segunda-feira, 13 de julho de 2020

Vó Nena e os Caçadores: A Placa do Fusca Azul

Nota do autor: Este conto de terror com muita violência e sangue é dedicado a todos que já tiveram o dissabor de ter seu querido Fusquinha levado por vagabundos. Espero que seja ao menos um pequeno e catártico consolo.

Aquela dupla seguiu discretamente e a distância o Fusca Azul impecável logo que o viu passar na pequena estrada rural. Estacionaram antes de uma curva, e na posição em que estavam conseguiam ver, em meio às árvores e vegetação que cobriam as laterais da via, quando o carro estacionou e uma velha apoiada em uma bengala e um casal de jovens desceram.
Esperaram alguns instantes, e então voltaram a mover seu veículo, parando atrás do Fusca.
- Caraio, véio, está inteirão!
- Não tô gostando, já ouvi muitas histórias sobre Fuscas assombrados nesta região...
- Tá com medinho, é? Vai lá que a gente leva esse aí, ninguém mandou deixarem dando sopa!
O outro saiu, olhando para todos os lados, enfiou a ferramenta entre o vidro e a porta e conseguiu entrar no Fusca. Depois de fazer ligação direta o motor pegou, e os dois ladrões saíram em velocidade pela via de terra.


Dentro da propriedade Daniel ia à frente conversando com a proprietária do lugar, e enquanto sentia no caminho arborizado e florido as energias estranhas que pareciam mover os bizarros acontecimentos, razão pela qual haviam sido chamados, Tatiana segurou o braço de Vó Nena e cochichou:
- Vó, acho que ouvi barulho do motor do Fusca...
- Filha, garanto que isso não vai ser problema. Vamos resolver o que nos trouxe aqui, depois a gente vê.

O desmanche da quadrilha ficava a menos de oito quilômetros do lugar onde haviam roubado o Fusca, que agora era estacionado no meio de um grande galpão atulhado por peças de carros, carrocerias completas de um lado, e motores do outro. Mais cinco homens vieram receber os dois recém-chegados.
- Olha só que beleza, fazia anos que não via um desses!
- Caramba, acho que é um 1962 monocromático.
- Beleza, vamos começar a desmontar...
- Deixa de falar merda, moleque! Inteiro esse carro pode valer muito mais!
- Tem razão! Liga aí pro seu contato, aquele colecionador lá!
O que havia recebido a ordem apanhou o celular do bolso e logo começou a falar com um sujeito que frequentava o meio dos colecionadores de carros. Descreveu o Fusca Azul enquanto dava voltas ao redor do carro, depois parou diante dele.
- Ele tá perguntando a quilometragem.
O que dera a ordem de ligar para o colecionador, e que era o líder do bando, enfiou a cabeça pelo vidro da porta, que havia sido deixado aberto pelo ladrão que o trouxera, e observou o velocímetro.
- Diz pra ele que o hodômetro tá marcando... que merda é essa?
O líder do bando ficou espantado e imóvel por um instante, ao ver que os instrumentos do painel subitamente brilharam em um tom vermelho vivo.
E depois sentiu só uma dor terrível e súbita, antes de não sentir mais nada.
Os demais bandidos imediatamente começaram a gritar em pânico, vociferando palavrões e termos desconexos enquanto se afastavam do carro. Nem repararam que o motor havia ligado sozinho.
Estavam todos concentrados em contemplar a cena horrenda do corpo de seu chefe decapitado pelo rápido fechamento do vidro da janela, que desabou ao chão e ficou imóvel depois de poucos espasmos.
A porta do Fusca, tingida de sangue, abriu, e o horror deles aumentou quando viram sobre o banco a cabeça do sujeito exibindo uma expressão de terror nos olhos arregalados. O líquido vermelho gotejava pingando do assento.


Uma força invisível lançou a cabeça sobre os dois ladrões que estavam ao lado do Fusca. Dois dos que estavam na frente do carro sacaram as armas e atiraram nele enquanto gritavam.
- Mas que merda é essa? Caralho, o que essa coisa fez com o Mané?
Os tiros furaram a lataria do Fusca e estilhaçaram os vidros. Quando as armas ficaram descarregadas, para espanto de todos os seis ainda vivos, os vidros se refizeram após os estilhaços voarem de volta para o carro, e sua lataria fechou os buracos, ficando como nova.
- Olha... olha a placa! NEN 42...
- Que merda você tá falando?
O Fusca acelerava, arrastando um pouco os pneus. Seus faróis brilhavam em um intenso tom de vermelho.
- NEN 4 parece Nena... Tem uma lenda na região sobre uma bruxa chamada Nena, que dirige um Fusca amaldiçoado! Não pode ser...
O Fusca arrancou, avançando contra os dois que haviam atirado. Um deles não teve tempo de correr, e os demais viram como se fosse em câmera lenta o terrível impacto atingi-lo, dobrando-o ao meio e partindo seu crânio sobre o capô do Fusca.
O cadáver escorregou lentamente e caiu ao chão, deixando o capô e o para-brisa cobertos de uma mistura de sangue e miolos.
O impacto atingiu um guincho que segurava um pesado motor de caminhão. O outro bandido que atirara, atônito com a cena horrenda que presenciou, mal teve tempo de olhar para cima antes de ser atingido e esmagado pelo motor.
Restavam outros quatro ali, imobilizados pelo horror e pelo pavor. Uma televisão sobre uma escrivaninha ligou de repente, e movidos por uma força incompreensível eles se voltaram para ela.
Em uma cena em uma prisão, após derrubar outro prisioneiro, um personagem diz aos outros:
- Vocês não entendem. Eu não estou trancado aqui com vocês. Vocês estão trancados aqui comigo!
Os ladrões olharam para o Fusca Azul. O tom vermelho vivo de seus faróis ficou ainda mais intenso, o motor acelerou e o carro amaldiçoado avançou contra eles.

Quem estivesse fora do galpão naquele momento, em meio às luzes minguantes do crepúsculo, teria ouvido gritos aterrorizantes de puro horror e dor, o som de um motor roncando alto e pneus guinchando, e objetos de todos os tamanhos sendo derrubados.
Em segundos tudo ficou em silêncio. Os gritos emudeceram, dando a certeza de não haver mais nada vivo dentro do galpão.
O ruído de motor foi ouvido de novo, e com um impacto as portas do galpão foram abertas. O Fusca Azul saiu e parou, e pouco da tonalidade em sua carroceria era visível, já que em grande parte estava tingida de sangue.
Vidros de janelas e faróis se consertaram, a lataria voltou a ficar alinhada, e o sangue que cobria o carro começou a desaparecer, como se sugado para dentro do metal. Uma mão decepada com somente quatro dedos e outros restos humanos no para-brisa foram varridos para o lado pelos limpadores.
O Fusca saiu lentamente pelo caminho de terra, mas depois de alguns metros parou. A antena instalada à frente da coluna esquerda do para-brisa começou a ser recolhida devagar.
Um olho fincado em sua ponta desceu junto com a antena, e quando esta desapareceu dentro de sua base ele caiu e rolou pelo chão.
O olho ficou observando enquanto o impecável Fusca Azul se afastava pela estrada de terra, suas luzes traseiras logo desaparecendo na noite.

Daniel, Tatiana e Vó Nena voltavam pelo caminho da propriedade, satisfeitos por mais um caso resolvido. O rapaz já ia dar pela falta do Fusca Azul, quando o carro veio devagar e parou diante do portão.
Os três entraram nele, o moço no banco traseiro e as duas na frente. Nena pediu a Tatiana para dirigir.
A jovem vidente, desde a primeira vez que andara naquele carro, sentia coisas terríveis relacionadas a ele. Daquela vez definitivamente havia algo, mas ela notou que a alma penada que o assombrava a impedia de ver tudo.
Vó Nena percebeu, colocou a mão sobre a de Tati, e disse:
- Não se preocupe, filha. Este carro safado sabe muito bem que ai dele se fizer mal a uma pessoa boa. Nem se preocupe com isso, até acho que de vez em quando ele precisa se divertir um pouco. Quem sabe se essa sina dele não faça com que ele preste algum bom serviço, não é mesmo?
Tatiana olhou para ela, sorriu, e virou a chave. Fez o carro dar uma volta e retornaram pela estrada de terra. A viagem de volta para casa terminou sendo bem agradável, ouvindo causos de Vó Nena.

Vó Nena e os Caçadores retornarão.


Espero que tenham gostado deste conto de terror! Se quiserem saber mais a respeito do universo de Vó Nena e os Caçadores confiram pelas tags abaixo. E claro, leiam como tudo começou com o carro mais assombrado do Brasil em VÓ NENA E OS CAÇADORES: O FUSCA AZUL.


Apesar da situação geral, essas últimas semanas foram muito movimentadas! Vó Nena e seu Fusca Azul ainda tomaram parte de outro projeto, unindo arte em forma de ilustrações e contos, no magnífico site Contos de Vampiros e Terror, iniciativa dos amigos Adriano Siqueira e Maria Dutra. Cliquem aqui para conferir!

E a maior novidade sem dúvida é a Coleção Fênix de Literatura Fantástica! Iniciativa de Richard Diegues, que foi meu editor nos bons tempos da Tarja Editorial, o projeto se destina a produzir e-books gratuitos, repetindo, GRATUITOS, para incentivar a leitura nestes tempos difíceis que atravessamos. Exatamente o que sempre foi o objetivo deste Escritor com R!

Confira a página da Coleção Fênix no Facebook, e os e-books podem ser baixados (de novo, gratuitamente), clicando aqui ou então na Amazon, onde já estão disponíveis o Volume 1, Volume 2 e o Volume 3.



Lá no Corujice Literária temos publicado muitas resenhas, e ainda uma série especial de entrevistas com vários quadrinistas, confira que está muito legal!

Não deixe de acompanhar essas e outras novidades no nosso Instagram.

Até a próxima!

UPDATE! Já saiu o Volume 6 da Coleção Fênix, com minha segunda participação no projeto. Confira esse e os volumes anteriores clicando aqui.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

MENSAGENS DA LISTA


De: Jade
Para: A LISTA
Assunto: A doença que veio da China

Amigos e colegas, aconteceu! Não adiantaram protestos, alertas, nem muito menos serviram de aviso contra as epidemias e pandemias anteriores.
Uma nova ameaça surgiu, um vírus que ataca o sistema respiratório e se dissemina com velocidade impressionante.
Como aconteceu nas ocasiões anteriores, o governo totalitário da China acobertou e tentou impedir a divulgação de informações sobre o surto em seu território, contando com a cumplicidade da Organização Mundial de Saúde. O resultado é que, cinco meses depois, a quarentena forçada de boa parte da população mundial não tem data marcada para terminar.
Dois milhões já morreram em meu mundo, e os hospitais estão sobrecarregados. Mas não é esse o principal problema.
O problema é que a China usou, evidentemente, da brutalidade própria de uma ditadura para manter as pessoas em casa, e seus métodos têm sido mais e mais copiados pelo restante do mundo.
Quando a doença se tornou um problema insolúvel de saúde pública em seu país de origem, os chineses puseram os militares na rua, atirando nas pessoas que saíam de casa.
Mas em países mais desenvolvidos as coisas foram muito diferentes. Afinal, nos tornaram dependentes de celulares, cuja função de geolocalização não pode ser desligada. E para quê arriscar a saúde de soldados quando se possui drones armados?
O pior mesmo foram aqueles que sempre alegaram defender a democracia e serem “antifascistas”, e que aplaudiram tais determinações de vários governos. É impressionante a quantidade de gente, tanto aqui quanto nos mundos dos colegas da Lista, que acreditam que é benéfico, diante de certas circunstâncias, abrir mão de direitos ou de alguma liberdade.
Ou mesmo de toda liberdade.
Pois se todos estão sendo monitorados, por que não se aproveitar disso e manter vigilância cerrada contra adversários? Críticos do regime? Artistas que se recusam a ajoelhar-se diante dos donos transitórios do poder?
As notícias sobre estranhos desaparecimentos de opositores, dissidentes e artistas independentes só aumentam. Isso quando circulam, claro, pois com todos em casa usando a internet, lentidão na rede e eventuais quedas se tornaram comuns, facilitando o controle.
Ainda mais com tanta gente se dizendo “a favor da vida” e disposta a controlar a vida dos vizinhos, denunciando qualquer um que não respeite as regras.
A liberdade e a democracia, por vezes, morrem debaixo de aplausos. Estou a cada dia mais apavorada, não com o vírus mas com as pessoas.


De: Elton
Para: A LISTA
Assunto: Re: A doença que veio da China

Isso é de verdade? Mesmo?
Vocês estão, cada um de vocês, em uma dimensão paralela diferente da minha?
Isso... isso... Nem sei o que dizer! Faz meses que não tenho contato com um ser humano!
Estou abrigado em um antigo bunker, construído na época da última guerra. Na minha última saída em busca de comida, não vi qualquer outra pessoa. A pequena cidade do interior na qual estou também foi atingida pela doença.
O mundo inteiro, meu mundo inteiro, foi.
Este bunker foi transformado em uma biblioteca, e eu era um dos bibliotecários. Os livros, milhares deles, têm sido minha companhia por esses meses que estou aqui.
Comecei a anotar os dias e montar um calendário em papel, com medo de que a energia acabe. No meu mundo as máquinas operam automaticamente, o que tem permitido que nos comunicássemos nos últimos tempos, quando eu ainda conseguia falar com os outros.
Devo estar aqui há quase um ano, saindo somente quando a comida se aproxima do final. E tenho sido obrigado a caminhar cada vez para mais longe para encontrar meios de sobreviver.
Aqui o desastre global teve início de forma muito parecida com o que Jade comentou. A diferença é que medidas autoritárias foram implementadas mais depressa, pois o vírus se espalhava com maior velocidade. O primeiro surto global da pandemia passou depressa, mas em um mês outro teve início, e o ciclo se repetiu depois.
Foi a partir do terceiro e último surto que decidi me refugiar na biblioteca, pois a violência e os saques se tornavam piores a cada dia. Boatos de que o vírus, nessa fase, desencadeava comportamento violento provocaram pânico e todos queriam se armar.
Faz dois meses que não tenho qualquer contato com alguém. Sites de notícias estão desatualizados ou fora do ar. Não achei qualquer comentário novo nas redes sociais ao longo de todo esse tempo.
Até surgir A Lista. Ler suas mensagens e trocar informações com vocês tem sido um alento em minha solidão.

De: Kai Jaho
Para: A LISTA
Assunto: Re: A doença que veio da China
Anexo: Vídeo Manifesto de Kai Jaho

Meus amigos, tenho participado muito da Lista, e quero agradecer a todos vocês por todo esse tempo de convivência.
Como sabem, além de escritor nas horas vagas, sou biólogo e virologista. O que ainda não lhes havia revelado é minha participação no programa de armas biológicas da China, meu país.
Mal posso começar a descrever a vocês o controle estrito aplicado por nosso governo contra a sociedade. Muitos dos amigos de outras realidades descreveram situações bem similares. É sufocante, assustador, aterrorizante.
Por meio de minha ficção, eu conseguia me libertar um pouco. E, como alto funcionário governamental, ainda gozo de um fiapo de liberdade a mais que meus concidadãos.
O que faço? Trabalho no programa chinês de armas biológicas. Coisa que me enche de vergonha, transformar a ciência que aprendi em arma. Mas das pouquíssimas liberdades de que desfrutamos, recusar o chamado de auxiliar no desenvolvimento dessas armas obscenas, quando se é brilhante na área, não é uma delas.
Aqui, assim como em muitos outros mundos conforme as descrições dos colegas da Lista, igualmente aconteceu uma pandemia. Evidentemente meu governo chinês também acobertou por todo tempo quanto foi possível, permitindo como resultado que o mundo fosse atingido pelo vírus.
Colegas médicos, como meu querido amigo Li Wenliang, foram censurados por seu desejo de alertar a comunidade internacional. E meu amigo pagou o preço final, sendo deixado para morrer quando contraiu a doença. Claro que todos nós, experts em biologia e virologia, fomos chamados para combater a ameaça quando esta se mostrou séria.


Além disso, como funcionário de um programa bélico estratégico, a filiação ao Partido Comunista é obrigatória. E nesse meio, entre as discussões sobre a epidemia que já se espalhava além de nossas fronteiras, surgiram as primeiras sugestões de como transformar esse desastre em algo favorável para a China. Os resultados... bem, os amigos estão descrevendo em suas mensagens, e em meu mundo, em graus variados de similaridade, muitos desses fatos se desenrolaram da mesma forma.
Amo meu país. Amo meu povo, minha família e amigos. Mas não posso mais tolerar que essa mentalidade prossiga. Prejudicar o restante do mundo em nosso benefício é intolerável, e sinto uma vergonha imensa por isso. Os protestos contra a China se intensificam, e afirmo com toda convicção que são absolutamente justificados.
Isso não pode ficar sem punição. E não ficará.
O Congresso do Partido Comunista está se aproximando, estou em um hotel em Pequim, e devo sair em instantes para participar. Comigo levo uma cápsula da mais mortífera bactéria já desenvolvida por nossa engenharia genética, apelidada de “devoradora de carne”, com grau de letalidade e velocidade de propagação que não ouso comentar com vocês.
Depois que eu ingerir a cápsula, quando estivermos todos reunidos no Congresso, será questão de minutos. A ação da bactéria será rápida, e ela atacará boa parte de Pequim. Colegas meus estão preparados para fazer o mesmo, em várias cidades importantes, caso o governo chinês não concorde em assumir sua integral responsabilidade neste desastre.
Conforme afirmo no vídeo que em breve será espalhado pela internet, faço isso por vergonha das ações de meu governo. Um governo que em suas ações de autêntico terrorismo mostrou ser uma ameaça para o mundo. Esta ameaça acabará hoje.
Muito obrigado, meus amigos, e adeus.

De: Daniel
Para: A LISTA
Assunto: Re: A doença que veio da China

Kai, lamento muitíssimo sua partida, e torço para que seu sacrifício não seja em vão!
Em minha realidade a disseminação do vírus foi rápida, a pandemia afetou todos os países e a China, detendo o monopólio de equipamentos, produtos e remédios contra a doença, prosperou enquanto o restante do mundo penava.
Adquiriram empresas, aumentaram sua influência global até governos começarem a implementar seus métodos de controle totalitário sobre a sociedade.
Alguns resistiram, como Estados Unidos e Grã-Bretanha, além de focos em vários outros países.
Meu Brasil, infelizmente, foi uma das nações que não se livrou do aumento da influência chinesa, da censura e do totalitarismo.
Já são quatro anos vivendo, ou melhor, sobrevivendo assim.
Mas o progresso e o dinheiro deixaram o governo chinês arrogante. Compram tudo e todo mundo, até seu próprio povo, mas deixaram de lado o desenvolvimento científico que possibilitou esse progresso.
A astronomia foi uma das baixas nesse período insano. Mas nós, aqui fora, continuamos trabalhando. E, se não conseguimos fazê-los pagar pelo que fizeram, ao menos poderemos vingar aqueles que eles, na prática, mataram.


Todos perdemos alguém. Muitas vezes mais de um ente querido.
Uma missão, anunciada como científica, foi lançada cerca de dois meses atrás. Mas o contato foi interrompido horas depois do lançamento. Isso foi o que anunciamos, claro.
As pequenas sondas se comportaram exatamente como previsto. Encontraram o asteroide 14MAR2020 na posição prevista, pousaram em sua superfície firmando-se bem, e acionaram seus propulsores.
Trata-se de uma rocha espacial de cerca de 300 metros de extensão no lado maior. E feita quase inteiramente de ferro.
Conhecido há um bom tempo, é um dos muitos corpos que se aproximam da Terra periodicamente. E que nesta ocasião é invisível na porção oriental do planeta, pela aproximação máxima se dar no lado diurno de nosso mundo.
Dois meses de manobras para tirar o asteroide de sua órbita.
E fazê-lo rumar para Pequim, no preciso dia do Congresso do Partido Comunista.
Uma rede de astrônomos amadores ao redor do mundo, claro, observou o estranho comportamento do asteroide. Mas a maioria deles também perdeu pessoas para essa doença maldita. E por isso nada disseram quando fizemos circular as notícias.
Até Estados Unidos e Grã-Bretanha estão nos ajudando.
O asteroide está entrando na atmosfera enquanto digito estas apressadas linhas para vocês.

De: Mariy
Para: A LISTA
Assunto: Re: A doença que veio da China

Falar com meus amigos da Lista tem sido um alento nestes tempos. Meu mundo, da mesma forma que os de vocês, foi atingido pela pandemia vinda da China.
Estamos há quatro meses em confinamento, saindo somente para comprar o que é estritamente necessário. Passo os dias com medo, e escrevo nos momentos de folga para fugir um pouco desta realidade.
Publico meus textos em um blog e nas redes sociais, mas também aqui, como muitos de vocês descreveram, governos têm seguido o exemplo totalitário das ditaduras. Vários de meus escritos foram apagados, e sequer se pode escrever “China” com conotação negativa para também sofrer censura.


Um amigo meu, forte crítico do comportamento do governo chinês, chegou a ser banido da internet por um mês. Imaginem, todos obrigados a ficar em quarentena, e ele um mês incomunicável! De nossa turma fazia parte um hacker, e ele conseguiu elaborar perfis falsos para aquele amigo manter-se conectado.
Mas até isso o governo está combatendo. Alegando defender a sociedade contra “fake news” e boatos, investiram uma quantia considerável para contratar hackers a fim de rastrear, localizar e identificar quem pratica o que consideram ilegalidades. Dinheiro que poderia ir para a saúde gasto para nos censurar!
Estamos criando uma rede social livre, mas dois protótipos já foram neutralizados pelos agentes cibernéticos.
Nas ruas, então, a situação está cada dia pior. Vigilância por meio de localização de celulares, drones patrulhando as cidades, eles se preocupam mais em tolher nossa liberdade do que investir em uma cura, ou em melhoras para hospitais.

De: Samanta
Para: A LISTA
Assunto: Re: A doença que veio da China

De todas as consequências dessa pandemia que os colegas descreveram, não vi ainda uma sequer que se compare a do meu mundo.
A doença se alastrou a partir da China, como nas realidades de vocês. Medo, morte e desespero faziam parte de nossas vidas, enquanto enclausurados em casa esperávamos por uma cura.
A pandemia, por incrível que pareça, desapareceu depois de poucos meses. Mas algo pior, muito pior, surgiu.
Também a partir da China, chegaram relatos para os quais custamos a dar crédito. Os comunistas sempre foram mestres na arte das mentiras contadas como se fossem verdade, ou notícia. Mas logo fontes independentes confirmaram os boatos.
Primeiro Wuhan, e depois Xangai, foram devastadas por ataques inexplicáveis. Sombras imensas apareciam nos poucos vídeos que vazaram, pois o governo chinês, mais uma vez, tentou de todas as formas acobertar o fato.
Correspondentes internacionais em Pequim e nas proximidades relataram impressionantes movimentações militares, e na periferia da cidade sombras colossais, contra os quais os tanques disparavam, foram avistadas.


Já havia sido descoberto que o vírus fora resultado de uma mutação, e que atacava animais também. Insetos, répteis e moluscos eram os mais suscetíveis.
O que eles tanto tentaram esconder, muito mais do que o vírus, o mundo tomou conhecimento de forma absolutamente brutal. Seres colossais, derivados de seus parentes menores das classes mencionadas, passaram a percorrer a China devastando tudo.
Só posso dizer que quem teve familiares perdidos por causa do vírus, cuja pandemia poderia ter sido evitada não fosse o acobertamento pelo governo chinês, não ficou tão triste pelo ataque dos insetos monstruosos.
Quanto mais os militares chineses matavam os monstros, mais destes surgiam. Lagartos gigantescos lutavam contra imensas aranhas nas cercanias das maiores bases da Marinha chinesa, e eles decidiram enviar todos os seus navios de guerra para o mar. Porém foram todos dizimados por colossais cefalópodes que os encontraram.
Outros navios foram atacados no Pacífico, e agora o mundo inteiro tenta formar uma coalização para tentar combater essa ameaça. A China entrou em total colapso, não se sabe mais quem está no governo, se é que algum membro deste sobreviveu, e há um temor muito forte quanto a seu arsenal nuclear.
Lembro bem quando, anos atrás, alguns mundos de membros da Lista foram atacados por criaturas gigantescas. Será que algum desses colegas pode se manifestar e apresentar sugestões?

De: Elton
Para: A LISTA
Assunto: Re: A doença que veio da China

Ainda estou abismado com tudo isso! Outras realidades, outros universos!
Como isso acontece? Como suas mensagens, fotos, vídeos e arquivos chegam até meu computador? Não há absolutamente nada diferente nele! Já li mensagens falando de um Moderador.
Quem é ele? O que quer? Além da troca de informações e experiências, o que mais pretende conseguir com esse contato entre universos?
Desculpem a demora em responder. Fui fazer a ronda no bunker, e o tamanho dele é considerável.
Adquiri o hábito de ler clássicos do terror, pois chegam a me confortar nestes tempos sombrios. Não consigo acreditar que estou totalmente sozinho aqui?
Nada, nenhuma notícia do mundo exterior tem chegado. E como disse antes, faz tempo que não vejo mais ninguém.
Em minha ronda pensei ter ouvido ruídos no portão dianteiro. Algo como batidas. Ou posso estar somente impressionado com suas histórias. E os livros que tenho lido.
O que foi isso?
Parece que vi movimento!
Tenho algumas câmeras ligadas ao computador, focalizando vários pontos da área externa. Acho que vi alguma coisa se movendo.
Não, deve ser minha imaginação.
Estou chocado com as notícias de seus mundos! Guerra, mortes, tanto medo, tanta desgraça! Será por isso que existe a Lista? Para nos confortarmos?
De novo! Agora tenho certeza! Barulho na parte externa, no portão da frente!
Amigos, preciso ir. Há saídas secundárias, e caminhos que posso percorrer sem ser visto, se é que existe algo lá fora que possa me ver.
Estou com muito medo, mas não tenho escolha. A comida está no fim mesmo, preciso sair.
Torçam por mim.

De: Zhi Tao
Para: A LISTA
Assunto: Re: A doença que veio da China

Olá, amigos da Lista. Sou a substituta de Kai Jaho, pois como devem ter antevisto, pela última mensagem dele e pelo vídeo que enviou, o plano custou sua vida, mas funcionou como previsto.
Ele ingeriu a cápsula e minutos depois, em meio à reunião do Partido Comunista, seus efeitos se instalaram. As bactérias se espalharam com rapidez, mesmo em meio ao pânico, com os membros correndo para tentar escapar, e todos no anfiteatro estavam mortos em questão de minutos.


Aqueles que conseguiram sair contaminaram militares e oficiais de segurança, além de outros funcionários na parte externa do anfiteatro. Ao final boa parte do centro de Pequim foi devastada, e o vídeo de Kai circulou sem controle pela internet. A alta cúpula militar, presente ao evento, foi igualmente exterminada, e militares de ranking mais baixo não souberam o que fazer, apesar de alguns, alegando se tratar de ataque estrangeiro, ameaçarem com uma retaliação nuclear.
As potências de meu mundo ameaçaram então com uma resposta devastadora, e diante dos fatos revelados no vídeo de Kai, estão obrigando a China a pagar reparações pelo que fez ao mundo.
Enquanto isso associados nossos continuam de plantão, anônimos e dispostos ao auto sacrifício, nas mais importantes cidades. O perigo ainda não passou, mas tenho esperança que o sacrifício de Kai Jaho não será em vão.

De: Ariel
Para: A LISTA
Assunto: Re: A doença que veio da China

Colegas da Lista, meu mundo também foi atingido pela doença, e também existe a certeza, embora alguns não a reconheçam, de que foi uma tramoia dos malditos comunistas. Muitos são contra uma retaliação, alegando interesses políticos e econômicos.
Em minha realidade a pandemia já dá sinais de diminuição na velocidade do contágio, e agora o mundo começa a sentir os efeitos da dura recessão que já se instala. Milhões de desempregados, poupanças de toda uma vida esgotadas, desespero total. Enquanto isso a China, com o monopólio de alguns dos produtos necessários para uso nos hospitais, ainda cresce.
Vozes falam de guerra, ao menos de sanções e reparação, mas são rapidamente caladas. Os políticos no Ocidente prosseguem com sua covardia disfarçada de pragmatismo.
Eu e muitos colegas cansamos disso.
Trabalhei muito tempo em um programa secreto de armas orbitais, chamado por alguns de Varas de Deus, mas entre nós conhecido como Lanças do Destino.


São lanças de tungstênio, extremamente densas e resistentes, de cerca de seis metros de comprimento e 20 cm de diâmetro. Tanto elas quanto o satélite que as abriga são cobertos por tinta refletora de ondas de radar, e fortemente protegidos do infravermelho. Conseguimos suplantar os programas de segurança, e o estamos acionando agora.
O satélite orbita a quase 1.000 km de distância da superfície terrestre. Impulsionadas a foguete, as lanças literalmente caem verticalmente, em velocidade hipersônica, e o impacto causa uma devastação comparável a uma arma nuclear de potência média.
Acabo de receber a confirmação, as primeiras já foram lançadas. Os chineses terão de volta o prejuízo e a dor que causaram ao restante do mundo.

De: Otávio
Para: A LISTA
Assunto: Re: A doença que veio da China

Onde está mesmo aquela outra, tão preocupada com o meio ambiente?
Por onde anda a Greta Thunberg, mesmo?
Eu posso responder, já que nenhum dos colegas descreveu se seus duplos, que algum tempo atrás pareciam se alastrar em outras realidades como uma praga, reclamou que a China “roubou seus sonhos”.
Aqui, durante a pandemia, como imagino que tenha acontecido nas realidades dos amigos, o meio ambiente mostrou uma melhora considerável. A poluição diminuiu a níveis de muitas décadas atrás, a vida animal se recuperou e até mesmo espécies extintas deixaram a lista de formas de vida ameaçadas.
Mesmo os cientistas estão surpresos com a forma como o planeta se recuperou, diante da quarentena forçada da raça humana.
Com a descoberta de uma vacina e o final do confinamento, todos voltamos a dar duro no trabalho, pois a recessão e penúria econômica são uma realidade triste agora. Mas a calmaria não durou para sempre.
Ataques terroristas coordenados passaram a ocorrer, ceifando vidas em várias cidades pelo mundo, especialmente em locais ocupados por instituições financeiras e órgãos públicos. Após uma semana repleta desses assassinatos em massa, eis que um vídeo começou a circular.
Achei que os absurdos relatados na troca de mensagens dos amigos sobre Greta Thunberg seriam algo do qual estaríamos livres aqui. Como me enganei!


Pois sua duplo, em meu mundo, ocupou boa parte dos noticiários dizendo que estava liderando os ataques para proteger o mundo da “praga humana”, como a chamou.
Naturalmente todos os governos, aqueles civilizados bem entendido, se lançaram à caça dela e de seus comparsas. Infelizmente sua lábia, ou melhor dizendo a habilidade dos que escrevem seus discursos, é muito envolvente, e mais e mais pessoas acabam convencidas disso.
Guerra civil, pura e simples, já explode em vários países. Não tenho como descrever o absurdo que é a atitude desses “defensores do planeta” que conseguem argumentar a favor de assassinato em massa em nome de sua “causa”. Está difícil escrever ficção, quando a realidade já mostra algo tão inacreditável assim.

De: Jair
Para: A LISTA
Assunto: Re: A doença que veio da China

Caro Otávio e amigos, a recessão, como descreveram, chegou forte e devastadora a meu mundo, e ainda estamos em meio à pandemia. A guerra civil, ao que parece, também já eclodiu aqui em meu Brasil.
O estopim não foi nenhum acontecimento de alcance global como os que descreveram. Foi algo ao qual até já estávamos acostumados aqui, como a população de muitos outros Brasis dos amigos também está. Falo da exploração a qual a sociedade é submetida pelos “donos do poder”, e que chegou a níveis absolutamente doentios aqui.
O ápice se deu há três dias. O irmão mais velho do ministro do Supremo Tribunal Federal Sandro Mayarovsky foi acometido pelo vírus e deu entrada na emergência do principal hospital do Rio de Janeiro. Todos os leitos de UTI e respiradores já estavam ocupados por vítimas do vírus, porém Mayarovsky emitiu uma medida cautelar ordenando que os médicos internassem seu irmão no leito de um paciente que tivesse poucas chances de recuperação.
Os médicos do hospital se recusaram terminantemente, claro, mas o juiz não se deu por vencido, mandou que agentes federais, sob o comando de um delegado velho amigo seu, obrigassem os médicos sob mira de armas a tirar do leito uma mulher que apontaram a esmo.
O irmão do juiz foi colocado ali, e a mulher morreu poucas horas depois. O nome dela era Helen Abreu, era uma professora e muito conhecida por ter protegido seus alunos de um assalto sofrido por sua escola.
Esse fato foi a gota d´água para a população.
O condomínio de luxo onde morava Mayarovsky foi invadido, ele foi arrancado de casa por uma turba enfurecida e linchado no meio da rua ali mesmo. Outros ministros do STF, aqueles alinhados com ele, estão sendo caçados pela população em várias cidades, e os tumultos estão crescendo em todo o país. Vários congressistas que foram contrários ao uso de suas verbas públicas de propaganda eleitoral estão aparecendo mortos e também linchados.
O exército está nas ruas, muitos soldados estão mudando de lado e lutando ao lado da população. Não se faz a menor ideia de para onde isso vai.

De: Judith
Para: A LISTA
Assunto: Re: A doença que veio da China

Otávio e amigos da Lista, já digo onde isso vai parar. A guerra civil já chegou aqui.
A recessão econômica ainda durante a pandemia tornou ainda mais escandalosos os privilégios dos políticos, juízes e funcionários públicos.
A câmara de deputados de São Paulo aumentou os próprios salários. Isso foi o estopim. A população só poupou aqueles que votaram contra a medida. Os corpos daqueles que aprovaram o abuso foram estendidos diante do prédio da câmara.
Lá em Brasília os tumultos começaram já violentos. O presidente do Senado, Eduardo Barnardes, que se manifestou várias vezes contra o uso da verba do fundo eleitoral no combate à epidemia, foi assassinado em casa, e seu corpo arrastado pelas ruas. O presidente da Câmara, Sergio Novais, que repetidamente afirmou que o fundo eleitoral era “essencial para manter a democracia”, foi encontrado no próprio Congresso, espancado e depois empalado diante do prédio.


O presidente do Supremo Tribunal Federal, Enzo Tavares, que deu seguidas declarações sobre a necessidade de manter as altas despesas, salários e privilégios dos juízes como forma de “garantir a harmonia entre os poderes e o bom funcionamento da justiça”, foi linchado e seu corpo colocado diante da estátua da Justiça, na frente do STF.
A população enlouquecida está caçando todo político, juiz ou pilantra privilegiado do setor público para fazer justiça com as próprias mãos. Não me alegro com tamanha violência, e um “mas” é a pior palavra que se pode acrescentar agora. Mas eles poderiam ter feito a parte deles, e preferiam se mantiver como uma classe à parte.

De: Célio
Para: A LISTA
Assunto: Re: A doença que veio da China

Meus amigos, estou horrorizado com os fatos que descrevem. É estarrecedor constatar como eventos como esses parecem transcorrer de forma quase simultânea em muitas das paralelas. Seria essa uma lei do Multiverso que ainda não conhecemos?
Seria a descoberta dessas leis que regem a totalidade da Realidade um dos objetivos do Moderador e da própria Lista?
Pois em meu mundo uma epidemia igualmente grassou, e foi particularmente devastadora. A mortandade entre a população das grandes cidades foi terrível, e ver corpos largados nas ruas, nas fotos ou vídeos da TV e internet, absolutamente chocante.
Aqui, como em outras realidades, aqueles pequenos candidatos a ditador de sempre se aproveitaram da situação para tentar implementar políticas totalitárias de controle.
Houve violência, houve caos.
Muitas ruas ainda estão tomadas por corpos.
Mas estamos sobrevivendo. Muitos governos centrais foram dizimados pela pandemia, e o comando em muitos países, incluindo o Brasil, recaiu sobre uma coalizão de líderes de pequenas cidades.
Limpar ou não as grandes cidades para uso futuro não tem sido a prioridade. Agora o importante é garantir nossa sobrevivência, e enviamos nossos emissários para as metrópoles apenas para trazerem de volta o que é absolutamente necessário para reconstruirmos.
Os benefícios do controle das pequenas comunidades parece que está se tornando mais e mais evidente, inclusive mundialmente. Uma maior e mais ampla cooperação está se estabelecendo, em níveis inimagináveis antes da pandemia.
O vírus, ao menos, teve esse benefício. Ele levou embora maus líderes, que faziam a guerra ou nunca se preocuparam com a humanidade como um todo.
Inevitáveis disputas e desavenças surgem, mas diante do estado de penúria global deixado pela pandemia, acredito que estamos nos saindo bem. As notícias sobre pessoas passando fome diminuíram consideravelmente nas últimas semanas.
Escritores como eu estão cada vez mais celebrados, pois nossas obras têm auxiliado as pessoas nestes tempos difíceis, mostrando mundos melhores, sonhos que valem a pena sonhar.
Continuo preocupado, e mandando os melhores votos a todos os colegas da Lista, para que também encontrem um caminho para reconstruir e viver em paz.
E alguém tem notícias do Elton?

A Lista retornará.


Gostaram de mais essa série de As Mensagens dA Lista, o spinoff de seu Multiverso preferido? Manifestei aí um dos melhores lados de ser um escritor, os entendidos entenderão.

Nos acompanhem: @renatoa.azevedo, @mlzotarelli e @corujiceliteraria.

A Lista tem outras histórias neste blog, os marcadores abaixo estão aí para serem usados. E não deixem de conferir os ebooks disponíveis:



Até a próxima!

segunda-feira, 16 de março de 2020

GENÉSIO - JUSTICEIRO DO SERTÃO - Trailer 1

CENA 1 – EXT/DIA
Página de um jornal, pode-se ler a manchete CORONEL ALAOR NEGA QUE OBRIGUE SEUS COLONOS A CEDER SUAS FILHAS MAIS BONITAS PARA QUE LHE SIRVAM.

CENA 2 TELA PRETA

CORONEL ALAOR (V.O.)
Mas o que é isso!? O que tá acontecendo?

CENA 3 – INT/NOITE
A PERNA do CORONEL ALAOR, cerca de 60 anos de idade, está algemada a um cano grosso de metal instalado no chão. Montes de feno ao lado. Alaor tenta com a mão livrar o pé da algema, sem sucesso.

CENA 4 – TELA PRETA
LETTERING: Por anos, os coronéis mandaram e desmandaram no povo do sertão.


CENA 5 – INT/NOITE
Um galpão cheio de feno e velhos instrumentos agrícolas. Alaor está sentado no chão com o pé algemado ao cano de metal. GENÉSIO, cerca de 30 anos, espalha líquido inflamável pelo lugar. Apanha algo do chão e joga para Alaor, é uma SERRA.

Genésio apanha um isqueiro, o acende e joga no feno encharcado. Imediatamente o fogo começa a se espalhar.

CENA 6 – EXT/NOITE
Genésio observa o galpão sendo tomado pelo fogo. Gritos terríveis são ouvidos em meio ao incêndio.

CENA 7 – TELA PRETA
LETTERING: Mas da crueldade deles surgiu seu pior inimigo.

CENA 8 – EXT/DIA
FADE IN. Beira de um rio, as águas correm, e na margem está sentado GENÉSIO, 12 anos. Genésio tem um livro de cordel nas mãos, que lê em voz alta.

GENÉSIO
Assim é como conto
Do cangaço esse foi o fim
Mas a memória permanece
Da justiça feita assim
Por Lampião herói do sertão
Conforme vista por mim.

CENA 9 – EXT/NOITE
MARIA RITA, 18 anos de idade, anda e entra em uma viela na lateral de uma boate, olhando para todos os lados procurando. Uma mão forte segura seu braço, ela se volta assustada e se depara com GENÉSIO, 19 anos.

GENÉSIO
Isso não é vida de moça de respeito.

MARIA RITA
Faz tempo que quase ninguém nessa cidade sabe o que é respeito, Genésio. E isso foi o melhor que consegui, acha que eu quis essa vida?

CENA 10 – INT/NOITE
A casa onde funciona a boate tem três andares, e no último Maria Rita mora em um pequeno quarto. Maria Rita traz Genésio pela mão, eles entram e Maria Rita tranca a porta.

MARIA RITA
Você não vai dizer nada, Genésio?

Genésio fica mais alguns instantes em silêncio. Depois se aproxima, abraça Maria Rita, e a beija. Eles se beijam forte, como dois apaixonados, se aproximam da cama e deitam nela, sem parar de se beijar. FADE OUT.

CENA 11
Manchete de jornal: QUEM É GENÉSIO, O MATADOR DE CORONÉIS?


CENA 12 – INT/DIA
TEODORO, 75 anos, come um bolo de fubá e mantém ANA, 13 anos, sentada em seu colo. Ana escreve no caderno onde Teodoro aponta. A expressão de Ana é um misto de ódio e nojo.

CENA 13 – TELA PRETA
LETTERING: Uma história de vingança

CENA 14 – EXT/DIA
Crianças chegam correndo à escola, uma antiga sede de fazenda com uma grande escadaria na frente, SOFIA, 26 anos, está em pé ao lado da escada. Depois que todas as crianças entraram Sofia sobe dois degraus, para e olha para trás. Genésio está parado com uma pequena bagagem ao lado de um carro. Sofia dá um sorriso melancólico e anda até Genésio. Eles ficam um diante do outro, se olhando.

Genésio toca a aba do chapéu como cumprimento, coloca sua bagagem no carro, e se vira para contornar o veículo.

SOFIA
Genésio!

Genésio se vira, Sofia corre até ele e o abraça, eles se beijam ardentemente. Eles se olham longamente, ainda abraçados, se beijam.

CENA 15 – EXT/DIA
Um pequeno caminho de terra muito arborizado tem uma bica em sua margem. Ana chega à bica, e Genésio a espera. Ana olha para Genésio por um momento, e bebe água.

GENÉSIO
Até quando você vai ficar fazendo isso?

ANA
Eu visito o Coronel Teodoro prá ajudar minha mãe. Ele dá dinheiro prá gente por causa disso.

CENA 16 – TELA PRETA
LETTERING: Que forjou um herói e uma lenda.

CENA 17 – EXT/DIA
Ana e Genésio são vistos ao lado da mesma bica. Ana olha para Genésio.

ANA
Ele vai sofrer?

GENÉSIO
(Mostrando um leve sorriso no canto da boca)
Ah, vai!

CENA 18 – TELA PRETA

CORONEL ALAOR (V.O.)
Que porcaria é essa? Quem é você, cabra?

CENA 19 – INT/NOITE
Interior do galpão cheio de feno e velhos instrumentos agrícolas. 

GENÉSIO
Meu nome é Genésio.

CENA 20 – TELA PRETA
LETTERING: GENÉSIO – JUSTICEIRO DO SERTÃO. Um roteiro de Renato A. Azevedo – breve nos cinemas.


Tenho o grande prazer de apresentar aos leitores o primeiro trailer de meu primeiro roteiro cinematográfico. A ideia partiu de um curta-metragem escrito por mim durante o curso de Oficina de Roteiro no Senac Largo Treze, cuja primeira turma em 2013 teve minha participação.

Deixo aqui os maiores agradecimentos ao professor Vinicius Del Ry Menezes por seu apoio imprescindível.

Continuem seguindo pelo Instagram para as novidades: @renatoa.azevedo.

Até a próxima!

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

MENSAGENS DA LISTA



De: Ivan
Para: A LISTA
Assunto: Re: “Lugar de fala”, censura e fascismo na cultura

Tenho percebido que, por uma estranha coincidência, muitas das realidades dos colegas foram assoladas pelo desastroso governo de Laércio Inácio. Impressionante como em nenhuma das alternativas ele fez o que se considera um bom governo, pelo contrário sempre rumando para a pura e simples cleptocracia e tentativas de instaurar um regime totalitário.
Fico assombrado em constatar o número de vezes, em vários dos universos dos colegas, em que ele e sua quadrilha conseguiram.
Em meu mundo, infelizmente, os desmandos continuam, sob a desculpa comum também a muitas das realidades representadas aqui nA Lista. Estamos no quarto governo do regime, agora comandado pela presidente Nargila Espinosa, que tem reforçado ainda mais a intromissão da famigerada Culturalbrás em todos o setores da produção cultural.
Tudo, absolutamente tudo, peças teatrais em colégios infantis, blogs literários, livros, filmes, músicas, absolutamente tudo deve ser enviado primeiro para a Culturalbrás, que se tornou a maior estatal do meu país.
Eles têm agentes e revisores para todos os assuntos. Analisam se a participação de personagens de variados gêneros é equilibrada, se os vilões são adequadamente punidos ao final... e desnecessário dizer, é impensável que o vilão seja negro, homossexual ou de qualquer outra das classes “tradicionalmente oprimidas”, como eles gostam de colocar.
Após uma caçada verdadeiramente assassina por livros e autores de quadrinhos ou livros de fantasia, ficção científica, ou outros gêneros que eles consideram “não suficientemente brasileiros”, alguma pressão popular conseguiu fazer com que recuassem parcialmente, mas as obras de autores clássicos como Verne, Asimov, Clarke, Tolkien, Howard e outros ainda são proibidas. É uma péssima ideia ser apanhado com um exemplar de qualquer um desses autores.
Quanto a esse tal de “lugar de fala”, o que muitos dos colegas descreveram aconteceu aqui. Verne foi proscrito por ter escrito sobre os nativos africanos. Asimov, claro, mostrou um “preconceito arrogante” com seu Império Galáctico no qual o centro da galáxia é desenvolvido, mas sua periferia quase relegada a segundo plano.
As justificativas para seu banimento seriam risíveis, se não fossem trágicas.
O caso de Lovecraft, então, é o melhor de todos, e por incrível que pareça, alegando “perseguição cultural-religiosa”, um grupo de autores conseguiu sua liberação com base na “Lei de Absoluta e Ampla Convivência Religiosa”. Tenho orgulho de ter participado dessa iniciativa, que resultou no maior golpe já sofrido por esses ditadores malditos. Na próxima mensagem descreverei como foi.
Até breve.

De: Rafaela Horta
Para: A LISTA
Assunto: Re: “Lugar de fala”, censura e fascismo na cultura

“Lugar de fala”. Quando penso na quantidade de asneiras que esses imbecis, tarados pela censura, já inventaram para tentar nos calar, às vezes me arrependo de ter abandonado a guerrilha não declarada.
Caro Ivan e amigos, devem se lembrar como era meu mundo, meu Brasil. Uma brutal perseguição ao público LGBT, minha namorada Sarah foi brutalmente violentada, meu amigo Henrique assassinado por uma gangue da qual o líder era filho de político.
De novo, como em muitos dos Brasis dos amigos, a justiça para quem tem dinheiro e influência é postergada. Estava a ponto de me unir a grupos de outros como eu, dispostos a responder fogo com fogo. Mas graças ao saudoso amigo Martin Luther Silva decidi lutar com a inteligência e não com violência. O resultado é que o monstro que atacou Sarah está preso, e campanhas têm conseguido reverter o quadro de violência.
E vejam vocês, quando me assumi lésbica fui expulsa de casa. Mas após ganhar notoriedade lutando contra a violência, e revelando a existência dA Lista, meus pais me chamaram para uma conversa. Ainda não posso dizer que tudo ficou bem entre nós, mas estamos melhorando. Com Sarah foi diferente, seus pais são muito católicos e sempre a apoiaram, e conseguiram convencê-la a não abortar. E hoje nós dias criamos o pequeno Martin, batizado como homenagem a nosso colega da Lista, e ele só nos traz felicidade.
Escrevi tudo isso para dizer que uma das coisas que tem atrasado nosso progresso é justamente a militância radical que ainda existe. Quando lanço uma história com um personagem hétero recebo uma avalanche de críticas, pois para essa gente, como lésbica, eu deveria ter protagonistas LGBT.
Pode isso?
E claro, já me acusaram de ser uma “branca vendida ao sistema”, xingam até a Sarah por ter pais católicos praticantes... Tento ser paciente e responder com inteligência, demonstrando que toda a diversidade e tolerância que eles defendem vale somente para quem concorda com suas ideias. Evidentemente ficam ainda mais furiosos.
Pessoal, como sempre recomendo que continuem lutando.
E, como dizia nosso saudoso Martin: igualdade para todos!

Nota do autor: Os leitores familiarizados com minha obra devem se lembrar de Rafaela Horta da história “A Lista: Letras da Igualdade”, publicada no Volume Laranja da antologia A Fantástica Literatura Queer, da saudosa Tarja Editorial.

De: Adriano
Para: A LISTA; Rafaela Horta
Assunto: Re: “Lugar de fala”, censura e fascismo na cultura

Olá, Rafaela e demais amigos. Cara Rafaela, gostaria de perguntar sobre o estranho visitante que você recebeu tempos atrás, e um caso que tem semelhanças com outros descritos aqui nA Lista. Pergunto por que a possibilidade, realmente fantástica, de viajantes transdimensionais visitando os vários universos paralelos onde nos encontramos é a base de outro processo contra os desmandos do governo e da Culturalbrás, aqui em meu mundo.
Sim, caro Ivan, essa praga se espalha entre várias realidades, fico pensando se seria coincidência... e adoraria saber os detalhes do que vocês fizeram aí.

De: Rafaela Horta
Para: A LISTA, Adriano
Assunto: Re: “Lugar de fala”, censura e fascismo na cultura

Adriano e amigos, ainda houve outros desenvolvimentos a partir daquele caso que descrevi e você lembrou, mas por enquanto, porque envolve outros amigos dA Lista, não gostaria de comentar. Há um grande perigo envolvido nisso, e essa informação deve ser tratada com muito cuidado.

De: Victoria
Para: A LISTA
Assunto: Re: “Lugar de fala”, censura e fascismo na cultura

Aqui em minha realidade tivemos problemas como os que os amigos descrevem, mas o que me chamou a atenção foi essa conversa de viajantes entre os universos. Lembrei agora daquele relato, de um bom tempo atrás, de uma participante chamada Layla.
Conforme ela disse, habitava um mundo no qual toda a sociedade decidiu viver em hibernação, convivendo entre si na realidade virtual, a fim de salvar seu mundo. E Layla disse que visitantes de outro universo os salvaram de um destino terrível quando esse sistema falhou.

Nota do autor: Essa situação e muitas outras serão apresentadas no livro dA Lista, já pronto e registrado, que pretendo publicar em breve.

De: Adriano
Para: A LISTA, Victoria
Assunto: Re: “Lugar de fala”, censura e fascismo na cultura

Exatamente meu ponto, cara Victoria! Depois, quando tiver um pouco mais de tempo, pretendo expor como atuamos aqui em meu mundo.

De: César
Para: A LISTA
Assunto: Re: “Lugar de fala”, censura e fascismo na cultura
Anexo: Jornalista branca e negra


Tive minhas (péssimas) experiências com mais esse absurdo inventado pelos fascistas. Quero me apresentar, sou quadrinista, e pergunto se nos universos dos colegas foi publicada a HQ com a capa em anexo. Antes um exemplo de debate contra o racismo, agora é considerada por aquela militância que todos conhecemos como uma história racista. Completo absurdo, claro.

De: Luiz
Para: A LISTA
Assunto: Re: “Lugar de fala”, censura e fascismo na cultura
Anexo: Herói e seus criadores


César, meu amigo, também sou quadrinista, e vejam só que surpresa, em meu mundo ninguém que defende esse famigerado “lugar de fala” comenta a respeito desse super-herói, que recentemente teve um filme de grande sucesso, e seus criadores. A hipocrisia dessa gente só não é maior que seu fanatismo.

De: Amanda
Para: A LISTA
Assunto: Re: “Lugar de fala”, censura e fascismo na cultura
Anexo: Mutantes e racismo

Aqui estou, mais uma quadrinista. Sou negra e sempre busquei combater o racismo e fazer a crítica social em minha obra. Terminei por apoiar o início do governo Laércio Inácio, que depois teve sequência no de Nargila Espinosa, e agora no de Karlos Uyllys. No início houve sim um importante progresso social, e ingênua que eu era na época, fazia pouco das denúncias da imprensa contra o governo.
Também defendi a instauração da Culturalbrás, acreditando que era um importante incentivo para a cultura. Onde eu morava na época, periferia, muitos projetos culturais foram incentivados, e eu acreditava que quem se manifestava de forma contrária ao governo o fazia por ser parte da elite corrupta que sempre mandou no país.


O sinal de alerta acendeu para mim quando, em parceria com outros colegas escritores e quadrinistas, de todas as etnias, gêneros e matizes ideológicos, apresentamos um projeto para criar várias bibliotecas e gibitecas em nossos bairros. Agentes da Culturalbrás exigiram que apresentássemos quais obras estariam disponíveis, e imediatamente começaram a vetar clássicos como os que os colegas mencionaram, obras desses meus amigos, e até muitas das minhas próprias.
Meu principal universo dos quadrinhos tem como protagonistas um casal, ela negra e ele branco, que comandam uma equipe de jovens super-heróis, tudo com muita diversidade e discussão social. Eles negaram permissão para essas histórias fazerem parte da biblioteca alegando o tal “lugar de fala”, e quando eu disse que o casal era inspirado em mim mesma e no meu namorado, que é branco e também escritor, além de fazerem pouco ainda mandaram meu nome para um tal de “Coletivo Negro de Fato”.
Essa gente alega combater o racismo defendendo que “a raça negra tem que ser pura”. Fui xingada e ameaçada por namorar um branco. E também por um dos vilões de meu universo ser negro.
Levei o caso para a imprensa, saiu no noticiário nacional, e o presidente Uyllys pessoalmente fez um pronunciamento em rede nacional, afirmando que iria impor diretrizes mais claras para a Culturalbrás.
O resultado?
Agora os agentes dessa abominação andam armados e atuam como milícias. As bibliotecas já prontas foram destruídas e queimadas, e dois de nossos amigos assassinados.
No momento em que escrevo estas linhas para vocês vivo escondida, combatendo esse governo com as armas que consigo. Amigos foram para a luta armada, e o clima no país é de verdadeira guerra civil. Não sei quando conseguirei falar de novo com vocês.
Desejo que nenhum dos amigos dA Lista passe pelo que estou passando.


Ah, e anexa vai uma imagem de outra HQ que tínhamos na biblioteca, e que foi uma das primeiras a serem rejeitadas e rasgadas pelos agentes na nossa frente. A alegação deles é que um personagem branco nunca poderia falar sobre racismo.

De: Ivan
Para: A LISTA
Assunto: Re: “Lugar de fala”, censura e fascismo na cultura

Amigos, estou tendo ainda problemas relacionados ao que irei relatar na próxima mensagem, mas garanto que logo lhes contarei minha história! Enquanto isso, Adriano, adoraria conhecer a sua!

De: Adriano
Para: A LISTA
Assunto: Re: “Lugar de fala”, censura e fascismo na cultura

Querido Luciano e amigos, em minha Terra os abusos foram praticamente os mesmos já conhecidos em toda nossa discussão. Decidido a fazer alguma coisa, primeiro fiz chegar a vários órgãos da imprensa mensagens e informações dA Lista.
Apesar de conhecer bem as tragédias que já ocorreram em outras realidades onde a mesma coisa foi feita, cheguei a um ponto de indignação com os desmandos do governo e seus agentes da maldita Culturalbrás, e os ataques de seus seguidores fanáticos, que deixei de hesitar.
O resultado, claro, foi uma superexposição de minha pessoa, e parecia que os bons tempos, quando eu dava entrevistas após lançar um de meus livros, estavam de volta.
Mas o melhor foi quando uma amiga, Rosane, me sugeriu entrar com um processo, utilizando os próprios meios desses fascistas e censores contra eles próprios.
Elaborei uma história e ela criou um parecer jurídico nela baseado. Basicamente, se desconhecidos, como já descrito nA Lista, estão viajando entre os infinitos universos paralelos, não se pode descartar a possibilidade de Tolkien, então haver recebido informações desses indivíduos a respeito de um mundo fantástico, com todas as raças e criaturas que ele posteriormente criou para sua Terra-Média.
Absurdo completo, evidentemente. Mas tanto a Justiça como a Culturalbrás, por meio de seus mecanismos de funcionamento, não poderiam recusar a análise de nossa alegação.
A audiência foi absolutamente hilária. Os advogados do governo alegaram que nosso pleito era absurdo, que não havia provas de nossas alegações. Afirmamos que, diante do fato concreto da existência dA Lista, aquela era uma possibilidade que não poderia ser negada.
O caso teve ampla cobertura, e a procura por livros de Tolkien aumentou de forma impensável. Todos os processos anteriores para sua liberação, aliás, prosseguiam desde o momento da proibição, logo as obras não poderiam ser proscritas, apreendidas e destruídas antes do trânsito em julgado, após passar por todas as instâncias.
No primeiro julgamento nós ganhamos, e o governo recorreu. Segunda instância outro duro debate, e há alguns dias tivemos outra sentença favorável.
Tivemos já a confirmação de que a Culturalbrás irá recorrer. O que irá demorar mais um bom tempo, já que o caso tem se arrastado há pelo menos cinco anos.
Rosane afirma que, até chegar à última instância, serão ao menos mais cinco anos. O que significa que os livros continuarão sendo discutidos, e irá elevar o interesse para outras obras de temática semelhante.
Muitos articulistas dos jornais e colunistas da televisão já começam a questionar o dinheiro gasto ao longo dessa ação, e também por que devemos permitir que o governo mande na cultura.
Ataques virtuais e outros materiais infelizmente têm acontecido, e tive que reforçar minha segurança. Não tenho coragem de repetir aqui os xingamentos que dirigem a mim.
Mas tenho certeza de ter feito a coisa certa. Sempre é a coisa certa, aliás, quando lutamos por nossa liberdade.

De: Ivan
Para: A LISTA
Assunto: Re: “Lugar de fala”, censura e fascismo na cultura

Meus caros amigos, a pior coisa sobre fazer parte dA Lista é pouco poder fazer além de incentivar e trocar informações com os amigos. Adoraria poder estar combatendo o bom combate ao lado de cada um de vocês!
Obrigado pelas contribuições de cada um para a discussão. Espero que esteja sendo proveitosa para todos!
Adriano, que história impressionante! E seria cômica, se por trás dela não houvesse a tragédia inumana da censura e do totalitarismo.
No caso de minha realidade, um de meus colegas, Fernando, teve uma ideia genial. Profundo conhecedor da obra de Lovecraft, e ainda com formação em Direito, ele apresentou uma queixa tanto na Justiça quanto na própria Culturalbrás, essa praga que assola tantas de nossas realidades. Afirmava que o mestre Howard Phillips meramente romanceou situações reais, e que censurar e eliminar sua obra iria contra o Dispositivo de "Diversidade de Crença e Proteção Universal Transreligiosa Absoluta", dentro da já mencionada“Lei de Absoluta e Ampla Convivência Religiosa”.
Traduzindo da horrenda linguagem politicamente correta dessa gente, absolutamente nenhuma religião minoritária pode ser alvo de processo, queixa, crime ou censura.
O juiz de primeira instância nos deu imediato ganho de causa, afirmando na sentença que o banimento da obra de Lovecraft prejudicaria grandemente nossa crença. Que, claro, foi batizada na ação como “Culto a Cthulhu e aos Veneráveis Grandes Antigos”.
Os agentes do escritório de Diversidade Religiosa imediatamente também deram ganho a nossa causa, o que atraiu a imprensa. O mais absurdo é que, se alguém conhecia mesmo a obra de Lovecraft, não disse nada a respeito da evidente mistificação que preparamos.
Uma jornalista da rede de TV do governo chegou a nos entrevistar, e Fernando inclusive apresentou um exemplar do Necronomicon que tem, como fã do autor. Evidentemente outra fabricação baseada em sua obra, nada mais do que isso. E até os comentaristas do canal concordando a respeito do absurdo de proibir livros que romantizam uma crença religiosa legítima!
Muitos meses se passaram nessa toada, algumas consultas realizadas por agentes da Culturalbrás sem qualquer efeito, quando alguém da imprensa, lendo a obra de Lovecraft, percebeu que o culto ali descrito praticava sacrifícios humanos. A tal repórter voltou a entrevistar Fernando, que disse, muito sério, que esse era um desafio que enfrentávamos já que tal prática, pela lei, seria considerada assassinato.
A jornalista realmente perguntou se ele acreditava que os Grandes Antigos ficariam aborrecidos conosco caso não praticássemos os sacrifícios descritos.
Depois disso ele realmente entrou com outra ação na Justiça, pleiteando que fossem abertas brechas nas leis a fim de que sacrifícios humanos por motivos religiosos fossem permitidos. E de fato aconteceram debates a esse respeito, tanto no Congresso Nacional como na Culturalbrás, além de na TV oficial que exibiu algumas das nossas opiniões.
Claro, gravadas com muito esforço pois morríamos de rir a cada tentativa.
Finalmente, preparamos um detalhado dossiê descrevendo toda a farsa, deixando claro que tudo não passava de uma invenção, planejada unicamente para provar o absurdo que é essa inadmissível intromissão estatal na cultura.
Toda a imprensa repercutiu menos, é claro, a TV oficial que tanto espaço abriu para nós. Estamos todos sendo processados pela Culturalbrás por falsidade no fornecimento de informações e abuso das leis, mas todos os juízes que já julgaram a ação a julgaram não somente improcedente, como recomendam a pura e simples extinção dessa estatal. E a cada vez eles recorrem.
Como aqui existe outra praga que assola várias de nossas realidades, os infinitos recursos da lei, essa história ainda vai demorar muito tempo. Nossa grande vitória, entretanto, foi expor todo esse esquema de censura, totalitarismo e dirigismo estatal a um ridículo do qual, todos esperamos, eles jamais irão se recuperar.
Todos nós continuamos a ser caluniados na internet e redes sociais por aqueles fanáticos apoiadores dessas políticas, e denunciamos aqueles mais exaltados que chegam a nos ameaçar. Outros estão reagindo à intromissão estatal, e editoras estão publicando obras sem passar pelo crivo da Culturalbrás.
Felizmente, quando o gosto da liberdade é saboreado, nada nem ninguém pode fazê-lo desaparecer.
Um bom dia e boa semana a todos.


E seu autor preferido retorna! Espero que tenham gostado de mais textos da série Mensagens da Lista. Como os frequentadores do blog já sabem, esta é um fórum transdimensional no qual cada participante, sempre ligado à produção e/ou difusão do conhecimento, está em um universo paralelo distinto. No infinito Multiverso da Lista, também são infinitas as possibilidades!

Continuem nos acompanhando nas redes sociais, pois sempre que tivermos novidades é ali que serão anunciadas:

Instagram: @renatoa.azevedo, @mlzotarelli e @corujiceliteraria.

Histórias anteriores da Lista? Cliquem nos marcadores abaixo, e sugiro ainda clicar aqui e aqui também.

E não deixem de conferir os dois ebooks da Lista na Amazon:



A Lista retornará.

Até a próxima!