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sábado, 7 de setembro de 2024

A REVOLTA DE ATLAS, RESENHA

        Quem é John Galt?




  A primeira vez que li algo a respeito de Ayn Rand (02/02/1905-06/03/1982) e sua maior obra foi em 2020 quando, em meio à pandemia, o Instituto Liberdade espalhou outdoors em Porto Alegre com a pergunta que abre esta publicação.




Pesquisando a respeito, descobri que já havia até salvo uma imagem com um pensamento de Ayn Rand que diz muito a respeito do mundo em geral, e do Brasil em particular, e que continha este texto:



“Quando há comércio não por consentimento, mas por compulsão, quando para produzir é necessário pedir permissão a homens que nada produzem, quando o dinheiro flui para aqueles que não vendem produtos, mas têm influência, quando os homens enriquecem mais pelo suborno e pelos favores do que pelo trabalho, e as leis não protegem quem produz de quem rouba, mas quem rouba de quem produz, quando a corrupção é recompensada e a honestidade vira um sacrifício, pode ter certeza de que a sociedade está condenada”.


Meu exemplar, com marcações e anotações.
Meu exemplar, com marcações e anotações.


Essa é somente uma pequena parte do discurso de um dos personagens mais fascinantes de A Revolta de Atlas, Francisco D´Anconia, herdeiro da Cobre D´Anconia, uma das empresas mais ricas e poderosas do mundo, atuando em inúmeros países. Contudo, desde alguns anos antes Francisco vem agindo de forma estranha, demonstrando pouco interesse pelos negócios apesar de ser um gênio financeiro, dando mais valor às festas e a vida de playboy. Ninguém, inclusive as pessoas de seu convívio mais próximo, conhece os motivos que o levam a agir assim.




Uma dessas pessoas é Dagny Taggart. Vice-presidente de operações da ferrovia Taggart Transcontinental, ela cresceu junto com Francisco e os dois foram amantes por um bom tempo. Em uma noite, cerca de uma década antes, Francisco se deitou com ela pela última vez e, desesperado, lhe pede que o ajude a resistir apesar de dizer: “Ele tem razão!”. Nos anos que se seguiram, Dagny passou a desprezar tudo quanto dizia respeito à D´Anconia.

Ayn Rand, nascida em São Petersburgo na Rússia, emigrou para os Estados Unidos e ali se naturalizou, abominando todas as formas de coletivismo e socialismo. Publicou A Revolta de Atlas (Atlas Shrugged) em 1957, época em que era ainda incomum ver mulheres no comando de empresas. Daí que Dagny, a verdadeira força motriz da Taggart Transcontinental, é uma presença incômoda para muitos em eventos e reuniões sociais ao longo da história. Em uma festa o “escritor” Balph Eubank, um dos que seguem a onda “progressista” que contaminou quase todas as nações da Terra e avança cada vez mais sobre os Estados Unidos, afirma que Dagny é um sintoma dos males da industrialização, que esta tirou a humanidade das pessoas e um exemplo é ela, “que administra uma estrada de ferro ao invés de se dedicar à arte da tecelagem e criar filhos”. Mesmo outras mulheres não deixam de manifestar seu desagrado contra Dagny.

Por sinal, a quem ainda tem reservas contra Ayn Rand recomendo este pequeno vídeo:




A mim não restam dúvidas de que Ayn Rand era uma autêntica feminista.

E por que chamei Eubank de “escritor”, entre aspas? Por “pérolas” como estas: ele defende uma lei que determine que qualquer livro poderia ser publicado com no máximo 10 mil cópias. Alega que isso abriria o mercado para novos autores e novas ideias, e que autores profissionais não deveriam viver de escrever, e somente aqueles sem objetivos financeiros deveriam publicar livros. Perguntado se mais de 10 mil pessoas quisessem ler um livro, ele afirma que isso é irrelevante, como considera irrelevante o enredo de uma história.



Sim, Ayn Rand previu a lacração e os justiceiros sociais que hoje se esforçam para destruir várias franquias da cultura pop.




A Taggart Transcontinental é presidida por James Taggart, irmão de Dagny e figura importante da elite que é chamada de saqueadores por todos aqueles que ainda acreditam no trabalho e na produção. Taggart e seus comparsas se valem do compadrio, da influência e da corrupção para conseguir o que querem. Por isso fica enfurecido quando sua irmã contrata a produção de novos trilhos para a Linha Rio Norte, que a empresa mantém no Colorado e sofre uma fortíssima competição de outra ferrovia, a Phoenix-Durango.



O Colorado se tornou um porto seguro na economia americana graças à Petróleo Wyatt, e Dagny pretende competir com a Phoenix. Para isso encomenda trilhos de um novo metal produzidos pela Siderúrgica Rearden, enquanto James insiste em seu fornecedor tradicional, Orren Boyle, outro dos saqueadores. Hank Rearden, dono da siderúrgica que leva seu nome, desenvolveu um metal muito mais leve e resistente que o aço e, quando surge a notícia de que a Taggart irá usá-lo, tem início uma campanha feroz desaconselhando sua utilização.

A campanha não apresenta qualquer informação precisa que indique algum problema com o Metal Rearden. Pelo contrário, se vale somente da opinião de pessoas famosas. De novo, alguém percebe alguma similaridade com o que acontece em um país nem tão distante?



Em meio à disputa Dagny forma uma nova ferrovia diante da insistência do irmão para salvar as aparências. E a batiza como Linha John Galt, o nome da gíria que todos falam. Ela tem sucesso e o Colorado prospera, mas o governo e os saqueadores inventam leis que se destinam a “garantir a igualdade de oportunidades”. Trata-se, na verdade, de sufocar a competição, impedir que grandes empresas invistam para “abrir o mercado aos pequenos”. Do pacote ainda constam elevadíssimos impostos sobre as empresas do Colorado a fim de incentivar os estados vizinhos.

É claro que não somente nada disso dá certo, como o desastre é de colossais proporções. E acontece com Ellis Wyatt algo que já vinha acontecendo com muitas personalidades notáveis ao longo da trama: ele abandona tudo e desaparece.



Dagny se consola com Hank. Eles começaram a sair juntos após a inauguração da Linha John Galt, e durante uma viagem de carro descobrem, em uma indústria abandonada, um misterioso motor. Dagny faz de tudo para descobrir seu criador, sem sucesso, encarando o horror de imitações de figuras humanas que destruíram aquela empresa até então bem sucedida com ideias “progressistas”. A atuação dos saqueadores não tem limites e a hipocrisia deles é exposta em vários momentos, incluindo na mesma festa mencionada acima.

        Preciso ainda mostrar uma página que tem tudo a ver com o estado de "justiça" e "defesa da democracia" de um país nem tão distante:




Em determinado momento Francisco e James Taggart conversam, e este o cobra a respeito das Minas de San Sebastian, no México. Aclamado como um investimento que melhoraria significativamente a vida da população daquela região pobre do país, esse investimento da Cobre D´Anconia se revelou um fiasco quando o governo mexicano nacionalizou o empreendimento e depois descobriu que as minas não valiam nada. O prejuízo para muitas empresas foi imenso. Dagny, por sinal, teve que combater o desejo do irmão de também embarcar nessa, mas ela somente enviou material de refugo para lá, resguardando sua empresa.



Diante da cobrança de Taggart, Francisco diz que somente atuou baseado nos ideais mais elevados que ele e os outros defendem. Sendo totalmente altruísta e sem visar o lucro, pagando salários altos para a população da região trabalhar nas minas. Diante do descomunal prejuízo, James fica fora de si.

Essa mesma hipocrisia tem sido vista hoje mesmo, bem aqui em nosso mundo, da parte da absoluta maioria daqueles justiceiros sociais que defendem filmes e seriados horríveis, onde o enredo é irrelevante e nos quais o mais importante é “transmitir a mensagem transformadora”. Com tamanhas antecipações e previsões confirmadas, considero impressionante que o nome de Ayn Rand não seja sempre mencionado ao lado de outros autores de distopias como George Orwell e Ray Bradbury.



Em determinado ponto de uma conversa com seus comparsas, James Taggart afirma que deveria haver uma lei contra boatos. Alguém aí pensou fake news? Então eu acrescento: quem checa as agências de checagem?

James é sem dúvida um daqueles personagens que amamos odiar. Outros são os cientistas Dr. Floyd Ferris e Dr. Robert Stadler. Este último chega a criticar um livro assinado pelo primeiro que basicamente ensina a nada questionar, que o pensamento independente é uma ilusão, e que as pessoas devem somente se ajustar e obedecer.

Pensem no exato oposto do grande Carl Sagan e terão uma ideia de quem são essas duas figuras que estão entre os personagens mais abomináveis do livro!



E para quem viveu os vários planos econômicos que assolaram o Brasil entre os anos 80 e 90, um dos muitos complôs do governo e dos saqueadores é um apanhado de todas as fórmulas que os populistas defendem até hoje. Entre os tópicos estão: nenhum trabalhador pode ser demitido ou pedir demissão; nenhum estabelecimento pode ser fechado por seus proprietários; todas as patentes e direitos autorais devem ser entregues ao governo; ninguém pode divulgar qualquer novo aparelho ou invenção (e sim, isso se aplica também aos escritores, que não poderão escrever novos livros); todas as empresas devem produzir exatamente a mesma quantidade de seus produtos do último ano; todas as pessoas devem adquirir a mesma quantidade de produtos do último ano; todos os salários, lucros e demais indicadores são congelados. E claro que quando são mencionados os escritores, um dos conspiradores afirma que ninguém quer um autor publicando um livro questionando o programa.

Preciso escrever mais alguma coisa?

     Vale inclusive, nestes tempos em que viemos no Brasil, lembrar o que Ayn Rand disse sobre liberdade:




Depois de tentarem impedir que Hank Rearden vendesse seu metal, os saqueadores fazem um simulacro de julgamento porque ele, um dos industriais que vinham sustentando a economia em crise perpétua, fez uma venda tornada ilegal pelas leis absurdas impostas pelo governo. Em determinado ponto, o texto de Ayn Rand alude à forma como a multidão se mostra sem esperanças mesmo diante dos slogans otimistas martelados pela mídia a serviço do governo. Isso me evocou a lembrança de “o melhor do Brasil é o brasileiro”, e às vezes imagino que Ayn Rand teve acesso a uma máquina do tempo para vir conhecer nosso “país do futuro”. Este exemplo seguinte, aliás, é estarrecedor:



Em A Revolta de Atlas, Ayn Rand deixa muito claro que se a culpa é socializada e todos devem assumir sua cota de sacrifícios, então a responsabilidade evidentemente também o é, e não recai em nenhum indivíduo realmente culpado. E também extrapola as consequências da intervenção dos agentes estatais na sociedade, descrevendo como poder excessivo nas mãos desses é a receita certa para o desastre.

Tudo que expus aqui, as tramas dos saqueadores, as lutas de Hank Rearden e Dagny Taggart, esta auxiliada por Eddie Willers (um dos personagens secundários que mais me cativou na trama) é somente uma ínfima parte de A Revolta de Atlas. Um livro que faz uma defesa como poucas vezes vi da liberdade e do direito individual, descrevendo como cada indivíduo é responsável por suas ações e por buscar a liberdade e a felicidade como valores supremos. Com esse monumental tomo de 1215 páginas, Ayn Rand defende firmemente os valores da racionalidade, da honestidade, da justiça, integridade, produtividade e orgulho.

A aterradora realidade dessa história é um bom exemplo do que acontece quando a liberdade e a criatividade são tolhidas. Não por acaso, é uma ameaça com que nos defrontamos hoje, o que somente torna esse livro ainda mais essencial. E também por isso é uma das obras mais combatidas em certos círculos, bem como sua autora. E isso porque Ayn Rand combate ferozmente os que exigem sacrifícios mas jamais se sacrificam, os que afirmam que para termos segurança é necessário que abramos mão de nossas liberdades, e que chamam de egoístas e sem “consciência social” os que se dedicam a suas ideias, projetos e visões pessoais.

A Editora Arqueiro tem atualmente A Revolta de Atlas disponível em um box com três volumes, ou em volume único. Além disso existe uma edição também em volume único com capa exclusiva da Amazon, como o meu exemplar, e uma nova caixa prateada absolutamente lindíssima (aceito como presente, falou?). A eles parabéns pela iniciativa de publicar esse livro no Brasil, e espero que continuem a disponibilizá-lo.




E nessa longa leitura e pesquisa sobre A Revolta de Atlas, descobri ainda que o livro teve suas três partes adaptadas como uma trilogia de filmes. Vale a pena conferir o trailer do primeiro, sigam para os demais por sua conta, OK?



        Antes de encerrar, lembro que no momento em que esta publicação está sendo feita estamos finalizando a sexta edição de nossa revista eletrônica Táquion FC, e que é muito especial. Nela homenageamos o grande mestre, nosso Bom Doutor Isaac Asimov, e todas as histórias que vocês lerão são fanfictions baseadas em sua obra. Para isso, contamos com a aprovação do Isaac Asimov Estate. Enquanto aguardam vocês podem conferir as primeiras cinco edições e participar das próximas em nosso site, clicando aqui.


        Outra excelente notícia é minha participação, ao lado dos amigos e colegas do Táquion FC Marcelo Bighetti e Gilson Cunha, da edição 9 da revista Histórias Extraordinárias. No momento em que escrevo, a campanha no Catarse já está em 103 % faltando nove dias para tertminar, e vocês podem participar (tem recompensas) clicando neste link. E tem, claro, a capa:



        Sim, Os Carros que Comeram Cerro Vermelho, meu conto, é uma história do universo de Vó Nena e os Caçadores! Muito obrigado à Editora Mundo pela oportunidade!

Encerrando a resenha (publicada anteriormente em outro blog, e aqui com acréscimos), A Revolta de Atlas de Ayn Rand é uma obra impressionante, com personagens fascinantes, inúmeros detalhes que são reunidos de forma coesa ao longo da história, e ainda vários elementos de ficção científica (o motor mencionado lá em cima é um destes) com uma poderosa mensagem contra o vitimismo, a corrupção e muitas mazelas de nosso mundo, defendendo de forma implacável a liberdade, a iniciativa individual e a criatividade. Vale muito a leitura, inclusive para responder à grande pergunta:



Quem é John Galt?

        Até a próxima.

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

UM DIA NORMAL DE TRABALHO E A CONSPIRAÇÃO GLOBAL



BLF Informática, Centro de São Paulo, 10:13 h.

 

            Começo de semana, Leandro e Franco em viagem, e Batista não sentia a mínima vontade de realizar qualquer esforço. Cumprimentou os funcionários ao chegar e disse que não queria ser incomodado, subindo ao último dos três andares de que dispunham no edifício.

            Nenhum funcionário sabia daquele terceiro andar. Nem muito menos que a empresa de segurança de informática na qual trabalhavam era na verdade a fachada respeitável do maior centro de informações clandestino do Brasil. A BLF prestava serviços a dezenas de empresas por todo o país, além de vários políticos graúdos de Brasília. E eram essas as fontes para o principal “produto” confeccionado ali, o newsletter clandestino O Farol.




            Batista sentou-se e checou os e-mails, dedilhando com rapidez no teclado. Para sua surpresa, o vídeo falso do tal “ETdo Panamá” ainda estava “bombando” na rede. Disse:

            — Ah, mas não é possível! Deu até nos programas dominicais que é falso!

            Apanhou o telefone e ligou para um número. Ao mesmo tempo realizou uma busca para verificar se o vídeo do Fantástico já estava online. A amiga atendeu antes que Batista pudesse conferir os resultados:

            — Alô?

            — Cris, é o Batista. Como foi ontem na TV?

            Finalmente ele achou o vídeo, enquanto a bióloga que a contragosto era consultora dO Farol respondeu:

            — Batista, eles não me procuraram mais. Chamaram outro cara, lá no Rio de Janeiro mesmo, você não viu o programa?

            Agora ele achava o vídeo, e realmente era outra pessoa que expunha os fatos. O biólogo explicou que o cadáver mostrado no vídeo mexicano não era um ET como estava sendo divulgado, mas um infeliz bicho-preguiça em adiantado estado de decomposição.

            — É, tal como a revista OVNI havia divulgado em seu site semana passada... – disse Batista.

            — Pois é, como tem maluco no mundo, hein? – perguntou Cristina.

            — Nosso dever é denunciar o que é mentira, e divulgar a verdade, você sabe.

            — Sei... ETs que nos visitam, chupacabras, conspirações... Não sei como conseguem me convencer a colaborar com vocês!

            — Digamos que seja meu charme habitual?

            Cristina nada respondeu, e Batista percebeu que o assunto havia acabado. Antes que o silêncio constrangedor se prolongasse, ele se despediu. Cris ainda comentou:

            — Quando quiser ligar fora do “trabalho” esteja à vontade, viu?

            Ela desligou, e Batista ficou pensando. O vídeo, ao contrário de outras fraudes, chegava a ser patético. Ele e os colegas haviam conversado muito com seu amigo jornalista e ufólogo, Roberto Monteiro, e este confirmou que os membros da equipe da revista OVNI igualmente haviam sido procurados por jornalistas de vários canais. O assunto já parecia encerrado na última quinta, por que ainda dar destaque no domingo seguinte?

            O programa dominical de maior audiência seguramente não deveria ter alguma alternativa para compor aquele quadro... Mas Batista se lembrou de haverem rastreado e-mails com o vídeo do “ET do Panamá” até endereços bem suspeitos, em Brasília e outras cidades ao redor do mundo.

            E havia, claro, os recentes fatos lá no Planalto Central, que seus colegas estavam investigando.

 

Necrotério de Planaltina, 10:56 h.

 

            Macedo era funcionário do necrotério municipal, e não estava nada contente com a situação. Mesmo o maço de notas de 100 em sua mão não parecia ser compensação suficiente.

            O homem baixo mas forte, vestindo um terno surrado e barba por fazer, disse as suas costas:

            — Ô, mano, tá pensando duas vezes, tá? Essa grana que pus na tua mão não foi suficiente?

            O homem por diversas vezes ficou mexendo no paletó, deixando a mostra a pistola enorme e cromada em um coldre no cinto. Macedo resolveu se mexer, abriu a porta e disse:

            — Só não quero ter problema, senhor!

            — E não terá, se manter teu bico calado, tá entendendo?

            O homem falava estranho para a idade que aparentava, mas o funcionário decidiu que não iria se preocupar em memorizar esse detalhe. Na verdade, faria questão de esquecer tudo o mais depressa possível.

            Assim que Macedo voltou a fechar a porta Franco se pôs a trabalhar. Abriu a gaveta indicada e colocou de lado o plástico que cobria o cadáver.

            Aquele infeliz parecia literalmente haver sido comido. Marcas profundas de garras afiadas cobriam pescoço, braços e tronco. As marcas de mordidas ele só havia visto antes durante a onda de ataques em São Paulo algum tempo atrás, nas proximidades da USP e Marginal Pinheiros.

            Fotografou tudo, e ainda obteve uma amostra de impressão digital. Já sabia quem era o sujeito, e fez aquilo apenas para juntar evidências. Voltou a cobrir o corpo e a fechar a gaveta, e encaminhou-se para a saída. Nem se preocupou em despedir-se do funcionário. Sabia que ele não diria nada.

 

Delegacia de Polícia de Planaltina, 11:48 h.

 

            Franco, depois de muita conversa e de exibir uma carteira funcional habilmente forjada, conseguiu que um dos policiais que cuidava do caso lhe revelasse importantes informações.

            O corpo, como suspeitava, havia sido simplesmente despejado em Planaltina. Amanhecera em uma praça na quarta da semana anterior, mas como a criminalidade na região era elevada, ninguém deu muita atenção ao caso.

            O policial confidenciou que outros homens que se identificaram como assessores parlamentares haviam aparecido nos últimos dias, todos querendo saber quem era o morto.

            — Olha, doutor, na minha opinião isso foi encomendado. O cara foi todo cortado para servir de exemplo, acho que algum traficante local está querendo assustar a concorrência, sabe?

             Franco agradeceu e saiu. Entrou no carro e ficou meditando a respeito.

            Sabia como operavam traficantes e outros criminosos, o que não encaixava com o que sabia daquele caso. Por cima apenas um jornal local havia se ocupado do assunto. Já a informação sobre a desova do corpo parecia consistente.

            Se o quadro que já formava em sua cabeça era o correto, seria ainda mais consistente com os fatos que já conheciam. Franco não tinha mais dúvidas, outra daquelas aberrações produzidas em laboratório, que o povo havia apelidado de chupacabras, estava à solta em Brasília.

            Só precisava saber por que a vítima havia sido precisamente aquela.

 

Senado Federal.

Antessala do gabinete de José Ribamar, 12:26 h.

 

            Leandro ajeitou o terno bem cortado e sentou-se. A recepcionista o observou, por certo achando estranho um negro vestindo Armani. Ele nem se incomodou, apanhou os fones e os colocou nos ouvidos, enquanto manipulava seu celular último tipo.




            Aquele aparelho estava ligado ao sistema de segurança que a BLF Informática havia instalado no gabinete e no sistema de computadores do senador Ribamar, presidente do Senado e, como todos sabiam, virtual “dono” do Maranhão. A recepcionista passou a se dedicar a seus afazeres, enquanto Leandro ouvia as palavras trocadas durante a tensa reunião que acontecia na outra sala.

            — Se alguém voltar a tentar me sacanear, vai ver só uma coisa!

            Aparentemente, o senador Ribamar se sentia suficientemente confortável em seu gabinete para dispensar a aura de “bom velhinho” que alimentava no palanque do Senado. Leandro voltou a ouvir sua voz, carregada de sotaque:

            — O Almeida era um bom assessor, e de toda confiança. Ser morto dessa forma... quero saber quem foi o calhorda que trouxe outra dessas coisas para Brasília!

            Pela primeira vez Leandro ouviu a voz do interlocutor. Uma voz rouca que já havia sido descrita para ele em inúmeras ocasiões por seus amigos:

            — Senador, veja bem...

          — Veja bem o seu rabo! – o senador, também ex-presidente, realmente se transformava quando não estava em público. – Esse programa não tinha sido cancelado?

            — E foi, senador. Mas com tantos grupos, espalhados pelas mais diversas repartições deste país... não existe um comando central, como sabe. Então cada grupo se move apenas por seus próprios interesses.

            Silêncio por alguns instantes, até que o homem de voz rouca voltou a falar:

            — Com todos esses escândalos ocorrendo no Senado, é natural que muitos dos demais podem estar preocupados. Todos sabem o quanto o senhor está envolvido, senador...

            — Está me gozando? Querem vocês também me derrubar!? Não basta essa campanha terrorista daquele jornalzinho de São Paulo, agora vocês também?

            — Eles publicaram alguma mentira, senador? Não, claro que sabe que não! Até que o senhor e sua família moveram uma ação para censurar o jornal, e chamar ainda mais atenção.

            — O que você quer?

            Era óbvio que Ribamar não queria discutir aquele assunto. Leandro aguardou mais alguns instantes e enfim ouviu:

            — Não quero nada, senador. Digamos que foi apenas uma visita de cortesia, para informá-lo de nossos progressos.

            — Pegaram a coisa, então? Ela matou o Almeida próximo a minha mansão no Lago Paranoá. Meus seguranças atiraram mas o bicho fugiu.

            — Ainda não, mas estamos rastreando o ser. Desta noite não passa.

            — Isso não pode chegar à imprensa, entendeu bem? Eu soube que já havia jornalistas da grande mídia vindos para investigar. Um e outro vizinho ainda abriu a boca, e custou caro pagar pelo silêncio dos outros. Deus me livre se aqueles malditos daquele jornaleco, O Farol, publicarem meu nome de novo!

            Leandro se lembrava, e como! Na última vez O Farol publicara fotos do desaparecido assessor de Ribamar ao lado de pessoas bem interessantes, o que incluía o próprio homem da voz rouca, figuras públicas envolvidas em eventos nebulosos tais como o Caso Varginha, e alguns militares de alto escalão. Aquilo comprovava o envolvimento de Ribamar com a conspiração para acobertar a presença extraterrestre.

            — O pessoal dO Farol é profissional. São mestres em encobrir seus rastros.




            — Um dia precisamos ter gente competente no seu lugar, isso sim!

            — Não me ameace, senador.

            — Eu te criei, seu desgraçado! Não passava de um intendente de merda lá no Pará quando começaram os ataques de ovnis em Colares! Eu estava com os militares quando viram o filme da nave, eu recomendei encerrar aquela operação.

            — Os bons tempos da Operação Prato...

            — Bons nada! Não sabe o que pode acontecer com o mundo se isso vier à tona!?

            — Tanto sei que foi por isso que espalhamos aquele vídeo do tal ET do Panamá pela Internet, deu até no programa de domingo! E eles estavam prontos para falar do “chupacabras de Brasília”, a morte de seu assessor, e chegar ao senhor. Tivemos muito trabalho para salvar seu rabo, senador!

            Leandro conseguiu ouvir uma exclamação de espanto, e depois entrou novamente aquela voz rouca e desagradável:

            — Infelizmente, Ribamar, você tem metido os pés pelas mãos. Sabe que quanto mais a mídia escarafuncha em suas falcatruas, maior é a chance de descobrir as ligações de “vossa Excelência” com todo o esquema. Essa foi a última vez. Está por sua conta agora.

            Leandro rapidamente guardou o equipamento, e levantou-se para servir-se de água no bebedouro. De costas para a porta do gabinete, bebeu calmamente e depois segurou os óculos escuros contra a luz.

            Pelo reflexo nas lentes viu um sujeito de aparência corriqueira, vestindo um terno barato, saindo do gabinete e indo embora. Quando ele saiu Leandro voltou a seu lugar, e finalmente a mocinha lhe disse que podia entrar.

            — Senhor Leandro, como vai?

            O jeito simpático voltou a ser exibido por Ribamar quando se levantou e apertou a mão de Leandro. Conversaram rapidamente sobre banalidades enquanto o hacker ia ligando o laptop. A conversa gravada já havia sido transmitida para o servidor que mantinham na Capital Federal.

            — Bem, senador Ribamar, espero que esteja disposto a tratar de negócios! Como solicitado, irei lhe mostrar a última atualização em nosso sistema de segurança.

            — Isso vai proteger todo meu sistema? Inclusive celulares? O senhor sabe, como homem público, sempre estou vulnerável a todo tipo de espionagem e escuta clandestina.

            — Não tem com o que se preocupar, senador. Nosso novo sistema é o que de mais moderno existe. Claro, a menos que dinheiro seja problema...

            O ex-presidente e senador pelo Maranhão soltou uma risada, e respondeu:

            — Mas claro que não, meu amigo!

            Leandro, satisfeito mas não pelas razões de que o homem a sua frente pensava, começou sua apresentação.



 

Proximidades do Lago Paranoá, 16:16 h.

 

            Depois de alertado por Leandro, Franco passou toda a tarde vigiando as proximidades do lago. Teve o cuidado de não chamar a atenção dos seguranças das muitas mansões das redondezas. Nuvens negras se formavam no céu e escureceu tanto que as luzes dos postes começavam a se acender.

            Subitamente ele viu um furgão preto se aproximar de um matagal, ao mesmo tempo em que o som do rotor de um helicóptero era ouvido. Quatro homens penetraram na mata, e logo o som de tiros de fuzil foi percebido.

            Dois sujeitos vieram correndo, carregando um saco preto. Um outro apoiava o quarto homem, que mancava e parecia ferido. O saco foi jogado para dentro pela porta lateral e todos entraram.

            O furgão arrancou e o helicóptero afastou-se. Franco conseguiu gravar toda a cena.

 

Universidade de Brasília, 18:32 h.

 

            — Não, absolutamente não!

            Marco Valdez era cientista e biólogo, atualmente lecionando na UnB. Leandro insistiu:

            — Marco, soltaram outra dessas coisas em Brasília, apesar de você ter nos garantido que havia destruído seu trabalho...

            — E o custo para mim, hein? – o cientista estava justificadamente nervoso. – Tive que pedir favores depois de ser demitido da USP. Vocês não fazem ideia de que tipo de pressão enfrentamos aqui em Brasília, sabendo o que eu sei!

            — “Enfrentamos”, Marco? – perguntou Leandro. – Você e mais quem?

            O cientista deu-lhe as costas e saiu andando. Leandro rememorou os incidentes de São Paulo. Quatro mortes, mas os maiores comentários na imprensa foram gozações com a edição de O Farol que ligava a criação em laboratório do chupacabras com experimentos genéticos ligados ao Caso Varginha.

            Iriam novamente omitir o nome de Marco. Mas a matéria sairia mesmo assim.

 

Em incontáveis caixas de correio eletrônico, 19:12 h.

 

O FAROL

EDIÇÃO DE 22 DE SETEMBRO

 

            Caros leitores, como exposto, ficou tudo muito claro. O senador José Ribamar, um dos principais nomes no Brasil da conspiração global que controla as informações concernentes a extraterrestres, conseguiu abafar os estarrecedores fatos ocorridos nas proximidades de sua propriedade. Para tanto, seus comparsas na conspiração deram grande publicidade ao falso vídeo do chamado “ET do Panamá”, que na verdade não passa de um bicho-preguiça. Com isso, o senador logrou até mesmo ocultar a morte de um de seus mais fiéis colaboradores.




            Entretanto, o ataque do chamado chupacabras em Brasília novamente evidencia que o submundo da conspiração está em guerra. Ribamar, devido aos escândalos no Senado Federal, tem chamado muita atenção para seu nome. Sua ligação com a grande operação de acobertamento global, mais cedo ou mais tarde, será exposta, e com ela toda a verdade.

            Quanto tempo mais Ribamar poderá resistir?

 

Casa em algum lugar de Brasília, 20:20 h.

 

            — Como sempre, muita gente irá rir disto aqui.

            Roberto Monteiro, agora correspondente em Brasília, aceitara a contragosto o convite para jantar com Leandro e Franco na casa que eles mantinham na Capital Federal. Leandro respondeu:

            — Mas irá “levantar a lebre”, Roberto. E como em outras ocasiões, as informações dO Farol serão confirmadas pelos fatos.

            Roberto tirou os óculos, esfregou o rosto com as mãos e disse:

            — E eu que vim para Brasília para tentar me afastar de tudo isso...

            — Por que você acha, Roberto, — disse Franco — que Ribamar fez aquele discurso irado contra a imprensa agora a pouco? Por nossa causa! Porque estamos revelando a verdade. A gravação de Leandro fez sucesso na Internet. Imagine, flagrar o Ribamar e o rouco juntos!

            — Além de ter sido tremendamente insensato, não é mesmo?

            — Relaxe, Roberto – disse Leandro. – O Ribamar acabou de telefonar. Concordou em instalar o novo sistema de segurança. Assim, poderemos ter acesso a tudo que ele faz no Senado, repassar informações a nossos contatos na imprensa...

            — A verdade irá prevalecer – disse Franco.

            — Então, tudo isso também foi uma conspiração de vocês, para facilitar seu trabalho de espionar o Ribamar e conseguir mais informações sobre a conspiração?

            — Elementar, meu caro Roberto! – respondeu Franco.

            Leandro, normalmente o mais sisudo da equipe que publicava O Farol, não pôde evitar também sorrir.


Espero, caros leitores, que tenham gostado deste conto! Na verdade, como a própria referência ao caso do famigerado ET do Panamá comprova, ele foi escrito ainda em 2009, para ser publicado em outro blog. Como este já não existe, fiz algumas atualizações para ser lido aqui.

Decidi sua republicação principalmente devido às audiências que estão acontecendo no Congresso norte-americano, onde revelações muito interessantes estão sendo feitas. Confiram um vídeo:



 

Aqui um vídeo de um canal brasileiro resumindo as ocorrências:



 

Será que a verdade que está lá fora finalmente será confirmada? Essa nem Mulder e Scully podem responder...

 


Reler esse conto foi um retorno às origens, já que no início de minha carreira como escritor me dedicava muito às histórias com alienígenas.

Falando neles, recomendo muito a Revista OVNI Pesquisa, da qual sou consultor, e cujo número 17, dedicado á Operação Prato, está bombando!

 


Nessa edição meu artigo explora como a OP foi tratada na mídia, especialmente nos documentários Chupa-Chupa e no Linha Direta. Além de em certos livros de seu autor preferido, claro!

Boa parte de vocês deve conhecer o conto Tudo Está Conectado, na qual eu trouxe nossos queridos Faroleiros para nossa época. Além de haver deixado pistas de que eles habitam o mesmo universo de Vó Nena e os Caçadores. Confiram clicando aqui.

Mais sobre alienígenas? Além das tags logo abaixo, continua disponível meu livro de contos FILHAS DAS ESTRELAS:




Quanto ao mais, muitas coisas acontecendo, e histórias sendo escritas. Novidades devem chegar em breve. Continuem lendo e apoiando os autores nacionais!

E não deixem de nos seguir no Instagram: @renatoa.azevedo , @corujiceliteraria ; @2sobrevoandoporai

Até a próxima!

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

A LISTA: OS EDITORES DA NAÇÃO


A Lista é um fórum e rede social da qual participam produtores e divulgadores de conhecimento. Escritores, professores, jornalistas, cientistas e muitos outros. Cada um deles habita um universo paralelo distinto, uma realidade, um mundo, um Brasil que pode ser semelhante ao nosso, mas também muito diferente. Acompanhe agora mais uma história, situada em um distante universo que pode estar muito próximo de nós.


Ás 19 horas em ponto, como vinha acontecendo há treze anos, todos eram obrigados a manter seus televisores ligados. O pronunciamento do presidente da Suprema Corte, Barnabé de Nonato, começou pontualmente, e ele começou como de habitual:

— Brasileiras e brasileiros, novamente lamento informá-los que as empresas e portais recusam-se a colaborar com as iniciativas sociais e de defesa da democracia brasileira capitaneadas por esta Suprema Corte. Continuam a resistir a esta iniciativa democrática, mesmo diante dos alertas de que o acesso à internet pode vir a ser cortado para nosso país, caso não se disponham a colaborar e exibir este pronunciamento ao vivo.

Machado Monteiro de Assis, batizado em honra ao grande escritor brasileiro que havia sido proscrito naquela realidade, pois a fina ironia, o humor sutilmente sarcástico e o refinamento linguístico eram intoleráveis para a ideologia dominante, pensou na época em que conseguia rir daquilo.

As multas pesadas e a ameaça de suspensão de acesso a quem não ligasse seu televisor para assistir ao pronunciamento do juiz dependiam inteiramente do monitoramento, via internet, desses mesmos televisores. E na prática era impossível para plataformas de vídeo obrigar os usuários a assistir aos pronunciamentos. Restava ao magistrado mandar prender jornalistas e humoristas que se atreviam a manter-se no ar no mesmo horário, fazendo troça e comentários irônicos quanto a sua fala.

— Sob minhas ordens – prosseguiu Barnabé – os deputados federais Walter Kovacs, Cristina Bernardes, Geraldo Aparecido e Dora Neves foram presos pela Polícia Federal. Sua recusa em votar a favor do Projeto de Lei 2630-2020, a Lei de Garantias de Diversidade, Inclusão e Verdade na Comunicação, uma iniciativa louvável destinada a restabelecer a paz, a liberdade e a democracia de forma definitiva em nosso país é incompreensível e inaceitável. No site da Suprema Corte também estão listados os nomes de outros parlamentares que infelizmente precisaram ser detidos e ter o seu mandato suspenso, por exercerem seus votos no Congresso Nacional de forma contrária aos interesses da sociedade.

“Contrária aos interesses da sociedade”, pensou Machado, significava contrária aos interesses de Sandero Salvador, líder do partido nanico Sustentação Social. Ele era, havia anos, o ocupante de um cargo novo criado pela própria Suprema Corte, o de Primeiro Fiscal da Justiça Social, um testa-de-ferro da corte no congresso. Assis verificou o site e constatou, sem qualquer surpresa, que entre os presos estava o senador Fernando Delagnol, autor de vários pedidos de impeachment contra Barnabé de Nonato.

Também sem surpresas, Nonato não se referiu a ele, mas exaltou seu cúmplice Salvador:

— Quero louvar e parabenizar as iniciativas e esforços incansáveis do senador Sandero Salvador, uma voz atuante e firme no combate às forças que ameaçam nossa democracia. Ele e seu partido, a SS, merecem o espaço que têm ocupado cada vez mais na cena política brasileira.

“Meus Deus” pensou Machado, “eles sequer têm vergonha de usar a sigla SS”. E novamente refletiu como a SS nunca teve votos suficientes para conseguir a aprovação de suas propostas no congresso, mas aprenderam depressa a judicializar sua atuação parlamentar e conseguir o que pretendiam na marra. Sempre, é claro, se dizendo “democratas”.

Cansado, ele fechou a janela do vídeo de Barnabé na tela do computador. Fazia anos que não tinha televisor, então não sofreria punição pelo gesto. Não que não tivesse problemas... Mas decidiu que a melhor maneira de desabafar seria com seus amigos na Lista.


De: Machado de Assis

Para: A LISTA

Assunto: Re: “Defender a democracia” destruindo a democracia


Olá, colegas da Lista. O cerco contra as liberdades e a democracia no Brasil de meu universo, feito pelas instituições que deveriam zelar pelas leis, pela Constituição e por essa mesma democracia, segue cada vez mais cerrado. Eu poderia encarar com ironia esse ataque contra a democracia feito alegadamente para defender a democracia, mas até mesmo a ironia está sendo abolida de artigos, textos, contos e livros por aqui.

Quando conseguimos colocar um fim ao governo populista de Kleyton Hernandes, que destruiu a economia da nação e tentou por inúmeras vezes instituir controles das liberdades, sempre por meio de eufemismos como “controle social da mídia” e “democratização e regulação dos meios de comunicação”, acreditamos que estávamos livres do tal “progressismo” que é na verdade o pior dos autoritarismos.

Infelizmente estávamos errados. Esse período tenebroso de quatorze anos deixou como legado a politização de inúmeros círculos da sociedade, da política e do aparato estatal, através da infiltração de militantes e ativistas que não buscam meramente defender uma causa ou agenda, mas sim impô-la pela força sobre todos os demais.

As primeiras infiltrações, evidentemente, foram na educação, e estima-se que gerações tenham sido perdidas para a ideologia “progressista”. O resultado são bandos de analfabetos funcionais e autênticos fanáticos ideológicos que não medem esforços para destruir cada pilar da civilização que nos separa do caos.

O virtual comando do país passou para a Suprema Corte, que se imiscuiu indevidamente nos demais poderes, colocando-se acima deles com literalmente poder absoluto sobre cada aspecto da vida da nação. Pelo visto acreditaram quando Tenório Damásio, antigo funcionário do partido de Hernandes e um dos juízes da mais alta corte, afirmou serem eles os “editores da nação”.

Houve, claro, os que aplaudiram e ainda aplaudem os abusos dos juízes sobre as liberdades mais fundamentais, base de qualquer democracia. Alguns entre estes não demoraram a sentir eles próprios a “defesa da democracia” comandada pelo presidente já duas vezes reeleito da corte, Barnabé de Nonato. O Congresso Nacional, que deveria ser a instituição que julga tais delitos, é comandado por autênticos covardes cujos próprios processos de que são réus, na mesma Suprema Corte, servem como elemento de pressão para que nada seja feito.

E foi até mesmo criado um novo cargo, Primeiro Fiscal da Justiça Social, ocupado pelo senador Sandero Salvador, autêntico fiscal dos juízes no congresso. “Equilíbrio e harmonia entre os poderes”, os colegas me perguntam? Ameaças de prisão e processo foram o que de mais leve se fez contra outros juízes, advogados, jornalistas, comentaristas e escritores que se atreveram a lembrar desse princípio civilizatório fundamental.

Tornou-se um perigo acreditar que continuamos a viver em um regime de plena liberdade de expressão.

Eles clamam por diversidade mas abominam a diversidade de expressão e opinião. Afirmam defender a inclusão, mas excluem e cancelam os que discordam de suas ideias e métodos. Se apresentam como promotores da paz, amor e união, mas segregam e calam os que recusam a exigência de se ajoelhar e lhes dedicar fidelidade absoluta.

A caterva operadora desses ideólogos nas fronteiras digitais, da internet e redes sociais, por sua vez, age por meio de derivados atuais e tecnológicos das fogueiras de livros da Alemanha nazista dos anos 1930, flagelo que sei que atingiu várias das paralelas dos colegas. Até mesmo Machado de Assis, com suas inteligentes e ácidas ironias e críticas sociais, foi “cancelado” por essa gente, ávida por defender a “inclusão”, a “diversidade” e a “democracia” combatendo de todas as formas a diversidade mais elementar que pode existir, a de opinião e expressão.

Batizado em honra ao grande Machado original, eu mesmo me tornei escritor graças à paixão que me foi transmitida por meu pai. Talvez tenha sido por isso que fui escolhido para esta misteriosa e fascinante Lista, onde há tantos e tantos outros colegas das letras e do conhecimento. E, embora tenha travado contato com aterrorizantes relatos de como a revelação da existência da Lista em diversas realidades resultou em catástrofes e até mesmo em eventos apocalípticos, não poderia mais virar as costas para o que vem acontecendo em meu Brasil.

Por isso tenho compartilhado todas as informações possíveis que me chegam, vindas desse impressionante Multiverso, na esperança de trazer racionalidade ao debate. Porém, como podem imaginar, o resultado não foi tão auspicioso quanto minhas esperanças.

Sou o mais novo a ter o nome vinculado ao Processo de Combate às Mentiras e Enaltecimento á Verdade, com o qual a Suprema Corte pretende dar o que descreve como o golpe final contra os que alega ameaçarem a democracia. Estou neste momento hospedado no maior edifício do país, a nova sede da Suprema Corte em Brasília, aguardando o momento de minha audiência com os juízes.

Tenho uma ótima advogada, amiga de muitos anos. A questão é que nem ela, nem os advogados dos demais réus, teve acesso aos autos do processo.

E eles dizem que o mesmo se destina a “defender a democracia”.

Ah, a ironia e o sarcasmo... quem diria que se tornariam tão perigosos?

Até breve, se for possível.



Assis enviou a mensagem para A Lista. Como ainda havia tempo, repassou as mais recentes notícias a respeito das violências cometidas contra a liberdade, travestidas de “defesa da democracia”. Ainda funcionava um fórum do qual era um dos fundadores em uma rede social, e ele leu os comentários sobre um sarau literário acontecido na noite anterior.

Vários autores, a maior parte seus conhecidos, participavam do evento em um bar em São Paulo. Diversos livros e antologias foram lançados, todos sem qualquer ligação com o tragicômico “progressismo”, o bar estava lotado e havia grandes filas para autografar os exemplares. O evento foi subitamente interrompido pela chegada da Polícia Federal, que impediu a saída das pessoas e interrogou cada um dos presentes.

Na ação, ordenada pelo juiz Nonato com base em um pedido do quase onipresente senador Salvador, todos os volumes foram apreendidos, incluindo os já comprados pelos frequentadores. Todos foram interrogados, e já era de manhã quando as primeiras pessoas foram liberadas para ir para casa. Editores e boa parte dos escritores presentes foram conduzidos à sede mais próxima da Polícia Federal para esclarecimentos mais detalhados, e conforme notícias postadas por quem estava no evento os profissionais das letras, escritores e escritoras, editoras e editores, estavam sendo mantidos incomunicáveis, sem comida ou água à disposição.

A mídia, em sua maioria, enaltecia a ação repetindo as palavras de Nonato, de que “toda e qualquer ameaça contra a democracia e as instituições deve ser investigada e, quando confirmada, duramente punida”. A alegação do Primeiro Fiscal para motivar a ação chegava a ser patética: “Esses pretensos escritores estão misturando política e justiça com ficção, buscando atingir as fundações das instituições”, disse ele em uma entrevista apresentada naquela manhã. “Inserir no palco sério do Congresso Nacional histórias mirabolantes e fantasiosas é certamente uma tentativa sub-reptícia de atingir a imagem e a honra dos congressistas”, afirmou ele a respeito de uma antologia lançada naquela noite, cujo tema a ser explorado pelos autores participantes era “Conspirações do Poder”. E da qual o próprio Assis era um dos participantes.

Em outros fóruns literários a operação da PF era saudada como uma “vitória contra os ‘fascistas’”, isso vindo do mesmo grupo que sempre defendeu que “política e livros sempre caminharam juntos”.

Machado pensou em responder aos comentários mais virulentos do pessoal “progressista”, mas desistiu. Havia coisas mais prementes com as quais ocupar a mente, e ele havia muito perdera qualquer vontade de discutir com fanáticos. A situação o lembrou de relatos similares que havia lido nA Lista. Como o de Amanda, que se arriscava a estudar Letras e a escrever em um Brasil onde o louvor à mediocridade vindo da versão deles de Kleyton Hernandes havia chegado a níveis estarrecedores. Sair à rua com um livro na mão naquele universo era arriscar a vida. A própria Amanda, ao corrigir um texto no computador de uma lan house havia alguns anos fora insultada de “elitista” por alguém que observara seu gesto.

Pior sorte teve Michelle, em uma realidade na qual o (des)governo de Hernandes impingiu uma tal “lei de proteção da cultura nacional” proibindo toda e qualquer manifestação artística que fosse considerada estrangeira. Perseguida por escrever, produzir e divulgar obras de artistas que faziam questão de permanecerem livres ela fora assassinada por agentes governamentais, e agora o membro dA Lista naquela realidade era seu namorado Marcelo.

Machado se lembrou então do momento em que decidira tornar públicos os arquivos e relatos dA Lista que recebia, na desesperada tentativa de mostrar ao público e as pessoas que tinham poder de decisão que a realidade era incomparavelmente, infinitamente maior do que qualquer um deles podia imaginar. Que erros como os que vinham sendo cometidos em seu Brasil trouxeram a ruína e a destruição a inúmeras outras versões deles através do Multiverso.

Lamentavelmente, só havia conseguido com isso chamar a atenção errada para si. Foi acusado de “conspirar contra a democracia” e “convidado” a ir a Brasília para prestar esclarecimentos. Alguns poucos corajosos jornalistas e instituições de imprensa estavam a seu lado, bem como a maior parte de seus colegas.

Mas a corrupção de grandes conglomerados de mídia, mancomunados com autoridades que abusavam de seus poderes cada vez mais, estavam tornando a liberdade uma mercadoria cada vez mais escassa na sociedade.

A porta do apartamento que fora cedido para ele se abriu após uma leve batida e Maria Cláudia, sua advogada, colocou meio corpo para dentro e disse:

— Machado, está na hora.

O escritor olhou para ela, sorriu levemente e suspirou. Antes de fechar o laptop e inseri-lo na maleta que levaria, viu uma última notícia.

Sandero Salvador havia acabado de postar em suas redes sociais o anúncio de que estava elaborando um projeto de lei emergencial de defesa da cultura brasileira, e um dos pontos era a proibição do uso de alegorias ou referências a qualquer instituição governamental nos três níveis da federação. Também escreveu “ser premente a necessidade de discussões no sentido de purgar a cultura brasileira, em todas as mídias, de gêneros sabidamente estrangeiros que conspurcam e tiram espaço da legítima e diversa cultura nacional”.

No vídeo era possível ver algumas manchetes nos jornais espalhados por sua mesa, descrevendo as divulgações que ele, Machado, havia feito do material recebido via A Lista.


O gigantesco edifício da Suprema Corte em Brasília, o mais alto do país com 400 m até o topo, tivera um custo estimado de quatro bilhões em moeda corrente. Fora alvo de inúmeras denúncias de corrupção e mal uso de verbas públicas, especialmente por parte do juiz Ladislau Neto, que comandou a obra. A imprensa em seus bons tempos esmiuçou as contas de sua construção, antes de o mesmo Barnabé de Nonato decretar sigilo de cem anos para os documentos.

Machado e Maria caminharam pelos corredores suntuosos, revestidos por alguns dos mármores mais caros disponíveis no mercado internacional. Depois de tomarem dois elevadores, pois por questão de segurança nenhuma dessas máquinas proporcionava acesso a todo o prédio, chegaram ao salão onde se davam as audiências e interrogatórios do Processo de Enaltecimento à Verdade, versão reduzida do título utilizada por todos os juízes da corte.



Maria verificou mais uma vez o comprimento da saia, arcaísmo que a presidência de Nonato havia retomado, ajeitou a beca preta que todo advogado deveria vestir em audiências na Suprema Corte, e deu uma última olhada no terno e gravata de Machado. Os seguranças e auxiliares dos juízes que os acompanhavam observaram a cena, e depois um auxiliar abriu a enorme porta, com detalhes banhados a ouro, e lhes franqueou passagem.

O salão, repleto de estátuas e retratos de juízes que se destacaram ao longo da história daquele tribunal, fazia os corredores que atravessaram parecerem os de um hotel de beira de estrada.

Estavam presentes os juízes Barnabé de Nonato e Tenório Damásio, além do senador Sandero Salvador. Andando para o assento central, diante da comprida mesa dos juízes e onde o político também se acomodava, Assis cochichou para a advogada:

— O que esse pulha está fazendo aqui?

Maria respondeu tão baixo que ele mal pôde ouvir:

— Pelo amor de Deus, Machado! Se controle, homem, que o Nonato é capaz de mandar prender nós dois! Pelo que ouvi de colegas é comum esse filho da puta estar presente, especialmente quando o interrogado é muito conhecido.

“Maria também não gosta de Salvador, que alívio”, pensou Machado, sorrindo de leve.

Ele se acomodou em seu lugar, ficando em pé enquanto não lhe mandavam sentar. Maria ficou ao lado, no lugar designado ao advogado.

— O interrogado trouxe seu computador, como requisitado? – perguntou um dos auxiliares.

Os juízes o olhavam com ar de nítida superioridade, ao passo que Salvador mantinha uma expressão de galhofa arrogante no rosto. Assis tirou o laptop da pasta e o colocou na pequena mesa diante dele. O auxiliar conectou o aparelho ao sistema de exibição do salão, ao mesmo tempo em que uma grande tela plana descia à direita de Machado. Então o escritor e sua advogada tiveram permissão de se sentar.

Nonato começou com um discurso em que burocrática e mecanicamente agradecia pela colaboração, e já começou pedindo esclarecimentos a respeito “dessa tal Lista”, como a chamou. Machado ficou em pé, respirou fundo, acionou os comandos apropriados no laptop e as informações foram exibidas no telão, ao mesmo tempo em que ele fazia sua apresentação:

— A Lista – disse Machado —  é parte um fórum de discussão e parte uma rede social, da qual participam escritores, jornalistas, professores, cientistas, advogados... todos, sem exceção, ligados de alguma forma à produção, divulgação e propagação do conhecimento. São incontáveis os participantes, divididos em grupos por afinidade, localização no Multiverso, áreas de interesse e afins. E, como já ficou claro, cada membro se situa em um universo paralelo distinto.

— O senhor afirma que existe esse... Multiverso, mas não apresenta provas – observou Damásio.

— Juiz, as provas estão aí para os senhores as verificarem. Já submeti os arquivos de meu computador a seus peritos, que tiveram total liberdade de copiá-las.

— Quem disse que o senhor não inventou toda essa fantasia? – questionou Sandero Salvador.

— E quem designou o senhor, membro do Parlamento, para participar do interrogatório de um processo de outro Poder? – inquiriu Assis sem se conter.

— Exijo que me respeite! – gritou subitamente Salvador com sua conhecida voz fina e estridente.

— O senador Salvador está aqui, como acontece em vários casos especiais, e o do senhor é um destes, como deferência a seu cargo de Primeiro Fiscal da Justiça Social – comentou Nonato, parecendo se divertir com a situação. – O senhor, Assis, irá tratá-lo com o mesmo respeito, urbanidade  e reverência reservado a nós, juízes da Suprema Corte.

“Pode apostar que sim”, pensou Machado divertindo-se. O escritor fez uma leve reverência inclinando-se para frente, e respondeu:

— Digo então ao nobre parlamentar para se lembrar de minha produção literária. Ainda sou relativamente jovem, e tenho nove livros publicados, além de participação em outras tantas antologias, e postagens de histórias curtas em meu site pessoal. A mais recente antologia, aliás, foi Conspirações do Poder, lançada na noite passada em São Paulo, como acredito que devem ter ficado sabendo. Ainda escrevo, por enquanto, para duas revistas e um jornal literários, lembrando que um desses veículos recentemente teve um de seus números recolhido por suposta “ameaça à democracia”. Então, senador, se pensa que com toda essa intensa e variada produção literária eu ainda teria tempo de criar A Lista e falsear todo o material divulgado, não posso deixar de ficar lisonjeado. Mas de fato seria impossível, com meu conhecimento, inventar as informações que disponibilizei a todos, incluindo os senhores.


— O senhor alega que em outras dessas... como se refere a elas mesmo? – questionou Nonato folheando suas anotações. – Sim, realidades paralelas, existem versões de todos nós, e situações que se assemelham às que vivemos aqui?

— Sim senhor.

— E sua intenção com essa pretensa revelação é alterar o rumo que os acontecimentos têm tomado em nosso país?

— Evidentemente, no sentido de corrigir enganos e abusos sendo cometidos em nome de... como é que os senhores se referem? — Machado consultou um caderninho que havia trazido, mas depressa o fechou e postou ao lado do laptop. – Ah, claro, “defesa da democracia”.

Foi visível a exaltação tomando a expressão de Barnabé, tanto que Maria se levantou e disse:

— Senhores, estimados juízes, entendam que meu cliente não pretende de forma alguma insultar esta Suprema Corte com suas observações. Ele é um escritor, um artista, e por vezes experimenta dificuldades em sair da linguagem literária.

A advogada lhe lançou um olhar furioso. Barnabé continuava com expressão de poucos amigos, e Assis respondeu aos dois com neutralidade no olhar.

— Pretendo, com a revelação da existência da Lista e a divulgação de quantas informações forem possíveis que dela recebo – prosseguiu o autor, — mostrar para todos que a realidade como a concebemos é infinitamente mais complexa do que podemos imaginar, e que não devemos cometer em nosso Brasil os mesmos erros que levaram outras versões de nosso país à ruína, em diversos universos paralelos.

— O senhor está brincando com esta Suprema Corte, e será punido por isso! – exasperou-se Tenório.

— Senhor juiz, tivemos em anos recentes uma pandemia que ceifou inúmeras vidas, e na qual um dos motes era “respeitar a ciência”. Muitas das informações científicas que tenho divulgado, recebidas dA Lista, têm sido corroboradas por membros da comunidade científica, aqui e no exterior. Recebi mensagens entusiasmadas de cientistas, afirmando que suas pesquisas poderão avançar anos com essas informações. Será que isso não bastará para os senhores? Devemos respeitar a ciência como um todo, ou como tem sido o caso em nosso país nas últimas décadas, especialmente no tocante à matemática, biologia, genética, e agora astronomia e astrofísica, depende da ciência?

Machado olhou para o lado, e Maria lhe implorava com o olhar para maneirar. Damásio ainda o olhava com fúria, Nonato demonstrava ganas de mandar colocá-lo a ferros. Por sua vez, Salvador parecia se divertir.

Foi do senador o aparte seguinte:

— Com a permissão do eminentíssimo juiz Barnabé de Nonato, gostaria de fazer uma pergunta ao interrogado.

Nonato olhou de lado, depois se virou para Assis e disse:

— O nobre senador da SS pode se manifestar livremente.

Machado de novo ficou embasbacado pela naturalidade com que usavam aquela sigla, e aguardou a palavra do político.

— Senhor Machado de Assis, o senhor aludiu a versões de nosso país, até mesmo versões de pessoas nessas outras realidades. Pode exemplificar?

O escritor olhou para o político com expressão neutra, mas por dentro sua mente fervilhava. Havia se preparado para aquela eventualidade, e abriu um arquivo que separara caso aquela oportunidade se mostrasse.

No telão luziam arquivos de reportagens de Brasis de outros universos, mostrando a atuação dos duplos de Barnabé de Nonato e Sandero Salvador. Até mesmo vídeos dos dois personagens foram exibidos, enquanto Machado explicava:

— Este duplo do senhor, juiz Nonato, é escritor e professor em sua realidade. Tornou-se o primeiro brasileiro a vencer o Prêmio Nobel na categoria de literatura. E recentemente precisou fugir do país a fim de escapar da perseguição movida contra ele pelo regime de Kleyton Hernandes.

O silêncio se instalou no grande salão. Machado olhou ao redor e reparou que mesmo os assistentes observavam, mudos de espanto, as informações. O autor prosseguiu:

— Quanto a seu duplo, senador, é um advogado em sua paralela, e muito conhecido por defender críticos e dissidentes do regime de Eusari Serra, cúmplice da versão deles de Hernandes que o sucedeu naquele Brasil.

Ele viu que Salvador conteve a respiração por um momento. Fora um dos mais radicais na defesa do governo inepto de Serra em sua realidade, na época em que a incompetente ocupava a presidência e fora impedida após o devido processo no congresso, que sua facção chamava de “golpe”. Assis prosseguiu:

— O advogado Sandero Salvador desse Brasil paralelo já foi hostilizado diversas vezes por grupos radicais defensores de Serra e Hernandes, e esse mesmo grupo costuma aparecer nas sedes dos veículos de imprensa e mídia quando ele concede entrevistas. Desnecessário dizer que muitas destas foram vandalizadas por esses criminosos.

— Quem o senhor chama de “criminosos” eu chamo de defensores da democracia plena! – disparou Salvador. – É realmente reconfortante saber que em outros lugares se praticam ações libertadoras como as nossas!

Machado aguardou um momento, e como o senador não se desse conta do que acabara de dizer, disparou:

— Quer dizer então que agora o senhor não considera mais que tudo isto são “fábulas”, senador?

Por um instante houve um nítido princípio de pânico na expressão do político. Era comum que ele fosse apanhado em contradição por seus adversários políticos no congresso, ocasiões em que sempre se desenrolavam cenas que dificilmente se enquadrariam no afamado “decoro parlamentar”. “Está mais para decoro para lamentar”, riu-se Assis. Mas depois que surgiu a cumplicidade entre ele e os juízes da Suprema Corte, Salvador se sentia livre para agir conforme lhe aprouvesse, enquanto boa parte de seus adversários políticos haviam sido presos ou perderam o cargo, graças às ações de Nonato e seus asseclas.

O juiz, por sinal, ainda se mantinha calado. Examinando-o com mais atenção, Machado quase podia dizer que ele ficara abalado com as revelações sobre seu duplo.

— Nonato, que foi? Acorde, homem!

As palavras de Salvador tiveram um efeito imediato, e o juiz tornou a exibir a expressão arrogante e superior de quem realmente se acha um dos “editores da nação”. Respondeu:

— Uma preleção interessante, senhor Assis, mas que não prova nada...

— Como não prova? – interrompeu Salvador. – Acredito, meu caro juiz, que podemos deixar eufemismos e manobras de lado, e conversar com nosso estimado escritor livremente!

Os dois se encararam, e a um gesto de Barnabé quase todos os assistentes se retiraram. Ficaram somente dois, sendo um o técnico do equipamento multimídia, além dos quatro seguranças armados. O técnico desconectou o equipamento do laptop de Machado, que este não desligou, e acoplou o computador do senador ao sistema de projeção.

— Meu caro Machado, quando o nobre juiz Nonato me confirmou que o havia convocado a aqui comparecer, fiquei realmente radiante! – começou Sandero. – No fundo, sua defesa da liberdade de expressão e seu apoio incondicional a seus colegas autores me provoca profunda admiração!

O senador acionou um comando em seu laptop, e prosseguiu:

— Todos lamentamos a operação da Polícia Federal em São Paulo na noite passada, isso é evidente. Ninguém pode se mostrar feliz por isso.

— Naturalmente – respondeu o escritor. – E continuo a, também naturalmente, considerar de difícil compreensão como alguém pode falar em “defesa da democracia” e apreender livros, além de prender escritores e editores.

— Todos estamos de acordo que esta situação não pode continuar. – respondeu Barnabé. – Algumas reportagens até mesmo na imprensa internacional tratam nosso país nos piores termos possíveis, e francamente injustos.

— Claro que sim, afinal todo ditador e censor não gosta de ser tratado como é.

Maria lhe deu um soco no ombro, mas Machado não ligou. Os dois inquiridores fizeram como se não tivessem ouvido as palavras do autor, e o juiz prosseguiu:

— Tenho discutido com o honrado senador Salvador algumas ideias e possibilidades para tornar esta situação menos exasperante. E o senador elaborou algumas propostas que considerei muito interessantes.

— Propostas que, a partir de agora, meu caro Machado de Assis, irei apresentar ao senhor. Veja, o que gostaríamos de fazer é convidá-lo para ser a face pública, a face da sociedade neste processo de renovação cultural democrática! Com você, uma figura já tão conhecida, nos apoiando, temos certeza de que o processo irá transcorrer no melhor ambiente possível!

Salvador apertou uma tecla, e no telão surgiu a seguinte sigla:


Programa de Promoção Igualitária e Democrática Online (P.P.I.D.O.).


— O caríssimo escritor já deve ter ouvido falar da iniciativa dos nobres ministros presentes – começou Salvador. – O Programa de Promoção da Informação Confiável e Autêntica da Suprema Corte, para o qual foram convidados vários notáveis da comunicação, das artes e do jornalismo, está sendo implementado, e as personalidades chamadas se mostraram, todas, encantadas em participar dessa iniciativa democrática.

Machado teve que se esforçar muito para não gargalhar alto. A sigla P.P.I.C.A. já havia se tornado motivo de chacota e de inúmeros memes, especialmente quando se soube que um dos designados para participar desse autêntico Ministério da Verdade era o conhecido youtubber Gervásio Neto, famoso pelas polêmicas em seu apoio incondicional à Hernandes, Salvador, Nonato e seu bando, e pelo conteúdo com a profundidade de um pires que exibia em seu canal.

“Celebridades palpiteiras a quem será concedido o poder de permitir ou não que publiquemos o que escrevemos ou produzimos. Como pudemos descer tanto?”, perguntou-se mentalmente Assis pela enésima vez.

— O P.P.I.D.O. é uma proposta de ampliar a atuação do P.P.I.C.A. – disse Salvador. Assis olhou para o lado, e Maria estava sacudindo o corpo e se esforçando para não rir. Vergonha, como sempre, parecia ser algo desconhecido para Salvador e seu grupo. O senador prosseguiu: — Deverá ser estruturado como um ministério, e terá autonomia para analisar, estudar, verificar, fiscalizar, corrigir e, se for o caso, punir todo e qualquer abuso contra a democracia cometido no ambiente virtual, abrangendo sites, blogs e redes sociais.



“Se pareceu insano, é porque é”, pensou Machado. O autor tentou imaginar o tamanho da estrutura necessária que estivesse à altura daquele desafio totalitário, mas logo desistiu. O mais provável é que fiscalizassem somente os grandes portais e um e outro produtor de conteúdo, como já o faziam. Evidentemente tal estrutura deveria ter um orçamento astronômico, e ele fazia ideia de para onde iria tal quantidade de dinheiro.

— Uma das propostas do senador que considerei mais interessantes foi a utilização de drones – comentou Damásio.

— Sim. – acrescentou Nonato. – Fiquei bastante impressionado com essa ideia, senador, se o senhor puder destacá-la.

— Claro que sim, juiz.

A um comando surgiu a ficha completa, com imagens e projeções 3D, de um dos drones mais avançados do mercado. Machado o conhecia, pois havia estudado a respeito para seu conto da antologia Conspirações do Poder. Um sofisticado modelo de quatro rotores, o mais moderno do mercado, e o escritor destacou um pormenor nítido na ficha exibida:

— Caro senador, senhores juízes, conheço bem esse modelo, pois foi um dos elementos que estudei para minha história da trilogia que, pelo bem da democracia, os senhores apreenderam na noite passada. Se importa em detalhar mais, senador?

— Pois não. Tenho assessores altamente versados em informática, que me garantiram que, por meio de drones, a fiscalização de postagens em redes sociais e no ambiente online em geral, que possam ser atentatórias contra nossa democracia, seria muito mais efetiva e eficaz.



— É uma coincidência impressionante com o que escrevi em minha história, senador! Na qual, por sinal, tais aeronaves seriam dotadas de armamento e rastreariam inimigos do regime por meio de vigilância pelas redes sociais. O alvo, claro, seria eliminado. E percebo que, em suas projeções, são visíveis ainda as armas dos drones. Serão utilizados dessa forma, então?

Barnabé olhou para Machado, depois para Salvador, e então fez um gesto como se cortasse sua garganta com o dedo indicador esticado. O senador comentou:

— Infelizmente essas foram as únicas imagens que o fabricante pôde me enviar a tempo. Naturalmente não pretendemos, em princípio, utilizar tais equipamentos com armamentos. Não há necessidade disso, por enquanto.

O sorriso costumeiramente cínico de Sandero Salvador reluziu com ainda mais nitidez do que Assis gostaria de ter visto. Depois de alguns instantes ele prosseguiu:

— Mas é claro que fiscalizar somente não basta! Muito mais importante é fomentar a produção cultural em todas as mídias e formatos! – disse triunfante o senador. – É por isso que também irei apresentar mais esta proposta!

Outra sequência de letras luziu no telão:


BRcultural.


— A BRcultural se destina a ser uma agência de fomento e promoção de todas as formas de cultura! – disse Salvador em tom triunfante. – Queremos proporcionar oportunidades e os justos e democráticos espaços e divulgação para artistas de todas as tendências, por todo o território nacional.

Como uma propaganda política dos tempos dos marqueteiros regiamente pagos, surgiram imagens de músicos, escritores, cineastas, artesãos e todo tipo de artista criando suas obras, e vindas de todos os lados as letras que formavam o nome BRcultural em várias cores, onde o vermelho suplantava o verde e amarelo.

— Então, caro Machado, o que acha? – perguntou o senador.

O autor olhou para Maria, que se esforçava para manter uma expressão neutra. Depois para o político e os dois juízes, suspirou fundo e disse:

— Se não me lembrasse de seus ataques contra a realidade da Lista ainda há pouco, senador, me acusando de ter inventado tudo, diria que tirou a ideia dessa BRcultural de outra entidade a serviço da censura e opressão, uma praga que estranhamente assola muitas das paralelas semelhantes à nossa, a Culturalbrás.

Salvador, sem deixar em nenhum momento de exibir o mesmo sorriso, olhou para Nonato, depois para Damásio, e então encarou Machado dizendo:

— Está vendo, caro Assis? Seu desejo de implementar mudanças em nossa realidade divulgando informações a respeito de outras já está funcionando.

Assis começou a rir. Surpreendeu-se por não ser admoestado por nenhum dos presentes, e demorou até conseguir se controlar novamente.

— De novo, senador, continua a me espantar o gosto como cada membro de sua facção política aprecia brincar com a inteligência dos outros! Vocês se intitulam democratas e “progressistas”, pregam a inclusão e a diversidade, mas combatem com vigor de fanáticos quem pratica a diversidade mais importante e elementar de todas: a de expressão e opinião. Criminalizam, excluem e “cancelam” todos que se atrevem a discordar de vocês, e tiveram a audácia de tornar proscrito o próprio 1984 de George Orwell, do qual tiram todas as ideias que buscam aplicar na realidade. O que é o tal Programa de Promoção da Informação Confiável e Autêntica e sua risível sigla P.P.I.C.A., além do seu próprio Programa de Promoção Igualitária e Democrática Online (P.P.I.D.O.), se não o Ministério da Verdade conforme imaginado por Orwell?

Ninguém respondeu, e Machado acrescentou:

— E como pretendem financiar essas assim chamadas “iniciativas democráticas”?

— Fico satisfeito por perguntar isso – respondeu Sandero. – Estudei, juntamente com minha assessoria, variadas formas de obtenção de recursos. Uma delas seria um tributo sobre a posse de bens culturais.

A um comando surgiu uma coleção de fotos evidentemente obtidas em redes sociais mostrando vastas bibliotecas. Machado reconheceu várias delas como pertencentes a amigos, e até mesmo uma de suas estantes ocupava lugar de destaque.

— Tenho certeza – disse o senador, – que a autores consagrados como o senhor e muitos de seus colegas, que possuem vastas bibliotecas como fazem questão de exibir em seus perfis em redes sociais, interessa o surgimento de mais autores, para ampliar o mercado e proporcionar mais oportunidades inclusive aos senhores. Daí que uma de minhas ideias é a introdução do Imposto sobre Propriedade de Livros e Literatura.

— Um pequeno levantamento nos apontou que o senhor e seus colegas, além de boa parte dos leitores que os seguem online, possuem vastos depósitos de livros, revistas, manuais e afins – completou Nonato. — Naturalmente, pelo bem do fortalecimento e democratização da cultura, e o incentivo ao surgimento de um número cada vez maior de leitores, os senhores não se furtariam a um pequeno gesto de generosidade social com o pagamento deste tributo.

— Está claro que seria incrivelmente benéfico para a sociedade que os mais jovens pudessem ser assim incentivados, não concorda? — acrescentou Salvador.

O tamanho da monstruosidade fez com que Machado de Assis ficasse sem fôlego. Os organismos de censura e de promoção dos amigos do regime, sendo ainda responsáveis pela perseguição aos que não se enquadrassem, e certamente por sua eliminação assim que a tecnologia dos drones assassinos fosse dominada...

— Então, senhor Assis – disse Barnabé de Nonato. – O que pensa da proposta do senador? Acredito estarmos sendo perfeitamente razoáveis ao expor esses planos democráticos, de promoção da diversidade e inclusão, ao senhor. Reforço o convite para que se una a nós nesse esforço para proteger as bases de nossa sociedade.

Machado começou a rir. Ria alto, e sabia ser aquela a gargalhada mais livre e catártica que dava em muito tempo. Maria, a seu lado, permaneceu em silêncio. A advogada se lembrou de juristas e outras figuras importantes que haviam denunciado sem cessar os abusos cometidos por Nonato e seus comparsas, muitos dos quais foram presos sem mandado e seus casos acrescentados ao mesmo processo contra os que “ameaçavam a democracia” que seu cliente também respondia. Começou a ficar com medo de que sua vez de também ser encarcerada estivesse próxima.

O escritor finalmente conseguiu se controlar, e perguntou:

— Há vários escritores que já defendem as arbitrariedades que todos os senhores praticam, por que não convidar um deles?

— Se o senhor aceitar – disse Salvador, – o que espero que faça, terá incomparavelmente mais impacto que um já convertido à nossa causa.

— “Converter” foi o verbo que o senhor acabou se usar, senador – disse Assis em tom triunfante. – Um verbo mais próximo da religião que da política. O senhor mais uma vez confirma que sua facção é uma seita que se dedica a fanatizar os que caem em sua lorota do “progressismo” e da “justiça social”.

— Agora chega! – berrou o político. – Vai fazer o que mandamos, ou caso contrário...

Um funcionário da corte entrou correndo, sem bater, e disse:

— Senhores juízes, está acontecendo uma coisa!

A um sinal, o técnico multimídia conectou o equipamento a vários canais de TV. Uma algaravia de vozes jornalísticas assustadas descreviam o pandemônio que tomou todas as regiões do país. Protestos simultâneos eclodiram simultaneamente em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília e muitos outros lugares.

Damásio foi até as amplas janelas do nonagésimo andar onde estavam e olhou para baixo.

— A praça está tomada! – disse com expressão de terror.




Os demais, abandonando qualquer protocolo, se aproximaram. Uma multidão incalculável tomava a Praça Democrática dos Três Poderes, como o governo de Kleyton Hernandes a havia renomeado, e se concentrava ao redor do edifício. Nonato, possesso, se dirigiu ao assessor que havia entrado:

— E nossa tropa especial? Para que temos atiradores de elite? Como permitiram que a desordem desses vândalos chegasse a esse ponto!

— Senhor... a multidão é enorme... há gente de todo tipo, homens, mulheres, idosos, até crianças!

— Não interessa! São fascistas! – berrou Sandero Salvador. – Mandem que atirem!

Notícias vindas dos andares inferiores davam conta que o prédio já havia sido invadido. As forças de segurança da corte tentavam conter os mais exaltados, mas a multidão era grande demais.

— Chame os outros juízes! – berrou Barnabé. – Temos que fazer um pronunciamento conjunto e restabelecer a ordem!

— De que nos adiantou tirarmos aquele fascista imundo da presidência, e colocar aquele banana do Pedron Ortega? – questionou Tenório Damásio. – Ele é um inútil, deveria ter dado ordens para os militares agirem!

Os juízes, o senador e seus assessores e seguranças deixaram o salão quase correndo, deixando Machado e Maria sozinhos como se houvessem perdido totalmente o interesse neles. O escritor sentou-se e calmamente fechou os arquivos do laptop e o desligou, guardando-o na pasta. Maria, espantada, disse:

— Você... você transmitiu tudo ao vivo!?

Assis deu de ombros, sorriu e respondeu:

— Ninguém me mandou desligá-lo, e portanto transmiti tudo para a Lista. Meus colegas repassaram a transmissão para o canal onde tenho compartilhado tudo livremente com nossos amigos deste universo. Pelo visto nem os grandes grupos de mídia aliados de Nonato e sua turma conseguiram resistir a esse furo!

As explosões e o tumulto se fizeram ouvir cada vez mais alto, e os dois se dirigiram para fora da sala. Voltaram ao apartamento onde o escritor fora instalado, em um andar bem mais baixo e onde o barulho do que já era um conflito aberto se tornou bem mais nítido.

Maria ligou a TV, que mostrava os juízes da Suprema Corte reunidos em seu salão principal, que ficava no centésimo e último andar da torre. Barnabé de Nonato falava em “união nacional”, “defesa da democracia” e “serenar os ânimos em um momento difícil”, a fim de “buscar o entendimento com todas as forças organizadas da sociedade”.

— Desta vez não vai colar – disse Machado. – “Nenhum ditador pode conter uma população aprisionada pela força para sempre. Não há poder maior no universo que o desejo por liberdade. Contra esse poder governos, tiranos e exércitos nada podem fazer”.

O escritor, depois de recitar a passagem dita por um de seus personagens preferidos, apanhou a pequena bagagem que trouxera e, junto com sua advogada e como ninguém os impedisse, tratou de fugir dali.


De: Machado de Assis

Para: A LISTA

Assunto: Re: “Defender a democracia” destruindo a democracia


Amigos dA Lista, cinco dias já se passaram desde que se iniciou uma espontânea revolta popular, com amplos exemplos de desobediência civil e até mesmo luta armada em várias cidades.

Devo confessar que por vezes me arrependo de minha decisão de divulgar a existência e as informações dA Lista para minha realidade. No momento estou escondido em casa de amigos aqui em Minas Gerais, e devo dizer que jamais pretendi que as coisas evoluíssem dessa maneira.

Assustam-me profundamente a violência e a grande perda de vidas.

O país está literalmente sem comando. Ninguém sabe do paradeiro dos juízes da Suprema Corte, que foram evacuados poucas horas após seu patético pronunciamento no início da revolta. Boa parte da classe política também está escondida.

Imaginar o medo que essa gente deve estar sentindo, ao se ver destituída dessa maneira do poder praticamente absoluto de que desfrutavam, quase me convence do acerto de minhas ações.

Não sei o que acontecerá. Há um movimento para trazer o presidente destituído por Nonato e sua trupe de volta, mas acredito que mesmo assim as turbulências ainda vão demorar muito tempo para amainar.

Nos desejem sorte.

A Lista retornará.


Havia muito que não retornávamos às origens dA Lista, dos tempos da saudosa revista Sci-Fi News e suas críticas sociais. Foi surpreendente como o Brasil mostrado nesta história se revelou nem tão distante assim de outro, nosso conhecido...

Brevemente deveremos ter ainda mais novidades, então fiquem atentos ao nosso grupo, que vem crescendo cada vez mais, o Clube Brasileiro de Ficção Científica.

As demais histórias e universos que habitam este modesto blog continuam aí para os caros leitores conhecerem, e naturalmente os convido a conhecer as demais histórias dA Lista, tanto utlizando as tags deste blog, quanto a publicada na Amazon, o e-book A LISTA: FENDA NA REALIDADE.



E virão mais novidades, muito mais!

Até a próxima!