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quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

CÉU DE GUERRA: UMA NOVA AURORA


 

Sudeste da Inglaterra, 1 de janeiro de 1945.

A esquadrilha que invadira o espaço aéreo inglês era composta por seis bombardeiros Junkers Ju-88 de um novo tipo, que sequer havia recebido uma designação ainda. Eram acompanhados por dois dos novos bombardeiros a jato Arado Ar-234 Blitz, e quatro caças Messerschmidt Me-262.

Os versáteis Ju-88 traziam abaixo de cada asa cilindros que eram, na verdade, turbinas Junkers Jumo especialmente adaptadas, seguindo o modelo hibrido que a Inteligência alemã, apesar da crescente e alarmante carência de recursos, conseguira detectar em algumas aeronaves que os Aliados vinham usando. Com o misterioso desaparecimento recente do cientista Viggenstein, restara ao Alto Comando do Reich ordenar aquele tipo de medida desesperada.

O alvo daquela formação era a principal base em solo inglês onde eram realizadas as mais avançadas pesquisas em tecnologia e Inteligência. Antes de sumir, o cientista havia transmitido ao comando nazista as informações a respeito de sua localização, e esperava-se que aquela investida, em meio àquelas semanas em que os combates na Europa haviam arrefecido por conta das festividades de final de ano, pudesse surpreender os inimigos.

Um dos Me-262, biposto e dotado de radar, subitamente deu o alarme. Quatro aeronaves se aproximavam à frente do grupo, em curso de interceptação. Porém, sua velocidade era baixa, o que fez os oficiais mais graduados daquele grupo de ataque sorrir. A utilização de força total nos propulsores foi ordenada, e todas as aeronaves ganharam altitude. Daquela posição vantajosa os Messerschmidt a jato teriam a velocidade a seu lado, e os lentos interceptadores não teriam qualquer chance.



Base Ouro, nordeste de Oxford, Inglaterra.

Desde os incríveis acontecimentos entre julho e agosto passados, a vida de Ricardo Almeida havia mudado.



Suas responsabilidades como líder daquela base especial haviam aumentado com sua promoção a major, especialmente depois que Denise Landron fora transferida para uma unidade equipada com jatos Gloster Meteor, baseada na França. A tenente era agora líder de grupo, e já havia tomado parte em várias escaramuças contra Me-262 alemães e outros aviões avançados que os nazistas, no esforço de reverter a maré da guerra, vinham lançando nos últimos meses.

- Sim, secretário Malfoy, tenho pleno conhecimento da invasão do espaço aéreo por parte do inimigo. Como talvez saiba, os radares da Base Ouro são os mais avançados de que os Aliados dispõem.

Ricardo aguardou o que Malfoy dizia do outro lado da linha, gastando suas últimas reservas de paciência. Aquele sujeito havia sido apontado para o Alto Comando britânico por suas ligações políticas, o que já dizia quase tudo que se precisava saber sobre ele.

- Secretário – respondeu Almeida – seguramente sabe muito bem que até mesmo o Primeiro-Ministro Churchill foi contra a ideia de enviar nossos melhores grupos aéreos para as bases na França. As defesas da Inglaterra em seu próprio território ficaram enfraquecidas, graças à crença de que os nazistas estão nas últimas.

O político continuou vociferando coisas como hierarquia, cumprimento do dever e outros conceitos que ele próprio, seguramente, deixava de lado quando pensava em sua própria carreira. O brasileiro, enfim, interrompeu:

- Malfoy, esta situação surgiu graças à incompetência de tipinhos como você. Mas fique tranquilo, aqui na Base Ouro valorizamos quem tem talento e capacidade, ao contrário do que acontece na arena política onde você tem se dado tão bem. A situação com os invasores está tendo o tratamento adequado, fique tranquilo.

Ricardo desligou sem dar tempo que o outro respondesse. Certamente iria depois tomar algum tipo de reprimenda, mas seu prestígio depois dos eventos entre julho e agosto era quase garantia de que tudo continuaria como sempre esteve desde 1940, ano de sua incorporação à Real Força Aérea e a criação do então Grupo Ouro.

O major saiu de seu escritório e correu até a torre de controle. Pelas últimas informações os alemães estavam a ponto de detectar os interceptadores.

Entrou na sala repleta de equipamentos eletrônicos, telas de radar e do pessoal que os operava. Um e outro ameaçou ficar em pé para bater continência mas com um gesto ele pediu que continuassem o trabalho. Uma sargento lhe fez um sinal e depois apontou para sua tela:

- Major, os alemães subiram para 8.000 m de altitude, e os caças se separaram do grupo, avançando contra os interceptadores.

- Então estão mordendo a isca. Acho que Tony resolverá essa situação bem depressa.


O combate foi mais rápido e brutal do que esperavam.

Os alemães foram apanhados completamente desprevenidos pelas aeronaves híbridas do Esquadrão Ouro. Seus Me-262 mergulharam contra o que acreditavam serem interceptadores bimotores lentos, e foram surpreendidos quando os quatro Dumont D-84, bimotores a pistão construídos pela empresa brasileira fundada por Santos Dumont, acionaram eles próprios seus motores a jato auxiliares e quebraram formação.

Um deles se dirigiu diretamente ao Me-262 mais próximo, disparando com seus quatro canhões de 20 mm. O jato inimigo explodiu no ar.

Outros D-84 da mesma versão de caça pesado estavam aguardando próximo dos 10.000 m de altitude, e mergulharam sobre a formação de bombardeiros. Os Ju-88 não tiveram como escapar, porém dois deles conseguiram realizar pousos forçados, após o que suas tripulações se renderam às forças em terra.

Os Ar-234 mergulharam e passaram a voar rente ao solo, tentando enganar a cobertura dos radares britânicos. Mas nessa posição tinham pouquíssima manobrabilidade, o que os colocou a mercê dos Mustang P-51 comandados pelo tenente Tony Reynolds. O grupo de oito caças se dividiu em quatro duplas, acionaram suas turbinas auxiliares e perseguiram os invasores.



Os Blitz foram atingidos, e também um deles terminou por fazer um pouso forçado, com o piloto igualmente se rendendo às forças em terra.


Tony escrevia seu relatório, como era habitual, na sala de reuniões do prédio de administração da base. Ergueu os olhos quando Ricardo entrou, ficou em pé e bateu continência antes que o major tivesse tempo de lhe dispensar a saudação.

- Fique à vontade tenente – disse Almeida se sentando na ponta do palco.

Reynolds ocupava uma cadeira na fileira da frente, e em poucos minutos terminou de escrever. Entregou a folha ao major, que deu uma rápida passada de olhos e a depositou a seu lado.

- Então?

- Nada demais, senhor – começou a responder Tony. – Nosso pessoal continua muito bem preparado. Tem valido a pena manter o treinamento.

O tenente ficou em silêncio por um momento, e depois acrescentou:

- Os Me-262 deram um pouco de trabalho. Mesmo que nossos Mustang estejam sempre com a manutenção e os aprimoramentos em dia, o jato alemão sempre vai ser mais rápido. E nossa sorte é que o pessoal que os pilota tem mostrado queda de qualidade a cada nova batalha.

Ricardo continuou em silêncio, olhando para baixo. Tony sabia das preocupações que tomavam a maior parte do tempo de seu superior, mas sabia também que esperava que ele fosse o mais honesto possível.

- Se pelo menos eles permitissem que usássemos os novos jatos...

Almeida suspirou, ergueu o rosto e encarou o tenente. Abriu a boca para dizer algo, mas permaneceu em silêncio. Finalmente disse:

- Eu sei, tenente. Tenho brigado todos os dias, sempre com um sujeito diferente. Os Meteor, apesar de todos os problemas, conforme Denise tem comunicado nos raros contatos que consegue ter conosco, têm ido bem. Infelizmente a produção continua em ritmo lento, e eles têm preferido enviar os exemplares para a linha de frente no continente.

Os americanos, por sua vez, haviam começado a experimentar algumas poucas unidades de seu novo jato, o P-80 Shooting Star. Era um tipo totalmente novo, com uma só turbina, cujos testes aparentemente estavam sendo muito satisfatórios. Tony se lembrava do protótipo desse caça, que experimentaram na Base Ouro poucos meses antes.

- É verdade, major, um belo avião – comentou o tenente oriundo do grupo Red Tails, onde tivera destacada participação. – Mas o pessoal têm comentado ainda que há questões políticas que impedem que recebamos essas aeronaves.



- E como há, tenente! – comentou Ricardo levantando e andando pela sala. – Temos várias nacionalidades de pilotos e pessoal aqui na Base Ouro, que deveria ser um local de treinamento e pesquisa de elite, além de uma escola para os anos futuros, depois que a guerra acabar. E os políticos de todos os lados, o que fazem? Impedem que recebamos equipamentos mais avançados, por medo de sua tecnologia cair nas mãos de outras nações.

Os dois ficaram em silêncio por algum tempo, até que Ricardo se virou para Tony, apanhou o relatório recém-escrito e disse:

- Descanse, tenente. Você tem trabalhado sem parar desde que voltou em setembro. E claro, Feliz Ano Novo.

- Feliz Ano Novo, major.

Tony ficou ainda algum tempo pensando na sala de reuniões depois que Ricardo saiu.


Ricardo arquivou o relatório de Tony junto aos demais do grupo que participara da batalha. O piloto do Mustang que atingira o Me-262 biposto, dotado de radar, havia descrito algo aterrador. O jato alemão tivera uma das turbinas danificada e vinha para um pouso de emergência em campo aberto. O tenente da Base Ouro, voando a seu lado, relatou como o operador de radar, seriamente ferido no assento traseiro, havia empunhado uma pistola e atirado na cabeça do piloto. O avião mergulhou e explodiu no choque contra o solo.

O major brasileiro sempre se sentia terrivelmente mal ao se lembrar do fanatismo de muitos dos soldados e pilotos alemães que enfrentavam. O mesmo fanatismo que produzira a hecatombe da guerra que ainda travavam, e que ainda ameaçava cobrir o mundo com a escuridão do totalitarismo. 

No Brasil, pelo contrário, os surpreendentes eventos de poucos meses antes produziram resultados notáveis. O fim do governo ditatorial causou um impressionante florescimento cultural e social, e impulsionada pela Aeronáutica Dumont, a economia do país havia crescido em ritmo vertiginoso naqueles últimos três meses. O governo provisório restabelecera a liberdade de imprensa e expressão, e os crimes do regime anterior estavam sendo esmiuçados de uma forma impossível pouco tempo antes. Eleições estavam sendo organizadas para o segundo semestre de 1945, e o país respirava a liberdade e a democracia ansiadas havia tanto tempo.

Ricardo suspirou. Quem sabe, dessa forma, quando a guerra terminasse ele poderia finalmente voltar para casa.


O major procurou o engenheiro-chefe da Base Ouro, Matheus Kirk, no grande hangar principal que era o maior edifício da instalação.

Foi encontrar Matheus em um canto, atrás de um P-47 Thunderbolt que havia sido convertido para acomodar a turbina auxiliar Mattarazzo J-3, fabricada em São Paulo pela Mecânica Mattarazzo, comum a todos os tipos híbridos utilizados pela Base Ouro. E ele não estava sozinho.

O engenheiro abraçava e beijava ardentemente uma moça com uniforme de oficial. Ricardo, surpreso, observou a cena por alguns segundos.

As mãos de ambos passeavam pelo corpo um do outro, e pelo cabelo escuro e curto o major reconheceu a tenente Sara Morris, do serviço de Inteligência. O casal tornou a se abraçar, trocando um longo e apaixonado beijo, quando casualmente Matheus abriu os olhos.

Largou Sara no mesmo instante. A tenente ficou olhando para ele surpresa, mas quando percebeu que a atenção de Kirk estava integralmente para um ponto distante, a moça se virou lentamente. Arregalou os olhos ao dar com Almeida, ficou em posição de sentido e bateu continência.

- Major Almeida! – conseguiu dizer com voz decidida.

- Tenente Morris – respondeu Ricardo sorrindo.

A tenente não sabia onde pôr as mãos. Então se apressou em arrumar o cabelo ligeiramente desgrenhado, ajeitou a saia que subira com o entusiasmo dos dois, e por fim disse:

- Está tarde, e meu horário de folga terminou – olhou o relógio de pulso para reforçar. – Com licença, major Almeida!



Sara saiu andando depressa. Kirk se manteve na mesma posição, enquanto Ricardo se aproximou. O olhar do engenheiro se dividia entre a garota que desaparecia na distância e o amigo brasileiro.

Finalmente Almeida riu, enquanto Matheus disse:

- Pôxa, Ricardo, agora que conseguimos um tempo só para nós!

- E resolveram aproveitar que nesta hora do dia o hangar fica praticamente deserto, não é?

Kirk desconversou, arrumou a camisa que estava amassada, vestiu a jaqueta que fora jogada em um canto e saiu andando. Ricardo o acompanhou, e o engenheiro parou diante de duas aeronaves que haviam chegado após o Natal.

- Dumont D-115. Deve se lembrar dele depois de nossa recente visita ao Brasil.

Almeida se aproximou, deslizou a mão pela longa e afilada fuselagem, e admirou as linhas revolucionárias do caça a jato brasileiro. Os canards dianteiros, as curtas e largas asas em diedro, e as três turbinas J-3 na parte traseira.

- É, lembro sim – disse o major com tom saudosista na voz.

Suas memórias correram para os extraordinários dias passados no Brasil, o encontro deles com o Professor, e tudo mais que ocorrera. Eles haviam possivelmente vencido a guerra para os Aliados ao derrotarem a colossal ameaça que enfrentaram, e pouquíssimas pessoas sabiam o que de fato aconteceu naqueles dias.

- A cada dia que passa fico mais fulo com os burocratas do Alto Comando, que ainda não nos deram permissão de voar com estas duas belezas! – comentou Kirk. – Nunca precisamos desse tipo de coisa antes. Caramba, a Base Ouro alterou o rumo da guerra, e podemos muito bem ter garantido a vitória para nós! É isso que merecemos?



Os dois caças exibiam somente o cinza da base com que haviam sido pintados. Não tinham insígnia ou números de identificação, isso porque a burocracia, desejando privilegiar máquinas inglesas, alegava que já havia aeronaves importadas demais na Base Ouro. Porém, a indústria britânica continuava sobrecarregada, vindo daí a necessidade de importar equipamentos.

O primeiro-ministro Winston Churchill bem que tentava, pressionando sua equipe a buscar uma solução. Mas a burocracia, acreditando que o final da guerra estava próximo, aproveitava para deixar de lado qualquer escrúpulo e retomar seu comportamento habitual, levando em conta a política e não a realidade. E, atarefado com todos os assuntos que diziam respeito à administração do país e também do esforço de derrotar o nazismo, não se poderia pedir mais a Churchill.

- Um dos rapazes que interceptou os alemães hoje de manhã me perguntou quando poderemos voar com estes – comentou Ricardo. – Afirmou que só com estes dois poderiam ter dado cabo de todo o grupo sem demora.

- A depender dos burocratas não teríamos agido contra o cientista doido – respondeu Kirk. – Claro que enfrentamos oposição, mas conseguimos fazer o que precisava ser feito. Agora, temo que iremos enfrentar cada vez mais obstáculos que nada dizem respeito à solução dos problemas reais que precisamos resolver.

- E falando em problemas – comentou Ricardo – quero perguntar uma coisa.

Chamou o engenheiro para um canto mais discreto do hangar e disse em voz baixa:

- Continuam chegando aqueles relatórios esquisitos, as tais luzes estranhas que os americanos chamam de foo-fighters?

- Quase todo dia, conforme meus contatos no setor de Inteligência – devolveu Kirk. – Sara estava me dizendo que o pessoal está muito preocupado, e boa parte deles acredita ser uma nova arma alemã.

- Se é uma nova arma por que ficam somente voando ao lado de nossos caças e bombardeiros? O máximo que fazem é vir de encontro aos aviões e desviar no último instante, conforme os relatos. E quando os pilotos tentam segui-los logo desaparecem, com velocidades que nem mesmo nossos jatos conseguem igualar.

- Não acredito que sejam armas alemãs. Do jeito que estamos destruindo sua indústria e suas capacidades, não vejo como eles possam fabricar esses objetos. Poderiam ser até fenômenos naturais, caso não exibissem inteligência ao manobrarem para acompanhar e se evadir de nossas aeronaves.

Os dois ficaram em silêncio por algum tempo, e Ricardo por fim comentou:

- Ouvi rumores que os alemães também viram essas coisas. E se for verdade? Se não são nossas e nem deles, de quem são?



Kirk abriu a boca para responder, mas desistiu na mesma hora. Os dois saíram andando pelo hangar, observando o pessoal que retornava para mais um turno de trabalho. Um sargento chegou em meio ao pessoal técnico, olhou ao redor e pareceu satisfeito por ver Almeida. Aproximou-se andando rápido, bateu continência e disse:

- Major Almeida, correspondência que acabou de chegar para o senhor. Como tem um carimbo de urgente preferi vir entregar pessoalmente.

Estendeu o pacote para Ricardo, que agradeceu e o dispensou. O sargento se retirou enquanto Matheus, curioso, esticou o pescoço para olhar.

- Estou lendo o nome de Valentina aí!?

De fato, abaixo do nome da repórter constava seu endereço em Nova York. Ricardo ficou parado, olhando para aquilo, até que o engenheiro disse:

- Como é, não vai abrir?

Ricardo pareceu acordar, olhou para Matheus e sorriu. Enfiou o pacote no bolso da jaqueta e saiu andando.

- Vocês têm trocado muita correspondência nos últimos tempos, não é? Talvez seja algo especial que ela te mandou pelo final do ano.

O major se virou, sorriu de novo, depois retomou seu caminho. Aquele pacote era incomum, e ele queria privacidade quando o abrisse.

Matheus observou seu superior se afastar, e passou os olhos pelo hangar. Entre os vários veículos ali dispostos estavam vários que haviam sido capturados dos alemães. Decidiu voltar a examinar aqueles interessantes carros que haviam sido trazidos da França na semana anterior, e chamados de Kübelwagen e Kommandeurwagen.



Eles haviam sido abandonados intactos com a debandada alemã da França após o Dia D. E Matheus, desde o começo, ficou fascinado por sua construção simples e robusta, pela mecânica refrigerada a ar, e pela carroceria arredondada do último. Sabia que era derivado do tal Volksauto ou KDF-Wagen que deveria ser o Carro do Povo alemão, e ficou pensando se seria um bom carro particular.




Nova York, sede do East Coast Tribune.

- Agentes Smith e Harrison, isso é totalmente irregular e ilegal!

O editor-chefe do Tribune, Maximillian Scott, estava indignado. Os dois agentes do FBI haviam entrado no prédio e se dirigiram diretamente ao escritório de Valentina Sheridan, sua melhor jornalista.

Ambos estavam procedendo a uma rápida mas minuciosa busca no aposento, examinando gavetas, deslocando arquivos e outros móveis e procurando no assoalho por tábuas soltas que poderiam denunciar um esconderijo secreto.

- Senhor Scott, o FBI agradece sua cooperação – disse Harrison.

- Não estou cooperando com nada! – exasperou-se o editor. – Estou protestando contra esta invasão, pois os senhores entraram no meu jornal e estão vasculhando o escritório de minha repórter sem sequer exibir um mandado ou qualquer outro documento.

- São tempos de guerra, senhor Scott – comentou Harrison, cujo rosto era tão duro e inexpressivo quando o de Smith. – O Bureau está preocupado com certos rumores a respeito da recente viagem da senhorita Sheridan para a Europa.

Maximillian ia novamente protestar, quando sons vindos de fora chamaram a atenção dos três. Eles se viraram para a porta, prestando atenção.

Era o som de passos vindo do corredor. E de sapatos de mulher.



A porta se abriu, e Valentina Sheridan ficou parada, encarando os homens em seu escritório. Era bonita, alta e curvilínea, o cabelo loiro despontando por baixo do chapéu e caindo em cachos pelos ombros.

- Bom dia rapazes. E Feliz Ano Novo!

A moça entrou, andando sedutoramente ao som de seus sapatos de salto alto de encontro ao piso. Desviou-se do agente Smith, tirou o trench coat que vestia e o jogou no sofá que ocupava parte da parede dos fundos.

Vestia uma blusa justa e uma saia longa e rodada, e usava um colar que parecia totalmente incompatível com aqueles duros tempos de guerra. Sentou-se em sua cadeira giratória depois de tirar o chapéu e jogá-lo sobre o casaco, observou a mesa com arquivos, pastas e papéis que haviam sido mexidos, mas não desordenados, as gavetas abertas, e parou por alguns instantes na expressão aflita de Maximillian.

Em seguida girou a cadeira, ficando frente a frente com os dois homens do FBI. Cruzou as pernas de forma elegante, como uma musa de cinema, e ficou encarando todos.



- Então, alguém vai me explicar por que tive que interromper meu descanso, depois de uma agitada festa de reveillon, ao ser informada que o FBI estava bisbilhotando meu escritório?

Scott, agora, estava apavorado com outra coisa. Valentina era sua melhor jornalista. Mas era também a mais atrevida e indisciplinada, além de não ter o menor pudor em bater de frente com a hierarquia. Já havia se colocado em situações comprometedoras antes, mas sempre utilizara sua inteligência, astúcia e charme para se safar. Quase sempre retornando com uma reportagem incrível, que os leitores comentavam semanas a fio.

Mas havia algo desta vez, na determinação e nas palavras daqueles homens, que faziam o editor considerar que os tempos estavam mudando. E não necessariamente para melhor.

- O FBI está preocupado, senhorita Sheridan.

- Comigo? É muito lisonjeiro, agente Harrison. Mas como pode ver, retornei sã e salva de minha mais recente visita ao front europeu.

- Essa é a questão, senhorita – disse Smith. – Naturalmente o Bureau acompanha tudo que sai na imprensa, especialmente no tocante ao esforço de guerra, e as notícias das batalhas.

- E?

- E foi somente isso que a senhorita tem publicado em seus artigos recentes, desde sua viagem.

- Esse é o trabalho de um jornalista, agente. Ir até onde está a notícia, colher informações, de preferência em primeira mão, e escrever a respeito para o entendimento e deleite de seus leitores.

Os dois agentes se entreolharam, e Smith disse:

- O FBI sabe que esteve na Base Ouro, senhorita Sheridan. A principal unidade de Inteligência e desenvolvimento tecnológico dos Aliados na Europa.

- Esperava que eu revelasse alguns dos segredos com os quais travei contato ali? Sou uma jornalista responsável, agente Smith!

Os dois homens do FBI novamente trocaram olhares, e Valentina, sorrindo de forma atrevida, disse:

- É claro que vi coisas que sei que precisam ser mantidas em segredo, por enquanto! É o que qualquer profissional patriota faria! E sim, o que escrevi em meus artigos é somente uma pequena parte do que testemunhei em minha viagem!

- E o que mais aconteceu? – perguntou Harrison.

Valentina riu, descruzou e voltou a cruzar as pernas. A barra da saia subiu um pouco, revelando seus joelhos bem feitos, mas ela nem se importou. Recostou-se na cadeira, cruzando os dedos atrás da nuca, e tornou a passear com o olhar pelo escritório, demorando-se mais nos três homens. Sempre exibindo a expressão sedutora no rosto.

Maximillian engoliu em seco, aflito por ser deixado de lado daquela forma. E furioso pela garota continuar a fazer questão de provocar seus interlocutores. O editor sentia, por rumores que ouvira nos últimos tempos, que o relacionamento de muitos órgãos do governo com a imprensa vinha se deteriorando rapidamente.

- O que mais aconteceu, agente Harrison – finalmente Valentina começou a responder, depois de aparentemente se frustrar por seu charme não parecer afetar os homens – não vem ao caso.

- O diretor do FBI... – começou a falar Harrison.

Smith se virou para ele com expressão zangada, e Valentina se endireitou na cadeira, bateu palmas e disse, com um sorriso triunfal nos lábios:

- Pronto, Maximillian querido! Está aí a verdade!

Os dois agentes finalmente exibiram alguma alteração em suas expressões antes imutáveis. Valentina considerou que havia um nítido ar de surpresa em seus rostos, e decidiu que valia a pena aumentar sua perplexidade.

- Vocês do governo realmente acham que nós, jornalistas, não fazemos nosso trabalho, não é? Os autênticos entre nós, que sabem seguir pistas até onde está a informação, ao menos!

- Não entendo, senhorita Sheridan – disse Smith tentando se recompor.

- É muito simples, agente Smith! Seu diretor, o senhor Hoover, não gosta de não saber o que está acontecendo. E garanto a vocês, há muita, mas muita coisa mesmo que ele não sabe.

Ninguém comentou nada. Maximillian fazia sinais desesperados para Valentina se conter, mas a jornalista estava em seu elemento, e prosseguiu:

- Esta guerra está mudando a face do mundo, senhores! Novas tecnologias, armas secretas, segredos da natureza até então inimagináveis... As mudanças, como vimos recentemente no Brasil, estão ocorrendo em velocidade cada vez maior! Os nazistas não vão durar muito mais tempo e então, finalmente, o mundo despertará em um novo período de paz, e com desenvolvimentos até então não imaginados!

Valentina pensou que o Professor poderia muito bem ter pronunciado aquelas palavras, ou ao menos gostado delas. Sorriu, um sorriso de alegria e triunfo. Smith, por sua vez, respondeu:

- O diretor Hoover está interessado somente na verdade, senhorita...

- À custa de perseguir jornalistas e invadir redações?

- Como comentei com o senhor Scott, é um período de guerra, e devemos tomar todas as precauções. A verdade...

- Seu chefe, agente, é um político. Gosta de posar de defensor da lei, mas só se interessa por poder e política! E a verdade não depende da vontade política!

Os agentes ficaram calados. Valentina exibiu uma caprichada expressão de triunfo, e continuou:

- A verdade também é, na maior parte das vezes, inconveniente para os políticos! A verdade pode até, eventualmente, ser abafada, censurada, contida e acobertada. Até mesmo distorcida.

Os homens não se atreviam a dizer nada. Valentina havia tomado conta da situação, e concluiu:

- Sim, podem impedir que a verdade seja publicada, mas não por muito tempo. E a verdade, como qualquer jornalista sabe, só será autêntica se vier embasada em fatos. E qualquer fato, senhores, mais cedo ou mais tarde virá para a luz.

A repórter tornou a se sentar, sem olhar para eles. Mexeu em seus papéis, verificou as gavetas da mesa e fechou todas. Depois, ainda sem erguer os olhos, disse:

- Feliz Ano Novo, senhores, e boa tarde. A porta está ali.

Agora exibindo nítida frustração, os agentes tocaram levemente as pontas dos dedos em seus chapéus a título de cumprimento e se retiraram. Maximillian ainda ficou algum tempo no escritório, absolutamente pasmo com o que havia presenciado. Depois se virou para sair, ao que Valentina finalmente ergueu o rosto, olhando para ele.

- Querido Max, claro que o aviso sobre a porta não se refere a você. Fique, vamos conversar!

O editor olhou para a bela repórter, e a tensão ainda era nítida em seu olhar. Depois se descontraiu, e quase ameaçou sorrir. Lembrou-se do que a moça havia relatado a respeito de sua incursão no front de meses antes, mas mesmo ele não sabia de tudo. Ela havia prometido que um dia não só ele, nem os leitores do Tribune, mas o mundo todo saberia.

- Você ainda me mata do coração, garota!

Maximillian olhou para Valentina, e ambos trocaram finalmente o mesmo sorriso cúmplice. O editor saiu, fechando a porta atrás de si, enquanto a jornalista recostou-se novamente na cadeira, olhando para um pequeno quadro sobre a mesa.

Ela e Ricardo em Copacabana, antes da guerra mudar o mundo.

Valentina apanhou a foto e depositou um beijo sobre a imagem de Ricardo. Aquele era seu mundo agora, um mundo de segredos que somente eles e alguns poucos conheciam. Mas o que ela queria saber mesmo era quando veria novamente o homem de sua vida.



“Querido Ricardo”, iniciava a carta de Valentina que viera junto com o caderno, “Feliz Natal e um maravilhoso Ano Novo, meu querido!”.

Ricardo se surpreendeu ao abrir o pacote e reconhecer o mesmo diário que Valentina trouxera novo em sua visita de meses antes. Folheou as páginas e as encontrou totalmente preenchidas com a caligrafia caprichada da repórter, e surpreendeu-se com os desenhos e croquis que ocupavam algumas páginas.

Estava ali um relato completo da grande aventura em que eles mergulharam entre julho e agosto passados. A explicação para aquele caderno estar em suas mãos veio na carta anexa, datada de dez de dezembro.


“Tive que pedir muitos favores para fazer este pacote chegar a suas mãos em segurança. O ambiente aqui nos Estados Unidos está beirando a paranoia, muito provavelmente por causa daquele projeto secreto com energia nuclear. Eu soube até que o nome do Matheus foi comentado como um possível recruta para o projeto.

Sei também que muitos colegas têm sido seguidos e mesmo convocados para depor. Querido, nem parece que em agosto conseguimos uma vitória essencial para os Aliados e a liberdade! Claro, são muito poucas as pessoas que sabem a respeito. Informantes meus me disseram que J. Edgar Hoover está ficando maluco, pois seu acesso a essas informações confidenciais tem sido vetado. Logo ele, que tem dossiês sobre todo mundo.

E claro, eu tenho outro caderno cheio dos segredinhos íntimos e sujos dele...

Ainda estou organizando meus pensamentos a respeito do que vivemos, Ricardo. Foi tão incrível essa aventura, o cientista maluco, o Professor...  Mas o principal de tudo foi outra coisa.

Você.

E foi esse o segundo motivo de enviar o caderno a você. O primeiro, claro, para mantê-lo em segurança com alguém em quem eu sempre confiei. O segundo e principal, uma garantia.

A garantia que, não importa o que aconteça, iremos nos ver de novo.

Os acontecimentos que testemunhamos, e de que participamos, são grandes demais, querido! Muito grandes para um mero artigo de jornal, até mesmo uma série de artigos.

E claro, não são para esta época.

Mas algum dia, que eu espero que seja em breve, essa guerra vai terminar. E aí então o mundo poderá saber o que fizemos.

Já estou planejando um livro, o meu primeiro, sobre nossa grande aventura! E claro, se as lembranças estão ainda bem frescas em minha mente, de qualquer forma eu vou precisar do diário que está agora em suas mãos como apoio e fonte de informação.

E vou precisar ainda mais de você, meu querido.

Espero que fique bem, e que em 1945 finalmente essa guerra termine. Quero você, quero que fiquemos juntos, e vou lutar muito por isso.

Saudades.

Beijos.

Eu te amo, Ricardo Almeida.

Eternamente sua,

Valentina”.


Ricardo ficou olhando por um bom tempo para a carta, a letra dela, a marca do beijo depositado logo abaixo da assinatura.

Depois se demorou ainda mais na foto que, desde agosto, ocupava um canto de sua mesa, emoldurada em um pequeno quadro.

Ele e ela, juntos na praia em Copacabana.

O major foi até a janela. Uma esquadrilha de caças noturnos Mosquito estava decolando contra o céu multicolorido produzido pelo pôr do Sol. Foram seguidos por outro grupo com os D-84 também na versão de caça noturno, que patrulhariam os céus contra possíveis incursões do inimigo.

Aquele céu sempre evocava muito saudosismo em Ricardo. Sentia falta dos tempos mais simples, sem tantos segredos e responsabilidades.



Mas, naquele mundo que mudava tão rapidamente, ele se sentia seguro por existir ao menos uma constante em sua vida.

- Eu te amo, Valentina Sheridan – ele disse enquanto o Sol desaparecia além do horizonte.


As histórias de Céu de Guerra retornarão!

Lauren Bacall como Valentina Sheridan.

John Ridgely como Ricardo Almeida.

Para encerrar este ano de 2021 que para mim teve uma excelente notícia, o lançamento de meu terceiro livro, nada melhor que uma história inédita ambientada no mesmo universo deste. Espero que tenham gostado!

Quero novamente manifestar os maiores agradecimentos à Underline Publishing, que acreditou no projeto e publicou Céu de Guerra, um livro que já está sendo muito bem comentado pelos leitores!




Lembrando mais uma vez que Céu de Guerra está disponível, em e-book e como livro físico, na Amazon Internacional e na Amazon Brasileira.

E também na distribuidora Um Livro.

Aproveitando, deixo aqui também o vídeo completo do painel A estrutura do texto em prosa e verso, que aconteceu como parte do evento Conexões Atlânticas.


Finalmente, desejo a todos os amigos e colegas escritores muita imaginação, muita liberdade criativa, e muito sucesso. E para os leitores e todos que têm me honrado com sua companhia ao longo dessa história que todos escrevemos, chamada vida, um feliz 2022 com tudo de bom e do melhor!

Até a próxima!

domingo, 29 de agosto de 2021

CÉU DE GUERRA DECOLOU


 

E finalmente, depois de muita espera, foi publicado meu terceiro livro, Céu de Guerra!


Essa aventura que mistura dieselpunk com história alternativa saiu pela Underline Publishing, editora que vem publicando uma enorme variedade de autores brasileiros e lusófonos, abrangendo variados gêneros como infantil, poesia, romance, ficção científica e muitos outros.


Céu de Guerra teve inspiração em variadas fontes. A principal foi um certo filme de 2004 que tem no elenco Jude Law, Gwyneth Paltrow e Angelina Jolie. Não lembra? E o que é Dieselpunk mesmo? Pois o convite está dado para que confira o especial de Literatura Punk clicando aqui.


O livro também foi inspirado em uma série de leituras a respeito da Segunda Guerra Mundial (sim, pesquisa é tudo), incluindo vários fascículos da coleção Guerra nos Céus dos anos 1980, que me ajudaram a compor o cenário cuja trama se desenrola logo após o Dia D, em 1944, período mais intenso da Segunda Guerra Mundial. Acompanhamos as aventuras do capitão brasileiro Ricardo Almeida, do engenheiro e cientista Matheus Kirk (olha uma referência aí!), a jornalista Valentina Sheridan (mais referências!) e muitos outros personagens, tanto imaginários quanto reais.


Falando nisso, o livro traz extras, entre os quais um guia para estas referências, que são tanto históricas quanto da cultura pop. Como não poderia deixar de ser, um dos itens é precisamente sobre o avião que está na capa do livro, o P-51 Mustang, considerado um dos melhores caças de todos os tempos.



Destaco ainda que a arte da capa foi elaborada pelo Paulo Werner, de Terra de Lund e da revista OVNI Pesquisa. Obrigado!


E a Underline Publishing ainda caprichou demais nesse book trailer nada menos que espetacular, confira:



Também está disponível este vídeo, em que este que vos escreve explica mais um pouco a respeito de Céu de Guerra:



Como dito, o ponto de diferenciação entre nossa realidade e a de Céu de Guerra é o fato de Santos Dumont, o grande gênio e inventor brasileiro, haver criado a Aeronáutica Dumont, alterando o rumo da história, e conferindo ao Brasil um status de protagonista de primeira grandeza no esforço de guerra dos Aliados. Como não poderia ser diferente, esta obra é dedicada ao grande gênio Alberto Santos Dumont!



É um enorme prazer então convidar os leitores a conferirem meu terceiro livro, Céu de Guerra! Ele pode ser adquirido como e-book ou físico na Amazon internacional, ou como e-book na Amazon brasileira. E muito em breve, o físico aterrissará na Terra Brasilis!


É uma grande satisfação, aliás, ver meus "bebês" juntos!


Lembrando que Filhas das Estrelas, publicado pela Estronho, continua disponível como e-book.


Assim, convido os leitores a vir voar e participar de muitos dogfights e aventuras com Céu de Guerra!


Até a próxima!

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

MENSAGENS DA LISTA



De: Jane (advogada e ativista)
Para: A LISTA
Assunto: Re: Re: Greta Thunberg

Não sei por que tanta polêmica quanto a essa pessoa que conhecemos em minha realidade como presidente Greta da União Europeia. Aqui, como em muitos dos mundos dos colegas da Lista, ela iniciou sua trajetória como ativista em prol do planeta e contra as mudanças climáticas. Em poucos anos se lançou na carreira política, tornando-se a mais jovem presidente da União Europeia.
Após os terríveis efeitos do Brexit, a Grã-Bretanha iniciou tratativas para retornar ao bloco, e Thunberg utilizou aquele país como ensaio de suas políticas climáticas. Combustíveis fósseis foram proibidos, e o altíssimo custo das energias limpas levou milhões de britânicos à pobreza extrema.
Os habitantes daquela ilha experimentaram uma revolta sem precedentes, agravada pela abolição da monarquia, imposição de Greta para permitir o retorno à União Europeia. A tomada do poder por um grupo radical resultou na ameaça da utilização de armamentos nucleares contra o governo central, mas Thunberg concordou em diminuir os altíssimos royalties pela utilização das tecnologias limpas e a situação foi apaziguada.
Aconteceram problemas com Rússia e principalmente com os imperialistas Estados Unidos, mas apesar da resistência do então governo estadunidense, a eleição da presidente Clinton possibilitou a melhora no diálogo. Durante os já seis anos de gestão da presidente Greta na União Europeia, as emissões já reduziram em dez por cento na média global.


De: Richard (cientista)
Para: A LISTA
Assunto: Re: Re: Greta Thunberg

Raras vezes li tamanhas bobagens aqui na Lista. Questiono até mesmo a decisão do Moderador de permitir que pessoa tão limitada e evidentemente submetida à lavagem cerebral ideológica participe deste fórum!
Em meu mundo a tal Greta se tornou líder de uma facção eco terrorista, e seu ato mais notório foi o ataque contra competidores e espectadores do Rali da Suécia, importante competição automobilística daquele país. O total de vítimas chegou a quarenta antes que uma caçada internacional fosse decretada contra os criminosos. A maior parte foi presa ou morta, porém Greta escapou.


Ela ressurgiu pouco tempo depois com piratas atacando navios de cruzeiro no Atlântico Sul e Caribe. Suas ações se tornaram ainda mais letais, e foram ao menos sete navios afundados, com perdas de milhares de vidas. Os barcos da flotilha terrorista de Greta foram finalmente encurralados e destruídos pela Quarta Frota norte-americana, e o mundo aplaudiu quando seu corpo sem vida foi encontrado e filmado boiando nas águas.
A respeito das mudanças climáticas sou um dos cientistas responsáveis pelo projeto responsável por mitigar seus efeitos. Lançamos centenas de espelhos em órbita que refletem parte da energia solar, auxiliando no abaixamento das médias de temperaturas globais. Um esforço científico e tecnológico muito grande foi realizado a fim de implantar fontes de energia limpas e acessíveis a todos, pois a sociedade global entendeu que prejudicar o desenvolvimento econômico, principalmente dos mais pobres, não resolveria coisa alguma.
O mesmo desenvolvimento econômico, científico e tecnológico que, conforme posso conferir nas mensagens dos colegas da Lista, em muitos mundos Greta Thunberg combate. Essa é a resposta para o problema climático, e não bravatas.

De: Jeremy (jornalista)
Para: A LISTA
Assunto: Re: Re: Greta Thunberg

Greta é uma idiota.


De: Richard (cientista) (Terra paralela)
Para: A LISTA
Assunto: Re: Re: Greta Thunberg

Os eventos em meu universo aconteceram de forma semelhante ao de meu caro duplo, mas com diferenças evidentes e resultados, infelizmente, mais trágicos.
O Rali da Suécia foi aqui interrompido por Greta e um pequeno grupo de jovens, bem no momento em que um dos competidores passava. Foi inevitável o choque, e todos os ativistas morreram, incluindo Greta, decapitada.


O clamor popular contra o aquecimento global foi multiplicado pela tragédia, e a corrida por fontes de energia limpas e meios de mitigar os efeitos do fenômeno mais acelerados e dramáticos. As perdas e conflitos foram graves, mas no espaço de seis anos tínhamos também melhorado a situação global, e instalado em órbita equipamentos de reflexão solar semelhantes ao de nossa Terra paralela.
Contudo, para alguns não foi o suficiente. As instalações de controle dos refletores orbitais foi tomada por eco terroristas, liderados pelos pais de Greta. Alegando que a única alternativa seria o retorno à natureza, usaram os dispositivos para focalizar raios de energia solar em importantes áreas industriais, geradoras de energia e grandes cidades de nações que viam como inimigas.
Eles contam com apoio de forças argentinas, cubanas, venezuelanas e norte-coreanas. O conflito na principal instalação, em plena Suécia, se avoluma a cada dia. Washington, Londres e Brasília foram algumas das cidades riscadas do mapa pelos terroristas, e a situação está chegando a uma escala cujos resultados são imprevisíveis.
Espero poder escrever mais em breve.

De: Flávio (escritor e não ativista)
Para: A LISTA; Jane (advogada e ativista)
Assunto: Re: Re: Greta Thunberg

Lamento muito os dissabores das realidades dos colegas. E Jane, você claramente está sob efeito de lavagem cerebral ideológica. Penso que adivinho as motivações do Moderador ao permitir que você tenha acesso à Lista: servir como contraponto, e possivelmente o pior exemplo possível.
Aqui a maluca da Greta igualmente se tornou eco terrorista, também atacou competições automobilísticas e navios de cruzeiro, mas encontrou infelizmente eco em muita gente que adora deixar de usar as faculdades mentais para seguir um “grande líder”.
Achávamos que o governo russo era ruim, vejam vocês! Pois foi deposto e novas eleições colocaram no lugar uma dessas “ativistas” que rezava pela cartilha da pirralha sueca. E toda a pregação da Greta não a impediu de apoiar a ameaça de utilização do arsenal nuclear russo contra aqueles que não se sujeitassem a suas ideias.
Estamos à beira de uma hecatombe, e ninguém mais liga para as mudanças climáticas. Satisfeita, Jane?

De: Greta Thunberg (cientista)
Para: A LISTA
Assunto: Re: Re: Greta Thunberg

Lamento muito que boa parte de minhas contrapartes em mundos paralelos dos colegas tenha um comportamento tão deplorável.
Desde jovem, preocupada que era com a devastação planetária, procurei estudar para buscar fontes de energia limpas. Isso me levou ao CERN e ao Grande Colisor de Hádrons. Depois de anos de pesquisa, e incentivada pelos amigos da Lista, dei minha contribuição para a descoberta de universos paralelos, e uma forma de nos conectar a eles.
Uma das pontes que abrimos foi para um sistema solar cujo centro era ocupado por um buraco negro. Com um melhor entendimento da Radiação Hawking veio a ideia de utilizar essa descoberta como uma fonte limpa e praticamente inesgotável de energia.
O mundo tinha pressa, e em pouco tempo estações espalhadas por todos os continentes levavam energia limpa e gratuita a todos.
Mas essa pressa não nos permitiu ser cuidadosos como deveríamos, e meu tempo, e de meu mundo, está acabando.
Alertas de que deveríamos ser mais cautelosos eram rechaçados como “alarmismo” e “posição favorável à destruição do meio ambiente”.
Agora o buraco negro está sendo atraído pelo portal, realimentando este de tal forma que não existe a menor possibilidade de desligá-lo.
Se eu fosse religiosa, pediria que rezassem por nós. Foi bom ter tido contato com todos vocês através da Lista, e...

CONTATO DA LISTA COM ESSA REALIDADE PERDIDO.

De: Flávio (escritor e não ativista)
Para: A LISTA; Greta Thunberg (cientista)
Assunto: Re: Re: Greta Thunberg

Lamento profundamente a triste notícia, e rezarei por você, colega Greta. Sim, ainda estamos aqui e a guerra ainda não eclodiu, mas não sei por quanto tempo mais.
Veja, Jane, o que a cegueira ideológica causa. Até quando os melhores esforços encontram uma solução, esta é minada pela histeria dos que acreditam terem todas as respostas.


De: Jane (advogada e ativista)
Para: A LISTA; Flávio (escritor e não ativista)
Assunto: Re: Re: Re: Re: Greta Thunberg

Flávio, você só pode estar de brincadeira! Sim, os sacrifícios foram imensos, mas os dados comprovam que nosso planeta está muito melhor do que estava antes de Greta surgir!
Há algumas dificuldades sim, aqui no Brasil e outros países do hemisfério sul. Uma grande área próximo a Macapá teve que ser desflorestada para a construção do Repetidor Internacional Equatorial, e outras subestações foram necessárias em território brasileiro.
Conforme a presidente Greta determinou, agora que estamos corrigindo os problemas na Terra, temos que resolver a questão do lixo espacial. Não adianta nada limparmos nosso planeta e continuarmos com os inúteis, dispendiosos e poluidores lançamentos espaciais.
Os lasers em terra e em aeronaves têm auxiliado a limpar a órbita baixa da Terra, e a presidente determinou que os repetidores em terra são a melhor opção para substituir os satélites nas comunicações globais. E graças ao fato de ceder amplas regiões de seu território, como a própria Amazônia, o Pantanal e outras o Brasil, com o governo da presidente Manoela Vittar, teve facilidades, como pagamentos de royalties para a União Europeia de somente sessenta por cento na rede global. O desmantelamento da hidrelétrica de Itaipu também nos rendeu permissões para usar de modo emergencial as termelétricas e gasogênio em veículos, desde que a serviço público e social.
Comprovei que meu mundo está melhorando, só não vê quem não quer.

De: Flávio (escritor e não ativista)
Para: A LISTA; Jane (advogada e ativista)
Assunto: Re: Re: Re: Re: Re: Greta Thunberg

Jane, se não quer se informar comigo, pergunte a qualquer colega da Lista, pelo menos a algum que não deixou de lado as faculdades mentais em troca da militância irracional. Derrubar florestas para a construção de repetidores terrestres de telecomunicações quando se tem satélites à disposição é simplesmente estúpido.
Gasogênio? Queimar carvão ou madeira para mover veículos, e em nome do meio ambiente! Parabéns, vocês conseguiram!
Pior ainda louvar a ignorância de quem impõe de forma totalitária essas coisas.

De: Jane (advogada e ativista)
Para: A LISTA; Flávio (escritor e não ativista)
Assunto: Re: Re: Re: Re: Re: Re: Greta Thunberg

Ignorância é sua atitude de não reconhecer como a busca desenfreada pelo desenvolvimento científico e tecnológico levou à destruição do mundo. E, não satisfeitos, os adeptos dessa prática insana, com sua corrida espacial absurda, ainda pretendem levar sua sujeira a outros mundos!
A presidente Greta lançou uma proposta de proibir todo e qualquer lançamento espacial a outros mundos para, caso haja vida neles, ela seja protegida de nossa estupidez.
Com relação à praga dos satélites e outros tipos de lixo espacial,

CONTATO DA LISTA COM ESSA REALIDADE PERDIDO.


De: O Autor
Para: Caros leitores
Assunto: Novidades no blog
Olá, caros leitores! Bem vindos à Lista! Tenho me dedicado a diversos afazeres, incluindo novas obras, além de textos para o blog Corujice Literária.
E, como havia tempos não explorávamos o Multiverso da Lista, aproveitei certos fatos recentes para experimentar uma ideia que havia tempos queria escrever.
Mensagens dos membros da Lista!
Sim, sempre parodiando e refletindo algum fato deste nosso caótico mundo. Quem sabe o que estará acontecendo em alguma Terra paralela, situada a poucas linhas de distância.
E fiquem tranquilos, a crítica social e a defesa incondicional e irrestrita da plena liberdade de expressão, que sempre foi um dos pilares da Lista, também estarão presentes!
Acompanhem nas redes sociais, pois sempre que tivemos novidades é ali que serão anunciadas:

Instagram: @renatoa.azevedo, @mlzotarelli e @corujiceliteraria.

Histórias anteriores da Lista? Cliquem nos marcadores abaixo, e sugiro ainda clicar aqui e aqui também.

E não deixem de conferir os dois ebooks da Lista na Amazon:



A Lista retornará.

Até a próxima!

sábado, 2 de março de 2019

A Lista: O País do Carnaval



A Lista é um fórum e rede social da qual participam produtores e divulgadores de conhecimento. Escritores, professores, jornalistas, cientistas e muitos outros. Cada um deles habita um universo paralelo distinto, uma realidade, um mundo, um Brasil que pode ser semelhante ao nosso, mas também muito diferente. Acompanhe agora mais uma história, situada em um distante universo que pode estar muito próximo de nós.

            René e Malena passeavam de mãos dadas pela Avenida Pedroso de Morais. O cenário de caos e destruição já não os impressionava mais, e por vezes o escritor pensava se tudo aquilo valia mesmo a pena.
            Sentir a mão da esposa na sua, pensar nas mais de quatro décadas vividas juntos, entretanto, o fazia considerar que sim, qualquer preço a pagar ainda seria muito pouco.
            Naquele quarteirão muitos dos prédios que existiam no passado foram demolidos, cedendo lugar a casas de estilo clássico acolhedoras onde moravam muitos amigos deles. Gertrudes, acompanhada do filho e do neto, limpava o jardim e tentava replantar algumas das mudas arrancadas desde o último bloco, três dias antes.
            - Fala, vizinhos, como estão? – perguntou ela com seu jeito sempre informal.
            Malena se adiantou, abraçou a amiga e respondeu:
            - Poderíamos estar melhor, mas vamos levando. Ainda arrumando os estragos?
            Em resposta, a vizinha cuspiu em um dos muitos panfletos deixado pelos foliões. Nele se viam os rostos da prefeita Marineuza Fraga e do presidente Karlos Uyllys, louvando a “verdadeira cultura brasileira” representada pelo carnaval.
            - Imagina essa filha da P. dessa Fraga, descendente de índios e analfabeta, se orgulhar de ser a primeira prefeita de São Paulo com essa condição! E vive repetindo que os livros só foram produzidos no Brasil depois de Don João VI, que são “invenção do homem branco opressor” que não tem nada a ver com a “cultura popular” que eles defendem! – disse com raiva.
            René olhou as duas, que devolveram o gesto. Era um autor famoso, primeiro brasileiro a ser bem sucedido no ramo da ficção científica e fantasia, tanto no mercado doméstico quanto no exterior. Os dois rapazes também pararam o que estavam fazendo e aguardaram sua resposta. Logo ele, que nunca se sentiu um líder ou inspirador das massas. Mas afinal respondeu:
            - Sempre tentamos conviver em paz com todos. Vocês sabem, claro, que em minha obra a luta contra a opressão, pelos direitos e responsabilidades iguais e o respeito de todos para com todos sempre foi um dos motes principais. Acho...
            - Corta o papo, René! – interrompeu Gertrudes. – Nosso erro foi não ter derrubado aquele filho da P. do Uyllys quando tivemos chance. Agora que ele conseguiu aprovar o maldito carnaval de 120 dias, estamos é muito lascados!
            Todos ficaram em silêncio, e por fim olharam nos arredores. Um caminhão subia a Pedroso de Morais na contramão, no sentido Pinheiros, parou no quarteirão seguinte e seus ocupantes desceram. Eles recolheram alguns corpos que sobraram do último desfile e os jogaram na caçamba. Na Rua dos Tamanás haviam construído grandes fornos, onde o lixo e os cadáveres resultantes daquelas batalhas eram queimados. Os homens regressaram ao interior do veículo e tornaram a partir.
            Cada um daquele grupo pensou a respeito das assustadoras consequências da decisão de estender cada vez mais o carnaval. A cidade se tornava uma terra sem lei ao longo daqueles quatro meses. O desabastecimento, o lixo e os cadáveres nas ruas se multiplicavam, e quanto mais os foliões eram incentivados pelas autoridades, mais violentos se tornavam.

            Quatro anos antes os primeiros blocos com caminhões de som armados tomaram as ruas, quando o carnaval já acontecia durante dois meses seguidos. Diante da carnificina acontecida no Largo da Batata logo no início da assim chamada “festa popular”, região agora abandonada e onde sequer os blocos desfilavam mais, moradores de outros bairros começaram a tomar providências, para alegria e lucro dos traficantes de armas.
            Dias depois, na Vila Madalena, o primeiro real conflito armado. Entrincheirados em suas casas e apartamentos, os moradores conquistaram uma vitória amarga, com um número de mortos entre os foliões na casa das centenas. Os que sobreviveram vandalizaram tudo que podiam, resultando em saques, incêndios e assassinatos de todos quantos puderam colocar as mãos. O caso mais chocante foi o incêndio em uma creche, vitimando dezenas de crianças.
            Já era padrão entre os blocos ter o carro de som pesadamente armado e blindado na frente, com foliões igualmente portando armas e atirando em todos que se encontrassem no caminho e não estivessem cantando e dançando. O carro de som costumava ser seguido por um ou mais caminhões tanque que abastecia continuamente os foliões com cerveja. Em meio à turba era comum circularem traficantes fornecendo todo tipo de alucinógeno.
            O assassinato das crianças alimentou uma grita geral contra o abuso, mas Karlos Uyllys não somente a atribuiu a “terroristas reacionários e elitistas, contrários ao patrimônio nacional da cultura popular”, como publicou um decreto aumentando o período do carnaval para 120 dias.
            O total de mortes naquele carnaval passou das centenas de milhares. Naturalmente o período pré e pós da chamada “festa popular” foi igualmente ampliado, e no total o período de barbárie chegou a perto de 150 dias no ano seguinte. A economia do país ruiu, e Uyllys colocou tropas federais nas ruas para combater aqueles que chamava de “fascistas”. Impôs ainda um toque de recolher para todos os heterossexuais e brancos que não participassem de alguma maneira das “obras sociais”, entre as quais se incluía o carnaval.
            Para René aquilo foi demais. Primeiro brasileiro a vencer o Prêmio Nobel de Literatura, ele decidiu fazer o que estivesse a seu alcance para mostrar quão absurdas, pequenas e mesquinhas eram aquelas atitudes. E decidiu revelar para todo o mundo seu maior segredo.

            Havia anos vinha recebendo e-mails, mensagens, fotos, filmes e arquivos em seu computador que não haviam sido enviados de qualquer lugar do mundo. De seu mundo, especificamente. Ele era um dos mais conhecidos e respeitados membros da Lista, um fórum transdimensional de discussão que tinha entre seus membros produtores e divulgadores culturais e do conhecimento de inúmeros universos paralelos.
            Ele ficou assombrado ao descobrir tantas diferenças e tantas semelhanças entre aquelas incontáveis dimensões paralelas. Um Brasil ainda imperial, outro que buscava se recuperar da hecatombe socialista. Um universo decadente onde cientistas buscavam acompanhar a última estrela que iria explodir. Inúmeros Brasis onde se lutava por direitos iguais, e muitas alternativas onde o carnaval não havia chegado aquele extremo que eles viviam.
            René expôs tudo. Divulgou cada uma das obras que colegas seus produziam em outros universos, cada descoberta científica séculos adiante do que era conhecido em seu mundo. E notícias de incontáveis Brasis onde festas populares não haviam descambado para o barbarismo e assassinato em massa, ao nível de uma guerra civil.
            Os resultados superaram em muito cada uma de suas expectativas.
            Ele se surpreendeu ao constatar que boa parte da comunidade científica zombava daquelas revelações. Outra parte, contudo, mais curiosa e menos afeita a hierarquias e ao puro status pessoal, se debruçou sobre aquele tesouro de informações.
            Porém, os resultados negativos superaram em muito os positivos. Ao saber que existia uma versão dos Estados Unidos onde a segregação ainda era uma realidade, os preconceituosos daquela nação voltaram a se erguer. Uma Segunda Guerra Mundial na qual a China e a Rússia se aliaram após a derrota nazista, causando um reaquecimento do conflito e englobando mais uma vez o mundo em batalhas sem fim, que nessa versão já duravam sessenta anos, causou severos atritos na comunidade internacional.
            As várias versões onde o Eixo venceu a guerra, ou aquelas onde as missões Apollo lunares descobriram restos de visitas extraterrestres no satélite, descambando por vezes em novas guerras mundiais, ou em outras Idades Médias plenas de fanatismo, igualmente causaram consternação global.

            Diante disso Karlos Uyllys, sem surpresa alguma, chamou René Andersen de “traidor da humanidade” e prometeu julgá-lo por zombar da “cultura mundial”, expondo-a ao que chamou de “invasão das outras dimensões imperialistas”. A maior parte da comunidade internacional, como já vinha ocorrendo, o considerava um palhaço com sonhos ditatoriais, mas infelizmente houve gente que se entusiasmou com o discurso.
            Uyllys certamente deve ter ficado chocado ao descobrir que, em outro Brasil paralelo, um duplo seu não reconheceu o legítimo resultado de uma eleição, que colocou no governo um desafeto seu totalmente contrário a sua ideologia. Aquela versão dele optou por renunciar ao mandato parlamentar e se exilar na Europa, posando de líder perseguido.

            - Vó, Vó, olha só – o chamado do neto de Gertrudes tirou René daquelas reflexões.
            A vizinha apanhou o tablet trazido pelo jovem, e exibiu a tela para todos verem.
            - Aqui na Avenida Paulista a batalha segue intensa – gritava uma jornalista em meio ao caos. – Os foliões estão atacando o Hospital Pamplona e, do outro lado da avenida, o Masp.
            Um estrondo fortíssimo foi ouvido, e a moça se abaixou. As imagens confusas evidenciavam que ela e seu câmera corriam para se abrigar. Depois de alguns instantes, desgrenhada e coberta de poeira, ela voltou a falar:
            - Os foliões conseguiram explodir um dos pilares do Masp, e o museu caiu e desmoronou. Ainda havia pessoas dançando e cantando embaixo dele, mas isso não impediu os sobreviventes de comemorar. Estão invadindo agora, e já vemos quadros e outros objetos sendo jogados pelas janelas.
            As imagens mostraram as obras de arte sendo alvo da fúria da turba bêbada e drogada. Alguns fizeram suas necessidades nelas, mas a maioria simplesmente se concentrou em sambar sobre os quadros, destruindo-os.
            - Meu Deus – disse Malena. – todas aquelas obras.
            - Eles tiveram que escolher, proteger os pacientes do hospital ou o museu – comentou René.
            Outros vizinhos chegaram nesse momento, também acompanhando as notícias, e Gertrudes fez com que todos entrassem em sua casa. As horas seguintes mostraram um acirramento do conflito, sempre com a trilha sonora do tecno-samba e do pós-funk, uma cacofonia sem sentido na qual palavras de baixo calão eram gritadas sem formar qualquer sentido discernível.
            A turba seguiu os dois caminhões de som e os cinco tanques de cerveja. Imagens aéreas mostravam que deveria haver no mínimo um milhão deles. A repórter voltou, desta vez acompanhada do organizador da “folia”.
            - É isso aí, vagaba, me mostra aqui, fica assim pertinho de mim – dizia o sujeito, passando o braço pelos ombros da repórter que não conseguia disfarçar o incômodo. Ele a beijou à força, depois a empurrou para longe após tomar o microfone.
            - Seguinte, galera, eu sou o Dany Brizado, organizador dessa festa linda, popular e democrática. É com muita alegria que vamos comemorar muito que acabamos com aquele espaço elitista, reacionário aqui na nossa Paulista. Ainda tem uns aí que não querem curtir o carnaval, mas a gente vai continuar até o mês que vem com certeza!
            Depois ele se aproximou da câmera e acrescentou:
            - René Andersen, seu velho maldito, sua vez tá chegando! Adivinha pra onde a gente vai agora, hein?
            Todos se entreolharam, e providências começaram a ser tomadas. René e Malena foram para casa, vizinha da grande biblioteca da Praça dos Omaguás, e dali se comunicavam com todos.

            - Pai, você tem mesmo certeza disso? – a pergunta foi feita por Arthur, filho deles e batizado em homenagem a um dos maiores criadores da ficção científica em todas as paralelas.
            René olhou para ele, se levantou da cadeira e segurou seus ombros. Os dois se abraçaram e o velho escritor, com olhos marejados, respondeu:
            - Nunca tive tanta certeza de nada, meu filho. Pois não foi outro grande pensador que disse que os livros são a prova de que os seres humanos podem produzir magia?
            - Viveremos para sempre nessas obras, meu filho – acrescentou Malena. – E, como a existência da Lista e das realidades paralelas comprova, nada está realmente perdido na realidade.
            - Em nenhuma delas, com certeza – disse Arthur.
            O rapaz saiu correndo, e eles ouviram as ordens que ele gritava nos porões do grande prédio. A construção envidraçada abrigava no passado uma das maiores livrarias de São Paulo, mas a rede que a operava deixou o país diante de um dos primeiros caos econômicos do século. Depois de um período de bonança a calamidade regressou com Karlos Uyllys, como as notícias nas telas dos computadores espalhados pela sala mostravam.
            - Na Rebouças a luta está mais violenta do que nunca – comentou Samara, namorada de Arthur.
            As imagens ao vivo mostravam os caminhões de som e tanques de cerveja passando por cima dos corpos empilhados dos foliões do desfile da noite anterior. A tática fora eficiente por vários carnavais, até que os veículos passassem a ter rodas e pneus maiores, grades e limpadores de entulho na frente similares aos limpa-trilhos das velhas locomotivas. Além de tudo os foliões que iam à frente passaram a contar com lança-chamas, incinerando os corpos e facilitando a passagem dos blocos.
            - Que insanidade! – comentou Malena em um intervalo.
            - Tudo, tudo isso é insano, meu amor – respondeu René enquanto a envolvia em um abraço.
            A esposa o olhou nos olhos. René pensou no quanto a amava. Antes dos cabelos brancos que agora acariciava, antes da fama e da fortuna, e muito antes que a mera posse de um livro na rua fosse considerada um crime.
            - Estamos ficando tão insensíveis quanto eles? – ela perguntou.
            René pensou na resposta, meditando pela enésima vez por que, realmente, fazia tudo aquilo.
            - O que nos diferencia de alguém como Uyllys é que nós somos movidos por valores, e ele por sua ideologia, meu amor.
            - Não foi isso que perguntei.
            - Eu sei. Estou respondendo da melhor maneira que posso.
            Depois de um silêncio, e dela lhe dar um longo e apaixonado beijo, o escritor prosseguiu:
            - Tantos já participaram dessa luta, tantos já desistiram. E tantos morreram... Sim, por vezes encaro tudo isso como uma guerra, uma batalha contra a aniquilação, mas não contra a morte. Contra algo muito pior.
            - As trevas. A ignorância.
            - Isso! Isso, meu amor!
            - Mas é nisso que penso, estamos descendo ao nível deles? Atirando e matando, e usando as mesmas armas?
            - Malena, meu único amor, alguém já disse que em uma guerra todas as armas disponíveis têm que ser usadas. Mas não pense que a luta terminará aqui, hoje, ou quando finalmente conseguirmos acabar com esse terror em que transformaram o carnaval. Veja, nós já ganhamos essa guerra, na verdade!
            Malena olhou nos olhos do amado, e ele finalmente respondeu a sua pergunta silenciosa:
            - Eles irão passar mas os livros continuarão, para sempre.
            O casal trocou mais um longo e apaixonado beijo, e Malena disse:
            - Exatamente o que penso, meu amor. Vamos, há muito que fazer!

            As horas seguintes foram de tensa expectativa. Pela grande cobertura televisiva e pela internet eles acompanharam o desfile do bloco. A música ensurdecedora enchia a Avenida Rebouças, enquanto tiros eram disparados dos prédios vizinhos. O armamento pesado do caminhão de som devolvia os disparos, mas os defensores conseguiram uma vitória ao conseguir explodir um dos quatro caminhões tanque de cerveja.
            Eles ficaram alarmados quando um bloco menor, não programado, começou a subir a Rebouças vindo da Faria Lima. Vivian, neta de Gertrudes, e seu namorado Otavio estavam realizando os preparativos finais em outra estratégica de defesa, em um edifício situado na esquina da Predroso de Morais com a Arthur de Azevedo. O casal se apressou, trocando mensagens ininterruptamente com uma equipe armada nas proximidades.
            Após o bloco maior passar pela Rua Potiguar Medeiros, um edifício na Rebouças foi explodido. A intenção dos defensores era que caísse em sentido enviesado sobre a maior parte do bloco, mas infelizmente a queda foi perpendicular à avenida. Mesmo assim boa parte do exército de reserva de foliões foi eliminada. Prédios menores foram dinamitados no trajeto até a Pedroso, e uma enorme quantidade de combustível derramada no asfalto foi incendiada, impedindo a passagem dos foliões.
            O bloco então virou à direita na Prudente e passou a descer a Rua dos Pinheiros, vias estreitas nas quais os defensores poderiam atacar com mais eficiência, sem que o desfile tivesse liberdade de movimentos. A troca de tiros se tornou ainda mais intensa, e mesmo com a vantagem de estarem no alto, nos prédios das imediações, as baixas entre os defensores foram pesadas.
            O bloco menor apressou o passo e chegou à Pedroso primeiro, e os foliões que não estavam caindo de tanto beberem tentavam liberar a via que também havia sido incendiada. Novas explosões de construções menores produziram projéteis de aço, concreto e vidro que dizimou parte deles.

            - É tão triste esses jovens sofrendo e morrendo nessa luta – disse Malena.
            - Todos nós estamos nos sacrificando – comentou René.
            A esposa o abraçou e beijou, respondendo:
            - E nem por um instante me arrependo de estar a seu lado neste e em todos os momentos! Vou ver como está nossa defesa no teto.
            Chegando ao topo do edifício da biblioteca Malena conversou rapidamente com as pessoas que manipulavam a arma. Não era letal como os fuzis e metralhadoras, mas era capaz de dispersar com rapidez as hordas que seguiam os caminhões de som. Satisfeita, ela tornou a descer as escadas.

            - Vamos logo com isso! – Otavio e Vivian ouviam pelo rádio.
            - Os fios dos detonadores estão com mau contato, estamos trabalhando - gritou ela.
            - Otavio, os bárbaros já entraram na Predroso, você precisa correr!
            O jovem ouviu mais uma vez pelo rádio o insistente pedido. Contudo as luzes do painel do dispositivo não se acendiam, e ele continuava a trabalhar febrilmente.
            Vivian, de fuzil em punho, vigiava os arredores. Estavam nos porões do prédio, e ela frequentemente olhava para os explosivos fixados nas colunas de sustentação.
            - Droga – gritou Otavio. – Desde que essa crise começou a qualidade de tudo que é produzido cai. O contato deve estar com defeito, vou ter que improvisar!
            Eles só conseguiam se comunicar gritando, pois lá fora os dois blocos haviam se unido e aumentado ainda mais sua balbúrdia. Conseguiam ouvir até as vozes de Dany Brizado e da cantora Eleutéria Neves:
            - Porque essa gente reacionária, preconceituosa e retrógrada ainda fica lendo livros em papel. Em papel, gente! Quantas árvores foram mortas por causa disso? Isso é errado, o meio ambiente é importante, e usar papel é errado!
            - Vamos lá, enfrentar os elitistas, e vamos ganhar deles, mostrar a força da cultura popular! – completou Brizado, que sempre fez questão de ocultar seu verdadeiro nome.
            Os dois, no alto do caminhão de som e protegidos por escudos, nem davam atenção aos disparos trocados entre seus foliões armados e os defensores. Subitamente os tiros ficaram ainda mais próximos.
            - Vivian, eles nos viram e estão tentando invadir o prédio! Não sei se vamos conseguir...
            Os membros da equipe no térreo tentaram por todas as formas resistir, mas os foliões armados estavam em maior número.
            - Vamos correr, gente, vamos lá – gritou Neves.
            As imagens ao vivo da televisão, para quem acompanhava, mostraram quando disparos de grosso calibre romperam a blindagem superior do caminhão, atingindo a cantora em cheio. Brizado nem ligou, mandou dois auxiliares removerem seu corpo, e outra cantora assumiu seu lugar.
            - Otávio, estamos morrendo aqui... Vai depressa... Vamos...
            Uma explosão maior aconteceu, e o rádio ficou em silêncio. Vivian e Otavio trocaram um olhar, e ela apoiou o pesado fuzil em um pedaço de outra coluna que haviam derrubado.
            - Estão vindo.
            - Eu te amo.
            Vivian não esperava aquelas palavras, virou-se e Otavio estava a seu lado. Abraçaram-se e se beijaram, e ele retornou ao trabalho.
            - Tem outros aqui! - Gritou um infeliz que surgiu na escada que dava acesso ao porão, antes que Vivian o atingisse.
            Outros começaram a descer, e a menina foi rápida no gatilho para contê-los. Os disparos aumentaram, e as chamadas pelo rádio de Otavio ao resto da equipe não foram respondidas.
            Vivian trocou rapidamente de canal.
            - Vó Gertrudes, eu amo muito a senhora!
            - E eu amo você, minha filha. Deus lhe proteja e ampare, sempre!
            A garota voltou a lutar, mas os foliões eram cada vez mais numerosos.
            - Terminei! – disse Otavio.
            No mesmo momento, um dos invasores lançou uma granada, ao mesmo tempo em que os tiros se intensificavam.
            A explosão esmigalhou os restos da coluna atrás da qual se abrigavam. Otavio, zonzo, verificou o painel e viu as luzes acesas. Uma dor intensa por todo o corpo denunciou onde fora atingido por tiros, estilhaços e destroços, mas ele se virou para Vivian.
            Sua namorada vertia um fio de sangue pela boca, e um grande estilhaço havia entrado em seu ventre. Tremendo muito ela estendeu a mão. Otavio a amparou, pegou sua pistola e atirou em alguns dos bárbaros que se aproximavam.
            - Eu te amo – disse Otavio. Sabia que aquelas seriam as últimas palavras que ouviriam.
            Pelo rádio ele disse:
            - Detonem agora.
            Silêncio. Os disparos e gritos ficavam cada vez mais próximos.
            Finalmente Otavio ouviu um assobio vindo do equipamento. Abraçou Vivian e fechou os olhos.

            A explosão no prédio foi tremenda. Pedras, aço e vidro voaram, atingindo uma imensa massa de foliões que seguia atrás dos caminhões de som.
            O prédio começou a tombar, mas os veículos já haviam passado. A construção atingiu boa parte do exército inimigo, mas o que restou ainda poderia causar um imenso estrago.
            Porém, nada foi capaz de aliviar a dor de uma mulher. Gertrudes chamou pelo nome da neta por diversas vezes, mas tudo que ouviu foi estática.
            Seu filho, seu neto, e mais alguns parentes e amigos permaneciam em sua casa. O caminhão de som do bloco maior se aproximava, e a balbúrdia se tornava ainda mais ensurdecedora. Todos estavam armados e em suas posições, e os primeiros foliões já eram ouvidos no jardim, destruindo as plantas que restavam e praticando seus habituais gestos de barbarismo, usando o local como banheiro e para outros atos.
            René e Malena a chamavam pelo rádio, mas Gertrudes não quis ouvir. Subiu ao segundo andar, depois ao sótão e apanhou uma espingarda que deixara lá para qualquer eventualidade. Enxergava muito bem apesar da idade, era do que sempre se gabava com os amigos.
            Posicionou-se na janela do sótão que dava para a avenida. Sua visão do comboio do terror que se aproximava era perfeita.
            - Vó, o que tá fazendo? – seu neto veio correndo.
            - Fazendo o que devo. Agora fica quieto.
            O rapaz se conformou e desceu. Ela observou o movimento pela mira telescópica da arma, aguardando o momento. A cabeça de Dany Brizado se aproximava cada vez mais.
            Gertrudes nem ouvia mais a voz dele, nem “aquela M. que chamavam de música”, como costumava dizer, nem o berreiro dos foliões. Tudo que interessava a ela naquele momento era a cabeça do organizador daquela carnificina.
            A cabeça do responsável por matar Vivian.
            A cabeça que foi literalmente explodida pelo tiro que ela disparou, fazendo jorrar sangue e outros restos nos demais bárbaros que estavam perto.
            Aquela confusão não havia sido programada pelos defensores, mas eles trataram de aproveitar. O filho de Gertrudes apanhou uma potente bazuca, e um modelo similar foi disparado em diagonal da outra calçada, quase por trás do caminhão de som.
            O impacto quase simultâneo das duas armas explodiu o veículo. Restos dele e de seus ocupantes voaram pelos ares. Os foliões armados reagiram, e a troca de tiros foi encarniçada.
            O filho de Gertrudes e outros dos defensores da casa morreram na batalha, mas o neto da anciã estava entre os sobreviventes. Eles contam que Gertrudes foi encontrada no sótão sem vida, mas com um sorriso no rosto.

            - Estão no alcance, senhor.
            René recebeu o comunicado pelo rádio. Mesmo com seus líderes mortos e o principal caminhão de som destruído, os foliões ainda tinham muito poder de fogo.
            - Pode ligar – o escritor respondeu.
            No teto da antiga megastore a arma sônica foi acionada. O resultado foi quase imediato. O enorme canhão, adaptado com as maiores caixas de som que puderam encontrar, emitia sons altíssimos em baixa frequência. A maioria dos foliões andava de forma trôpega, efeito da cerveja que era servida ininterruptamente pelo caminhão tanque remanescente, além dos alucinógenos também disponíveis à vontade, e logo caíram pelo efeito da arma.
            Quem ainda estava de pé lutava contra a tontura e desorientação produzidos pela arma, mas tentava continuar. O caminhão de som que havia restado prosseguia com sua cacofonia insuportável e ensurdecedora, quando Arthur veio ter com os pais.
            - Tudo está pronto – disse ele. – O último carregamento já foi despachado. Conseguimos ganhar tempo suficiente.
            - À custa de perdas que sequer podemos suportar, meu filho.
            Malena veio e abraçou os dois.  Estavam no primeiro subsolo, e acima já se faziam ouvir os primeiros disparos dos atiradores que defendiam o prédio contra as armas dos foliões.
            - Temos que sair daqui – insistiu Arthur.
            - Você precisa sair, meu filho – respondeu Malena. – Estamos terminando os preparativos.
            - E ainda preciso enviar minha mensagem final para a Lista.
            Arthur olhou os dois. Seu pai se levantou da cadeira e o abraçou juntamente a sua mãe.
            - Amamos muito você, e nos orgulhamos de quem se tornou – disse René.
            O jovem compreendeu. Devastado por dentro, mesmo assim respeitou a vontade deles. Seus olhares diziam tudo.
            Um abraço final depois, Arthur se reuniu à namorada Samara e saíram por uma porta que conduzia a um nível inferior. René e Malena ficaram sozinhos.
            O ruído da batalha prosseguia lá em cima, mas o tempo parecia ter parado para eles. Olharam-se nos olhos, e uma vida inteira de recordações ocupou suas mentes. Abraçados, beijaram-se como se nada mais houvesse.

            Lá fora a batalha atingira uma intensidade nunca vista. Até mesmo os jornalistas dos helicópteros que sobrevoavam a região se mostravam impressionados.
            O caminhão de som menor do segundo bloco, o único que sobrara, conseguiu passar depois de os foliões removerem corpos do caminho, resultantes da explosão do veículo principal. Sua intensidade sonora era inferior a do outro, e os defensores espantados logo constataram por que.
            A parte de trás se abriu, expondo lançadores de foguetes e canhões pesados. Até mesmo os foliões recuaram, espantados.
            Em um distante gabinete em Brasília, o presidente Karlos Uyllys a tudo assistia, comemorando.
            Os defensores usaram o restante de sua artilharia pesada. Corpos de foliões se empilhavam nas ruas, e explosões destruíram parte do armamento do caminhão. Mas antes que isso acontecesse as baixas entre o exército que resistia ao carnaval foram tremendas.
            A arma sônica perturbava a tripulação do caminhão, e derrubava boa parte dos foliões, mas o veículo continuava avançando. Ele percorreu metade do quarteirão entre a Cardeal Arcoverde e a Praça dos Omaguás, local da biblioteca organizada por René e Malena com tanto carinho ao longo de anos.
            - Está perto demais da biblioteca, atirem, acabem com ele, vamos! – eram os gritos entre os defensores.
            Um disparo de foguete contra o teto da biblioteca destruiu o canhão sônico e todos que ali estavam. Lá embaixo a luta seguia com uma violência inédita quando os foguetes do caminhão foram apontados para a biblioteca.

            Lá dentro, ouvindo os tiros e explosões e sentindo o calor do fogo que já ardia nos pisos superiores, René e Malena se olharam.
            - Eu te amo – disse ele.
            - Eu te amo – ela respondeu.
            René acionou um comando em um teclado. Uma mensagem foi imediatamente enviada para a Lista:

De: René Andersen
Para: A LISTA
Assunto: A luta está terminando
            Está tudo terminando, meus amigos. Sempre soubemos que chegaria o momento em que as forças da escuridão que nos ameaçam seriam poderosas demais para serem derrotadas.
            Sabemos de muitos amigos que já nos deixaram, tendo realizado o sacrifício final em nome da liberdade, da cultura e do conhecimento. Não podemos nos furtar de fazer menos que eles. Não conseguimos mais viver assim. Cometendo violência contra a violência. Deve haver um meio de acabar de uma vez por todas com esse obscurantismo. E acredito que este é o caminho.
            Por inúmeras das paralelas dos meus queridos colegas da Lista já houve atentados semelhantes, de menor ou maior intensidade, contra os livros e a cultura. Os exemplos são em número maior do que conseguimos contar, e não raro, infelizmente, foram os amigos que partiram por discordar de tal estado de coisas.
            Mas esses desaparecimentos não foram em vão, pois em várias dessas realidades antes obscurecidas pela ignorância esse sacrifício final teve efeitos além do imaginado ou sonhado. A reversão do obscurantismo, um chamado à racionalidade, aconteceu em muitos desses palcos do drama da vida.
            E é nisso que eu, e minha adorada esposa Malena, acreditamos. No conhecimento, na cultura, e nos livros. É por isso que todo o conhecimento desta biblioteca, digitalizado, foi enviado não somente para a Lista, mas também para inúmeros servidores e endereços eletrônicos de meu Brasil. Um volume tão avassalador de informação que nem sequer os agentes governamentais conseguirão impedir que cheguem às pessoas. E ainda preparamos uma surpresinha para aqueles que desejam ditar o que os demais podem ou não fazer.
            É esse o nosso legado.
            Meus amigos, não chorem por nós. Eu e minha amada Malena vivemos uma vida plena e feliz, e ninguém conseguirá tirar de nós nenhum momento sequer dessas tão doces lembranças. Encaramos esta passagem, em meio à violência e ao caos, com a serenidade de quem sabe estar no lado da justiça, da liberdade e do conhecimento. Mergulhamos assim nas chamas e na luz, mas não na escuridão! Adeus!

            A mensagem chegou instantaneamente à Lista, e também foi enviada a jornais e veículos de imprensa de todo o país. As pessoas a replicariam depois inúmeras vezes nos tempos vindouros.
            René e Malena se abraçaram e beijaram pela última vez.

            Os órgãos de imprensa foram os primeiros a entrar nos escombros da biblioteca após a explosão. A tripulação do caminhão tentou fugir, mas os defensores restantes os caçaram e eliminaram. Poucos foliões restaram vivos depois da explosão do prédio.
            Como as autoridades demoraram muito para chegar, os jornalistas entraram na biblioteca e transmitiram ao vivo suas impressões. Quase tudo, até os andares inferiores, estava carbonizado.
            René e Malena foram encontrados ainda abraçados.
            Alguns dos poucos livros que restaram mais ou menos intactos, antes visíveis nas prateleiras pelas amplas janelas do prédio, foram exibidos. Suas páginas estavam em branco, e as capas não passavam de cópias das originais feitas em impressoras.
            O massacre foi transmitido repetidamente por dias, até que o governo decidiu-se pela censura. Mas já não era mais possível disfarçar.
            Mesmo que os agentes oficiais e artistas pagos pelo estado ainda tentassem, poucos compareceram aos blocos nas semanas seguintes. Os fiscais esperaram em vão com suas máquinas de ponto para verificar o cartão carnavalesco dos foliões, que atestava a presença obrigatória destes.
            Não demorou para que o governo colocasse suas forças na rua, mas a resistência contra Karlos Uyllys cresceu, primeiro com as pessoas que tinham armas e se defendiam da violência dos blocos. E depois por meio de forças e governos municipais e estaduais que passaram a se recusar a obedecer as ordens de Brasília.
            Pouco mais de quarenta dias após o sacrifício de René e Malena em sua biblioteca, Karlos Uyllys fugiu do país sem renunciar ao cargo.

De: Arthur Andersen
Para: A Lista
Assunto: Uma vitória se desenha
            ... E é isso que tenho a lhes contar, meus amigos. Foram dias de muita tristeza, preocupação e uma fuga desesperada. Os livros que resgatamos da biblioteca foram espalhados por vários locais do estado, e o número de downloads das obras digitalizadas tem sido maior do que poderíamos imaginar.
            Só uma coisa é maior que a tristeza pela partida de meus pais: o orgulho por suas ações e suas vidas.
            Já se fala em homenagens a eles, mas o clima em meu Brasil é de absoluto caos, pois entre políticos tentando se apropriar da situação, artistas exigindo que o carnaval continue, e inúmeros conflitos que ainda acontecem por todo o país, temos que permanecer ocultos e vigilantes.
            Mas a fé de meus pais é também a minha, de que a luz irá vencer as trevas.

            Arthur enviou a mensagem para a Lista e se recostou na cadeira. Samara chegou e o abraçou.
            Um sinal anunciou a chegada de mais uma mensagem da Lista:

De: René Andersen
Para: A Lista; Artur Andersen
Assunto: Re: Uma vitória se desenha
            Meu caro Arthur, não poderia deixar de me inspirar por sua história. Como pode ver sou um duplo de seu pai, mas bem mais jovem do que ele era.
            Em meu Brasil igualmente lutamos pela cultura. Aqui o processo que resultou em um aumento brutal da mediocridade da sociedade chegou a tal ponto que as pessoas alfabetizadas são literalmente caçadas na rua, quando descobertas.
            Cultura e conhecimento são consideradas “elitistas” e “preconceituosas”. Livros são queimados em praça pública. Isso quando seus portadores não são linchados ou queimados junto.
            Quero dizer que por nada, neste mundo ou qualquer outro, deixe de sentir orgulho por seus pais. Eles inspiraram muitos de nós, e faço votos que continuem inspirando vocês.
            Parabéns e até a próxima.

            Arthur desligou o computador com os olhos marejados. Samara o confortou, e colocou diante dele o resultado do ultrassom que fizera.
            - Gêmeos? - ele perguntou.
            A moça fez que sim, e comentou:
            - Se forem menino e menina, já sei que nomes irá querer.
            Arthur abraçou a namorada, encostando a face contra sua barriga, e sussurrando:
            - René e Malena.


Caros leitores, espero que tenham gostado desta distopia carnavalesca. Os posts literários normais retornam na segunda após os chamados "dias de folia". Esta história foi inspirada em notícias lamentáveis como esta.

É evidente que, se realizado com organização e respeito, podemos até admirar este período. Como esta outra notícia atesta. Admiro sinceramente o trabalho de interpretação e produção artística por trás de um desfile assim.

Os mais atentos perceberão as menções a outras histórias dA Lista. Uma delas é A Lista: A Última Supernova, publicada no Somnium 110, fanzine do Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC).

Também convido a todos para conhecer outras histórias dA Lista, como:



Até a próxima!