. O tenente olhou para o relógio e disse:

- E então, major, planos para o Natal?

Trocaram olhares sorrindo e Sandra, depois de suspirar e voltar a contemplar o espetáculo cósmico, respondeu:

- Só quero chegar em casa e aproveitar a ceia com minha mãe e Susana.

Sandra criava a filha de sete anos sem o pai da menina, que não aguentara os rigores de ser cônjuge de uma militar. Era difícil para a garota, mas a major fazia o máximo para tornar especial cada vez em que estavam juntas.

- Susana é uma ótima menina, major – comentou Lucas. – E tem muito orgulho da mãe. Todos temos, na verdade.

A militar agradeceu com um olhar emocionado. O tenente completou depois de olhar o relógio:

- Se os cálculos estiverem certos, e espero que estejam, ainda é madrugada de 22 de dezembro em nosso mundo. Depois de voltarmos também vou correr para casa, ansioso por passar uns dias com minha família!

Eles voltaram a ficar em silêncio. O buraco negro já havia subido mais, e podia ser visto em sua totalidade. O que estava diante deles não diferia muito das fotos já obtidas pela Astronomia terrestre e das concepções artísticas. Um enorme espaço negro e esférico era rodeado por um halo distorcido de matéria muito brilhante. O espaço central era absolutamente preto, a coisa mais escura que qualquer um ali jamais vira.

As faixas na atmosfera do planeta brilhavam em várias cores, abrangendo quase todo o espectro, e acentuando o azul da atmosfera. O oceano incrivelmente límpido e calmo refletia aquelas tonalidades, e todos os membros da expedição tinham certeza de jamais esquecer aquele espetáculo multicolorido.

Nesse momento um alarme barulhento soou nos comunicadores de todos. Lucas e Sandra se entreolharam, observaram no alto da elevação Raquel olhar na direção deles, e saíram correndo para lá.


Raquel observou o alarme na tela de um computador portátil semelhante a um laptop, mas dotado de tecnologia derivada da ciência que tornara o Projeto e a Esfera possíveis. A astrofísica abriu espaço e Lucas dedilhou comandos no teclado, mas depois que alguns avisos apareceram na tela disse:

- É um arquivo de vídeo, mas parece ter alguma anomalia. Vou tentar reproduzi-lo...

Depois de mais alguns comandos o programa abriu o arquivo, mas nada distinguiram além de uma imagem borrada e um zumbido no áudio. Raquel comentou:

- É impressão minha, ou parece alguém falando?

Lucas diminuiu a velocidade do vídeo, e a imagem passou a se assemelhar a uma sombra. Mesmo assim a extensão do vídeo não chegava a um segundo, e o zumbido se tornara mais grave.

Sandra pediu que ele prosseguisse naquela tarefa, e mandou que os demais começassem a se preparar para um retorno de emergência.

- Não custa prevenir – comentou ela. – Vamos prosseguir nas tarefas programadas, mas preparados para partir a qualquer momento.

Os três fuzileiros reuniram seus equipamentos e cada um deles correu para fazer uma ronda em sua área determinada. Joana sentou-se diante do equipamento astronômico e fez a programação final do sistema. Também inseriu nas memórias dos três satélites em órbita os comandos e instruções finais. Um permaneceria ao redor do planeta até o final, o segundo se afastaria antes de chegar à região do disco de matéria do buraco negro, e o terceiro regressaria para a base depois da equipe. O Projeto não tinha muita folga orçamentária, e reter intacto qualquer equipamento dispendioso como aquele era uma medida salutar.

- Major, doutora!

Lucas chamou as duas, que vieram prontamente. Ele exibiu na tela do computador o resultado de seus esforços.

Já era possível ver que era André Lozano, porém o vídeo ainda estava acelerado demais. Sandra perguntou:

- Será possível que a distorção temporal tenha feito o vídeo ficar mais rápido que o normal?

- Major, foi gravado em um espaço-tempo diferente do que estamos – teorizou Raquel. – Isso será certamente discutido nas reuniões das equipes científicas. Guardou o arquivo original, Lucas?

- Sim senhora!

O militar continuou trabalhando no vídeo para tornar seu conteúdo inteligível. No céu o centro do sistema continuava seu espetáculo de proporções verdadeiramente cósmicas. A estrela amarela estava visivelmente mais próxima do buraco negro, e o fio de matéria que saía desta e mergulhava através do horizonte de eventos havia se tornado ainda mais espesso.

Evidentemente não escapou a nenhum deles que os eventos que observavam haviam acontecido várias horas antes, devido à distância que os separava daquela mortífera região. Distância essa que, conforme sabiam, diminuía lentamente conforme o Mundo do Céu Perfeito seguia sua órbita ao redor do sorvedouro espacial.

Lucas trabalhou febrilmente, e enfim conseguiu que fosse possível assistir ao vídeo. Todos observaram André dizer:

- Equipe da major Sandra, vocês devem voltar imediatamente! – o cientista dizia enquanto empunhava seu comunicador. Atrás deles passavam pessoas que eles reconheceram como a outra equipe que estava no planeta. André prosseguiu:

- A equipe de Joana demorou seis horas, entre entrar no portal aí no planeta e surgir aqui na base, para retornar. A influência do buraco negro está aumentando de forma não prevista, e ainda existem outras anomalias cuja origem não conseguimos determinar. Aqui em casa já é manhã de 23 de dezembro, e peço a vocês que retornem o quanto antes! Repito, regressem imediatamente!

Ninguém precisou de mais nada para agir. Todos se apressaram a terminar suas tarefas. Lucas asseverou que o arquivo original e o que manipulara haviam sido salvos na memória e guardou o computador na mochila. Os fuzileiros já se encontravam a postos, e o tenente auxiliou Sandra e Joana nos últimos ajustes do equipamento.

Lá no céu a estrela amarela havia diminuído sensivelmente de tamanho, mas alguma matéria dela restara, e possivelmente segundo Raquel algum planeta ainda em órbita. O disco ao redor do buraco negro emitia flashes de luzes intensos e jatos de matéria, e a astrofísica apontou o equipamento, prevendo que emissões fortíssimas de radiação vinham na direção do planeta. Felizmente ainda levariam horas para atingi-lo, quando esperavam não estar mais ali.

Finalmente todos se reuniram na areia da praia. O cenário paradisíaco desta vez encerrava uma ameaça que não compreendiam em sua totalidade, mas a beleza daquele mundo de cores não podia ser ignorada. Antes de acionar o comando de retorno Sandra disse:

- André vai se ver comigo quando chegarmos!

- Major, com todo o respeito, a senhora é a segunda da fila – respondeu Raquel.

A militar conseguiu exibir um sorriso irônico, e por fim acionou no comunicador o comando de retorno. A familiar esfera luminosa surgiu diante deles. Sandra pediu que Lucas passasse primeiro, mas nesse instante o portal pareceu piscar, fazendo estalar partículas na atmosfera ao redor.

O tenente parou, e todos continuaram a observar a esfera luminosa. Mais alguns segundos torturantes se sucederam com o portal assobiando, estalando e piscando, mas finalmente se estabilizou na reconfortante esfera branca que representava o caminho de casa.

Lucas se adiantou e desapareceu na esfera, no que foi seguido por todos. Sandra foi a última a cruzar, depois de uma última olhada no equipamento no alto da elevação e no belo panorama do Mundo do Céu Perfeito.


Lucas olhou ao redor e não viu mais ninguém. O que via lhe fez crer que percorria um longo túnel formado por luzes, algumas vezes brancas, outras multicoloridas. O túnel dava voltas, se curvava e era transparente, e além dele o tenente via estrelas, planetas e galáxias vindo em sua direção e sendo deixados para trás em elevadíssima velocidade. Tudo que havia ouvido e aprendido durante sua participação no Projeto lhe dizia que aquilo não poderia existir, e ficou pensando se as séries e filmes que assistira, ou os livros que lera, estavam influenciando sua mente.

Sandra não conseguia ver os demais, e olhando para frente via somente um círculo multicolorido do qual parecia se aproximar, e de outras vezes se afastar. Deduzira isso pelo tamanho aparente da visão, e decidiu que estava imaginando coisas. Fechou os olhos e reparou que não havia ruídos nem qualquer outra sensação. Esticou os braços para o lado. Nada. Começou a se lamentar por ter decidido atravessar o portal sem aguardar mais um pouco.

Raquel se sentiu percorrendo um longo túnel escuro, onde por vezes reluziam reflexos de luz. Prestando atenção poderia jurar que vira cenas ali, e intuitivamente percebeu que o túnel parecia se curvar. Também de forma instintiva sabia que a única direção certa era direto em frente, e que qualquer desvio representava perigo. Apavorou-se com aquilo e gritou, ou pensou ter gritado. Não ouviu a própria voz e ficou com mais medo ainda. Tentou gritar de novo, mas subitamente tudo ficou escuro.


A próxima sensação que Raquel teve foi pisar em uma superfície sólida. Abriu os olhos e se viu em uma plataforma metálica no meio de um enorme aposento feito de concreto. Diante dela uma grande janela onde os técnicos que controlavam o portal observavam tudo espantados. A moça olhou ao redor e viu os demais companheiros, os emissores do portal que formavam a Esfera, e abraçou Lucas quando sentiu tontura.

Um momento depois uma equipe de cientistas e médicos recebia os seis recém-chegados. Raquel ainda abraçava Lucas, e quando o soltou e olhou para a rampa de descida viu André com cara de espanto olhando para eles. A astrofísica esboçou um sorriso, apoiou a mão no corrimão e começou a descer a rampa, trocando um rápido olhar com o cientista. Ainda sentia vestígios do pavor recente, mas a expressão de André era um alívio para ela, e a fez sorrir mais.


Todos foram rapidamente examinados enquanto André explicava o que havia acontecido. O portal operara por sete horas seguidas, um novo recorde, e finalmente conseguira trazer todos de volta em segurança. O fato de estarem vivos e por unanimidade afirmarem que para eles a viagem durou no máximo poucos minutos poderia se dar, conforme disse, tanto aos efeitos inéditos da proximidade com o buraco negro quanto pela física ainda não totalmente compreendida do portal transdimensional.

Ficaram espantados ao serem informados que já eram 16:58 h de 24 de dezembro. As complexas interações entre os dois contínuos espaço-temporais, e especialmente os efeitos da dilatação temporal nas proximidades do buraco negro, haviam provocado aquilo. O comandante do Projeto ficou satisfeito ao saber do retorno da equipe, e a major Sandra transmitiu sua ordem de que estavam todos dispensados para aproveitar o Natal com as famílias.

- Presente de Natal será sem dúvida o que a equipe de Astronomia e Astrofísica irá receber com os dados que trouxemos, e ainda serão transmitidos do sistema! – comentou Raquel.

A moça brincava, abraçou os companheiros e foi para seu alojamento se trocar. Mas o que sentira ainda a fazia tremer.


Sandra tivera permissão para requisitar um avião da Força Aérea Brasileira para levá-los a tempo para casa. Joana e Lucas aproveitaram a carona, e todos conseguiram chegar em casa a tempo.

Joana fez questão de continuar na base aguardando o retorno dos colegas e ajudando no que podia, mas respirou aliviada ao se sentar à mesa. Olhou ao redor, viu seu irmão com a esposa, seus pais, e sentiu-se feliz. Tentando não pensar na experiência incrível, dedicou-se a saborear a ceia em família.

- Mamãe, você veio!

Susana pulou nos braços de Sandra mal a major abriu a porta de casa. A militar não conteve as lágrimas, e a mãe dela se emocionou ao ver a filha e a neta juntas.

Lucas não aparecia em casa fazia meses, e tocou a campainha um tanto apreensivo. Continuava a pensar na estranha experiência do retorno, e na rápida conversa que teve com André. O cientista fazia pouco caso de suas observações, mas por vezes o tenente o surpreendia com informações e ideias que o faziam pensar. Terminaram por combinar que conversariam mais quando regressasse à base.

- Filho, que bom te ver!

A mãe de Lucas o abraçou forte e o trouxe para dentro. A família toda, incluindo tios, primos e sua avó, estava ali reunida. Ele nem sabia quanto tempo fazia que não via muitas daquelas faces, mas se sentiu feliz por estar ali com eles.


André estava em seu escritório na base. Dedilhava no laptop sobre a mesa, e se levantava para escrever uma equação ou esboçar algum gráfico na comprida lousa que ocupava uma das paredes.

Repetiu esse trajeto várias vezes, alternando com idas à estante abarrotada de livros da parede oposta, quando abria um volume, corria os dedos por uma página, e retornava para a mesa.

Raquel entrou bem no momento em que André, de costas, escrevia algo na lousa. Ao se virar e dar de cara com ela ergueu o tronco e arregalou os olhos de espanto.

A astrofísica estava de camisa branca, calça jeans e tênis. O jovem cientista a olhou por um instante, retornou ao computador e continuou trabalhando.

A moça se aproximou e sentou-se na cadeira do outro lado da mesa. Esperou por algum tempo mas, fora um ou dois momentos em que ergueu os olhos para ela, André permanecia concentrado.

- E aí, o que acha que aconteceu? Por que cada um de nós viu ou sentiu o que descrevemos?

Raquel fez a pergunta lembrando da conversa que tiveram logo após sua chegada. A moça ainda se sentia perturbada pelo que experimentara, tentava usar seus próprios conhecimentos para entender o que houve, e usava de ironia e sarcasmo tanto para provocar André quanto para se animar.

Fez outras perguntas, mas o cientista continuava a ignorá-la. Refez o trajeto ao se levantar, testar uma equação na lousa e consultar um livro. Tornou a dedilhar o teclado do computador, e quando fez menção de se levantar de novo a moça explodiu:

- Vou te bater tanto se fizer isso de novo!

André olhou para ela espantado. Por um momento ambos ficaram sérios, se encarando. Por fim sorriu, deu um comando para salvar o trabalho que fazia e fechou o laptop. Raquel também sorriu, lembrando de outros momentos semelhantes nos últimos meses, desde que entrara para o Projeto.

- As vezes invejo você, Raquel – comentou ele.

Pega de surpresa, a moça perguntou:

- Por quê?

- Claramente, mesmo depois de tão pouco tempo, você está em casa aqui.

- Ué, e você não?

André cruzou os braços apoiando-os sobre a mesa, e por um momento ficou olhando para a mão dela, que brincava com um dos botões da camisa. Ela percebeu e sorriu maliciosamente, ao que ele virou o rosto, ajeitou os óculos, voltou-se de novo para a moça e disse:

- Pela ciência e tecnologia feita aqui, sim. Mas ainda é difícil lidar com as pessoas. Eu vejo como todos já gostam de você, do que faz, enquanto eu...

Raquel apoiou as mãos na mesa, aproximou o rosto dele, e disse:

- Ciúmes do Lucas, é?

- Ha, ha, ha, boa tentativa.

Ela voltou a se recostar na cadeira, ainda sorrindo com malícia. Mas sua voz era séria quando disse:

- Quem sabe, André, se você fosse um pouco menos arrogante, e não tentasse corrigir os outros o tempo todo...

- Você sabe que este Projeto só existe por minha causa, né?

- Claro que sim! Eu e todos aqui. E sim, cada um tem um jeito de manifestar afeição, e todos gostam sim de você, André. De um jeito diferente, claro...

- Ah, é? Por exemplo?

- Sandra e eu conversamos muito no Mundo do Céu Perfeito. Ela te admira muito, e sempre será grata pelo que fez por ela, na época do comandante anterior.

- Ele era um babaca machista que não aceitava o fato dela ser mãe solteira. Ainda por cima era um ignorante, e estava no cargo por amizades políticas.

- E vocês dois o derrubaram, e agora o Projeto está em mãos muito melhores. Muitos te admiram pelo que fez, e também por isso são tolerantes com seu jeito e suas manias.

André recostou-se na cadeira, parecendo ao mesmo tempo confuso e agradecido. Tirou os óculos e esfregou os olhos, e Raquel ficou em dúvida se estava emocionado. Completou:

- Então não fique com inveja de mim, e trate de ser um pouco mais tolerante e aberto com todos, certo?

- Logo, logo, você vai ser a nova psicóloga da base desse jeito.

Raquel se levantou com expressão de poucos amigos. André se assustou, baixou os olhos, tornou a olhar para ela e disse:

- Quero dizer, sim senhora!

Ele exibiu um sorriso irônico, ao que Raquel retribuiu e tornou a se sentar. Ela voltou a mexer no botão da camisa por um instante, novamente o flagrando olhando para seu ato. Riu e perguntou:

- Não foi pra casa para o Natal?

- Nunca gostei muito das festas de final de ano. E sempre tive um relacionamento difícil com minha família.

O silêncio durou alguns instantes antes de André parecer se dar conta de algo e dizer:

- E você?

Raquel sorriu, pensou um pouco e finalmente disse:

- Meus pais são separados. Mamãe sempre apoiou minha carreira acadêmica, já meu pai é tradicionalista demais. Brigamos demais quando eu era adolescente, e faz anos que não o vejo. Sou a filha mais velha, e minhas irmãs ainda moram com minha mãe... pensei em visitá-las no Natal, mas sei lá, perdi a vontade.

- Sei. Este lugar... o que fazemos aqui.

Raquel se levantou e foi até a estante. Leu muitos dos livros ali dispostos, alguns até que possuía em sua coleção. Comentou o fato com André, e sentiu que ele passou a tratá-la com mais deferência depois disso.

- Acho que isso é o mais difícil daqui – disse ela. – Se escrevesse um artigo só com o que já descobri no sistema do Mundo do Céu Perfeito e seu buraco negro, e se pudesse provar naturalmente, teria lugar garantido em qualquer uma das melhores instituições acadêmicas do mundo!

- Sempre pensei exatamente o mesmo! E Lucas volta e meia comenta que prefere continuar no Projeto a fazer uma graduação, diz que aqui aprende muito mais – comentou André.

- Exatamente! Sandra comentou que conversou isso com ele enquanto estávamos no planeta.

A astrofísica disse que havia passado na sala de controle e examinado os últimos dados. Tudo transcorrera conforme ela havia programado os satélites, e um deles acompanhava a uma distância segura a trajetória daquele mundo. Um grupo de câmeras menores continuava a transmitir imagens da superfície do planeta, que permanecia tão incrível como eles haviam testemunhado.

- E veja só, os vídeos enviados desde a superfície parecem estar em câmera lenta – completou Raquel. – O contrário daquele que nos mandou. Aliás...

A moça voltou a se sentar e ficou encarando o cientista. Depois disse:

- Que raio de ideia foi aquela de mandar um vídeo!? Por que não uma mensagem de texto, que teríamos lido com muito mais facilidade?

O cientista a olhou, abriu a boca para responder, mas manteve o silêncio. Momentos depois respondeu:

- É verdade, deveria ter pensado nisso. É o modo habitual de comunicação com equipes lá fora. E na pressa ninguém lembrou da possibilidade de, em outro contínuo e ainda mais afetado pela gravidade...

Raquel riu alto, se sacudindo na cadeira. André riu também, e os dois ficaram assim por algum tempo.

O cientista finalmente sossegou, tornou a abriu o laptop e o virou para ela. Raquel se endireitou e examinou os dados, enquanto ele explicava:

- Os gráficos em nosso monitor de continuum mostram de fato uma anomalia associada ao sistema do Mundo do Céu Perfeito. Lembre-se que se trata de um buraco negro supermassivo um pouco menor que o de nossa galáxia, e essa foi a primeira vez que estivemos tão perto de um objeto assim.

- As teorias existentes dão conta de explicar alguns fenômenos – disse Raquel. – A dilatação temporal pela imensa gravidade distorcendo o tecido da realidade nas proximidades do buraco negro, principalmente.

- É provável que abrir um portal transdimensional nas proximidades de um local assim cause efeitos ainda não previstos – prosseguiu André. – A própria física do portal ainda é uma coisa cujo entendimento precisamos melhorar.

- Mas o que explica o que observamos no retorno?

- Não sei. Mas estive nas últimas horas pensando sobre este outro gráfico, que transferido para o monitor de continuum, comprova uma outra influência, além do portal aqui na base e do sistema onde vocês estavam.

Raquel observou os gráficos, estudou os dados, e em alguns momentos percebeu André a olhando de uma forma que ela nunca vira. Esboçou um sorriso involuntário antes de se controlar e perguntar:

- E o que descobriu sobre essa influência externa?

André recostou-se na cadeira, entrelaçou os dados atrás da nuca, olhou para o teto e respondeu:

- Por enquanto nada. Mas continuo estudando os dados e aguardando novas informações. É frustrante não saber, mas ao mesmo tempo isso é um incentivo para nunca parar de procurar respostas.

- É isso mesmo!

Raquel concordou com André, e eles ficaram em silêncio por algum tempo. Ela reparou que os olhos dele corriam dos cadernos em seu lado da mesa, onde também fizera anotações até ela, e por fim a moça levantou-se sorrindo.

- Bem, quase onze da noite – disse após consultar o relógio. – Vou passar no restaurante, soube que o pessoal preparou uma bela ceia, e estou com fome.

Ela se virou e foi até a porta. A abriu e estava a ponto de sair quando ouviu:

- Raquel... Feliz Natal.

A moça se virou, olhou para o rapaz e sorriu. Respondeu:

- Feliz Natal, André.

Raquel saiu, fechou a porta, e por um momento ficou pensando sobre aquele instante. Sorriu, um sorriso radiante de contentamento, e se dirigiu ao restaurante da base.

André tentou voltar a se concentrar no trabalho. Conferiu algumas equações em um caderno, mas tudo parecia se confundir diante da lembrança do adorável sorriso de Raquel. Fechou o caderno, apoiou os cotovelos na mesa e o queixo nas mãos, e pensou por um instante.

Percebeu duas coisas. Estava com fome, e sentiu uma estranha vontade de ver Raquel sorrindo de novo.

Ele riu, se levantou, saiu e apagou a luz do escritório antes de fechar a porta.


Nota do autor:

Vocês já conhecem Raquel Serendipi, astrofísica; Joana Medeiros, bióloga; Lucas Oliva, tenente; e Sandra Botelho, major. Além do cientista prodígio André Lozano. Todos eles aparecem em A Lista: Monstros, conto de minha autoria publicado em Monstros, antologia da Editora Buriti publicada em 2015. Espero que tenham gostado deste conto natalino e de ficção científica, já que as últimas histórias dA Lista publicadas aqui eram decididamente distópicas. Basta de problemas e temores com os noticiários atuais, concordam? Acho que nós fãs de Ficção Científica e Fantasia, assim como as demais pessoas, precisamos de mais escapismo, de mais incentivos para voltarmos a sonhar com um mundo e um futuro melhores. E nada melhor para isso do que uma aventura no velho estilo “audaciosamente indo onde ninguém jamais esteve”. E se preparem, pois é possível que no futuro próximo vocês os encontrem novamente, no romance dA Lista. Sonhar ainda não paga imposto!

Lembrando que continua disponível na Amazon o e-book A LISTA: FENDA NA REALIDADE.


Por sinal, o filme mencionado por Sandra não teve nada a ver com a elaboração deste conto! O que me inspirou foi uma imagem que vi dias atrás na parede da sala de espera da clínica oftalmológica onde aguardava uma consulta de rotina. É incrível como funciona a cabeça de um escritor, capaz de criar uma história a partir de uma imagem, que por sinal é esta:


Os últimos meses foram movimentados. Quem me acompanha nas redes sociais sabe que publiquei mais um e-book na Amazon, VÓ NENA E OS CAÇADORES: O LIVRO MALDITO. O retorno tem sido bom, o que inclui o prelúdio publicado no mesmo volume, Vó Nena e os Caçadores: O Diário de George Angelo, no qual presto uma homenagem ao mestre do horror cósmico H. P. Lovecraft. Nunca havia imaginado seguir o mesmo estilo e temas de outro autor, mas essa história me surpreendeu e agradou muito pelo resultado final. Confiram vocês também! E claro, a tag “Vó Nena e os Caçadores” está aí no final deste post para ser usada, combinado? Assim como “A Lista”.


E a melhor notícia de todas, a editora Underline Publishing irá publicar em 2021 meu romance CÉU DE GUERRA, uma história ao mesmo tempo Dieselpunk e de História Alternativa! Se pensaram na pergunta “o que aconteceria se...?” acertaram! Basicamente a trama, que se passa na Segunda Guerra Mundial, irá explorar o que aconteceria se fosse criada uma indústria aeronáutica no Brasil em meados dos anos 1920, por parte de certo famoso pioneiro da aviação. Outros detalhes ainda estão sendo acertados, mas esse lançamento já está cercado de expectativa, e espero que vocês apreciem tanto quanto eu. Foi uma grande surpresa e uma honra participar do anúncio da Underline Publishing na Bienal do Livro de São Paulo Edição Virtual anunciando a novidade! E vocês, claro, devem se lembrar do conto Céu de Guerra: a Batalha da Inglaterra, publicado na antologia Retrofuturismo da saudosa Tarja Editorial, que na prática funciona como prelúdio para o livro.

Assim deixo vocês, caros leitores, com um muito obrigado e os melhores votos de um Feliz Natal e um excelente Ano Novo (esperamos todos que seja MESMO muito, muito, MUITO melhor do que este).

Continuem nos acompanhando: @renatoa.azevedo, @mlzotarelli, @corujiceliteraria e @2sobrevoandoporai.

Até a próxima!