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sexta-feira, 16 de maio de 2025

VÓ NENA E OS CAÇADORES: MALDITO BEBÊ REBORN


  — Calma, senhorita, estamos aqui pra averiguar somente.

— Que zorra é essa?



Vó Nena entrou no hospital, acompanhada do neto Daniel e da namorada deste, Tatiana, mas não estava preparada para a cena.

Uma mulher histérica, cercada por enfermeiros e policiais, berrava que tinham que tomar cuidado com seu bebê.

— Ela trouxe o marido com uma faca enterrada no ventre — explicou o delegado Esperidião, — suspeitamos de briga de casal, mas... o homem conseguiu dizer que foi o tal bebê.

— E o que tem o bebê? — perguntou a Caçadora.

— É que... — o policial hesitou — é um boneco.

A mulher berrou mais, dizendo que seu filho não era uma coisa, enquanto o delegado acrescentou que um guarda o tinha levado para outra sala. A mulher continuou berrando, exigindo uma enfermeira da maternidade e apoio psicológico.

— Calma, senhorita Barroso...

— Dessa família, ainda por cima? — perguntou Vó Nena. — Estão na política da cidade há décadas e nunca fizeram nada que prestasse. E que merda é essa de boneco, Esperidião?

Os dois foram para um canto, e o delegado explicou. A Caçadora não se conteve:

— A porra de um boneco, e essa dondoca o trata como um bebê? Tá de brincadeira!

Esperidião chamou pelo rádio o policial que levara o tal bebê, mas não obteve resposta. Daniel seguiu para a sala indicada e logo gritou. O homem estava caído, um profundo corte no flanco, e enquanto era socorrido balbuciou que o boneco o atacara com um bisturi e levara sua arma.

Tatiana e Vó Nena se entreolharam, e pela expressão da jovem vidente a veterana Caçadora soube imediatamente do que se tratava.

As duas seguiram por um corredor, enquanto Daniel se dirigiu para o outro lado.

De repente gritos e tiros. As Caçadoras correram, e encontraram o tal bebê em pé no corredor e disparando contra uma porta.



A coisa, de fato produzida com um realismo impressionante, olhou para eles no momento em que Tatiana sacou sua pistola com balas de prata. Dois tiros após uma ligeira hesitação, e um acertou o bebê. Mesmo assim ele correu, desaparecendo na curva do corredor. A vidente foi atrás.



Vó Nena abriu a porta, que era de um depósito, e encontrou duas enfermeiras e uma médica encolhidas em um canto, aterrorizadas. Ela disse:

— Fiquem aí, moças.

Tati retornou e comentou:

— Tentei seguir a coisa, mas sumiu.

Por seu lado, Daniel ouviu os tiros, quis correr mas logo recebeu no celular uma mensagem da namorada, dizendo que tinham avistado o monstro. O rapaz suspirou aliviado e prosseguiu em sua busca.

Caçadores costumam desenvolver instintos mais aguçados, então subitamente se abaixou. O estampido de um tiro soou às suas costas, ele virou, apoiou um joelho no chão e apontou sua pistola.

A coisa apontava seu revólver para ele. O rapaz ficou estarrecido como se parecia com um bebê de verdade, e observou a marca do disparo de Tatiana. Se uma bala de prata não fora suficiente, então certamente teriam que usar meios mais drásticos.

O impasse durou alguns segundos, até que as portas do elevador se abriram e dois médicos surgiram, exatamente entre os dois inimigos.

Daniel poderia jurar que viu a coisa torcer a boca em um sorriso irônico e grotesco. Gritou:

— Abaixem!

Disparou sua arma assim que os homens, assustados, se jogaram no chão após darem com o boneco armado. Um tiro o acertou na cabeça, ele caiu para trás, mas logo se levantou e correu. O jovem Caçador o seguiu o mais depressa que pôde, literalmente pulando sobre os médicos aterrorizados.

Era inacreditável que, com pernas tão curtas, a coisa possuída corresse tão depressa.

Chegou ao vão de escadas, virou-se e apontou a arma que roubara do policial para Daniel. Deu dois tiros, que errou, e ficou sem munição. Largou o revólver ali e simplesmente se jogou pelo espaço central.

O Caçador olhou para baixo, e se pôs a descer rapidamente as escadas.

Chegando ao subterrâneo manteve a arma apontada, pronto para tudo.



Uma coisa de metal brilhante passou bem próxima a sua cabeça, batendo na parede. Era um bisturi lançado pela coisa.

Daniel correu, vendo o boneco possuído metros à frente. Estavam no andar de manutenção e lavanderia, e a coisa passou por vários funcionários que se assustavam com a visão grotesca.

— Sai da frente, depressa! — o rapaz repetia.

O monstro terminou por trombar com as pernas de uma funcionária que carregava uma bandeja cheia de bisturis recentemente esterilizados e embalados.

A moça caiu, tentou se levantar assustada, mas sentiu metal apertando seu pescoço.

Daniel parou, apontando a arma.

— Calma, moça, vai ficar tudo bem. Não, não olhe!



A funcionária havia feito menção de virar o rosto a fim de ver seu agressor. Tremia de medo.

— Não tem para onde fugir, aberração — disse o Caçador. — Deixe a moça ir, que garanto pra você uma passagem indolor pro inferno.

A coisa de novo sorriu em um esgar grotesco, as marcas de tiros a tornando ainda mais abominável.

Daniel puxou a pequena cruz de pau-brasil que usava ao pescoço, a segurou e recitou uma invocação, mantendo a arma apontada. Tinha esperanças de, com aquele encantamento, diminuir a força do monstro e ao menos salvar a funcionária.

A coisa puxou outro bisturi, segurando-o acima da cabeça da moça. Daniel apertou mais a cruz, murmurando o encantamento. Estava a alguns metros de distância, e não sabia se funcionaria.

— E em nome de tudo que é bom ordeno que se renda, criatura das trevas — ele pronunciou o último verso da reza.

Daniel manteve a mira, e duvidava que conseguisse atingir o boneco sem ferir a moça. Ele viu o monstro fraquejar, o bisturi amolecer em sua mão, e pensou em atirar. O tempo estava se esgotando.

— Ei, Chucky! — uma voz feminina gritou.



Foi o que bastou. A confusão do boneco graças ao encantamento, mais a surpresa de Tatiana surgir pelo lado, fez o monstro se erguer e virar para lá. Daniel atirou, atingindo-o em cheio. Os bisturis voaram para longe da moça, que se ergueu e correu para junto do Caçador.

Tatiana também atirou, atingindo-o duas vezes. Depois correu e agarrou a coisa.

O boneco se agitava e ela mal conseguia contê-lo. Daniel veio em seu auxílio, e os dois mantiveram a coisa presa. Vó Nena, então, chamou:

— Meninos, aqui!

A Caçadora encontrara o incinerador do hospital. Eles correram para lá, enquanto o boneco se debatia furiosamente. Encontraram dois funcionários que, diante dos gritos deles, abriram a porta da fornalha.

Jogaram a coisa lá e voltaram a fechar a porta.

Tatiana e Daniel, ofegantes, se abraçaram. Nena deu uma explicação rápida aos dois moços, e os três saíram.

Encontraram Esperidião, que acabara de sair do elevador.

— Tudo resolvido, delegado — disse a Caçadora. — Fogo com essas pragas possuídas é a melhor coisa.

— E o que eu digo para a mãe...

— Mãe!? É sério que você está chamando a dona do boneco de mãe? Não incentive a loucura, Esperidião!

Os Caçadores tomaram o elevador. O casal ainda se mantinha abraçado, e Vó Nena sorriu para eles. Disse, finalmente:

— Vocês que não me inventem, hein? Eu quero um bisneto de verdade!

Tatiana sorriu, abraçando-a. Daniel, aliviado, comentou:

— Ele virá, Vó, é uma promessa!

— O que esse povo pensa!? — finalizou Nena. — Maldito bebê reborn!



Vó Nena e os Caçadores retornarão.


Para vocês verem, caros leitores. Nesta segunda metade de maio de 2025 eis que este blog literário entrou na onda do tal bebê reborn! Mas bem ao estilo de Vó Nena e os Caçadores!

Uma historinha simples que espero ter sido divertida para vocês!

Um conto maior, trazendo uma homenagem, deve ser publicado também aqui em breve, fiquem de olho!

E, novamente, estão todos convidados a conhecer a primeira trilogia deste universo de folclore brasileiro, fantasia, terror e lendas urbanas:



Vó Nena e os Caçadores: O Fusca Azul


Vó Nena e os Caçadores:O Livro Maldito


Vó Nena e os Caçadores:A Última Escrava.


Mas não se preocupem, a próxima história longa já tem cenas escritas.

E vale a pena revelar que, antes, deverá chegar mais um e-book (ou livro, torçam!) na forma de uma coletânea de contos e noveletas. Ainda estou decidindo se devo ou não escrever mais uma história para completar esse tomo. Continuem acompanhando em @renatoa.azevedo.

Obrigado por sua leitura, comentem e compartilhem, apoiem os autores brasileiros.

Até a próxima!

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

VÓ NENA E OS CAÇADORES: SAMUEL E O CAFÉ COM A EX

 


            Sexta-feira e a propriedade de Vó Nena, no início da zona rural de Boa Graça, cidadezinha no interior de São Paulo conhecida pelo folclore e lendas urbanas, estava silenciosa.

            A Caçadora, dirigindo seu Fusca Azul, fora visitar amigos em uma comunidade próxima dali. No terreiro desta, no dia seguinte, seria realizada uma celebração ecumênica e a ajuda dela havia sido requisitada pelos amigos.

            Daniel, seu neto mais velho, saíra com a namorada, Tatiana, com o Dodge Charger branco que os irmãos dividiam. Samuel, enquanto andava pela propriedade, se sentiu feliz pelo irmão. Havia sido muito bom reencontrar Tati, com quem estudara por boa parte do primeiro e segundo graus. Foi uma surpresa para todos, especialmente para ela própria, quando descobriu sua vidência, e já havia até auxiliado a equipe dos Caçadores em alguns casos.

            Sam, por sua vez, andava desanimado. Ainda sentia o baque do que havia acontecido somente três meses antes, e a solidão o incomodava. Dan e Tati insistiram para que saísse com eles, mas o neto mais jovem de Vó Nena preferira espairecer na oficina montada em um galpão de madeira na propriedade da avó.

            Por fim, acabou chegando á conclusão de que era demais, e que lhe faria bem ver algum movimento. Lembrou-se de um lugar que sempre havia frequentado e decidiu que merecia uma folga.

            Sacou o celular e mandou mensagens para o irmão e a avó. Em seguida entrou na casa, lavou as mãos e o rosto e depois apanhou a chave do Fuscão vermelho, resquício do caso envolvendo o desafortunado George Angelo alguns meses antes. Daniel e Tatiana até já haviam viajado para Brasília com ele, comprovando sua confiabilidade.

            Enquanto manobrava o carro Sam sorriu. As histórias que o irmão e a cunhada contaram, especialmente as que envolviam João, o Caçador amigo deles, foram ótimas. Lembrou-se ainda da recomendação de Vó Nena de jamais tirar as medalhas de Nossa Senhora e de São Jorge do painel do Fuscão, pois suas propriedades sobrenaturais ainda não haviam sido todas descobertas.

            Depois de abrir o grande portão de madeira, sair com o carro, voltar a fechar o portão e retornar ao Fuscão, Samuel seguiu pela estrada de terra até encontrar o asfalto alguns quilômetros adiante. Após um curto trecho de uma estrada secundária de pista simples pegou a bifurcação á direita, seguindo para o centro de Boa Graça.

            Mesmo uma típica cidade do interior como aquela tinha o trânsito um pouco mais pesado na segunda metade da tarde de uma sexta-feira. Mas Samuel não se incomodou, divertindo-se em guiar o Fuscão pelas ruas. Não demorou e estava diante do Café da Clô, uma cafeteria com muitos anos de tradição que resistia à investida das grandes franquias por toda a região.

            Havia uma vaga na frente, e Sam encaixou ali o Fuscão. Depois de descer e trancar o carro entrou na acolhedora cafeteria, apreciando com gosto seu ambiente com muita madeira e móveis antigos, duas estantes com livros e mais duas com produtos típicos incluindo vinhos e cachaças, a maioria produzida na região.




            Clotilde, cujo apelido dava nome ao lugar, veio lhe dar um abraço.

            — Samuel, meu menino! Há quanto tempo não aparecia!

            — Verdade, tempo demais — ele respondeu retribuindo.

            Clô já estava quase nos sessenta, era filha de mãe alemã e pai brasileiro, e tocava o café com os filhos e uma equipe muito dedicada que adorava o que fazia. Olhou novamente para o rapaz e disse:

            — Tão triste o que aconteceu...

            Era nítido que ela queria conversar mais, mas percebendo a nuance de desânimo no olhar dele perguntou:

            — O de sempre?

            Samuel sorriu, deu-lhe outro abraço e respondeu:

            — E tem outro?

            Clô apontou para uma mesa nos fundos, ao lado da porta que abria caminho para o jardim na parte de trás do estabelecimento e que era a preferida de Sam. As memórias emergiram em sua mente, mas ele caminhou resoluto e se acomodou, recordando-se quando se sentava ali em boa companhia.

            Ele havia trazido uma pequena mochila, a pendurou no encosto da cadeira e dela tirou um caderno pequeno e uma caneta. Abriu o volume e pôs seu celular ao lado, inserindo um fone na orelha e pondo para tocar uma música instrumental.

            Agora percebia como aqueles momentos de quietude o ajudavam a pôr as ideias em ordem. Por cima os aromas e texturas da cafeteria proporcionavam um mais que bem vindo sentimento de renovação depois daquele período difícil.

            Clô logo chegou com o pedido de sempre. Um cappuccino grande com canela e chocolate, e uma generosa fatia de bolo floresta negra, de receita tradicional alemã. A mãe dela havia trazido aquela e outras que faziam parte do cardápio da casa, todas adoradas pelos clientes da cafeteria.

            — Deu sorte, querido, o bolo acabou de sair.

            — Você tem toda razão, Clô — respondeu Sam. — Não deveria ter ficado tanto tempo sem vir. Esse aroma...

            Ela sorriu para ele e foi atender mais clientes que chegavam. Samuel ergueu a grande xícara e passou alguns segundos sentindo o aroma da bebida quente. Tomou um gole e fechou os olhos, deliciando-se com o sabor.

            Depois de retornar a xícara ao pires apanhou o garfo e tirou um pedaço do bolo. O sabor tomou sua boca, e ele de novo chegou à conclusão que só poderia compará-lo ao bolo de chocolate que Vó Nena sempre fazia para seu aniversário.

            Samuel sorriu ao pensar, enquanto mastigava o segundo pedaço, que o mais difícil com relação a ambos os doces era se conter, apreciar cada mordida, cada nuance do sabor, e não devorar o bolo inteiro. Era algo que ele havia aprendido com Miriam desde que começaram a namorar. Ele sorriu mais com a lembrança, recordando-se que Daniel ainda era assim, sempre o primeiro a terminar qualquer refeição.

            “Será que Tatiana vai conseguir consertá-lo?” pensou divertido.

            Miriam. Era com ela que costumava frequentar o Café da Clô.

            Samuel fez algumas anotações no caderno, e a intervalos regulares bebia o cappuccino e comia mais um pedaço do bolo. Estava tudo excelente, e ele quase sentia o mesmo gosto de uma época mais recente.




            Minutos depois deixou o garfo sobre o prato vazio e bebeu o último gole da bebida. A ideia de visitar o café dera ótimos resultados, pois o tédio havia desaparecido e ele anotou mais algumas ideias no caderno.

            Eram anotações tanto para o incipiente blog que criara para os casos dos Caçadores como para textos de ficção, principalmente contos, que de vez em quando se arriscava a escrever. Lembrou-se dos três meses de Letras que chegou a cursar em Campinas, antes de decidir trancar e tentar arrumar sua vida em Boa Graça. Muito embora tanto sua mãe quanto Vó Nena dissessem que “caçadas não sustentam ninguém” ele adorava aquela vida, e não pretendia parar.

            Mas fazer alguma outra coisa era uma de suas vontades, e ele apanhou o celular e examinou a caixa de e-mails. Da mensagem que aguardava, e que deveria chegar ainda naquele dia, nada.

            — Esperando alguém?

            A voz o surpreendeu, mas não o alarmou. De fato, de alguma forma já a esperava.

            Largou o celular, fechou o caderno com a caneta dentro e olhou para frente.

            Miriam estava sentada diante dele.




            A mesma Miriam, o mesmo jeito de menininha, usando um vestido floral, os cabelos negros, longos e lisos, virados para o lado e cobrindo um dos ombros.

            — Oi — disse Sam.

            — Oi — ela respondeu.

            Ficou olhando para ela, os doces e grandes olhos castanhos, o rosto delicado exibindo um leve sorriso... tantas lembranças cujo peso Samuel quase conseguia sentir sobre os ombros.

            — Ia perguntar como você está, — comentou ele — mas parece óbvio que bem, né?

            — Estou sim. É bom estar distante de tudo que é ruim e errado no mundo.

            — Espero que eu não esteja incluso nisso.

            Miriam estendeu a mão cobrindo a dele e respondeu:

            — Isso nunca!

            A garota olhou ao redor, o brilho de seu sorriso se intensificou e ela disse:

            — Sempre foi tão bom vir aqui com você, Sam! O jardim dos fundos está lindo!

            Sorriu ainda mais para ele. Samuel retribuiu e a garota perguntou:

            — E você, como está?

            — Não tem acompanhado?

            Novo sorriso. Miriam disse:

            — Só um pouco. Respeito sua privacidade. E meu tempo aqui é curto.

            Samuel pôs a outra mão sobre a mesa, e Miriam a segurou. Ele disse:

            — Tem sido difícil. É claro, a dor não vai embora, acho que nunca irá, mas com o tempo fica mais fácil lidar com ela.

            — Que bom.

            Sam olhou para ela, e a moça percebeu uma sombra em seu olhar. O rapaz disse:

            — É muito duro lembrar de tudo... lembrar dele... aquele desgraçado...

            Fez uma pausa quando sua voz começou a se tornar embargada. Baixou a cabeça e disse:

            — Foi duro demais quando terminamos, Miriam! Nunca sofri tanto na vida. Mas não chegou nem perto do que aconteceu depois...

            Miriam apertou as mãos de Samuel e olhou firmemente para ele.

            — Não faça isso, Sam! Por favor, não se desgaste pensando na injustiça do que aconteceu.

            Ele ergueu o olhar e encarou a garota que tanto havia amado. Ela prosseguiu:

            — Está fora de seu alcance, meu amor, fazer qualquer coisa a respeito. Não se preocupe!

            Desta vez foi na expressão de Miriam que surgiu uma nítida sombra. Ela concluiu:

            — O que aconteceu, aconteceu. De uma forma ou outra a justiça será feita. Todos nós, no final, respondemos por nossos atos.

            Samuel segurou mais forte as mãos de Miriam. Os dois se olharam intensamente. Ela voltou a sorrir, e percebeu os olhos dele marejados.

            — Considere um pedido meu: viva sua vida, Sam. Seja feliz! E não se preocupe, você terá alguém que vai te amar muito.

            — Às vezes é difícil acreditar nisso.

            — Pois acredite. Pode demorar um pouco, mas sei que vocês vão se encontrar.

            — Alguma pista?

            Os dois riram, e Miriam respondeu:

            — Qual seria a graça se eu te dissesse?

            Eles ficaram um bom tempo olhando um para o outro, e finalmente Samuel disse:

            — Então... é adeus?

            Desta vez uma lágrima desceu pelo rosto de Miriam, mas ela não deixava de mostrar aquele sorriso lindo e radiante.

            — Por enquanto sim. Vamos nos ver de novo, claro, mas depois de hoje vai demorar muito.

            — Isso é uma boa ou má notícia?

            Miriam se levantou, veio até ele e o abraçou com carinho. Samuel fechou os olhos sentindo todo o amor dela, e a moça por fim disse:

            — Depende somente de você, meu amor.

            Ela sorriu, o beijou, e se afastou andando de costas.

            — Eu te amo — disse Samuel.

            — Eu sempre vou te amar — respondeu Miriam.

            As formas da moça gradualmente se tornaram transparentes, e ela então entrou em uma luz que se abriu à suas costas.

            O jovem Caçador sentiu uma lágrima teimando em escorrer do olho, enxugou-a, e por instinto viu o celular novamente. Depois se demorou olhando para algum ponto indefinível entre a mesa e o cenário do café.

            A casa estava movimentada. Clô, então, aproximou-se dele, apontou para o fone em seu ouvido e perguntou:

            — A conversa foi boa, querido? Olha que parecia que ela, e espero que fosse ela, estava bem aqui com você, pela sua expressão!

            — Acho que a impressão foi essa mesma — comentou Samuel sorrindo.

            — Vai querer mais alguma coisa?

            Ele pensou um pouco, olhou para ela, e a dona do café respondeu:

            — Outra fatia caprichada de bolo, claro!

            — E uma água com gás também, por favor!

            Sam tirou o fone do ouvido e o guardou na mochila, depois fez mais anotações no caderno lembrando-se das palavras de Miriam. Aquela despedida fora difícil e intensa, mas ele sentia que precisava muito daquele momento. E sentiu-se feliz por ela estar em paz.

            Clô chegou com o segundo pedido, e ele aproveitou o restinho de tarde se deliciando.

            Estava quase anoitecendo quando Samuel foi até o caixa. Clô fez questão de vir abraçá-lo depois.

            — Nem perguntei, e sua avó?

            — Ótima, não para nunca.

            — É bom mesmo — e ela acrescentou baixinho — afinal as assombrações não param também, né?

            Samuel confirmou.

            — E seu irmão que também anda sumido?

            — Agora é ele que está namorando.

            — Pois manda vir aqui!

            — Vou mandar. Obrigado, Clô, foi ótimo.

            Trocaram outro abraço apertado e ela completou:

            — Bom te ver, garoto, volte mais vezes!

            Havia começado uma garoa fina que já molhava tudo, Samuel correu até o Fuscão vermelho, abriu a porta e acomodou-se. Ouviu a notificação do celular antes de fechar a porta, segurou-o e leu o e-mail que havia chegado.

            Dizia: “A BLF Informática tem a satisfação de confirmar sua inscrição para o curso gratuito de Estabilidade e Segurança nas Redes e Navegação Segura, a ser realizado na data de...”.

            Samuel sorriu e guardou o celular. Tinha um mês para se preparar para ir a São Paulo. Ligou o carro e saiu pelo trânsito pensando que sim, iria atender ao pedido de Miriam.

            Seria muito feliz.

 

Vó Nena e os Caçadores retornarão.


            Como fazia tempo que não publicava uma história aqui no blog! Acreditem, também senti falta, mas entre o Táquion FC (leram o artigo do post anterior, né?) e os trabalhos no novo e-book de Vó Nena e os Caçadores, não sobrava muito tempo para pensar em contos menores para cá.

            Sim, conforme já anunciei em meu perfil no Instagram, em 2025 teremos novidades! Já se tornou a mais longa história deste universo, e ainda teremos um epílogo, protagonizado pelo próprio Samuel e por...

            Já anunciei o nome dessa nova personagem no Insta, vão lá!

            Este conto simples mas que foi delicioso de escrever somente não fecha o arco de Miriam porque ainda planejo uma história anterior a ele, que irá apresentar o momento em que os Caçadores conheceram uma bruxa mencionada na história de George Angelo, o prelúdio de O Livro Maldito. E claro que vocês sabem que o Fuscão vermelho era dele. O mesmo Fuscão com que Daniel e Tatiana visitaram Brasília na história da Caveira de Burro.

            Lembrando que, no início de O Livro Maldito, mostramos o que aconteceu com o sujeito responsável pela morte de Miriam.

            Além disso, como puderam ver, este conto cria mais pontes com o universo dos alienígenas de De Roswell a Varginha e Filhas das Estrelas, que por sinal é o mesmo onde atuam os Caçadores! Já existe inclusive um roteiro para o conto que mostrará a visita de Samuel a São Paulo, então aguardem.

            Ainda tenho a ideia de mais um conto natalino (este de outro universo, ou Multiverso...), mas está ainda muito incipiente, e não tenho certeza se será possível escrevê-lo e publicá-lo até o Natal. Tentarei organizar os temas... quem sabe?

            E, se ainda não conhece o universo de fantasia, folclore, terror e lendas urbanas de Vó Nena e os Caçadores, as tags aí abaixo podem ajudá-lo. E também está apresentado o convite para ler também os e-books já publicados:

 


VÓ NENA E OS CAÇADORES: O FUSCA AZUL;

 


VÓ NENA E OS CAÇADORES: O LIVRO MALDITO.

 

            Espero poder encontrá-los aqui pelo blog novamente. Não se esqueça de seguir este humilde escriba: @renatoa.azevedo .

            Até a próxima!

quinta-feira, 1 de junho de 2023

VÓ NENA E OS CAÇADORES: O TERROR DE TATIANA NO PRÉDIO ABANDONADO


Nota do autor.

Este é o primeiro conto publicado aqui no Escritor com R que realmente tem uma capa, além de ser ilustrado. Assim fica clara, além de qualquer dúvida, a natureza da história. Então, se você tem algum problema com mulheres de pouca roupa em situações permeadas de sensualidade e suspense, é preferível que não siga adiante.

O aviso está dado, reclamações e mimimis serão sumariamente excluídos.

Quem tiver mente aberta e procura uma boa história, por outro lado, espero que se divirta.

Obrigado.


            Tatiana desde o começo não havia gostado da sugestão de Daniel.

            Marcarem um encontro justamente naquele quarteirão do centro de Boa Graça, onde todos os prédios permaneciam abandonados havia anos, não era uma boa ideia. Por cima ele sabia que aquele horário era logo após ela sair da academia.

            Estava cansada, suada, e sentia-se um tanto exposta vestindo camiseta, legging e tênis. Manteve a bolsa junto ao corpo, e chegou finalmente ao prédio de número 66.

            Ao menos outras três construções daquela rua exibiam placas de “interditado”, mas não aquele. A escada de entrada imunda dava para um portão de ferro enferrujado que estava entreaberto, e a vidente suspirou por não sentir nenhuma presença nas proximidades. Sobre o portão, na beirada da laje, ainda estava o letreiro com o nome Edifício Jason Teodoro, de uma época em que nomes em inglês ainda não eram moda. Depois de olhar para os lados e não ver ninguém decidiu entrar.



            O portão rangeu ao ser aberto, e as impressões que ela teve ao tocá-lo não foram das melhores. Felizmente, nada comparável ao que sentia quando passava com os rapazes ou Vó Nena diante do Casarão da Rua das Dores. Este, conhecido como a casa mais mal-assombrada da cidade, era um lugar no qual a jovem vidente torcia ardentemente para jamais precisar entrar.

            Depois de passar pelo hall de entrada, caminhou por um corredor repleto de lixo e restos de reboco e tinta das paredes. Apanhou o celular da mochila e acendeu a lanterna, pois conforme se distanciava do portão a escuridão aumentava. Pelas portas entreabertas restos de móveis, uma e outra peça de roupa esquecida havia décadas, e as coisas típicas que se podia encontrar em um prédio abandonado.

            Tatiana decidiu subir as escadas depois de mandar uma mensagem de texto, avisando Daniel que havia chegado.

            O hall de escadas tinha amplas janelas que contribuíam para um pouco de iluminação, mas a sujeira que cobria os vidros garantia que a penumbra de final de tarde continuasse. Tatiana voltou a guardar o celular na mochila e sentiu os dedos roçarem em um velho livro.

            Aquele tratado de bruxaria fora presente de Daniel, que disse ter lembrado dela ao passar no Sebo do Hugo. Tati disse, ao folheá-lo:

            - Amor, você sabe que não sou bruxa.

            - Vó Nena também não é, mas manda muito bem nos feitiços – ele respondera. – E me disse que você tem ficado muito boa nessas artes, ajudando também nessa parte!

            Ela riu, eles se beijaram, e Tati abriu o livro mais ou menos no meio, onde estava o marcador com o logo e as informações da livraria. Hugo, depois da bronca de Nena no último Natal, e as constantes visitas que a Caçadora vinha semanalmente fazendo ao sebo, havia feito uma pequena revolução na loja. Até no noticiário do canal municipal da cidade já havia aparecido, e o marcador personalizado era um símbolo dessa nova fase.

            Tatiana viu uma bela gravura, que no entanto trazia um quê de bizarro e sobrenatural que combinava com o livro, representando um sabá em uma antiga floresta. As bruxas dançavam nuas em torno de uma fogueira, e a ilustração era bastante detalhada nesse sentido. Deu uma cotovelada no namorado, dizendo:

            - Agora já sei por que colocou o marcador bem nesta página, não é?



            Tatiana, cada vez mais imersa na atmosfera mórbida do prédio abandonado, lembrou-se da cena e riu. Depois voltou à sua mente a lembrança do texto, que mencionava como as bruxas acreditavam que a energia sexual, do mero ato de se livrar das roupas, ajudava a aumentar a sensibilidade para as energias místicas.

            A vidente pensou nisso, ao mesmo tempo em que procurava evitar os detritos e o lixo do prédio. Parou um momento diante de uma sala sem porta, observando na penumbra do cômodo uma velha cadeira de madeira. Fechou os olhos, e em sua concentração não captou nada dentro do prédio. Ali haviam funcionado vários escritórios e pequenas empresas ao longo dos anos, e a moça não conseguiu sentir nada tão tenebroso, nem qualquer presença humana.

            Abriu os olhos, sorriu, e em pensamento desejou dar um beliscão no namorado. Certamente Daniel tivera alguns bons motivos e várias segundas intenções naquela semana. Primeiro a presenteando com o livro, destacando o capítulo sobre as bruxas e a energia sexual, e depois marcando aquele encontro bem ali. Tati sabia que aquele prédio por vezes era usado por casais para encontros, inclusive aqueles mais íntimos. Uma boate e dois bares haviam aberto recentemente nas proximidades, e em breve aquele trecho da rua estaria lotado de gente.

            Mas por enquanto, naquele horário, não haveria maiores riscos.

            A vidente decidiu experimentar. Sua sensibilidade já havia captado um e outro ponto onde, recentemente, pessoas haviam sentido prazer. Apesar de perturbada pela mistura de morbidez, o fundo de energias místicas pesadas que emanavam de outros locais nas proximidades, e o próprio gosto pela aventura, Tati sentiu também a própria excitação.

            Olhou para as duas pontas do corredor escuro, colocou a mochila sobre a cadeira, e por fim tirou a camiseta. Dobrou-a e a guardou na mochila, e começou a tirar a calça. Felizmente tinha o hábito de usar biquíni debaixo da roupa quando ia para a academia, mas mesmo assim sentia-se praticamente nua.

            Depois de fechar a mochila deixou a cadeira ao lado da porta, na escuridão, de forma que não seria vista caso passasse alguém. Ajeitou o biquíni, verificou os cadarços dos tênis que manteve nos pés, já que não queria se arriscar a pisar em algo e se machucar, marcou bem em qual sala do segundo andar deixara suas coisas e saiu caminhando.



            A moça verificou novamente que as peças do biquíni estavam no devido lugar, e antes que se desse conta passou as mãos pelo corpo suado. Seu físico vinha melhorando nos últimos meses, o corpo, braços e pernas mais torneados, e Daniel não cansava de elogiá-la.

            Tati sentiu prazer, percebendo ao mesmo tempo, aos poucos, sua percepção ser ampliada. Contornou a curva do corredor, e as energias do lugar fluíram para sua mente, e ela conseguia ver aquele corredor que percorria como havia sido anos antes, com circulação de pessoas que iam de lá para cá, procurando uma sala específica, resolvendo problemas e questões profissionais ou simplesmente fazendo seu trabalho.

            A vidente parou no exato ponto em que um casal estivera no máximo dias antes. Esforçou-se para evitar tocar o ponto na parede onde haviam se apoiado, mas não conseguiu. Colocou a mão nos tijolos aparentes, e quase podia vê-los em pleno ato.

            Seu corpo foi percorrido por um profundo arrepio. Medo, repulsa, excitação e desejo se misturavam em sua mente, e a moça sentiu o coração bater mais forte no peito e a respiração ficar ofegante.

            Tirou a mão depressa.

            Outra coisa, que parecia distante mas subitamente a invadiu arrepiando sua pele, surgiu. Medo.

            Um terror profundo, eco de coisas horríveis que haviam acontecido nas proximidades, ali e em alguns dos demais prédios. E também mais distante, no portal das trevas que era o Casarão da Rua das Dores.

            Tati sentiu-se exposta e desprotegida. Aquela havia sido uma péssima ideia, amaldiçoou o livro e o namorado, e correu para a sala onde havia deixado a mochila.



            Teve a pior das surpresas. Suas coisas não estavam lá.

            Tatiana segurou a cadeira, olhando-a como se de alguma forma a mochila estivesse escondida ali. Nada. Vasculhou a sala o melhor que a penumbra permitia, mas havia somente lixo.

            A moça, somente de biquíni e tênis, foi tomada por desespero e medo. Não podia sair daquele jeito. Teria que esperar Daniel chegar e arrumar roupas antes que pudesse ir para casa. O pensamento de estar quase nua era incômodo, jamais sentira tanta vergonha na vida, mas ela se surpreendeu ao ainda experimentar a mesma excitação de antes.

            Aguçou sua percepção, e reparou em algo indefinível bem na direção da escada por onde havia vindo. Com medo, decidiu continuar em frente. Sabia existir uma saída no térreo pelos fundos, e torcia para que houvesse outra escada também.

            Foi andando com todo o cuidado, superando outra esquina do corredor. Prendeu a respiração por um momento, e rapidamente levou as mãos à boca para abafar um grito de puro terror.



            Uma caveira jazia no chão logo à frente.

            Tatiana escondeu o rosto com as mãos, sentiu lágrimas encherem seus olhos e o desespero inundar sua alma. Um suor frio percorreu seu corpo, e ela lutou por um tempo que pareceram horas para recuperar o controle.

            Descobriu o rosto, e olhou para a caveira no chão. Enegrecida pelos anos em que estava largada ali, e a impressão de sua vidência lhe dizia que havia sido furtada de uma das faculdades de medicina das cidades vizinhas. Tatiana percebeu a ideia de algum trote ou brincadeira de mau gosto envolvendo a caveira, e afinal se tranquilizou.

            O insólito e o medo da situação, sentindo-se exposta tanto física quanto psiquicamente, contribuíra para se desesperar. Conseguiu finalmente rir da situação, afinal já havia visto coisas incomparavelmente piores, mais aterrorizantes e tétricas do que uma simples caveira no corredor de um prédio abandonado. Por precaução contornou o objeto desagradável e continuou em frente com cuidado redobrado.

            Lá fora já escurecia, a moça continuava pensando como sairia daquela situação seminua como estava. E ainda havia sua vidência, revelando-lhe impressões do passado daquele prédio que a invadiam sem controle. Tatiana precisava se esforçar para não perder o contato com a realidade, afinal não queria estar devaneando nas lembranças dos outros, conforme por vezes dizia que se sentia durante aqueles fenômenos, e ser surpreendida daquele jeito.



            Seguiu pelo corredor à direita, em meio à penumbra, e esforçando-se para manter o controle. Impressões sobre o passado, pessoas trabalhando, enfrentando a rotina, discutindo com colegas ou chefes, e até mesmo lidando com affairs continuavam a invadi-la. Tatiana parou diante de uma porta entreaberta, e sua vidência revelou que ali já funcionara um escritório de alguma empresa de comércio. Mas o que a incomodou foram as lembranças, impregnadas na energia do lugar, de um caso envolvendo a secretária e o gerente.

            Eles ficavam até tarde da noite em “hora extra”.

            A vidente de novo sentiu sua excitação aumentar. Um arrepio percorreu seu corpo, seus braços a envolveram como se abraçasse a si mesma, e ela por fim soltou um profundo suspiro.

            De novo pensou que tinha vontade de esganar Daniel. Sentindo-se nua de corpo e alma deu mais alguns passos até a curva à esquerda do corredor.

            Tampou a boca com a mão e depressa se escondeu, apertando as costas junto à parede.

            Depois de respirar fundo tentando não fazer barulho, olhou de novo para ter certeza de que estavam mesmo ali, e não eram impressões do passado que sua vidência revelava.

            Sim, estavam. Um jovem casal.

            Ela de frente para a parede, apoiando nela as mãos. O rapaz, atrás dela, a abraçava forte, beijava sua nuca e mordiscava suas orelhas. Com as mãos erguia a saia jeans que a menina vestia, a apalpando por baixo.

            Tatiana sentiu seu desejo aumentar. Suava, teve que controlar sua mão esquerda, que queria descer entre suas pernas, enquanto continuava a tapar a boca com a direita.

            Seu estado de excitação era tal que as visões e impressões a invadiam sem controle. E ela sentia o que os namorados a poucos metros dela sentiam. Ficou aterrorizada com a possibilidade de perder o pouco controle que ainda tinha, fazer barulho e ser flagrada.



            Tentou se concentrar, e conseguiu bloquear parte das impressões. Recuperada um pouco, deu mais uma olhada no casal, vendo que o rapaz , depois de subir a saia da moça, começava a baixar suas calças. Escondeu-se de novo, e decidiu entrar em uma das salas para esperar que fossem embora.

            Tati se virou, e seu pé inadvertidamente chutou uma lata enferrujada, de uma bebida ou produto irreconhecível, que ela não havia visto no chão. Ela então ouviu:

            - Que merda foi essa? – o rapaz perguntou.

            - Meu Deus, o que foi isso? – a moça acrescentou, já em pânico.

            A vidente ainda ouviu o barulho deles arrumando as roupas, enquanto tentava correr sem fazer ruído. Enfiou-se na primeira sala que viu aberta.



            Que vinha a ser a do escritório dos dois amantes, a secretária e o gerente.

            Na quase obscuridade do cômodo ela tateou. À esquerda da porta havia um armário, e ao lado dele um espaço vazio. Encostou as costas na parede e ficou ali quieta, cobrindo a boca e o nariz com as mãos para não fazer ruído.

            Ouviu as vozes deles se aproximando.

            - Eu ouvi alguma coisa – disse o rapaz. Tentava parecer valente, mas seu medo era nítido.

            - Também ouvi. Será fantasma? Dizem que toda essa vizinhança é assombrada! – a voz da menina evidenciava como estava trêmula e apavorada.

            Eles pararam bem diante da porta do escritório.

            Tatiana esforçou-se para respirar o mais levemente possível, tentando não fazer ruído. Ao mesmo tempo as energias do lugar, as imagens que via dos encontros da secretária com o gerente a faziam tremer de vergonha, medo e desejo.

            Uma luz varreu a parede oposta. O rapaz vasculhava o cômodo, desde a porta, com a lâmpada do celular.

            - Pelo amor de Deus, vamos embora! – insistia a moça.



            Mais uma varrida de luz, e depois esta se apagou. Tatiana, em seu transe, mal conseguindo se conter entre a excitação e a vergonha de estar somente de biquíni e tênis, sentia o desespero tomando conta de si. O pavor de se trair a qualquer instante a invadiu.

            Finalmente, conseguiu ouvir os passos do casal se afastando. Correram pelos corredores, e então desceram a escada para o térreo. Depois, nada.

            Ela ainda esperou mais alguns instantes até tudo ficar silencioso para finalmente tirar as mãos do rosto.

            Soltou um profundo suspiro, e não mais conseguiu controlar as energias, que percorreram seu corpo livremente. Desejo, excitação, medo, terror, vergonha, tudo se misturou em seu interior, e ela por fim perdeu a noção de realidade.

            A próxima coisa que se deu conta foi de estar de volta ao corredor, sentada no chão com as costas apoiadas na parede próxima à porta. Uma das mãos entre as pernas, enquanto o indicador da outra estava em sua boca.

            O desejo enfim dominou Tatiana, e ela suspirou longa e ruidosamente. Sentiu o corpo amolecer.

            Ao se dar novamente por si pensou em Daniel. Se ele chegasse agora, primeiro ela bateria nele.

            Depois o agarraria, beijaria e violentaria.

            Trêmula e suada, a vidente olhou para todos os lados. Não se lembrava de como havia chegado ao corredor. Suspirou aliviada por não haver mais ninguém à vista. Aqueles garotos já deveriam estar bem longe.



            A noite se iniciava lá fora, estava escuro e dentro do prédio mais ainda.

            Tati se levantou enquanto pensava de novo em sua situação. Estava somente de biquíni e tênis, sozinha em um prédio abandonado, suas roupas e seu celular estavam na mochila que havia sumido, e nem sinal de que Daniel chegaria em breve.

            Como sairia daquela roubada?

            Nisso, de novo sobressaltou-se e ficou ofegante.

            A vidência revelou que alguém a observara enquanto estava ali, desfrutando e se aliviando de seu desejo intenso. Tati sentiu medo e vergonha, mas novamente tudo era temperado por um tesão que não conseguia entender.

            E ela também ouviu um ruído na direção do corredor onde o jovem casal namorava.

            O pavor foi mais forte. Correu de volta ao antigo escritório para se esconder no mesmo lugar. Conseguiu em meio à penumbra ver uma vassoura velha jogada no chão, e a ideia que teve lhe deu coragem.

            Segurou o cabo do utensílio ao mesmo tempo em que punha o pé sobre a parte de baixo, que exibia poucas cerdas restantes. Forçando com as duas mãos partiu o cabo próximo à base, e ficou satisfeita ao constatar que a ponta resultante era razoavelmente afiada.

            Escondeu-se novamente atrás do armário, segurando firme o cabo da vassoura. Na confusão de sentimentos, impressões e emoções em que estava, não conseguia dizer se a presença que sentia à distância era humana ou sobrenatural. O cabo de vassoura bastaria caso fosse um vampiro. Contra um atacante humano, por sua vez, Tatiana sabia bem quais pontos atacar com aquela arma, a fim de causar danos não permanentes.

            Ou mesmo permanentes, conforme vinha aprendendo com Vó Nena e os rapazes.            Ouviu passos distantes, e sua respiração ficou ofegante. Sentiu o corpo suado, e as impressões daquela sala ameaçavam turvar sua consciência novamente. A jovem vidente forçou ao máximo sua concentração no agora, apertou as mãos ao redor do cabo da vassoura e procurou respirar o mais levemente possível.

            Os passos se aproximaram, e ela colocou a estaca improvisada em posição de ataque. Porém, subitamente, o som parou, para ser ouvido em seguida desta vez se afastando.

            Tati saiu de seu esconderijo e olhou com cuidado pela porta do antigo escritório. Bem na direção de onde vieram os jovens conseguiu divisar uma sombra virando a curva do corredor.

            E havia mais. A última coisa que desapareceu no outro corredor era sua mochila, nas costas do indivíduo que vira de relance.

            A vidente desta vez sentiu raiva, e teve ganas de gritar com ele. Mas voltou a entrar no escritório e, encostando as costas ao lado da porta, fechou os olhos e respirou fundo algumas vezes.

            De novo se lembrou que estava quase nua, de biquíni e tênis, constrangida, envergonhada, exposta e com medo. Mas pensou que poderia usar aquilo a seu favor. Ao vê-la assim, aquele estranho poderia hesitar pelo tempo necessário para Tati dominar a situação.

            Mas teria que segui-lo e encontrar uma forma de emboscá-lo. Para isso, a primeira coisa que fez foi sair devagar do velho escritório e andar com todo o cuidado na direção em que ele sumira. Chegou à curva do corredor e olhou rapidamente.

            Não viu ninguém. Segurando com firmeza a longa estaca improvisada, seguiu adiante no escuro. Já era noite lá fora, e a pouca iluminação da rua não era suficiente para ver muita coisa dentro do prédio.

            Tatiana chegou a outro corredor, e pensou em qual direção seguir. Fechou os olhos por alguns instantes tentando sentir algo, mas então se assustou com um ruído distante.

            Vinha do hall de escadas da parte de trás do prédio, que ficava à direita de onde estava. Com cuidado, procurando não chutar novamente nada que estivesse no chão, ela prosseguiu.

            Estava excitada e atenta àquela caçada, mas o sentimento de estar quase sem roupa, a vergonha e o medo a tomaram novamente. Desta vez, entretanto, Tati forçou a si mesma para continuar em frente, e chegou à escadaria. Olhou para cima, mas em meio à penumbra não viu nada.

            Porém, desta vez, sua vidência lhe forneceu a direção aproximada de para onde o estranho havia seguido. E, enquanto subia devagar as escadas com a estaca em riste, começou a divisar um plano.



            Chegou ao terceiro andar e olhou para os lados. Nada. Fechou os olhos novamente, respirando pausadamente e buscando ampliar seus sentidos. E viu que o estranho havia rumado para a esquerda, talvez para contornar o andar pelo corredor principal.

            Tatiana abriu os olhos e, pela primeira vez em muito tempo, sorriu. Considerou que tinha uma boa chance. Seguiu pela direita, o mais depressa possível, sempre atenta para não pisar em nada e fazer barulho, o que arruinaria seu plano.



            Subitamente, um novo terror a assaltou. Sua vidência revelou um corredor diferente daquele em que estava, ou pensava estar. Ainda mais sombrio, decadente, e que parecia se estender ao infinito.

            A moça sentiu então algo ainda pior. Presenças tenebrosas e inomináveis pareciam espreitar de todos os cantos. Ela quase fraquejou ao constatar a evidente malignidade daquela visão.

            Levou uma das mãos à boca para não gritar de horror, e nesse momento a lembrança de sua avó, Esmeralda, de quem havia herdado a vidência, surgiu em sua mente. O efeito calmante foi mais que bem-vindo, e Tati se recordou das longas conversas que tinha com a amada vozinha. E ela se lembrou, afinal, de Esmeralda lhe dizer que havia vislumbrado locais ocultos, onde o mal sempre está à espreita.



            A jovem vidente recordou como a avó havia dito que nada dissera a respeito para uma grande amiga dela, combatente de todas as forças das trevas. Mas Esmeralda ainda deixou claro que sua neta um dia também conheceria aquela amiga, e juntas derrotariam o mal.

            As lembranças contribuíram para que Tatiana relaxasse. Mas a visão sombria continuava ali, e ela finalmente cambaleou e apoiou uma das mãos na parede, lutando com todas as forças para não cair. Nesse momento a visão se dissipou, e a moça se viu novamente no corredor do Edifício Jason Teodoro. Suspirou fundo por não haver deixado a estaca cair, e quase se sentia aliviada por estar naquele ambiente já familiar, menos sombrio e maléfico.

            Tatiana caminhou pelos corredores escuros e imundos. A brisa da noite entrava pelas janelas quebradas e arrepiava sua pele, e ela se sentiu sendo novamente tomada pelo medo, vergonha, e por aquela inacreditável excitação. Sua vidência lhe revelou alguns ataques de criaturas da noite e Encantados naquele andar, mas a moça se esforçou para manter sua concentração no presente.

            Parou por um momento, apoiou as costas na parede do corredor e se concentrou. Encostou a estaca na testa, e pensou o quanto deveria estar imunda por causa daquela experiência. Sentiu as costas tomadas por poeira que havia grudado em sua pele devido ao suor, mas deixou isso de lado. Estendeu sua vidência, e viu que o estranho estava próximo, andando devagar no corredor que estava bem adiante, à esquerda da próxima curva.

            Tati normalmente exploraria mais fundo, tentando descobrir a identidade do inimigo. Mas não havia tempo, ela estava cansada e sabia que precisava surpreendê-lo para ter uma chance. Abriu os olhos, deu mais alguns passos e encontrou à direita uma porta aberta. Entrou rapidamente e viu que também era um antigo escritório, mas felizmente nenhum sinal de antigos casos extraconjugais a atingiu dessa vez.



            Depois olhou adiante, e percebeu que, de um foco de luz na rua, vinha uma luminosidade que tornava aquele pedaço do corredor bem mais claro. E isso deu a ela uma ideia para distrair o estranho, o que aumentaria suas chances. Lembrou-se do caso da Caneta Azul, e de como não seria a primeira vez em que usaria sua sensualidade para obter o que queria.

            Mas era algo que a deixaria ainda mais exposta do que já estava. O medo, a vergonha e o constrangimento voltaram a assaltá-la. Mas, na situação em que estava, não havia alternativas.

            Sentindo que o estranho se aproximava ela rapidamente colocou a mão direita atrás das costas e desfez o nó da parte de cima do biquíni. Tirou a peça rapidamente e a deixou jogada bem no centro da parte iluminada.

            Agora se sentia ainda mais nua, mas não havia tempo. Deu dois ou três passos e entrou novamente no escritório escuro, apertando as mãos na estaca enquanto aguardava.

            Passos se aproximavam lentamente, e Tatiana sentia que estava esperando por uma eternidade. Seu coração martelava em seu peito, seus seios nus a deixavam ainda mais excitada, e um arrepio percorreu seu corpo, misturando o tesão com o frio que sentia devido ao vento que entrava pelas janelas.

            O som dos passos estava cada vez mais próximo. Com um olhar rápido Tati viu uma sombra no chão do corredor diante da porta, vindo pela esquerda, e ela se esforçou para controlar sua respiração ofegante.

            Alguns segundos depois um cara de calça jeans e camisa, com sua mochila nas costas, passou pela porta. Envolta em escuridão, Tatiana se concentrou na figura.

            Aconteceu como ela havia imaginado. O estranho deu mais alguns passos e parou bem diante da área iluminada. Tati se aproximou da porta sem ruído, e viu que ele observava a parte superior de seu biquíni jogada no chão.

            A moça se aproximou por trás dele, enfiou a estaca entre suas pernas e, com um golpe rápido, o derrubou. Depois girou a arma, acertando-o na lateral do corpo bem sobre o rim, e afinal pôs o pé em seu peito, mantendo a ponta da estaca a centímetros de seu rosto.

            Os olhos dele se arregalaram para ela.

            E os de Tati também pareciam haver dobrado de tamanho.

            Ela jogou para o lado a estaca, cobriu os seios com as mãos, e correu para apanhar a parte de cima do biquíni. Enquanto voltava a vestir a peça gritou:

            - Seu filho da puta!

            Depois de dar o nó no biquíni atrás das costas, as emoções aflorando em sua mente, tomada por vergonha, medo, raiva, tesão e desejo, ela apanhou a mochila que havia caído ao chão e a abraçou diante de seu corpo enquanto se encostava na parede.

            Daniel, depois de mais alguns instantes, respirou profundamente e soltou um:

            - Ai.

            - Te odeio! Eu gosto muito da minha sogra, então não posso te chamar de filho da puta. Mas você foi um grandessíssimo de um filho da puta!

            Massageando o lugar onde Tatiana o havia acertado, o rapaz se levantou reclamando.

            - Caramba, Tati, precisava bater com tanta força?

            - E como eu ia saber que você não era um bandido, um tarado ou um vampiro?

            - Você é vidente...

            - Cala a boca!

            Tentando se recompor, Daniel se aproximou e estendeu a mão. A namorada se afastou pro lado e disse:

            - Nem vem!

            - Tati, eu...

            - Você tinha que me dar esse livro aqui, né? – disse ela apanhando o volume na mochila. Depois de quase esfregá-lo na cara dele o enfiou de volta e prosseguiu: - Meu Deus, nem acredito que fiquei todo esse tempo aqui quase nua, e você se divertindo às minhas custas!

            Ele ia dizer alguma coisa, mas ela continuou:

            - Daí você disse para virmos aqui para treinar, e eu lembrei do raio da cena do sabá, e quis experimentar...

            - O que me lembra daquela volta de Brasília, quando paramos na estrada de madrugada para esfriar a bobina do Fuscão. Você tinha comprado esse biquíni pra essa viagem, e resolveu colocá-lo de novo naquela noite na estrada pra brincar um pouco...



            - É, eu estava inspirada e com tesão, foi gostoso... não muda de assunto, porra!

            Tatiana, tomada por emoções, quase esquecera que ainda estava praticamente sem roupa. Largou a mochila no chão e deu alguns passos, os braços cruzados sobre os seios.

            - Sim, toda essa excitação abriu mesmo minha percepção. Não é a à toa que muitas cerimônias e feitiços envolvem sexo.

            Ela sentiu novamente o desejo aumentar. Tentou ignorar, mas estava cada vez mais difícil. Por cima, de costas para Daniel, nem precisava da vidência para saber que ele a estava devorando com os olhos.



            - E depois tudo piorou quando minha mochila sumiu.

            - Achei que você tinha largado lá, e a apanhei para depois devolver a você. Pensei que estava explorando o prédio.

            - E estava.

            - Sim. Quase pelada. Não vou dizer que não gostei, muito pelo contrário...

            Tatiana se virou e teve ímpetos de avançar contra ele, mas se controlou.

            - Tive que me esconder quando aquele casalzinho apareceu – comentou Daniel. – Aí percebi que você estava do outro lado, e quase fiz barulho pra chamar a atenção deles.

            Tatiana, ainda brava, ouvia o relato do namorado. Ele prosseguiu:

            - Daí eles logo foram embora, e me aproximei. Vi você saindo da sala cambaleando e quase fui te acudir, mas então você sentou no chão, e...

            - E o quê? – Tati perguntou, já adivinhando o que ele diria.

            Daniel ficou ruborizado. Tatiana adorou vê-lo constrangido. Sua cena no corredor, como a vidência havia revelado, tivera mesmo plateia.

            - E... eu te vi. Tati... meu amor, me deixou sem fôlego! Nunca te vi gemer e suspirar daquele jeito!

            A moça, ainda somente de biquíni e tênis, permanecia de braços cruzados e com expressão séria no rosto, olhando para o lado. Depois se virou para ele, olhando com cara de poucos amigos.

            - E depois por que fugiu de mim e me deixou andando seminua pelo prédio, pensando no pior?

            A cara de tesão de Daniel, mais a conferida que ele lhe deu de alto a baixo, foram resposta mais que suficiente. Por fim a seriedade deixou o rosto de Tati, que abriu um grande e adorável sorriso.

            Um sorriso bastante sacana, que ela complementou mordendo o lábio inferior.

            - Vem cá!

            Daniel, apanhado de surpresa, demorou alguns instantes para entender. Depois de uma última olhada cheia de desejo para a namorada linda, cumpriu a ordem.



            Tatiana o agarrou, enlaçando-o com a perna esquerda, ao mesmo tempo que o beijava com a maior volúpia e desejo que já sentira na vida. Daniel sentiu a língua dela explorando cada canto de sua boca, ao mesmo tempo que suas mãos passeavam e o apertavam em todos os lugares. Ele, naturalmente, retribuiu apalpando e apertando cada canto do corpo suado e quente de Tati.

            Os dois ficaram ali por um bom tempo.


Espero que tenham gostado desta história! Como mencionado no conto, Tatiana já havia utilizado sua sensualidade na história da Caneta Azul (que até me rendeu um xingamento em um grupo do Facebook, que foi apagado pelos administradores) mas me surpreendi até onde ela se deixou levar nesta trama.

A ideia veio desta cena antológica do filme Todo Mundo em Pânico (Scary Movie, 2000) com a bela Carmen Electra:




Naturalmente cenas sensuais são tradição em histórias de terror, como podem ver conferindo as mais icônicas clicandoaqui.

E, por sinal, o biquini vermelho de Tatiana terminou por ser uma referência à icônica série Os Gatões (The Dukes of Hazzard, 1979 – 1985), especificamente a esta cena com a maravilhosa Daisy Duke (Catherine Bach):








UPDATE de 20/04/2025.

Por incrível que pareça, uma inspiração evidente havia ficado esquecida até este momento! Como meus leitores sabem, sou ardoroso admirador do automobilismo, especialmente o endurance, as categorias com provas longas como WEC e IMSA.

E nestas, como em todo o esporte a motor, eram comuns nos grids de largada as gridgirls ou pit babes, belas moças em sugestivos uniformes de patrocinadores. Graças à praga do politicamente correto, infelizmente, hoje poucas categorias mantém essa tradição de beleza (e mais de uma dessas meninas, graças aos rendimentos que obteve com esse trabalho, se tornou piloto, tá?).




Nas 24 Horas de Le Mans, a maior corrida do mundo, de meados dos anos 1990 até cerca de 2003, eram presença garantida as belas da Hawaiian Tropic, que animavam as festividades antes da largada com sua beleza.




Então, como podem conferir nas imagens, o biquini vermelho e os tênis batem com o figurinho que Tatiana veste na maior parte desta história.



Fim do UPDATE.

As imagens deste primeiro conto ilustrado no Escritor com R foram produzidas com o aplicativo Dream by Wombo, uma inteligência artificial (AI) para desenhos, utilizando tanto a versão para celular quanto o site.

Sim, foram centenas de tentativas e mais de 200 imagens até escolher as mais adequadas. Até por isso fica muito claro que esse e outros aplicativos que utilizam AI de forma alguma substituem artistas humanos.

Tenho feito posts em minha conta no Instagram, @renatoa.azevedo , utilizando imagens produzidas pelo Dream. Até mesmo as capas dos recentes e-books, A Lista: Diversidades e Os Gatos deVecruz, foram produzidas assim. Com adição de vários elementos a posterior, como títulos, claro.

De novo, nenhuma AI irá substituir artistas humanos. Bem, isso não é muito certo com relação aos roteiristas de Hollywood em greve, visto os fiascos colossais de certas produções lacradoras dos últimos tempos...

As AIs são ferramentas, somente isso, e foram criadas para auxiliar e não substituir. Claro que você não deve responder se alguma delas perguntar a respeito de Sarah Connor!

Então, “guerrinhas” e outras atitudes patéticas movidas por quem deveria ser profissional e se preocupar em contar e publicar boas histórias não fazem o menor sentido.

Abaixo, algumas imagens extras produzidas utilizando variados estilos no Dream.





E, se chegou até aqui, muito obrigado! Sua recompensa está abaixo:

Cena pós-créditos

            A noite estava fria quando Daniel saiu pelo portão de trás do prédio. Como no restante daqueles poucos quarteirões os imóveis estavam abandonados, e somente em um e outro fracas luzes bruxuleavam.



            Ele abriu a porta do Dodge Charger branco e entrou, a fim de aguardar Tatiana que tinha parado para se vestir. Porém, seu espanto foi enorme quando viu a namorada sair pelo portão, dar passos rápidos pela calçada, abrir a porta e entrar no carro.



            Ainda vestia somente o biquíni vermelho e os tênis com que a encontrara. Outro carro passou pela rua enquanto isso, mas Tati nem ligou.

            - Mas você não ia se vestir? – perguntou.

            - E você não ia me levar para casa? – ela devolveu com um sorriso sacana.

            O jovem Caçador sorriu depois de mais uma conferida no belo físico da amada, ligou o motor V-8 do carro e saiu.

            Tatiana abriu a mochila, tirou a camiseta e a vestiu. Depois, com a expressão mais tranquila deste mundo, ficou observando a paisagem que passava.

            Daniel, claro, estava adorando o espetáculo de vê-la assim. Deslizou a mão e a pousou na coxa da namorada, que se virou para ele e sorriu.

            - Você quer dizer alguma coisa, querido?

            Tatiana perguntou isso com o ar mais inocente do mundo, mas é claro que nem precisava ser vidente para adivinhar o que passava pela cabeça dele. Dali mais alguns segundos pararam em um semáforo, ela voltou a sorrir e disse:

            - Ah, amor, que coisa! A alça do meu biquíni desamarrou...

            Daniel voltou a olhar para ela, de novo conferindo-a de alto a baixo. A visão da alça lateral do biquíni frouxamente solta sobre o banco, deixando à mostra a lateral do quadril de Tatiana, fez com que em sua expressão várias emoções se misturassem. Surpresa, vergonha, desejo, tesão...

            Depois de mais alguns segundos em que os dois só se olhavam, alguém buzinou atrás deles. Tati sorriu de novo e disse:

            - Amor, dirige. Você não está se concentrando muito...



            Daniel teve certeza que a namorada o provocava de propósito. E ele sabia que merecia.

            Mais alguns quarteirões e eles chegaram a uma rua tranquila, perto da casa de Tatiana. Foi quando um Fusca Azul familiar surgiu logo adiante deles, vindo no sentido contrário.

            Vó Nena parou o Fusca, sua janela ao lado da de Daniel.

            - Oi, moçada, tudo bem? Como foi a experiência lá no prédio?

            Eles haviam comentado com ela no dia anterior que visitariam o local. Agora era Daniel que sorria, enquanto Tatiana tentava mostrar um ar de total normalidade.

            - Foi tudo bem, Vó, depois contamos – disse Daniel.

            - Só me poupem dos detalhes das safadezas – riu a anciã. – Sei bem o que vocês, moleques, aprontam em lugares assim. Ainda bem que não era um dos piores prédios daquela região filha da puta.

            A Caçadora fez uma pausa e acrescentou:

            - Bom, surgiu um negócio, e bem que a ajuda de vocês me seria útil.

            - Já vou fazer a volta e te seguimos, Vó.



            Daniel disse isso e, enquanto Vó Nena se adiantava no Fusca Azul, ele acelerou e rodopiou com o Dodjão. Tatiana, ao mesmo tempo, amarrava a alça do biquíni para depois apanhar a legging na mochila.

            - Ah, não vai ficar assim, amor? – disse ele com ironia, mas com voz carregada de desejo.

            Tatiana devolveu um olhar irônico para ele enquanto se vestia. Ajeitou a calça, o Dodge alcançou o Fusca Azul, e ela finalmente sorriu.

            - Você bem que gostaria, não é, querido?

            Eles se olharam, depois sorriram um para o outro e entrelaçaram os dedos das mãos. A aventura da tarde havia acabado, e a da noite estava somente começando.

 

Vó Nena e os Caçadores retornarão.


Claro, não esqueçam de conferir os e-books:

VÓ NENA E OS CAÇADORES: O FUSCA AZUL

VÓ NENA E OS CAÇADORES: O LIVRO MALDITO

Até a próxima!