sexta-feira, 16 de maio de 2025

VÓ NENA E OS CAÇADORES: MALDITO BEBÊ REBORN


  — Calma, senhorita, estamos aqui pra averiguar somente.

— Que zorra é essa?



Vó Nena entrou no hospital, acompanhada do neto Daniel e da namorada deste, Tatiana, mas não estava preparada para a cena.

Uma mulher histérica, cercada por enfermeiros e policiais, berrava que tinham que tomar cuidado com seu bebê.

— Ela trouxe o marido com uma faca enterrada no ventre — explicou o delegado Esperidião, — suspeitamos de briga de casal, mas... o homem conseguiu dizer que foi o tal bebê.

— E o que tem o bebê? — perguntou a Caçadora.

— É que... — o policial hesitou — é um boneco.

A mulher berrou mais, dizendo que seu filho não era uma coisa, enquanto o delegado acrescentou que um guarda o tinha levado para outra sala. A mulher continuou berrando, exigindo uma enfermeira da maternidade e apoio psicológico.

— Calma, senhorita Barroso...

— Dessa família, ainda por cima? — perguntou Vó Nena. — Estão na política da cidade há décadas e nunca fizeram nada que prestasse. E que merda é essa de boneco, Esperidião?

Os dois foram para um canto, e o delegado explicou. A Caçadora não se conteve:

— A porra de um boneco, e essa dondoca o trata como um bebê? Tá de brincadeira!

Esperidião chamou pelo rádio o policial que levara o tal bebê, mas não obteve resposta. Daniel seguiu para a sala indicada e logo gritou. O homem estava caído, um profundo corte no flanco, e enquanto era socorrido balbuciou que o boneco o atacara com um bisturi e levara sua arma.

Tatiana e Vó Nena se entreolharam, e pela expressão da jovem vidente a veterana Caçadora soube imediatamente do que se tratava.

As duas seguiram por um corredor, enquanto Daniel se dirigiu para o outro lado.

De repente gritos e tiros. As Caçadoras correram, e encontraram o tal bebê em pé no corredor e disparando contra uma porta.



A coisa, de fato produzida com um realismo impressionante, olhou para eles no momento em que Tatiana sacou sua pistola com balas de prata. Dois tiros após uma ligeira hesitação, e um acertou o bebê. Mesmo assim ele correu, desaparecendo na curva do corredor. A vidente foi atrás.



Vó Nena abriu a porta, que era de um depósito, e encontrou duas enfermeiras e uma médica encolhidas em um canto, aterrorizadas. Ela disse:

— Fiquem aí, moças.

Tati retornou e comentou:

— Tentei seguir a coisa, mas sumiu.

Por seu lado, Daniel ouviu os tiros, quis correr mas logo recebeu no celular uma mensagem da namorada, dizendo que tinham avistado o monstro. O rapaz suspirou aliviado e prosseguiu em sua busca.

Caçadores costumam desenvolver instintos mais aguçados, então subitamente se abaixou. O estampido de um tiro soou às suas costas, ele virou, apoiou um joelho no chão e apontou sua pistola.

A coisa apontava seu revólver para ele. O rapaz ficou estarrecido como se parecia com um bebê de verdade, e observou a marca do disparo de Tatiana. Se uma bala de prata não fora suficiente, então certamente teriam que usar meios mais drásticos.

O impasse durou alguns segundos, até que as portas do elevador se abriram e dois médicos surgiram, exatamente entre os dois inimigos.

Daniel poderia jurar que viu a coisa torcer a boca em um sorriso irônico e grotesco. Gritou:

— Abaixem!

Disparou sua arma assim que os homens, assustados, se jogaram no chão após darem com o boneco armado. Um tiro o acertou na cabeça, ele caiu para trás, mas logo se levantou e correu. O jovem Caçador o seguiu o mais depressa que pôde, literalmente pulando sobre os médicos aterrorizados.

Era inacreditável que, com pernas tão curtas, a coisa possuída corresse tão depressa.

Chegou ao vão de escadas, virou-se e apontou a arma que roubara do policial para Daniel. Deu dois tiros, que errou, e ficou sem munição. Largou o revólver ali e simplesmente se jogou pelo espaço central.

O Caçador olhou para baixo, e se pôs a descer rapidamente as escadas.

Chegando ao subterrâneo manteve a arma apontada, pronto para tudo.



Uma coisa de metal brilhante passou bem próxima a sua cabeça, batendo na parede. Era um bisturi lançado pela coisa.

Daniel correu, vendo o boneco possuído metros à frente. Estavam no andar de manutenção e lavanderia, e a coisa passou por vários funcionários que se assustavam com a visão grotesca.

— Sai da frente, depressa! — o rapaz repetia.

O monstro terminou por trombar com as pernas de uma funcionária que carregava uma bandeja cheia de bisturis recentemente esterilizados e embalados.

A moça caiu, tentou se levantar assustada, mas sentiu metal apertando seu pescoço.

Daniel parou, apontando a arma.

— Calma, moça, vai ficar tudo bem. Não, não olhe!



A funcionária havia feito menção de virar o rosto a fim de ver seu agressor. Tremia de medo.

— Não tem para onde fugir, aberração — disse o Caçador. — Deixe a moça ir, que garanto pra você uma passagem indolor pro inferno.

A coisa de novo sorriu em um esgar grotesco, as marcas de tiros a tornando ainda mais abominável.

Daniel puxou a pequena cruz de pau-brasil que usava ao pescoço, a segurou e recitou uma invocação, mantendo a arma apontada. Tinha esperanças de, com aquele encantamento, diminuir a força do monstro e ao menos salvar a funcionária.

A coisa puxou outro bisturi, segurando-o acima da cabeça da moça. Daniel apertou mais a cruz, murmurando o encantamento. Estava a alguns metros de distância, e não sabia se funcionaria.

— E em nome de tudo que é bom ordeno que se renda, criatura das trevas — ele pronunciou o último verso da reza.

Daniel manteve a mira, e duvidava que conseguisse atingir o boneco sem ferir a moça. Ele viu o monstro fraquejar, o bisturi amolecer em sua mão, e pensou em atirar. O tempo estava se esgotando.

— Ei, Chucky! — uma voz feminina gritou.



Foi o que bastou. A confusão do boneco graças ao encantamento, mais a surpresa de Tatiana surgir pelo lado, fez o monstro se erguer e virar para lá. Daniel atirou, atingindo-o em cheio. Os bisturis voaram para longe da moça, que se ergueu e correu para junto do Caçador.

Tatiana também atirou, atingindo-o duas vezes. Depois correu e agarrou a coisa.

O boneco se agitava e ela mal conseguia contê-lo. Daniel veio em seu auxílio, e os dois mantiveram a coisa presa. Vó Nena, então, chamou:

— Meninos, aqui!

A Caçadora encontrara o incinerador do hospital. Eles correram para lá, enquanto o boneco se debatia furiosamente. Encontraram dois funcionários que, diante dos gritos deles, abriram a porta da fornalha.

Jogaram a coisa lá e voltaram a fechar a porta.

Tatiana e Daniel, ofegantes, se abraçaram. Nena deu uma explicação rápida aos dois moços, e os três saíram.

Encontraram Esperidião, que acabara de sair do elevador.

— Tudo resolvido, delegado — disse a Caçadora. — Fogo com essas pragas possuídas é a melhor coisa.

— E o que eu digo para a mãe...

— Mãe!? É sério que você está chamando a dona do boneco de mãe? Não incentive a loucura, Esperidião!

Os Caçadores tomaram o elevador. O casal ainda se mantinha abraçado, e Vó Nena sorriu para eles. Disse, finalmente:

— Vocês que não me inventem, hein? Eu quero um bisneto de verdade!

Tatiana sorriu, abraçando-a. Daniel, aliviado, comentou:

— Ele virá, Vó, é uma promessa!

— O que esse povo pensa!? — finalizou Nena. — Maldito bebê reborn!



Vó Nena e os Caçadores retornarão.


Para vocês verem, caros leitores. Nesta segunda metade de maio de 2025 eis que este blog literário entrou na onda do tal bebê reborn! Mas bem ao estilo de Vó Nena e os Caçadores!

Uma historinha simples que espero ter sido divertida para vocês!

Um conto maior, trazendo uma homenagem, deve ser publicado também aqui em breve, fiquem de olho!

E, novamente, estão todos convidados a conhecer a primeira trilogia deste universo de folclore brasileiro, fantasia, terror e lendas urbanas:



Vó Nena e os Caçadores: O Fusca Azul


Vó Nena e os Caçadores:O Livro Maldito


Vó Nena e os Caçadores:A Última Escrava.


Mas não se preocupem, a próxima história longa já tem cenas escritas.

E vale a pena revelar que, antes, deverá chegar mais um e-book (ou livro, torçam!) na forma de uma coletânea de contos e noveletas. Ainda estou decidindo se devo ou não escrever mais uma história para completar esse tomo. Continuem acompanhando em @renatoa.azevedo.

Obrigado por sua leitura, comentem e compartilhem, apoiem os autores brasileiros.

Até a próxima!

quarta-feira, 23 de abril de 2025

COMO FOI A FLIFANTASY 2025


  Tive uma boa surpresa ao descobrir a respeito da realização do Festival Literário de Fantasia, ou Flifantasy. Passei a seguir seu perfil @flifantasy no Instagram, e me programei para ir ao evento, que ocorreu em 13 de abril, um domingo.

O local escolhido foi o Marte Hall, na Rua Domingos de Morais aqui em Gotham Sampa. Não conhecia, uma galeria com muitas lojas e inclusive um grande auditório, e um amplo espaço no segundo andar onde foram montados os stands de editoras e autores.

Seria inclusive excelente se os saudosos eventos nerds retornassem a São Paulo, e esse é um excelente lugar. Quem aí anda com saudade do Dia do Fã?

As apresentações no auditório foram bem organizadas e muito informativas, com a presença de muitos profissionais da área. Torço para que sejam ampliadas para a próxima edição, quem sabe com um painel de revistas literárias? Sem dúvida o Táquion FC e a Histórias Extraordinárias mereciam esse espaço!




Como bom evento nerd, o melhor é o contato com as pessoas, e já que mencionei nossa amada revista, tive a enorme satisfação de conhecer dois autores taquiônicos!



O primeiro foi Nelson Job (@nelson_job_escritor), que publicou o conto Saudade na edição 6. Conversamos muito sobre criação literária, o uso da Inteligência Artificial, inspiração de histórias, e ele ainda me deu um exemplar de seu livro Druam! Quem pode com tamanha gentileza?




Depois conheci Nicolás Irurzun (@nicolasirurzum), que também participou do Táquion 6 com o conto Complô Cibernético. Outro papo sensacional, e destaco que ele estava com seu livro Estações Espaciais Não Passam de Poeira Cósmica, igualmente recomendado! A capa ficou muito divertida, como podem ver.





E claro, encontrei também o amigo Gianpaolo Celli (@gianpaolo_celli) colega da Equipe Taquiônica, e que tive a honra de ter como editor nos bons tempos da saudosa Tarja Editorial. Gian estava com vários de seus livros, e aproveitei para trazer para a biblioteca Conspiração Steampunk. A fila de leitura dos livros autografados dos amigos também está aumentando.




Problema agradável esse, de acumular livros para ler!

Aliás, quero aumentar esse problema para vocês também, já que na semana anterior ao evento publiquei na Amazon o mais novo e-book de nossa série de fantasia, terror, folclore e lendas urbanas preferida: VÓ NENA E OS CAÇADORES: A ÚLTIMA ESCRAVA:



Clique aqui para conferir e lembre-se, é permitido alimentar os autores nacionais! Em breve publicarei um post detalhando um pouco mais e apresentando alguns novos personagens, combinado?

Com o Gian também estava a Marcia da @arte.saito, com quem peguei um botton do Chuchu, mais conhecido como Cthulhu.



Como comentei, o melhor dos eventos é esse, o papo e as trocas de experiências e ideias!

Por sinal eu estreava uma camiseta que mandei fazer com o logo do Táquion FC (falando de novo, nos siga, @taquionfc) e muita gente o reconheceu e elogiou muito nossa revista. Agradeço imensamente a todos, é muito bom saber que estamos fazendo a diferença e inspirando tantas pessoas!

O que mais? Ah, como podem ver nas fotos do Nelson, uma das antologias de que ele participou foi Botânica Sombria, ideia que achei deveras legal! Depois, claro, saí andando, fotografando e conversando, e vi muitas coisas interessantes.

Havia um espaço com mesas de RPG, e me surpreendi com a variedade das publicações nessa área. Ainda mais pelo fato da quantidade das editoras que estão explorando o folclore brasileiro. Vi alguns “monstruários” que fiquei tentado a trazer para casa, pena a verba estar um tanto restrita. Mas fiquei com os contatos, em breve, muito breve...









Bem, foram muitos papos, novos contatos, e seguem então algumas fotos para que o bom leitor tenha uma ideia sobre como foi esse excelente evento.













          Por sinal, Brandon Sanderson foi o ajutor homenageado!

E não poderia faltar uma sequência com as aquisições e presentes, incluindo uma enorme quantidade de marcadores. Valeu, gente!







A Flifantasy, nessa primeira edição, teve um sabor muito bom de evento das antigas, onde se pode andar e conversar com calma. Um grande e muito bem vindo incentivo aos escritores de nossa literatura fantástica e, por que não, também de ficção científica (e creio que havia mais FC nos stands do que Fantasia). Já estou aguardando a próxima edição.

        Claro, me siga, @renatoa.azevedo, curta, comente, compartilhe,e leia!

Até a próxima!

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

VÓ NENA E OS CAÇADORES: SAMUEL E O CAFÉ COM A EX

 


            Sexta-feira e a propriedade de Vó Nena, no início da zona rural de Boa Graça, cidadezinha no interior de São Paulo conhecida pelo folclore e lendas urbanas, estava silenciosa.

            A Caçadora, dirigindo seu Fusca Azul, fora visitar amigos em uma comunidade próxima dali. No terreiro desta, no dia seguinte, seria realizada uma celebração ecumênica e a ajuda dela havia sido requisitada pelos amigos.

            Daniel, seu neto mais velho, saíra com a namorada, Tatiana, com o Dodge Charger branco que os irmãos dividiam. Samuel, enquanto andava pela propriedade, se sentiu feliz pelo irmão. Havia sido muito bom reencontrar Tati, com quem estudara por boa parte do primeiro e segundo graus. Foi uma surpresa para todos, especialmente para ela própria, quando descobriu sua vidência, e já havia até auxiliado a equipe dos Caçadores em alguns casos.

            Sam, por sua vez, andava desanimado. Ainda sentia o baque do que havia acontecido somente três meses antes, e a solidão o incomodava. Dan e Tati insistiram para que saísse com eles, mas o neto mais jovem de Vó Nena preferira espairecer na oficina montada em um galpão de madeira na propriedade da avó.

            Por fim, acabou chegando á conclusão de que era demais, e que lhe faria bem ver algum movimento. Lembrou-se de um lugar que sempre havia frequentado e decidiu que merecia uma folga.

            Sacou o celular e mandou mensagens para o irmão e a avó. Em seguida entrou na casa, lavou as mãos e o rosto e depois apanhou a chave do Fuscão vermelho, resquício do caso envolvendo o desafortunado George Angelo alguns meses antes. Daniel e Tatiana até já haviam viajado para Brasília com ele, comprovando sua confiabilidade.

            Enquanto manobrava o carro Sam sorriu. As histórias que o irmão e a cunhada contaram, especialmente as que envolviam João, o Caçador amigo deles, foram ótimas. Lembrou-se ainda da recomendação de Vó Nena de jamais tirar as medalhas de Nossa Senhora e de São Jorge do painel do Fuscão, pois suas propriedades sobrenaturais ainda não haviam sido todas descobertas.

            Depois de abrir o grande portão de madeira, sair com o carro, voltar a fechar o portão e retornar ao Fuscão, Samuel seguiu pela estrada de terra até encontrar o asfalto alguns quilômetros adiante. Após um curto trecho de uma estrada secundária de pista simples pegou a bifurcação á direita, seguindo para o centro de Boa Graça.

            Mesmo uma típica cidade do interior como aquela tinha o trânsito um pouco mais pesado na segunda metade da tarde de uma sexta-feira. Mas Samuel não se incomodou, divertindo-se em guiar o Fuscão pelas ruas. Não demorou e estava diante do Café da Clô, uma cafeteria com muitos anos de tradição que resistia à investida das grandes franquias por toda a região.

            Havia uma vaga na frente, e Sam encaixou ali o Fuscão. Depois de descer e trancar o carro entrou na acolhedora cafeteria, apreciando com gosto seu ambiente com muita madeira e móveis antigos, duas estantes com livros e mais duas com produtos típicos incluindo vinhos e cachaças, a maioria produzida na região.




            Clotilde, cujo apelido dava nome ao lugar, veio lhe dar um abraço.

            — Samuel, meu menino! Há quanto tempo não aparecia!

            — Verdade, tempo demais — ele respondeu retribuindo.

            Clô já estava quase nos sessenta, era filha de mãe alemã e pai brasileiro, e tocava o café com os filhos e uma equipe muito dedicada que adorava o que fazia. Olhou novamente para o rapaz e disse:

            — Tão triste o que aconteceu...

            Era nítido que ela queria conversar mais, mas percebendo a nuance de desânimo no olhar dele perguntou:

            — O de sempre?

            Samuel sorriu, deu-lhe outro abraço e respondeu:

            — E tem outro?

            Clô apontou para uma mesa nos fundos, ao lado da porta que abria caminho para o jardim na parte de trás do estabelecimento e que era a preferida de Sam. As memórias emergiram em sua mente, mas ele caminhou resoluto e se acomodou, recordando-se quando se sentava ali em boa companhia.

            Ele havia trazido uma pequena mochila, a pendurou no encosto da cadeira e dela tirou um caderno pequeno e uma caneta. Abriu o volume e pôs seu celular ao lado, inserindo um fone na orelha e pondo para tocar uma música instrumental.

            Agora percebia como aqueles momentos de quietude o ajudavam a pôr as ideias em ordem. Por cima os aromas e texturas da cafeteria proporcionavam um mais que bem vindo sentimento de renovação depois daquele período difícil.

            Clô logo chegou com o pedido de sempre. Um cappuccino grande com canela e chocolate, e uma generosa fatia de bolo floresta negra, de receita tradicional alemã. A mãe dela havia trazido aquela e outras que faziam parte do cardápio da casa, todas adoradas pelos clientes da cafeteria.

            — Deu sorte, querido, o bolo acabou de sair.

            — Você tem toda razão, Clô — respondeu Sam. — Não deveria ter ficado tanto tempo sem vir. Esse aroma...

            Ela sorriu para ele e foi atender mais clientes que chegavam. Samuel ergueu a grande xícara e passou alguns segundos sentindo o aroma da bebida quente. Tomou um gole e fechou os olhos, deliciando-se com o sabor.

            Depois de retornar a xícara ao pires apanhou o garfo e tirou um pedaço do bolo. O sabor tomou sua boca, e ele de novo chegou à conclusão que só poderia compará-lo ao bolo de chocolate que Vó Nena sempre fazia para seu aniversário.

            Samuel sorriu ao pensar, enquanto mastigava o segundo pedaço, que o mais difícil com relação a ambos os doces era se conter, apreciar cada mordida, cada nuance do sabor, e não devorar o bolo inteiro. Era algo que ele havia aprendido com Miriam desde que começaram a namorar. Ele sorriu mais com a lembrança, recordando-se que Daniel ainda era assim, sempre o primeiro a terminar qualquer refeição.

            “Será que Tatiana vai conseguir consertá-lo?” pensou divertido.

            Miriam. Era com ela que costumava frequentar o Café da Clô.

            Samuel fez algumas anotações no caderno, e a intervalos regulares bebia o cappuccino e comia mais um pedaço do bolo. Estava tudo excelente, e ele quase sentia o mesmo gosto de uma época mais recente.




            Minutos depois deixou o garfo sobre o prato vazio e bebeu o último gole da bebida. A ideia de visitar o café dera ótimos resultados, pois o tédio havia desaparecido e ele anotou mais algumas ideias no caderno.

            Eram anotações tanto para o incipiente blog que criara para os casos dos Caçadores como para textos de ficção, principalmente contos, que de vez em quando se arriscava a escrever. Lembrou-se dos três meses de Letras que chegou a cursar em Campinas, antes de decidir trancar e tentar arrumar sua vida em Boa Graça. Muito embora tanto sua mãe quanto Vó Nena dissessem que “caçadas não sustentam ninguém” ele adorava aquela vida, e não pretendia parar.

            Mas fazer alguma outra coisa era uma de suas vontades, e ele apanhou o celular e examinou a caixa de e-mails. Da mensagem que aguardava, e que deveria chegar ainda naquele dia, nada.

            — Esperando alguém?

            A voz o surpreendeu, mas não o alarmou. De fato, de alguma forma já a esperava.

            Largou o celular, fechou o caderno com a caneta dentro e olhou para frente.

            Miriam estava sentada diante dele.




            A mesma Miriam, o mesmo jeito de menininha, usando um vestido floral, os cabelos negros, longos e lisos, virados para o lado e cobrindo um dos ombros.

            — Oi — disse Sam.

            — Oi — ela respondeu.

            Ficou olhando para ela, os doces e grandes olhos castanhos, o rosto delicado exibindo um leve sorriso... tantas lembranças cujo peso Samuel quase conseguia sentir sobre os ombros.

            — Ia perguntar como você está, — comentou ele — mas parece óbvio que bem, né?

            — Estou sim. É bom estar distante de tudo que é ruim e errado no mundo.

            — Espero que eu não esteja incluso nisso.

            Miriam estendeu a mão cobrindo a dele e respondeu:

            — Isso nunca!

            A garota olhou ao redor, o brilho de seu sorriso se intensificou e ela disse:

            — Sempre foi tão bom vir aqui com você, Sam! O jardim dos fundos está lindo!

            Sorriu ainda mais para ele. Samuel retribuiu e a garota perguntou:

            — E você, como está?

            — Não tem acompanhado?

            Novo sorriso. Miriam disse:

            — Só um pouco. Respeito sua privacidade. E meu tempo aqui é curto.

            Samuel pôs a outra mão sobre a mesa, e Miriam a segurou. Ele disse:

            — Tem sido difícil. É claro, a dor não vai embora, acho que nunca irá, mas com o tempo fica mais fácil lidar com ela.

            — Que bom.

            Sam olhou para ela, e a moça percebeu uma sombra em seu olhar. O rapaz disse:

            — É muito duro lembrar de tudo... lembrar dele... aquele desgraçado...

            Fez uma pausa quando sua voz começou a se tornar embargada. Baixou a cabeça e disse:

            — Foi duro demais quando terminamos, Miriam! Nunca sofri tanto na vida. Mas não chegou nem perto do que aconteceu depois...

            Miriam apertou as mãos de Samuel e olhou firmemente para ele.

            — Não faça isso, Sam! Por favor, não se desgaste pensando na injustiça do que aconteceu.

            Ele ergueu o olhar e encarou a garota que tanto havia amado. Ela prosseguiu:

            — Está fora de seu alcance, meu amor, fazer qualquer coisa a respeito. Não se preocupe!

            Desta vez foi na expressão de Miriam que surgiu uma nítida sombra. Ela concluiu:

            — O que aconteceu, aconteceu. De uma forma ou outra a justiça será feita. Todos nós, no final, respondemos por nossos atos.

            Samuel segurou mais forte as mãos de Miriam. Os dois se olharam intensamente. Ela voltou a sorrir, e percebeu os olhos dele marejados.

            — Considere um pedido meu: viva sua vida, Sam. Seja feliz! E não se preocupe, você terá alguém que vai te amar muito.

            — Às vezes é difícil acreditar nisso.

            — Pois acredite. Pode demorar um pouco, mas sei que vocês vão se encontrar.

            — Alguma pista?

            Os dois riram, e Miriam respondeu:

            — Qual seria a graça se eu te dissesse?

            Eles ficaram um bom tempo olhando um para o outro, e finalmente Samuel disse:

            — Então... é adeus?

            Desta vez uma lágrima desceu pelo rosto de Miriam, mas ela não deixava de mostrar aquele sorriso lindo e radiante.

            — Por enquanto sim. Vamos nos ver de novo, claro, mas depois de hoje vai demorar muito.

            — Isso é uma boa ou má notícia?

            Miriam se levantou, veio até ele e o abraçou com carinho. Samuel fechou os olhos sentindo todo o amor dela, e a moça por fim disse:

            — Depende somente de você, meu amor.

            Ela sorriu, o beijou, e se afastou andando de costas.

            — Eu te amo — disse Samuel.

            — Eu sempre vou te amar — respondeu Miriam.

            As formas da moça gradualmente se tornaram transparentes, e ela então entrou em uma luz que se abriu à suas costas.

            O jovem Caçador sentiu uma lágrima teimando em escorrer do olho, enxugou-a, e por instinto viu o celular novamente. Depois se demorou olhando para algum ponto indefinível entre a mesa e o cenário do café.

            A casa estava movimentada. Clô, então, aproximou-se dele, apontou para o fone em seu ouvido e perguntou:

            — A conversa foi boa, querido? Olha que parecia que ela, e espero que fosse ela, estava bem aqui com você, pela sua expressão!

            — Acho que a impressão foi essa mesma — comentou Samuel sorrindo.

            — Vai querer mais alguma coisa?

            Ele pensou um pouco, olhou para ela, e a dona do café respondeu:

            — Outra fatia caprichada de bolo, claro!

            — E uma água com gás também, por favor!

            Sam tirou o fone do ouvido e o guardou na mochila, depois fez mais anotações no caderno lembrando-se das palavras de Miriam. Aquela despedida fora difícil e intensa, mas ele sentia que precisava muito daquele momento. E sentiu-se feliz por ela estar em paz.

            Clô chegou com o segundo pedido, e ele aproveitou o restinho de tarde se deliciando.

            Estava quase anoitecendo quando Samuel foi até o caixa. Clô fez questão de vir abraçá-lo depois.

            — Nem perguntei, e sua avó?

            — Ótima, não para nunca.

            — É bom mesmo — e ela acrescentou baixinho — afinal as assombrações não param também, né?

            Samuel confirmou.

            — E seu irmão que também anda sumido?

            — Agora é ele que está namorando.

            — Pois manda vir aqui!

            — Vou mandar. Obrigado, Clô, foi ótimo.

            Trocaram outro abraço apertado e ela completou:

            — Bom te ver, garoto, volte mais vezes!

            Havia começado uma garoa fina que já molhava tudo, Samuel correu até o Fuscão vermelho, abriu a porta e acomodou-se. Ouviu a notificação do celular antes de fechar a porta, segurou-o e leu o e-mail que havia chegado.

            Dizia: “A BLF Informática tem a satisfação de confirmar sua inscrição para o curso gratuito de Estabilidade e Segurança nas Redes e Navegação Segura, a ser realizado na data de...”.

            Samuel sorriu e guardou o celular. Tinha um mês para se preparar para ir a São Paulo. Ligou o carro e saiu pelo trânsito pensando que sim, iria atender ao pedido de Miriam.

            Seria muito feliz.

 

Vó Nena e os Caçadores retornarão.


            Como fazia tempo que não publicava uma história aqui no blog! Acreditem, também senti falta, mas entre o Táquion FC (leram o artigo do post anterior, né?) e os trabalhos no novo e-book de Vó Nena e os Caçadores, não sobrava muito tempo para pensar em contos menores para cá.

            Sim, conforme já anunciei em meu perfil no Instagram, em 2025 teremos novidades! Já se tornou a mais longa história deste universo, e ainda teremos um epílogo, protagonizado pelo próprio Samuel e por...

            Já anunciei o nome dessa nova personagem no Insta, vão lá!

            Este conto simples mas que foi delicioso de escrever somente não fecha o arco de Miriam porque ainda planejo uma história anterior a ele, que irá apresentar o momento em que os Caçadores conheceram uma bruxa mencionada na história de George Angelo, o prelúdio de O Livro Maldito. E claro que vocês sabem que o Fuscão vermelho era dele. O mesmo Fuscão com que Daniel e Tatiana visitaram Brasília na história da Caveira de Burro.

            Lembrando que, no início de O Livro Maldito, mostramos o que aconteceu com o sujeito responsável pela morte de Miriam.

            Além disso, como puderam ver, este conto cria mais pontes com o universo dos alienígenas de De Roswell a Varginha e Filhas das Estrelas, que por sinal é o mesmo onde atuam os Caçadores! Já existe inclusive um roteiro para o conto que mostrará a visita de Samuel a São Paulo, então aguardem.

            Ainda tenho a ideia de mais um conto natalino (este de outro universo, ou Multiverso...), mas está ainda muito incipiente, e não tenho certeza se será possível escrevê-lo e publicá-lo até o Natal. Tentarei organizar os temas... quem sabe?

            E, se ainda não conhece o universo de fantasia, folclore, terror e lendas urbanas de Vó Nena e os Caçadores, as tags aí abaixo podem ajudá-lo. E também está apresentado o convite para ler também os e-books já publicados:

 


VÓ NENA E OS CAÇADORES: O FUSCA AZUL;

 


VÓ NENA E OS CAÇADORES: O LIVRO MALDITO.

 

            Espero poder encontrá-los aqui pelo blog novamente. Não se esqueça de seguir este humilde escriba: @renatoa.azevedo .

            Até a próxima!