segunda-feira, 4 de março de 2024

DRAGONERO 1 A 4, RESENHA


  Vamos ser claros e diretos! O caríssimo leitor gosta de O Senhor dos Anéis?

Aprecia Conan: O Bárbaro?

Então eu recomendo fortemente que conheça Dragonero!

Eu me tornei um leitor dos quadrinhos da Sergio Bonelli Editore quando o amigo Paulo Werner, editor da revista OVNI Pesquisa, para a qual contribuo, me sugeriu que conhecesse Martin Mystère.



Li várias histórias do Detetive do Impossível por meios, digamos, “genéricos”, especialmente as primeiras, da editora Record. Depois fui atrás e adquiri em sebos boa parte delas. Além, claro, de ler as mais novas, publicadas pela Editora Mythos.

E foi paixão de fã à primeira lida! Como o Paulo descreve, é uma mistura de Arquivo-X com Indiana Jones, tem alienígenas, conspirações, temas esotéricos... Simplesmente sensacional! É dificílimo encontrar uma história fraca nos quadrinhos Bonellianos.

Acabei conhecendo ainda Dylan Dog, cujas tramas são voltadas ao fantástico e ao terror (embora tenha histórias com alienígenas, e inclusive crossover com Martin Mystère). Um detalhe muito legal é que Dylan dirige um Fusca conversível branco, e inclusive uma edição italiana recente foi centrada no carro.



Mythos, lance logo essa aqui!



Infelizmente Martin Mystère, de novo, está em pausa por parte da Mythos. Sabe como é, viver em um país que está se tornando uma distopia é complicado.

Claro, meu artigo sobre Martin Mystère saiu na OVNI Pesquisa 13, corre lá no site (clique aqui) pra adquirir a sua.



Entre os heróis Bonellianos sempre me chamou atenção o título Dragonero, cujas capas dão a pista de que se trata de um mundo de alta fantasia, espada & magia. Comecei a seguir no Instagram o perfil @dragonerobrasil e, conferindo seus posts, descobri as lindas artes e as grandiosas cenas das edições do Caçador de Dragões.

Lá vamos nós adquirir as edições e, graças ao sempre excelente Guia dos Quadrinhos, descobri que as primeiras quatro compõem uma saga. E foi por elas que comecei a leitura desse universo simplesmente fantástico.

Antes dessas edições, é bom que se diga, foi lançada a Edição Especial de Lançamento, que é tão épica quanto, e que logo também apresentarei aqui.


Dragonero é o título conferido ao batedor Ian Aranill, criado por Luca Enoch e Stefano Vietti. Os desenhos dessas primeiras edições ficaram a cargo de Giuseppe Matteoni. Ian é acompanhado do grande amigo, o orc Gmor, da tecnocrata Myrva, que é sua irmã, e da elfa Sera, a própria definição de “elfofa”.



A trupe vive suas aventuras no continente fictício de Erondar, e mapas acompanham várias edições. Qualquer bom leitor adora mapas em seus quadrinhos e livros, como não?




Na edição 1, O Sangue do Dragão, eles estão na cidade de Baijadan investigando um caso de tráfico de armas. Surge repentinamente uma traficante fakhry, que consegue fugir deles e tem início uma perseguição que termina nas proximidades do rio. A traficante tenta usar um dispositivo contra nossos heróis, mas graças à intervenção de Sera tudo dá errado para ela, que tem uma morte flamejante.



O corpo da mulher cai em uma chata invisível no rio, e o fogo a torna visível. A forma como queima é familiar a Ian, e começa então um flashback para fatos de seis anos antes.

Na época Ian estava com os militares, e ao lado do companheiro Khail investigava uma campanha de um reino contra os orcs. Os humanos estavam usando uma arma terrível, chamada lama pírica. Surge a tecnocrata Xara, que está em missão ao lado deles, e na sucessão de eventos Ian fica em perigo. O velho amigo Gmor surge e o salva, levando-o para uma reunião com um grupo de orcs liderado por Hrar-Dank. A missão deles é observar o conflito (os orcs são divididos em clãs que nem sempre concordam uns com os outros) e todos concordam em um ponto: Goran Moravik, o líder daquele reino, não deveria possuir arma tão terrível quanto aquela.



Ian se reúne com Khail e Xara, e a tecnocrata também está interessada na lama pírica. Conseguem algumas informações no jantar com o líder do reino, que é distraído então pela belíssima Xara. Vale lembrar que a Bonelli tem tradição de mulheres deslumbrantes em seus quadrinhos, e que a Itália é a pátria, entre outros, de Milo Manara e Paolo Eleuteri Serpieri.



Ian faz um trabalho de espião e descobre onde a lama pírica é fabricada.

No presente, a trupe está viajando até o Eremitério do mago Alben, o Luresindo. Pausa para explicar alguns termos. Tecnocrata é uma guilda dedicada á ciência e a tecnologia, um grupo muito ligado ao governo central do Erondar que cria vários tipos de aparelhos e dispositivos. Luresindos são uma ordem de magos da qual Alben é o representante que mais aparece. E os batedores são um grupo que participa de vários tipos de missões, indo da espionagem á diplomacia.

O mundo de Dragonero é riquíssimo, cada personagem desempenha um papel importante, e as várias raças, humanos, orcs, anões, elfos, têm suas culturas bem distintas e muito bem desenvolvidas.

Eles param na floresta que atravessam para passar a noite, e Ian e Sera têm uma conversa. O assunto gira em torno principalmente das mudanças pelas quais o batedor tem passado. Na Especial de Lançamento é narrada a história de como Ian matou um dragão, e graças ao contato com o sangue da criatura ele está adquirindo poderes e capacidades incomuns. De fato até sua espada, Sevhasectha, a Cortadora Cruel, mudou com o sangue do dragão e parece uma entidade viva.



Sera diz a ele que sempre se sentia solitária desde que se separou de seu povo (também na Especial) mas que dividir as aventuras com Ian e Gmor a tem revigorado. Ela aceitou seu destino, e sugere que Ian faça o mesmo. Antes de dormirem o batedor conta mais um trecho de sua missão anterior, até o ponto em que encontraram uma estranha elfa negra na floresta.



No volume 2 a trupe prossegue viagem, e Ian conta como conheceram a elfa negra, Atrea, e através dela descobriram a entrada para o interior da montanha onde era produzida a lama pírica. O batedor interrompe a narração novamente ao chegarem ao Eremitério de Alben, um dos locais mais impressionantes que já vi na série.



O mago, além de ranzinza (lembra alguns momentos de Gandalf) desconfia da autoridade imperial e critica até mesmo sua própria ordem, os Luresindos. Além dos tecnocratas, dizendo que podem vir a produzir alguma coisa que pode desequilibrar ainda mais a frágil situação no Erondar. Depois, antes do jantar, leva Ian até a base da torre de pedra que sustenta sua residência, nas costas do mar.

A cena a seguir é uma das mais belas que já vi no universo de Dragonero. Envolve um dragão e a explicação de Alben de que esses seres encarnam o espírito do mundo, a força pura da natureza primordial.



Dragões!

Quem não gosta deles?

Depois da farta refeição preparada por Gmor, eles conversam e Ian conta o final da missão de seis anos antes. Eles descobrem o laboratório dos alquimistas onde é produzida a lama pírica, mas o saldo final é trágico quando tudo é destruído pelos orcs.

Manhã seguinte, e com um objeto que pertencia à falecida fakhry, mais consulta a seus livros, Alben descobre que a guilda dos impuros está envolvida no caso. Tais seres praticam necromancia e artes obscuras, se organizando em famílias e procriando entre si. Isso, claro, produzia monstros deformados, mas eles compensavam com seus poderes mágicos que dessa forma não se dispersavam. Alben fala da família Yog-Nadah (o som não remete à obra do mestre H.P. Lovecraft?) que produzia um dispositivo chamado suanin, capaz de distorcer a luz e assim fazer as coisas invisíveis. Alben diz onde eles podem estar e aconselha a equipe a não ir, mas Ian está irredutível.

Myrva parte para relatar o caso para o Império, enquanto os demais viajam em um dirigível providenciado por Alben para o encontro com os impuros.



Ainda deve ser explicado que a missão de Ian e sua turma é uma investigação sobre armas estranhas e mortais que orcs estão usando em batalha contra os colonos humanos em sua grande ilha, a sudeste do Erondar. E ao final dessa edição vemos novamente a elfa negra Atrea, se reportando a uma misteriosa personagem que se cobre inteiramente em uma roupa negra.

A saga prossegue! Vale a menção de que meus personagens preferidos são Gmor e Alben, e que são divertidíssimas as discussões entre o orc e Sera. Gmor, aliás, além de excelente cozinheiro é um leitor voraz, e torço muito para que a Mythos siga publicando Dragonero!



Edição 3, Os Impuros, e nossos heróis estão na cadeia montanhosa do Suprelurendar, nos domínios dos Impuros. Descobrem um troll da montanha que literalmente se matou de medo, e Sera alerta que os monstros têm poderes além da compreensão deles. Logo duas aberrações surgem e eles os enfrentam com muita dificuldade. É o momento em que Ian controla um poder dos dragões antigos, o de parar o tempo. Assim ele mata os impuros e salva os companheiros, mas o líder das aberrações os faz ter alucinações.



Enquanto Sera e Gmor experimentam terrores, com Ian tudo acontece de forma diferente. Ele tem uma conversa com o falecido avô, de quem herdou o título de Varliedarto (matador de dragões) que geralmente pula uma geração. Assim o líder dos impuros percebe que o batedor é um inimigo formidável demais para ele, e Ian consegue o segredo do suanin.

No continente, na cidade fortaleza de Suhrendart, Myrva está reunida com Khail (lembram-se dele dos flashback do Ian, claro) e o alto comando, discutindo a guerra dos orcs contra os colonos imperiais na grande ilha-continente dos primeiros. Chegam Ian, Gmor e Sera, e é tomada a decisão de investigar. Com o que trouxe do encontro com os Impuros o batedor consegue tornar visível um navio de contrabando, e eles finalmente encontram a lama pírica, a prova que faltava.



Porém, um ataque inesperado os separa, e o quarteto de heróis enfim ruma para a ilha dos orcs. Enquanto se reagrupam, vemos o rosto conhecido de Atrea, a elfa negra, conversando com a pessoa que os orcs renegados chamam de senhora sombria, e os nefastos planos delas são revelados. Nada menos que instigar a guerra entre humanos e orcs até literalmente envolver todo o mundo.



A turma, enquanto isso, constata os terríveis efeitos das armas fornecidas aos orcs, e enfrenta alguns renegados a muito custo. Então surgem Hrar-Dank, o orc amigo que vimos anteriormente, e um grupo de guerreiros, e eles se reúnem a um clã que veio averiguar a situação.



Na grande conclusão da saga, na edição 4, A Fortaleza Sombria, nossos heróis se unem ao grupo comandado pelo chefe orc Orahk e elaboram um plano de ação. Interessante que, apesar das decisões sábias, Orahk é um tradicionalista que defende a separação entre as raças. É Gmor quem lembra a Ian que ali eles são apenas tolerados, assim como na capital imperial, Vahlendart.



Os quatro emissários imperiais assumem a vanguarda das operações que culminarão com o ataque orc contra a fortaleza do inimigo, e mecanismos tecnocratas que encontram pelo caminho causam uma discussão entre os irmãos. Myrva defende que a tecnologia não é inerentemente boa ou má, o que depende de seu uso. Já Ian comenta que sempre acabam encontrando os piores usos possíveis.

Finalmente, guiados por Gmor, eles entram pela fortaleza, eliminam alguns orcs e conseguem informações com humanos capturados. Muita correria, ação e luta depois, o quarteto finalmente encontra o suanin, o aparelho de invisibilidade que impede que os atacantes vejam as defesas do lugar. Com sua destruição, os guerreiros de Hrar-Dank finalmente podem iniciar seu ataque.



Enquanto isso, nossos heróis partem para o objetivo final: desvendar o mistério a respeito da senhora sombria. E a sequência final cobrará um preço altíssimo deles, com muitas memórias do passado com que fazer as pazes. A conclusão do conflito é muito explosiva, mesmo porque os orcs não podem deixar que a lama pírica caia nas mãos de quem quer que seja.

Então, depois de cuidar das feridas e honrar aqueles que tombaram, a missão finalmente é concluída. Myrva volta para Suhrendart para apresentar seu relatório, enquanto Ian, Gmor e Sera vão para casa, na cidade portuária de Solian, que faz parte da Confederação de Cidades Livres. A grande saga tem um final doméstico e pacifico.



Há muito este escriba vinha prestando atenção aos lançamentos das edições de Dragonero pela Editora Mythos, e essa foi a primeira história que li. Absolutamente amei a trama, apresentando um mundo bastante complexo, no qual cada raça é cuidadosamente construída inclusive com sua cultura particular.

Sobre o núcleo central de personagens, cada um é um membro valiosíssimo da equipe, contribuindo decisivamente com suas habilidades. A pequena elfa Sera, por exemplo, não somente cuida dos ferimentos dos demais com seus conhecimentos de mestra botânica, mas também derruba muitos orcs e é essencial no confronto final contra as forças das trevas.

Myrva é cheia de recursos, como toda tecnocrata, e defende tenazmente as conquistas de sua guilda em discussões com os demais. Já o divertidíssimo Gmor por vezes faz as observações mais sábias da trupe, além de geralmente proporcionar alívio cômico, especialmente com suas querelas com Sera. Mas em mais de uma cena ao longo da saga fica muito claro o quanto os dois são ligados por uma forte amizade.

Alben, o mago Luresindo, foi um personagem que me fascinou de cara. Sim, me identifico muito com personagens que desprezam a autoridade, como ele! E já posso acrescentar que ele aparece muito mais na Especial de Lançamento, na qual nossos heróis enfrentam outra situação com potencial de causar o fim do mundo. Além, claro, de mostrar a sequência absolutamente espetacular na qual nosso Dragonero se tornou quem é.

Ian é o protagonista, e como tal cabe a ele enfrentar os maiores conflitos em toda a saga. Especialmente o conflito interior, as mudanças pelas quais tem passado depois que matou um antigo dragão e teve contato com seu sangue. Ele está muito longe de ser aquele herói perfeito que sempre sabe o que está fazendo (todos eles são assim, aliás). Muito pelo contrário, Ian e os demais são imperfeitos, têm seus medos, teimosias, manias e valores, e é precisamente isso que os torna muito humanos. Uma trupe da qual é impossível não gostar, e por quem vale torcer a cada página!



Dragonero foi uma leitura absolutamente marcante, e quero de novo agradecer ao amigo @dragonerobrasil, que tem feito um grande trabalho de divulgação. Já adquiri e li várias outras edições, boa parte na @mundomythos que também recomendo, e em breve trarei mais resenhas, aqui no Escritor com R ou em meu perfil no Instagram @renatoa.azevedo.


Olha só com quem foi o crossover recentemente lançado na Itália...


De novo faço o convite: conheça essa obra de alta fantasia, espada e magia, da Sergio Bonelli Editore. Para quem gosta de Conan: O Bárbaro e O Senhor dos Anéis, vale demais a pena visitar o Erondar e tomar contato com esse mundo de humanos, orcs, elfos, anões, magos, dragões e outras criaturas fantásticas.

Até a próxima!

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

CRÔNICAS DO FANTASMA 4, RESENHA


 

Antes de Superman, Batman, Mulher-Maravilha, antes de qualquer dos heróis da Marvel, havia o Fantasma!

E o primeiro de todos os heróis mascarados completa no sábado, 17 de fevereiro de 2024, 88 anos! Mas claro que todos os leitores sabem que o Fantasma tem 400 anos.

Foi em 17 de fevereiro de 1936 a publicação da primeira tirinha do Fantasma, criado por Lee Falk (28/04/1911 – 13/03/1999), mesmo autor de outro clássico, o mágico Mandrake. Sucesso instantâneo, criando uma lenda que atravessou gerações e possui milhões de leitores fiéis até hoje.


O Fantasma tem a força de dez tigres; antigo ditado da selva.


A primeira história do Fantasma foi reunida pela Editora Mythos no número 4 das Crônicas do Fantasma. A publicação ainda traz um Especial no título, pois é mesmo um presente inestimável para os fãs do personagem. Para mim, pessoalmente, o que escrevi na primeira linha deste texto vale até mesmo no nível pessoal, pois logo após aprender a ler com os gibis da Disney e da Turma da Mônica, comecei a ganhar de meus pais também as aventuras do Fantasma. Antes de qualquer outro herói.



Não poderia haver outro resultado: virei fã de carteirinha, ainda com as publicações da venerável e saudosa Rio Gráfica Editora.


O Fantasma se move como um raio; antigo ditado da selva.


Já sabia que o personagem havia evoluído muito ao longo de todos os anos de publicação, e confesso que gosto mais das artes de Sy Barry, que eram a maioria das velhas edições que eu tive, que as de Ray Moore que ilustram este número de Crônicas. Aliás, encontrei uma entrvista com o mestre Sy Barry, que pode ser lida neste link.

Retornando ao assunto, essa edição de Crônicas do Fantasma me surpreendeu demais!





Em suas 164 páginas encontrei, para meu enorme prazer, todos, absolutamente todos os elementos que já amava nas aventuras do Fantasma, e que o genial Lee Falk consolidou ao longo de todas as décadas em que trabalhou nessa riquíssima mitologia. Primeiro de tudo as mulheres fortes que sempre foram, ao lado do herói, protagonistas nas histórias, com destaque absoluto para a única, linda, sensual, maravilhosa e extraordinária Diana Palmer. No primeiríssimo quadrinho já a vemos treinando boxe com um tripulante do navio em que viaja, e como se diz na deliciosa expressão do inglês, kicking ass!



É apavorante para um bandido acordar na escuridão da noite e ver o Fantasma; antigo ditado da selva.


Por sinal minha primeira personagem feminina foi batizada Diana em sua homenagem. Um dia talvez conte essa história.

O navio é abordado por piratas modernos pouco antes de sua chegada a Nova York, e os bandidos querem não somente o carregamento de uma substância encontrada por Diana, mas a localização da fonte na qual ela a obteve. Essa substância é o âmbar-gris ou âmbar-cinza, produzido pelas baleias cachalote e muito raro, um elemento utilizado na perfumaria ainda hoje. E não, ele tem que amadurecer pelo contato com a água do mar, então não vale caçar as inocentes baleias para extraí-lo. Mais informações em ambergris.eu.

Bem nesse momento surge uma figura misteriosa: o Fantasma! Com astúcia e inteligência ele derruba os bandidos, salvando Diana e a preciosa carga. E, quando nossa heroína pergunta como pode agradecer, o justiceiro lhe mostra: com um ardente beijo.



Sim, o Fantasma é o último romântico!


O Fantasma tem mil olhos e tudo vê; antigo ditado da selva.


Há outros interessados em Diana, entretanto, e ela de novo é salva de um invasor noturno enquanto dorme tranquilamente em casa. O Fantasma se livra dos bandidos e dá um suave beijo na moça que dorme tranquilamente. De novo, bons tempos de heróis românticos.

Diana acaba sequestrada em uma festa da alta sociedade, e de novo nosso herói precisa intervir. Depois de várias idas e vindas eles estão a salvo, mas a moça é muito curiosa e o Fantasma então indica a ela uma pessoa, que vem a ser amigo do pai dela, que pode dar algumas explicações. Entre os termos que ela ouviu durante o confronto entre o herói e os bandidos um se destaca: o espirito-que-anda.



James Dodd, o amigo de Diana, conta a ela a história de quando viajava pela costa de Sumatra setenta anos antes, em 1866. Seu navio foi tomado pelos infames piratas Singh, e o então garoto observou aterrorizado vários tripulantes andarem na prancha. Subitamente um dos bandidos aparece desacordado e com uma marca de caveira no rosto. E então uma figura sombria e ameaçadora surge, fazendo os malfeitores se ajoelharem implorando perdão.

O Fantasma, com uma voz de gelar o sangue, diz somente: “o Fantasma só avisa uma vez”.

Que vem a ser mais um dos ditados da selva que permeiam este artigo, e todas as edições de nosso herói. Lee Falk era apaixonado por mitos, lendas, pela mitologia nórdica, grega e arturiana. Nada mais natural do que incorporar esses elementos em sua maior criação.



Nunca aponte uma arma para o Fantasma; antigo ditado da selva.


Assim, o mistério para Diana só aumenta, pois o homem que a salvou e beijou era jovem, aparentando menos de trinta anos. Dodd confirma que o personagem que viu tinha a mesma aparência, e afirma que ele e seu pai buscaram informações em várias fontes. Eles descobriram que o Fantasma é um mito conhecido em toda a Ásia, e encontraram até mesmo uma menção a ele em um livro de mais de trezentos anos. Os marinheiros o conhecem, e os piratas se apavoram somente com a menção a seu nome.

A aventura leva nossos heróis até os mares do Oriente, para a base secreta dos Singh onde o próprio Kabai, líder da Irmandade, fica aterrorizado ao lembrar da lenda dos piratas de que teriam queimado o Fantasma trezentos anos antes. “O Fantasma sempre retorna” é o recado dele.

Quando o Fantasma, seriamente debilitado, surge na costa após mais uma fuga espetacular, aparecem também outros elementos essenciais de sua riquíssima mitologia: o lobo Capeto e os pigmeus Bandar! Outro elemento que frequentemente seria visto nas tramas posteriores é o médico sequestrado pelos pigmeus para cuidar do Fantasma. Seguem-se mais aventuras até Diana conseguir, com a ajuda do Fantasma, resgatar o âmbar-gris e ele, finalmente, contar sua história a ela.

E tudo começou com um juramento: 



“Juro devotar minha vida à destruição de todas as formas de pirataria, crueldade, ganância e injustiça. Meus filhos e os filhos de meus filhos me seguirão”.


Nesse momento também se inicia um dos relacionamentos mais duradouros dos quadrinhos. Pois Diana não resiste aos encantos do mascarado, que evidentemente já dava mostras de sentir algo muito especial pela intrépida aventureira. Eles selam seu amor com um apaixonado beijo, logo após Diana conhecer mais um antigo ditado da selva: ninguém recusa o Fantasma.





A aventura termina em um remoto esconderijo secundário, onde os Singh encontram seu destino. Mas fiquem calmos, os terríveis piratas retornariam muitas vezes a seguir.


O Fantasma é generoso com os bons, mas severo com os maus; antigo ditado da selva.


Crônicas do Fantasma Número 4 foi uma enorme surpresa, um reencontro com um velho amigo e uma viagem a épocas mais simples, onde o romantismo, a aventura, e valores como a amizade, lealdade, luta contra as injustiças e contra o mal eram indiscutíveis. Tive mesmo muita sorte ao começar a carreira de leitor de quadrinhos de heróis precisamente com o pioneiro entre eles.

Um personagem que me ensinou sobre mitologia das histórias antes mesmo de eu conhecer o termo, e que traz sempre as lembranças de fabulosas aventuras ambientadas nos lugares mais distantes e incríveis do mundo. Confesso que desconhecia que os mesmos elementos com que me identifiquei tanto no cânone do herói já estavam presentes em sua primeira história. Que, aliás, foi publicada entre 17 de fevereiro e 07 de novembro de 1936. Que sorte temos por podermos ler esse material todo de uma vez!

Recomendo ao leitor procurar essa edição, que merece fazer parte de qualquer coleção. E torço muito para a Mythos dar sequência a esse material belíssimo, honrando o primeiro de todos os heróis mascarados.

O Fantasma teve algumas experiências fora dos quadrinhos. O filme de 1996, por exemplo, com Billy Zane e Kristy Swanson, é bastante honesto e divertido, embora falhe a meu ver em captar o espírito do... espírito-que-anda! O vilão é péssimo e o tema das caveiras mágicas fraquinho. Mas é uma boa sessão pipoca.



A melhor encarnação do Fantasma no audiovisual, para mim, é O Fantasma 2040 (The Phantom 2040) série animada que, entre 1994 e 1996, teve 35 episódios. Funcionou bem demais em atualizar o Fantasma, inserindo-o em uma história futurista de ficção científica trazendo todos os elementos de sua mitologia. Eis o primeiro episódio:




Assim, esta foi nossa comemoração deste Dia do Fantasma, ou The Phantom Day, feliz aniversário, Espírito-que-Anda! Finalmente, dedico este artigo ao mestre Lee Falk. Jamais conseguiremos agradecê-lo o suficiente!





Você nunca encontra o Fantasma, é o Fantasma que encontra você; antigo ditado da selva.


Artigo de minha autoria, publicado anteriormente em outro blog. Foi editado com acréscimos para publicação aqui no Escritor com R.


Até a próxima!


sábado, 21 de outubro de 2023

OS MUNDOS DE LEONARDO DA VINCI

  Olá, cidadãos do Multiverso!



No último 18 de setembro, tive a grande satisfação de visitar a exposição Os Mundos de Leonardo da Vinci (@osmundosdeleonardodavinci) que vai só até dia 29 de outubro no Morumbi Shopping (@morumbishopping). E esse mergulho nas obras de um dos maiores entre os grandes personagens da humanidade valeu absolutamente cada centavo.




Carl Sagan, em Cosmos, escreveu que Leonardo da Vinci adorava subir as colinas da Toscana e ver o solo de uma grande altura, como se estivesse voando. Ele foi o primeiro a desenhar uma perspectiva aérea de paisagens, cidades e fortificações. Leonardo tinha entre seus interesses a pintura, escultura, anatomia, geologia, história natural, engenharia e, claro, o voo. Uma de suas paixões era criar uma máquina capaz de voar, e para isso desenhou projetos, construiu modelos e maquetes em tamanho natural. Infelizmente não havia engenhos potentes o suficiente para completar seus objetivos, mas os sonhos e projetos de Leonardo inspiraram gerações de inventores e criadores, como só acontece com os grandes.






Logo no corredor por onde entramos na exposição podemos apreciar não somente algumas de suas obras, como A Anunciação e a extraordinária A Última Ceia, como uma linha do tempo que conta a vida de Leonardo. Um dos aspectos mais impressionantes é que ele, sendo ao mesmo tempo artista e cientista (mesmo antes do pleno estabelecimento da ciência e seus métodos), aplicava na arte seus conhecimentos.






Por exemplo, a partir de seus estudos de anatomia ele desenvolveu métodos para dar mais realismo a suas pinturas, o que pode ser conferido nas já mencionadas A Anunciação e A Última Ceia. Nesta, inclusive, ele usou pessoas reais como modelos para os Apóstolos, e deu a cada um deles uma expressão emocional distinta.

Leonardo foi o primeiro artista a fazer isso. Ele também inovou com suas técnicas de perspectiva, conseguindo reproduzir cenas tridimensionais em telas bidimensionais. Um homem muito além de seu próprio tempo!

Na sala seguinte vemos o Homem Vitruviano e alguns dos desenhos que fez baseados nas autópsias que realizava. Sua sede por conhecimento era de tal monta que ele se arriscava, desafiando a proibição de manusear cadáveres imposta pelas autoridades religiosas da época.

O ambiente seguinte é uma sala domo, onde os visitantes deitam em pufes e viajam pelas cidades nas quais o gênio percorreu sua inimitável trajetória. Seguimos por um corredor com projeções em 3D de suas obras, desenhos, projetos e seus codex. Muitos dos escritos que ele deixou, aliás, as anotações estão escritas de trás para frente. Gênios e suas particularidades.

Na enorme sala imersiva, o grande destaque da mostra, mergulhamos na época e nas obras de Leonardo da Vinci. Seus estudos de anatomia, seus projetos de máquinas voadoras, como o helicóptero parafuso e a asa delta.







E, falando nessa, existem relatos de que Bob Kane se inspirou na asa delta de Da Vinci para criar a capa de certo Cavaleiro das Trevas! Sem dúvida a semelhança é mais que evidente!




Confiram neste link mais a respeito dessa história.

Conhecemos o Leonardo produtor de peças teatrais, criando máquinas que auxiliavam na performance dos atores, para os quais ele também desenhava os figurinos. Até autômatos a corda, como um leão, ele foi capaz de produzir.





No grande salão mergulhamos na cidade ideal planejada por Leonardo, que teria cursos de água para transporte e outros usos, ruas largas e uma série de inovações que hoje vemos nas metrópoles modernas. O grande destaque são suas inimitáveis pinturas, que aparecem por meio de pinceladas nas paredes e chão, realmente permitindo que mergulhemos na mente e na arte do mestre.

A Última Ceia tem grande destaque, passando por seus estudos e esboços iniciais, até o fabuloso resultado. De encher os olhos, felizmente esse afresco sobreviveu ao teste do tempo e até das guerras, e ainda hoje podemos apreciá-lo. Detalhe: a obra é mostrada ao som de Assim Falou Zaratustra, o tema de 2001: Uma Odisseia no Espaço! Sim, é de arrepiar!






Essa parte termina, claro, com a Mona Lisa, da qual ainda há uma reprodução em um ambiente em uma das pontas do salão, acessível por duas escadas. Tudo, claro, pode ser filmado e fotografado.








Saindo da sala imersiva chegamos a um ambiente menor com maquetes de várias criações do mestre. Uma série de pesos ligados a roldanas é um experimento que os visitantes podem fazer. Entre as maquetes, ou desenhos que mereceriam aparecer em outros pontos da exposição, somente senti falta dos projetos do paraquedas e do tanque de guerra.








Depois passamos para o atelier e quarto de Leonardo, com reproduções de obras em processo de elaboração, armários, diversos outros itens e manequins com figurinos de suas peças teatrais.













Resta depois visitar a inevitável loja, e eu trouxe para casa um Codex para também rascunhar criações e universos.


 





Os Mundos de Leonardo da Vinci, infelizmente, está encerrando sua temporada no Morumbi Shopping. Corra se quiser conferir, pois vale muito a pena. Para quem morar na cidade para onde a exposição será levada a seguir, não se atreva a perder!





Até a próxima!