terça-feira, 20 de abril de 2021

Vó Nena e os Caçadores: Daniel, Tatiana, João e a Caveira de Burro



            Daniel dirigia o velho Fuscão vermelho, ano 1971, com Tatiana no assento do passageiro. A jovem vidente disse:

            — Ainda não consigo acreditar que este carro ficou tão próximo do portal do Morro dos Uivos, esteve diante de uma das crias tentaculares, e mesmo assim não consigo sentir absolutamente nada nele!

            O neto mais velho de Vó Nena reavivou a memória, relembrando o estranho caso de George Angelo. Respondeu:

            — Tem muita coisa nesse caso que ainda não entendemos, amor, mesmo anos depois.

            — Foi logo depois que começamos a namorar, lembro de pararmos diante da casa do Angelo com o Dodge.

            — Vó Nena vive examinando aquela maquete que ele construiu e que guardamos na sala segura, mas não diz pra ninguém o que descobriu. Nem se descobriu algo.

            Tatiana suspirou. Daniel havia instalado faróis auxiliares no carro que também fora de Angelo, e não tinham problema em percorrer a estrada escura. Bem adiante deles, na escuridão da noite, a mancha luminosa que sabiam ser Brasília crescia a cada metro percorrido.

            — E Vó Nena? – perguntou a garota. – Ficou muito brava por termos decidido aceitar o convite do João?

            Daniel reduziu uma marcha, ligou o pisca, foi para a pista da esquerda e ultrapassou um veículo mais lento. Depois de olhar pelo retrovisor deu seta novamente e retornou para a pista da direita. Foi a vez dele suspirar antes de responder:

            — Ela não gostou nada quando falei que iríamos aproveitar esse evento aircooled, de Fuscas e derivados, para encontrar o João. Mas saí antes de ouvir mais broncas.

            — Ela não deixa de ter razão, Daniel! Vó Nena e minha avó procuraram muito por essa coisa enterrada em Brasília e nunca encontraram! Vocês já me falaram muito do João, mas será mesmo que ele descobriu um meio?

            Daniel sorriu. Estendeu o braço para o lado e acariciou a face da namorada. Ela retribuiu beijando a palma de sua mão.

            — Fique tranquila, Tati – respondeu ele. – O João pode ser meio maluco mas é uma figura, e já enfrentou muita coisa ao lado de Vó Nena. É quase uma lenda entre os Caçadores!

            Percorridos mais alguns metros, com o motor do Fuscão roncando forte, o rapaz acrescentou:

            — Além do mais, é uma oportunidade de ficar algum tempo sozinho com você!

            A jovem vidente sorriu, disfarçando o sentimento ruim das energias negativas que já captava, vindas da capital federal. A mão de Daniel segurando a sua era um conforto muito necessário.

 

            O amanhecer no Planalto Central era realmente magnífico. Tati e Daniel levantaram cedo, pagaram a dona da pensão onde passaram a noite depois do café da manhã caprichado que tomaram, e se dirigiram para a Esplanada dos Ministérios. Era ali a concentração para o evento, ao lado da Catedral de Brasília.


Crédito: @capitalvolks

            Era a primeira edição do Aircooleds no Planalto, e vários Fuscas, Kombis e outros derivados do Carro do Povo já estavam alinhados ao longo do caminho. Originais ou customizados, dividiam espaço com uma crescente multidão que ainda podia visitar barracas de lojas e dos mais variados tipos de comida.



            Depois de se identificarem e ganharem uma placa para colar no para-brisa do impecável Fuscão vermelho, encontraram uma vaga e estacionaram. Tatiana comentou:

            — Só queria ver o Fusca Azul da Vó aqui.

            — Não sei não, amor. Todas as vezes que viemos a Brasília com ele a assombração se comportou muito mal.

            — Eu sei. Apesar de aqui estar tudo bem, as pessoas confraternizando e se divertindo. Já as energias vindas dali estão difíceis de suportar...

            Tatiana havia apontado discretamente com o queixo na direção da Praça dos Três Poderes. O rapaz não precisou perguntar o que a namorada sentia. Fazia uma boa ideia.




            Ficaram perto do Fuscão, sendo cumprimentados e cumprimentando pessoas que passavam e elogiavam o carro. Daniel conversou um pouco com conhecidos de outros eventos, pois havia tomado gosto por essas reuniões já que todos os Caçadores utilizavam carros antigos, muito mais confiáveis que os modernos contra assombrações e coisas do outro mundo. Não era incomum esbarrar com colegas que trabalhavam com o sobrenatural nesses encontros.

            Foi quando viu. Uma inconfundível Kombi pick-up amarela, para-choques vermelhos e uma surrada lona formando um baú sobre a caçamba. O veículo, com vários pontos de ferrugem já aparecendo, veio falhando um pouco e estacionou ao lado do Fuscão deles.

            Da pick-up desceu um sujeito magro, vestindo jeans e camisa xadrez que já viram melhores dias. Barba por fazer, rosto ossudo, um par de velhos óculos redondos sobre os olhos castanhos muito vivos, chapéu também surrado e um cigarro de palha na boca. Foi direto para Daniel, que já sorria, e trocaram um forte abraço.

            — Mas Daniel, neto da minha amigona Nena, como está? Caramba, como você cresceu, moleque!

            O jovem deu um murro de mentira no braço dele, respondendo:

            — Qual é, João!? Nem faz tanto tempo assim!

            O velho Caçador ignorou os protestos do neto de Nena e olhou para Tatiana. Perguntou:

            — E quem é essa moça bonita aqui?

            Daniel ia responder, mas Tati se adiantou:

            — Oi, seu João – disse estendendo a mão. – Meu nome é Tatiana, e sou...

            — A neta da Esmeralda? – perguntou ele. – Nossa! Agora lembrei que a Nena me disse que o neto dela estava te namorando!

            Envolveu Tatiana em um abraço carinhoso, que ela retribuiu. Foi inevitável sentir toda a dureza da vida de caçador de João, mas também uma incrível energia e desejo de fazer o bem. A jovem vidente estava sorrindo quando o homem a largou e olhou para seu rosto:

            — Que saudades dos bons tempos, das caçadas com Nena e sua avó, menina! Você é a cara dela!

            Ele pareceu se lembrar de alguma coisa, tirou o chapéu com uma mesura e disse:

            — João Ramirez, seu criado!

            Outros participantes do evento passavam, e um e outro mostrou conhecer João pois vieram cumprimentá-lo. Um deles disse:

            — Você ainda anda com essa trapizonga, João!? E o que andou fazendo que a lona aqui tá toda rasgada?

            — Caçando, meu velho! – disse João entabulando uma rápida conversa com o sujeito. Depois que se despediram e ele se afastou o Caçador se virou para os jovens e acrescentou:

            — Um bicho-tutu dos grandes, estava atazanando uma comunidade na periferia de uma cidadezinha lá na fronteira da Bahia – disse, passando a mão pelos compridos rasgos. — Mas ele não vai mais incomodar o povo de lá não. E aí, o que é que tem pra se comer aqui?

            Diante da pergunta de João eles trancaram os carros e saíram andando pelo evento. A Catedral de Brasília ao fundo compunha um belo panorama, e Daniel cumprimentou outros conhecidos enquanto passeavam. Em determinado momento João se aproximou de uma Kombi 1963 saia e blusa, azul com teto creme, e trocou rápidas palavras com o dono. Depois voltou para o lado dos jovens e disse:

            — Alfredão, amigo de outras paragens. Gente fina, e também metido em coisas esquisitas.

            — Que coisas? – riu Tatiana.

            — De outro mundo, menina.

            — Nós também – comentou Daniel;

            João soltou um suspiro e completou:

            — É, cada um no seu ramo...

 

            Vários food trucks e barracas formavam a praça de alimentação do evento, e enquanto comiam em uma mesa mais afastada João disse:

            — A Caveira de Burro, crianças! A aberração enfeitiçada que foi enterrada aqui em Brasília enquanto a cidade estava sendo construída!




            Tatiana e Daniel se entreolharam e depois de beber um gole de refrigerante a vidente disse:

            — Conhecemos a história, seu João...

            — Só João, menina, quê que é isso?

            — Tudo bem – respondeu a vidente. – Vó Nena nos contou essa história. Uma caveira de burro que foi enterrada em Brasília pelos inimigos do governo. A intenção era nunca deixar o país prosperar e ir para frente, para que a facção política dos que enterraram essa coisa pudesse denunciar as dificuldades e vender facilidades.

            João deu uma dentada em seu sanduíche, mastigou com gosto e disse ainda de boca cheia:

            — Tá certo, garota. Todo Caçador conhece a história.

            — E um monte de Caçadores, em todos esses anos, tem tentado achar essa coisa para salvar o Brasil – completou Daniel. – Vó Nena contou tudo pra gente, das vezes em que veio para cá com Esmeralda para tentar encontrar e dar fim nessa uruca.

            — Algum feiticeiro muito poderoso na magia negra deve ter sido o responsável por encantar essa coisa, Daniel – disse João e deu mais uma dentada no sanduíche. – Se nem a Esmeralda conseguiu achar onde enterraram a Caveira é sinal que foi uruca da brava!

            — Tudo nesta cidade exala uma energia ruim – disse Tatiana esfregando os braços como se desse um abraço a si mesma. – Vocês não fazem ideia do que eu sinto se me concentro o suficiente...

            — Eu sei sim, Tati – disse João terminando de comer. Tomou um gole do copo da cerveja, esperou outros participantes do evento passarem ao lado da mesa deles e prosseguiu em voz baixa: — O povo reclama da vida, mas continua inventando de votar nos piores dos piores, e o resultado não podia ser outro!

            Depois de alguns instantes pareceu se lembrar de alguma coisa e se virou para Daniel:

            — Sua avó continua a não querer ter uma Brasília, o carro?

            Daniel riu, olhou para Tati e respondeu:

            — Você não faz ideia! Um tio me deixou uma Brasília branca, ano 1974, que preciso manter na casa da minha mãe. Vó Nena não quer nem ouvir falar daquele carro! “Acha que quero na minha casa um carro que tem o nome daquele lugar amaldiçoado!?” ela sempre diz!

            Os três deram risada, e João perguntou:

            — E da época quando ela ajudou os militares a combater os grupos de comunas que praticavam magia negra?

            — Claro que contou! – disse Tatiana. – Aliás também explicou como foi em uma dessas missões que conseguiu o Fusca Azul. Andei nele logo que conheci Vó Nena e Daniel.

            João ficou espantado e Tatiana contou rapidamente a história, que envolvia um vampiro invadindo uma festa de formatura e raptando a namorada de um amigo. Finalmente, Daniel retomou o assunto:

            — Mas você ainda não disse o que viemos fazer aqui, João! E nem explicou como, se nem Vó Nena e Esmeralda conseguiram encontrar a Caveira de Burro, por que acha que nós conseguiremos?

            João olhou para os dois, terminou sua cerveja, pousou o copo na mesa e manteve silêncio por mais algum tempo. Depois respondeu:

            — Porque dessa vez sei onde procurar! – Depois de consultar o relógio acrescentou: — Vamos pegar minha Kombi que já está quase na hora!

 

            — Conheci esse advogado, moleque novo que nem vocês, enquanto caçava uns vampiros lá por Luziânia – contava João. – Ele contou que é elemento de ligação institucional do governo com o Congresso e o Supremo, além de fazer uns serviços pra um grupo dentro da Agência Brasileira de Inteligência. Que já foi o SNI, ah, lembro dos bons tempos!

            Começou a contar histórias da época da ditadura militar, quando setores do governo queriam investigar os Caçadores e todo tipo de ocorrência estranha. Daniel e Tatiana se olharam e lembraram dos amigos de São Paulo que tinham a empresa de informática e secretamente espionavam os políticos.

            Estavam sentados na Kombi, Daniel no meio entre João e Tatiana. O veículo foi estacionado a pouca distância do Supremo Tribunal Federal e João enfim disse:

            — Então esse informante, que eu salvei de um ataque de vampiro, fiquei na cola dele e conversa vai, conversa vem, me contou como esse grupo descobriu umas cerimônias secretas, parecendo de magia negra mesmo, que acontecem nos subterrâneos aqui de Brasília.

            Aquilo era novidade para os jovens, e Tatiana perguntou:

            — Você quer dizer que nos porões do STF eles praticam magia negra?




            — Isso sim. O rapaz descreveu um tipo de culto, e hoje graças a sua vidência podemos dar uma espiada!

            — Um culto em pleno sábado, João? – perguntou Daniel incrédulo. – E hoje ainda é dia 14, na sexta-feira 13 faria muito mais sentido!

            João olhou para Daniel e deu uma risada. Lá fora as pessoas aproveitavam o dia ensolarado para passear, tirando fotos diante do edifício do Supremo. O velho Caçador, finalmente, respondeu:

            — E alguma coisa em Brasília faz sentido?

            Daniel se virou para Tati. A vidente trocou um longo olhar com o namorado, sentindo também a expectativa de João. Soltou um suspiro, olhou para o imponente prédio lá fora e disse:

            — Bem, já que estamos aqui, não custa tentar...

 

            Tatiana não sabia se a cena que descrevia para eles estava acontecendo naquele momento ou minutos ou horas antes. Uma névoa parecia encobrir sua visão, e ela estremecia cada vez mais diante das intensas energias negativas que permeavam toda a Praça dos Três Poderes. Também havia demorado bem mais do que o normal para obter um grau de concentração suficiente para sua vidência funcionar.

            — Estão mesmo no subterrâneo... passaram por uma escada, paredes de concreto sem revestimento e bem desgastadas... entraram por uma porta de aço...

            Daniel, preocupado, viu que Tatiana estava se esforçando mais do que o normal. Sua testa estava banhada em suor, e ele apanhou um lenço em sua mochila e a secou.

            — Seis figuras de capa preta, com capuz... – Tatiana continuou. – Dois cobertos por panos brancos no meio deles... depois de cruzarem a porta estão em uma caverna, paredes de rocha nua, dois dos de capa preta com lanternas entraram e acenderam velas espalhadas pelo lugar...

            Tatiana continuou descrevendo o que via. A caverna natural tinha outras duas saídas, cujas direções ela não soube determinar. Os participantes da estranha cerimônia se colocaram em semicírculo diante de uma pedra de cerca de um metro de altura em um dos cantos da caverna, quando Tatiana gritou:

            — A caveira! A caveira! A Caveira de Burro!

            Daniel e João se agitaram, e o velho Caçador perguntou em tom ansioso:

            — Tem certeza menina? Ali mesmo, embaixo do Supremo!?

            O neto de Vó Nena fez sinal para que ele se calasse e Tatiana, suando muito devido ao esforço, disse:

            — Uma Caveira de Burro... eles estão próximos dela... ajoelhados diante dela e se abaixando até tocar as mãos no chão, saudando a coisa... ela é pequena...

            — Pequena!? – soltou João. – A lenda diz que era um burro que foi sacrificado em uma cerimônia de magia negra, e...

            — João, espera! – disse Daniel impaciente.

            Tatiana continuava de olhos fechados, trêmula, descrevendo a visão. Os seis participantes de preto finalmente se erguem e removem os capuzes.

            — Um deles é careca, e está chamando os dois que estão de branco – disse Tatiana com esforço.

            — Deve ser aquele ordinário do Bruno de Nogueira – comentou João. – E meu informante disse que ele tem umas preferências bem estranhas...

            Isso foi confirmado quando a vidente descreveu a cena seguinte. Nogueira se aproximou de um tablado coberto com panos e almofadas e o apontou para as duas figuras de branco. Estes se aproximaram e deixaram cair os panos que os cobriam.

            — É um rapaz e uma moça e estão sem roupa nenhuma.

            Tatiana seguiu descrevendo como o ministro Nogueira se livrou de seu manto negro, revelando também estar nu, e no instante seguinte estava no tablado com o casal bem mais jovem que ele.

            João estendeu o braço e sacudiu Tatiana. A vidente despertou e os olhou com expressão exausta.

            — Acho que aconteceu faz poucos minutos. O que foi que eu vi, João?

            — Tem certeza que a Caveira de Burro era pequena?

            Tatiana olhou para o velho Caçador, depois para Daniel, e em seguida pelo para-brisa da Kombi lá para fora. Respirou fundo algumas vezes, lembrando das cenas absurdas que testemunhara e finalmente respondeu:

            — Um dos caras de manto negro acendeu velas pretas ao lado dela. Sim, era uma caveira de burro pequena.

            João observou os dois jovens, pôs as mãos no volante, suspirou e ainda manteve silêncio por mais alguns instantes. Daniel chegou a abrir a boca para dizer algo quando ele disse:

            — Vamos voltar pro evento.

 

            O alto astral do encontro de colecionadores de carros melhorou o ânimo de Tatiana. Ela aproveitou e foi até o banheiro para trocar a blusa empapada de suor, voltou e guardou a roupa usada em sua bagagem no porta-malas do Fuscão. Encontrou os dois e foram novamente para a praça de alimentação. Um doce era tudo que ela queria agora.

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            — E então? – perguntou a vidente após algum tempo.

            João era magro mas tinha um grande apetite. Depois de comerem e encontrarem mais amigos, quando souberam que o Fuscão vermelho e a Kombi amarela eram candidatos a prêmios do evento, o Caçador finalmente disse:

            — Pelo visto meu informante estava certo.

            — Por quê? – quis saber Daniel.

            — Ele teve conversas com algumas pessoas que trabalham no STF e reuniu aqui e ali partes do que vimos hoje.

            — Mas o ministro Nogueira... – disse Tatiana. – Com aquele casal...

            — Parece que dopam servidores, secretárias ou auxiliares jovens que escolhem e os usam nesses cultos. Coisa típica de magia negra, sempre acaba envolvendo sexo. Culto blasfemo de magia negra sempre vale tudo. E depois eles não lembram de nada.

            João bebeu outro gole de cerveja e acrescentou:

            — E tem gente ingênua que acha que esses urubus só estupram a Constituição, não é mesmo?

            — E o que mais esse informante disse? – perguntou Daniel.

            João olhou para ele, depois para Tatiana, e em seguida os arredores com expressão de devaneio. Ficou assim por algum tempo, até que se voltou para os jovens novamente e respondeu:

            — Que fez o mesmo tipo de investigação no Congresso Nacional, e aí ele conseguiu chegar ao local do culto. Esteve diante da Caveira de Burro. E, pelo que descreveu, era pequena. Assim como a que a Tatiana viu.

            — Tem outra no Congresso!? – Tatiana e Daniel fizeram a pergunta em uníssono.

            João virou o restante da cerveja e olhou para eles.

            — Faz algum tempo que alguns Caçadores desconfiam que pudesse existir mais de uma Caveira de Burro. E faz sentido! Pensem: sempre que algum governo começa a fazer alguma coisa boa, lá vem o Congresso ou o STF melar tudo. Se o Legislativo ou o Judiciário começa a trabalhar pelo povo para variar, lá vem um dos outros colocar dificuldades...

            João descreveu, com essas poucas palavras, a realidade do país desde a redemocratização, conforme o casal bem sabia. Tati expôs outra dúvida:

            — O Supremo tem ministras mulheres. E elas aprovam tudo isso? Esse culto dos infernos onde pessoas são abusadas?

            — Isso eu e alguns Caçadores sempre nos perguntamos – comentou João. – Mas conforme fui reunindo, desse informante e outras fontes, os participantes dessa missa negra são sempre poucos, justamente para controlar o segredo. Teve época em que esse culto não envolvia nenhum ministro, claro, e quando tem alguns dos maiorais são sempre no máximo 3 ou 4. E respondendo a você, Tati, são sempre homens. Mulher só entra nessas barras pesadas para... bom, você viu.

            João pareceu lembrar de alguma coisa e perguntou:

            — E os outros, você reconheceu?

            Tatiana fez que sim, sacou o celular e fez uma rápida pesquisa. Depois mostrou o aparelho para eles e apontou:

            — Este e este.

            — Mas claro! – comentou João. – Os mais ligados aos comunas filhos da puta que enterraram a Caveira, ou Caveiras. O Sérgio Mayerovic, advogado daquele ladrão imundo desde sempre, e o Tadeu Dorneles, moleque de recados daquele... como sua avó chama, Daniel?

            — De terrorista imundo e filho da puta, que ela lamenta até hoje não ter matado quando teve chance.

            — Gentalha da pior espécie – confirmou João. – E mergulhada até o pescoço no pior do pior do pior que o ser humano é capaz de inventar!

            João se virou para Tatiana e estendeu a mão dizendo:

            — Por isso sei bem o que você tem passado, menina. Desculpe ter trazido você aqui.

            Tatiana pegou a mão de João e de novo experimentou a mesma sensação. Uma vida inteira combatendo as trevas para tentar trazer alguma luz, por menor que fosse, e ajudar as pessoas. Ela sorriu, agradecendo sem palavras o bem que lhe fazia aquilo.

            Terminaram de comer e ficaram alguns minutos em silêncio olhando o movimento. Resolveram sair andando pelo evento, olhando os carros e conversando com várias pessoas. Não só a vidente, mas todos eles sentiram as boas energias que circulavam por ali, em meio a gente de bem que só queria aproveitar um belo e ensolarado dia e mostrar o resultado de seu trabalho. Os carros eram os mais variados, desde originais de fábrica parecendo novos, até ostentando as mais radicais personalizações.

            Eles retornaram para junto de seus veículos e continuaram apreciando o movimento. Depois de alguns minutos Tatiana perguntou:

            — Então para onde vamos?

            João olhou para ela, depois para Daniel, e por fim para a direção da Praça dos Três Poderes.

            — Para a verdadeira Casa do Espanto – comentou.

 


            O evento terminou às oito da noite. O Fuscão vermelho de Daniel ficou em terceiro lugar na categoria originalidade para o início dos anos 70. Já a Kombi de João levou um troféu de segundo lugar na categoria “ratwagen”, para carros com aparência enferrujada e desgastada. Muitos desta eram produzidos em oficinas, mas a pick-up de João e o Fusca primeiro colocado tinham as marcas de corrosão naturais.




            — Esse povo é maluco! – comentou João com eles. – Eu não cuido da Kombi do jeito que queria porque estou sempre na estrada caçando. Já essa turma vai no esmeril para enferrujar o carro de propósito!

            Tatiana e Daniel deram risada. Sentiram que aqueles momentos de diversão eram mais que bem vindos diante do que ainda tinham pela frente.

 

            Já passava das nove e meia da noite e ainda tinha gente e carros do evento circulando pelos arredores. O trio deixou a Kombi estacionada nas proximidades da Catedral e se aproximaram do Congresso Nacional com o Fusca vermelho. João, no banco traseiro, fez questão de trazer uma mochila velha da qual sobressaía uma espada estranha em uma bainha.

            — Nunca se sabe – disse ele.

            Parados a pouca distância do Parlamento, aguardaram Tatiana se concentrar. Como da vez anterior a vidente se preparou com todo cuidado, sabendo que energias escuras e negativas circulavam em abundância por ali.

            Os dois homens aguardaram pacientemente, e por isso se assustaram quando Tatiana soltou um grito lancinante.

            Ela chorava e se debatia, e felizmente as poucas pessoas à vista estavam longe o suficiente para não ouvir o grito. Daniel pôs a mão no braço da namorada, e como acontecera algumas vezes antes teve um vislumbre do que ela via.

            Cenas de horror, a corrupção humana em seu ponto mais baixo e vil, segredos inconfessáveis, complôs durando décadas com o único fim de explorar incessantemente as pessoas, a morte de toda esperança...

            O rapaz soltou Tati um segundo depois, e ela lamentava:

            — É demais... vejo tudo... tudo... é horrível!

            — Tati! – gritou Daniel.

            A mão da vidente pousou em seu peito, e ele se surpreendeu pelas visões não voltarem. Tatiana disse com voz surpreendentemente segura :

            — Não... eu aguento... tenho que fazer isso.

            Quando pronunciou estas palavras aconteceu algo que eles não esperavam. Um brilho fantasmagórico e esverdeado surgiu, envolvendo Tati e se espalhando pelo carro. Daniel, espantado, abriu a porta e saiu, no que foi seguido por João.

            — Mas que porra é essa? – gritou o jovem Caçador.

            — Eu já esperava... – respondeu João.

            Daniel olhou para o amigo incrédulo, aproximou-se dele e perguntou:

            — Como é?

            João apontou para o Fusca, agora coberto pelo leve brilho esverdeado, e disse:

            — Você e sua avó me contaram sobre o que houve com este carro. Esteve perto de dois portais para dimensões infernais, uma delas a das crias tentaculares, um dos piores pesadelos de que se tem notícia. Claro, o dos bichos-homens não é nem um pouco melhor. Acha que não restaria nem um traço de energia dessas abominações?

            Daniel olhava para João sem acreditar. Subitamente avançou sobre ele vociferando:

            — Seu filho da puta! Você sabia desse mal e não nos disse nada! Deixou Tatiana se arriscar!

            — E quem disse que ela não sabia, moleque?

            Os dois estavam a ponto de se engalfinharem, quando a vidente disse pela janela aberta de sua porta:

            — Estou vendo... outra cerimônia... é parecida com a do STF...

            Os dois acabaram esquecendo a quase briga e se aproximaram.

            — Uma caveira de burro, um altar escavado na parede de rocha... velas pretas ao lado dela, é pequena também...

            O culto reunia dez pessoas de preto, e com as energias residuais do Fusca sua vidência era ampliada. Tatiana desta vez deu nomes:

            — Senador Salin Dorneles... deputado Manuel Rabello... quatro pessoas de branco... mulheres que se descobrem agora, estão sem roupa... uma delas é a deputada Tânia Cardoso.

            — Meu informante me disse que do culto sempre participa o presidente do Senado, ou o da Câmara de Deputados, ou os dois – comentou João. – Assessores poderosos e influentes também, e funcionários de carreira do Congresso.

            — Esse povo nunca larga o osso – comentou Daniel.

            Cada um dos líderes do culto ficou com duas das mulheres, em um canto com duas camas de tamanho grande com lençóis e almofadas luxuosas. Os dois prestavam atenção à descrição de Tatiana, quando Daniel foi agarrado e lançado para trás.

            O jovem Caçador se ergueu depressa e viu um sujeito jovem como ele, engravatado e de terno. Este abriu a boca e ficaram nítidos dois caninos se prolongando em um tamanho anormal.

            Daniel puxou do bolso um canivete que abriu, expondo a lâmina afiadíssima de prata. Uma lâmina menor na outra ponta e um espigão que sobressaía entre os dedos do Caçador quando empunhou a arma completavam o conjunto.

            — Vampiro, você escolheu a hora errada para aparecer!

            Dizendo isso, Daniel partiu para cima do monstro. Acertou um soco que abriu um profundo rasgo em sua face e deslocou sua mandíbula. O vampiro deu um golpe, mas o jovem se desviou e acertou uma punhalada no peito dele. A prata consagrada não mataria o vampiro mas causava intensa dor, e o monstro o derrubou com outro golpe.

            Enquanto eles lutavam João correu para o lado do motorista do carro e enfiou o braço em sua mochila que estava no banco de trás. Puxou da bainha a espada que havia trazido e avançou contra o vampiro. Daniel ainda lutava com este, e quando viu João se aproximando procurou distrair o monstro, apunhalando-o diversas vezes e escapulindo de seus golpes.

            João se aproximou rápido pelas costas do vampiro e desferiu um só golpe com sua espada. O monstro foi decapitado, a cabeça caiu e rolou pelo chão enquanto se desfazia em pó, e o corpo estrebuchou antes de tombar e também se desfazer.

            Os dois olharam para onde o monstro estava um momento antes, ofegantes. Daniel perguntou:

            — Que raios, de onde veio essa coisa?

            João espetou a espada no solo do gramado onde estavam, respirou fundo e acendeu um cigarro de palha. Respondeu:

            — Esse aí era meu contato... Alguém deve ter desconfiado e tomado providências. Canalhas.

            Soltou baforadas e pegou a espada. Uma katana que chamou a atenção, pela riqueza e beleza de detalhes, de Daniel. O velho Caçador completou:

            — Uma Sadayoshi, feita por um dos únicos orientais da comunidade dos Caçadores. Bom sujeito, grande amigo.

            Tatiana continuava concentrada. E fez outra coisa incomum: falou com Daniel quase de forma normal, ainda de olhos fechados:

            — Daniel, não se preocupe. Consigo controlar isso. Entrem vocês dois aqui.




            Depois que João se acomodou no banco traseiro e Daniel no assento do motorista, mais uma coisa surpreendente aconteceu. Imagens surgiram esmaecidas no para-brisas do Fuscão, e eles puderam contemplar a cena descrita antes pela vidente. Depois de finalizado o culto as mulheres foram conduzidas até gabinetes, se vestiram e saíram como se não houvesse acontecido nada. A deputada Cardoso chegou mesmo a sair conversando com o colega Rabello, que antes a havia violado durante o culto blasfemo.

            A imagem mudou, mostrando a Praça dos Três Poderes vista do alto. Energias fluíam entre o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, entre as duas Caveiras de Burro mantidas em seus subterrâneos. Rastros dessas energias de trevas e escuridão fluíam até o Palácio do Planalto, mas eram muito mais tênues. Correntes desse mesmo fluxo se dirigiam a outros lugares, e João explicou:

            — Ouvimos boatos entre os Caçadores de que fizeram algum feitiço, talvez mesmo até enterraram outra Caveira de Burro perto da sede da Polícia Federal. Isso pode ter acontecido depois que aquela turma de Curitiba, o juiz e os procuradores, começou a desafiar os ladrões e corruptos do país.

            Tatiana abriu os olhos finalmente, esfregou o rosto e tomou água de uma garrafa que estava a seus pés ao lado de sua bolsa. No momento em que interrompeu a intensa concentração o brilho esverdeado que permeava o Fuscão desapareceu. Respirou fundo algumas vezes e disse:

            — Sempre foram três Caveiras de Burro. Durante a construção de Brasília uma burro fêmea foi sacrificada em uma cerimônia de magia negra, e com ela suas duas crias de alguns meses de vida. Uma Caveira Mestre e duas satélites, enterradas e veneradas aqui, no centro de poder do país.

            Os dois a ouviam atentamente. Tatiana bebeu novamente, olhou para eles e completou:

            — A Caveira Mestre foi tirada daqui em algum ponto da metade dos anos 80. Foi mantida nas proximidades, mas não consegui encontrá-la. As energias presentes aqui no Fuscão me permitiram ver tudo isso e muita coisa mais, mas há um limite para o alcance de minha visão, mesmo assim. Além dos feitiços que sempre acompanham cada passo que essa gente dá.

            Tatiana se virou para João e disse:

            — Obrigada, João. Você fez o que era certo. Nós, os Caçadores, precisávamos saber disso!

            — Mas ninguém sabe onde a Caveira Mestre está – objetou Daniel.

            Tatiana se virou para ele, tomou seu rosto nas mãos e o beijou com ardor. O rapaz não sentiu mais qualquer indício de que energias da escuridão estivessem presentes ali. Compreendeu que aquilo havia representado um crescimento e tanto para sua amada, e que finalmente disse:

            — Os Caçadores estão espalhados por todo o país, meu amor. Um dia vamos achá-la!

 

            Pararam em um grande posto de gasolina com restaurante na beira da estrada para comerem alguma coisa, e na hora das despedidas João disse:

            — Desculpem, crianças. Deveria ter avisado vocês.

            — Tudo bem, João – disse Tatiana dando-lhe um abraço. – Terminou por valer a pena.

            — Sim, agora sabemos bem mais sobre tudo isso – completou Daniel. – Mas da próxima vez vê se avisa, hein?

            — Vou fazer isso, Daniel, pode deixar. Dá um abraço na sua avó por mim.

            — Depois da bronca que vamos tomar? Claro!

            — Ah, ela vai é ficar feliz! Descobrimos algo que nem ela nem Esmeralda conseguiram!

            — Não sei se eu ficaria tão confiante assim – comentou Tatiana.

            — E vocês cuidado com esse portal das trevas ambulante.

            — Cruz de pau-brasil pendurada no retrovisor interno – respondeu Daniel. – Vó Nena certamente dará uma solução definitiva.

            João fez que sim e embarcou na Kombi depois de trocar um aperto de mão com o rapaz. O motor falhou algumas vezes mas terminou pegando.

            — Vai pra onde agora? – quis saber Daniel.

            — Pensei em dar uma passada no Mato Grosso, tem uns amigos Caçadores com problemas com bichos-homens, e vamos ver se damos um jeito nos desgramados.

            — Se cuida, João.

            — Vocês também, crianças. Até mais!

            A Kombi amarela foi se afastando, tomou uma saída lateral e por fim desapareceu na noite.

            — É sério o que disse? – perguntou Daniel entrando no Fusca vermelho. – Vó Nena já sabe o que descobrimos?

            — Você ainda não aprendeu a nunca subestimar sua avó, querido?

            Tatiana sorria para ele. Daniel, encucado, ligou o Fuscão e eles mergulharam na noite da estrada.

 

            Vó Nena rezou um terço, recitou cantigas que eram na verdade antigos feitiços, e depois colocou duas medalhas no painel do Fuscão vermelho. Presas por ímãs as peças traziam as imagens de São Jorge e Nossa Senhora. A anciã saiu do carro e Daniel fechou a porta. Depois o jovem segurou a mão de Tatiana e seguiram silenciosamente atrás da Caçadora.

            Nesse momento Vó Nena se virou e disse:

            — Mas que porra vocês estavam pensando!? Ir assim praquele lugar de trevas e escuridão como se fosse um passeio?

            Os dois continuaram de mãos dadas e em silêncio. Ela continuou:

            — Até você, Tatiana? Sempre te achei mais madura e sensata que esses moleques desses meus netos!

            — Mas Vó Nena, – começou Tatiana – o que descobrimos...

            — Acha mesmo, menina, que eu não sabia?

            Depois de finalmente se instalarem na sala da casa, Vó Nena prosseguiu:

            — O João é muito mais esperto do que parece! Sim senhor, eu desconfiava que o Fuscão pudesse ter retido alguma energia, seja do Casarão da Rua das Dores, seja do Morro dos Uivos, até mesmo das crias tentaculares daquela noite. Nem faz tanto tempo assim... O João foi esperto mesmo!

            E, brandindo sua bengala de pau-brasil a apontou para os dois:

            — O que não é desculpa para terem passado por tamanho risco, moleques!

            — Vó... – disse Daniel, inseguro. – Como descobriu?

            — Como? Com Esmeralda, é claro! Aquela lá era mesmo especial, vocês nem fazem ideia! A última vez que fomos juntas a Brasília foi numa abertura de ano legislativo, quando todos os putos estão reunidos, e claro que as energias das trevas aumentam e muito. E Esmeralda viu as mesmas coisas. Os cultos profanos na porra do Supremo e também debaixo daquele antro de escuridão do Congresso. E na época havia sinais fortes também no pardieiro do Planalto!




            — E não tentaram fazer nada, Vó? – perguntou Tatiana.

            Nena, sentada em sua poltrona vermelha preferida, apoiou as duas mãos na bengala que um dia foi da amiga vidente. Ficou em silêncio por algum tempo e depois respondeu:

            — Sua avó Esmeralda, minha filha, se esforçou muito nesse dia e teve um colapso. Desmaiou e tive que pedir ajuda, e passamos dois dias no hospital até ela se recuperar.

            Os dois jovens ficaram assombrados. Tatiana levou as mãos à boca e seus olhos se encheram de lágrimas. Nena, pela primeira vez, olhou para os dois com ternura e carinho, depois seu olhar se perdeu na distância, relembrando aqueles tempos.

            — Nunca contamos para o restante dos Caçadores. Não acreditariam em nós, pois a lenda fala de uma Caveira de Burro. Não de uma fêmea e seus dois filhotes jovens. É por isso, inclusive, que os filhos da puta que participam do culto são homens, para equilibrar as energias e garantir que as trevas continuem mais fortes.

            Nena ficou em silêncio mais algum tempo. Tatiana, enfim, disse ainda chorando:

            — Vó, desculpa, eu não sabia...

            — Tudo bem, filha – disse a anciã saindo da poltrona e vindo sentar com eles no sofá. – Vou contar uma coisa a vocês: a Caveira de Burro é um troço horrível, onde derramaram toda a maldade e malícia possíveis. Coisa de gente ruim que nem deveria ser chamada de gente em primeiro lugar!

            Depois de mais uma pausa continuou:

            — Mas nem precisaríamos nos preocupar com ela, essa abominação não teria o poder que tem, se esse povinho de merda votasse direito! Puta que pariu, entra eleição sai eleição, um merda como o Salim Dornelles está sempre lá! Esse aí e todos os outros cretinos que continuam usufruindo de suas mamatas!

            — Se houvesse ao menos uma maioria de políticos, de juízes, de funcionários públicos que quisessem mesmo o bem do povo, essa porra dessa Caveira de Burro já teria perdido seu poder faz tempo! É como o Grande Inimigo, meninos! Ele, o coisa-ruim que aproveita a mania do brasileiro de levar vantagem em tudo, já teria voltado pros quintos dos infernos de onde saiu se esse povo tivesse vergonha na cara e parasse de votar nos mesmos filhos da puta de sempre. Não admira as energias das trevas que essa cidade amaldiçoada exala!

            — Claro que já ouviram dizer que esses bostas providenciam dificuldades para depois vender facilidades. E é assim mesmo! Oposição, situação, acha que estão ligando pro povo? Estão se lixando pra ele! Um dia estão de um jeito, outro dia invertem, tudo que interessa é continuar enganando e explorando o país, e ainda tem idiotas que brigam por políticos!

            Nena se levantou e andou até a grande janela. O pôr do Sol já tingia o céu com belíssimas cores. Ela suspirou e concluiu:

            — Meninos, a verdade é que existe gente que é muito pior, muito pior mesmo que qualquer monstro ou assombração que caçamos...

            Ouviram barulho de motor lá fora, e em seguida Samuel, irmão mais novo de Daniel, entrou. Olhou para todos e disse:

            — Oi! Todos em casa finalmente! Tudo bem?

            Lá fora estavam estacionados lado a lado o Fusca Azul e o Fuscão vermelho. Os faróis do primeiro brilharam levemente em um tom vermelho. Já os do outro carro foram tomados por um tênue brilho esverdeado.

 

            Em um gabinete em um dos Ministérios, dois homens de terno examinavam fotografias. Nelas aparecia um Fusca vermelho com uma jovem dentro, enquanto fora do carro, no gramado, três homens se enfrentavam. Um deles chegou com uma espada por trás do que estava de terno e cortou sua cabeça. Na sequência seguinte o corpo simplesmente sumiu.

            — Mas o relatório não falava que o tal Fusca era azul? E por que não temos um filme disto?

            — Até parece que você não conhece nossa situação no tocante a verbas.

            — O que sabemos dessa gente?

            O outro acendeu um cigarro, colocou os pés sobre a mesa e se refestelou em sua cadeira. Respondeu:

            — Conhecemos alguns que parecem se envolver na caçada a essas criaturas no sudeste e aqui no centro-oeste. Depois de terem saído daqui não sabemos para onde esses três foram.

            — Ele já sabe?

            O outro soltou baforadas e terminou por apagar o cigarro em um cinzeiro já cheio de bitucas. Respondeu:

            — Como se você também não fizesse questão de falar com ele o mínimo necessário. Aquela voz rouca dele sempre incomodou todo mundo com quem trabalhou. O homem é quase uma lenda aqui em Brasília, dizem que conhece mais segredos do que qualquer um.

            — O que fazemos, então?

            Os dois se entreolharam e por fim o outro disse:

            — Mande essas fotos pela secretária. É para isso que ela é paga.

Esta é uma obra de ficção. Toda e qualquer semelhança suposta e alegadamente maliciosa com pessoas vivas ou mortas não passará de coincidência. 

Vó Nena e os Caçadores retornarão.


 Espero que tenham gostado de mais esta aventura de Vó Nena e os Caçadores. Minha torcida é que tenha sido tão catártica para vocês lerem como foi para mim escrevê-la. Convido os leitores a conhecer também os dois e-books disponíveis:

Vó Nena e os Caçadores: O Fusca Azul



Vó Nena e os Caçadores: O Livro Maldito



E claro, continuem nos acompanhando: @renatoa.azevedo, @mlzotarelli, @corujiceliteraria e @2sobrevoandoporai.

Até a próxima!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

A Lista: O Natal, o Mundo do Céu Perfeito e o Buraco Negro

  Lucas Oliva estava parado, pés descalços sentindo a areia da praia, e a poucos metros dele chegava a água de ondas plácidas de um oceano que parecia um espelho de tão calmo.

O céu acima era o mais espetacular que já vira. O tenente, em suas missões desde que entrara para o Projeto, havia visto coisas inacreditáveis, que superavam os mais audaciosos arroubos de sua imaginação de leitor voraz.

Mas nenhum autor jamais conseguira descrever o céu que Lucas observou ao erguer o rosto para cima. Absolutamente repleto de estrelas, nuvens interestelares de gás e nebulosas planetárias. Alguns discos escuros de matéria por vezes revelavam um centro muito brilhante, sistemas solares em formação que talvez com sorte, dentro de poucos bilhões de anos, ostentariam planetas de todos os tipos, alguns até com formas de vida.


Ele não estava em seu mundo. Sequer em seu universo.

O Projeto consistia basicamente em uma instalação ultrassecreta na Região Centro-Oeste em seu Brasil de origem, onde nos subterrâneos fora construída a Esfera, um portal capaz de tornar acessíveis inúmeros planetas e Terras paralelas. Cada um dos membros das equipes de Viajantes, nome informal com que se apelidaram, já havia visitado diversas variações de planetas como a Terra, e conhecido um correspondente número de outros Brasis, alguns bem diferentes, outros parecidos com o deles.

Mas, de vez em quando, o portal se abria para universos e planetas que se revelavam completas surpresas. Como aquele em que estava, que fora chamado informalmente de O Mundo do Céu Perfeito. De dia o firmamento era de um azul ainda mais intenso que o de sua Terra, com formações de nuvens brancas de todos os tipos.

Á noite faixas luminosas, similares às auroras das regiões polares da Terra, davam ao panorama um aspecto de permanente crepúsculo. O fenômeno era alimentado pelas fortíssimas emissões eletromagnéticas e de radiação provenientes do centro daquele sistema.

As datações indicavam que o planeta tinha pouco mais de 3 bilhões de anos, e surpreendentemente haviam encontrado alguns sinais de construções por obra de seres inteligentes. Pelo pouco descoberto, estes poderiam ser relativamente semelhantes a humanos e visitantes vindos de outra procedência. Mas não puderam encontrar nenhuma pista sobre qual fora o destino final deles.

- Pensando naquele filme do planeta oceânico na órbita do buraco negro?

Lucas se virou e ergueu a mão para bater continência, mas a major Sandra Botelho, que liderava a missão, fez um gesto para que dispensasse a saudação. O tenente olhou ao longe e viu que ela também havia tirado as botas e as deixado ao lado das suas. Depois Sandra dobrou as barras da calça e pôs os pés na água tépida do oceano.

Fazia calor, ao menos 35 graus, e a umidade da atmosfera era elevada graças ao oceano, que ocupava a maior parte da superfície daquele mundo. Eles estavam em uma península no extremo da maior massa de terra remanescente, existindo ainda um continente menor e inúmeras ilhas esparsas.

- Não senhora – comentou Lucas respondendo à pergunta enquanto também mergulhava os pés na água. – É verdade que o que aconteceu àqueles personagens sempre me volta ao pensamento, mas estava lembrando da imagem chamada de Galaxy Rise.

- O Nascer da Galáxia? – perguntou Sandra. – É de qual filme?

- Do livro Cosmos, de Carl Sagan. É o livro mais antigo que ainda tenho, e corri para comprar a série quando saiu o DVD.

Sandra riu, deu mais alguns passos na água e depois retornou para a areia clara. Comentou:

- Sempre preferi estas missões científicas a todas as outras. Até mesmo aquelas dedicadas a encontrar membros da Lista em outras realidades, na esperança de descobrirmos mais a respeito.

- Essas também têm seu valor, major – acrescentou Lucas. – A Lista é mesmo um mistério instigante, e acabamos aprendendo muito sobre outras versões do Brasil nessas viagens. Mas as missões científicas como esta são mesmo fantásticas, e minhas preferidas também!

Sandra sorriu, voltou-se para ele e disse:

- Você curte tanto esses assuntos, Lucas! É um entusiasta da ciência e sempre um dos que mais prestam atenção às explicações do André, por que não busca uma bolsa de estudos e entra em uma universidade?

- Acho que aprendo muito mais dentro do Projeto, major.

Sandra olhou para Lucas e sorriu. Sabia exatamente como ele se sentia.


Os dois ficaram ali, observando o céu tomado de estrelas e formações galácticas. Aquele sistema ocupava uma posição em sua galáxia aproximadamente equivalente a do Sistema Solar em relação a Via Láctea. Porém o céu absolutamente deslumbrante escondia, lá no horizonte, os sinais do recente crepúsculo do objeto celeste ao redor do qual o planeta orbitava. O brilho de jatos de matéria, emitidos a uma velocidade próxima a da luz, ainda iluminava o encontro do céu com o mar, como um lembrete de que aquele panorama paradisíaco não iria durar por muito mais tempo.

Sandra sentou-se em uma pedra para voltar a calçar as botas quando do bolso de seu colete saiu um sinal sonoro. Ela tirou o comunicador, que tinha a aparência de um celular, clicou no botão para a saída holográfica e colocou o aparelho sobre a pedra.

A imagem da bióloga Joana Medeiros surgiu, e ela imediatamente começou a falar:

- Major, terminamos aqui na maior ilha do hemisfério sul. A vista que temos é incrível!

Joana segurava o comunicador na mão, e o colocou um pouco de lado para mostrar o que estava no céu, em posição relativa atrás dela. Aquele era o principal motivo da presença deles naquele mundo.

O enorme buraco negro ao redor do qual o planeta orbitava, a uma distância média de pouco mais de um bilhão de quilômetros e diminuindo, era somente um pouco menor que o Sagittarius A*, o objeto da categoria supermassiva que ocupa o centro da Via Láctea. A galáxia onde estavam tinha pelo menos o dobro do tamanho da nossa, e seu buraco negro central era ainda maior.

Algum fenômeno celestial de proporções extraordinárias havia produzido aquela situação, provavelmente o choque com uma galáxia menor bilhões de anos antes. A existência de um mundo perfeitamente habitável como aquele em órbita do buraco negro, por sua vez, talvez se devesse ao colossal campo de destroços, asteroides, rochas, gás e outros tipos de matéria orbitando o objeto. Essencialmente, os tijolos básicos para a construção de um planeta e de um sistema solar, mas acumulados ao redor de um monumental sorvedouro espacial.

- Já terminamos aqui na ilha – comentou Joana. – Como no restante do planeta, a vida biológica se resume a bactérias e micro-organismos no oceano, e alguns poucos liquens e musgos na superfície. Todos felizmente inofensivos para nós. Mesmo que seja um mundo habitável, com uma camada de ozônio que é o dobro da nossa, ainda assim as condições são severas para formas de vida mais complexas.

- Por isso dependemos exclusivamente do que trouxemos – concluiu Sandra.

- Exatamente, major – respondeu a bióloga. – Bem, nosso trabalho aqui está concluído. Precisa de mais alguma coisa?

- Não, doutora, reúna sua equipe e retorne à base. Vamos aguardar as próximas 9 horas, até o nascer do buraco negro no horizonte, verificar a aparelhagem que deixaremos e aguardar os acontecimentos. Em breve também iremos para casa.

- Combinado, major. Não demorem muito. Lembrem de que a dilatação temporal, graças à gravidade do buraco negro, está aumentando.

Aquela fora a razão pela qual Sandra havia comentado a respeito do tal filme com Lucas. No Mundo do Céu Perfeito, graças à intensa gravidade do buraco negro e a consequente distorção do espaço-tempo contínuo em sua proximidade, o tempo passava mais lentamente do que na Terra. Até o momento, conforme o equipamento que haviam trazido, 18 horas no planeta, que era seu tempo de rotação ou dia, equivaliam a 36 horas na Terra.

Como a órbita do planeta estava decaindo lentamente, essa diferença temporal aumentava a cada momento, mas ainda era manejável. Para tornar tudo ainda mais urgente, eles haviam saído da Terra no dia 19 de dezembro, faltando seis dias para o Natal. Esperavam estar de volta em 22 de dezembro, contando com a variação experimentada no planeta.

O destino final daquele mundo paradisíaco era mergulhar no buraco negro, isso se não colidisse com algumas das rochas, asteroides ou até mesmo estrelas que orbitavam o colossal poço multigravitacional. Através do primeiro satélite que enviaram para a órbita do planeta haviam testemunhado uma estrela laranja pouco menor que o Sol ser “espaguetificada” e desaparecer bem no centro do objeto, o que permitiu a obtenção de inúmeros dados científicos que fizeram a alegria do departamento de Astronomia e Astrofísica do Projeto.


Joana agradeceu e desligou. O restante de sua equipe, outros dois cientistas e três fuzileiros, terminou de arrumar o equipamento e ela acionou no comunicador o comando de retorno.

Uma esfera luminosa surgiu diante deles, porém ao contrário de suas viagens anteriores a imagem piscou e lançou raios luminosos. Parecia um daqueles aparelhos de televisão antigos, nos quais para melhorar a recepção se colocava uma palha de aço na ponta da antena do aparelho.

Quando o portal se estabilizou todos se apressaram para cruzá-lo. Normalmente o viajante não sentia nada, e com um passo estava de volta à plataforma subterrânea na base secreta do Projeto.

Desta vez, Joana sentiu como se atravessasse um longo túnel luminoso.

A sensação durou por um tempo que ela não saberia definir. A moça sentiu ainda outra coisa, algo indefinível que começou a plantar o pavor no fundo de sua mente.

Teve o nítido pressentimento que alguma coisa estava desviando o caminho que percorria entre as inúmeras realidades, afastando-a do destino seguro.

Antes que percebesse sentiu os pés em uma superfície firme, abriu os olhos e se viu no familiar salão de concreto. Olhou ao redor, respirou aliviada pelos companheiros estarem a seu lado, pessoas gesticulavam na sala de controle do portal atrás de uma vidraça na parede adiante, e de uma porta blindada lateral entraram vários militares, cientistas de jaleco branco e o jovem André Lozano.

- Tudo bem com vocês? – perguntou este último com expressão aflita que era muito rara de ver nele.

Todos pareciam muito preocupados, mas Joana respondeu:

- Tudo bem, a passagem pelo portal pareceu mais demorada dessa vez, mas estamos bem.

André a olhou espantado, e enquanto desciam a rampa cada um deles era observado e questionado pelos demais cientistas. O jovem gênio graças ao qual o Projeto devia sua existência se aproximou de Joana e disse:

- Obtivemos seu sinal de retorno faz mais de seis horas. O portal ficou aberto todo esse tempo até atravessarem!

Somente nesse momento Joana observou a fileira de grandes relógios instalada na parede lateral. O que marcava o horário brasileiro apontava que era 06:42 h de 23 de dezembro.

A bióloga virou-se para André boquiaberta, e o cientista disse:

- Temos que alertar Sandra e sua equipe para retornarem agora. A influência do buraco negro aumentou mais do que prevíamos!


A noite no Mundo do Céu Perfeito durou pouco menos de nove horas. Havia muito a fazer, e ninguém quis dormir. Raquel Serendipi, novata no Projeto mas já conquistando seu lugar graças a seus conhecimentos em Astrofísica, ocupou-se com a montagem final do equipamento astronômico que seria deixado ali. Era um telescópio de grande abertura e três outros, incluindo um infravermelho e outro de raios-X que buscavam alvos para o principal, controlados por uma central computadorizada autônoma. Tudo fora instalado em um pequeno monte na base da península na qual estavam.

Raquel acompanhou a trajetória ao longo do sistema de uma estrela amarela, de tamanho equivalente ao Sol, que fora detectada ainda antes da vinda deles. Era do tipo conhecido como de hipervelocidade, sóis que percorrem longas trajetórias ao longo de uma galáxia em altíssimas velocidades. Os cálculos iniciais apontavam que iria contornar a curta distância o buraco negro, mas quando ela desapareceu pelo horizonte a astrofísica refez as contas e ficou em dúvida quanto a isso.

- É provável que acabe mergulhando no buraco negro – comentou.

Ela aproveitou a noite para fazer imagens dos demais planetas em órbita. Dois eram rochosos e pouco interessantes, situados mais próximos ao centro do sistema. Já o mundo situado a mais de dois bilhões de quilômetros do buraco negro era gasoso e classificado como um sub-Netuno, cerca de um quarto menor que o menor gigante gasoso do Sistema Solar. Tinha coloração verde-azulada e faixas multicoloridas que iam do amarelo ao vermelho, indicando compostos orgânicos na atmosfera. Também era o único que possuía satélites, e Raquel descobrira sua sexta lua naquela noite.

Ao se aproximar a alvorada Lucas, Sandra e Raquel desceram para a faixa de areia que era a extensão mais estreita da península, depois que a astrofísica ajustara os telescópios para captar desde o horizonte imagens do buraco negro. O céu escuro foi clareando até o intenso azul que já conheciam, e viram surgir primeiro a estrela amarela que vinham acompanhando. Depois apareceu o disco de matéria que orbitava o objeto central brilhando intensamente.

Raquel olhava alternadamente para o monstro cósmico e para a tela de seu comunicador, e finalmente disse:

- O computador confirmou! A estrela está caindo no buraco negro!


A olho nu conseguiam ver claramente o movimento da estrela, comprovando sua tremenda velocidade. Relativamente à posição do plano da órbita dos planetas aquele sol vinha de cima, e subitamente observaram um fio de matéria sair de sua superfície e mergulhar no centro negro do sorvedouro espacial.

A astrofísica deu pulos no mesmo lugar e correu para o equipamento, impaciente para conferir os dados.

Lucas e Sandra riram e ficaram na faixa de areia contemplando o espetáculo. O tenente olhou para o relógio e disse:

- E então, major, planos para o Natal?

Trocaram olhares sorrindo e Sandra, depois de suspirar e voltar a contemplar o espetáculo cósmico, respondeu:

- Só quero chegar em casa e aproveitar a ceia com minha mãe e Susana.

Sandra criava a filha de sete anos sem o pai da menina, que não aguentara os rigores de ser cônjuge de uma militar. Era difícil para a garota, mas a major fazia o máximo para tornar especial cada vez em que estavam juntas.

- Susana é uma ótima menina, major – comentou Lucas. – E tem muito orgulho da mãe. Todos temos, na verdade.

A militar agradeceu com um olhar emocionado. O tenente completou depois de olhar o relógio:

- Se os cálculos estiverem certos, e espero que estejam, ainda é madrugada de 22 de dezembro em nosso mundo. Depois de voltarmos também vou correr para casa, ansioso por passar uns dias com minha família!

Eles voltaram a ficar em silêncio. O buraco negro já havia subido mais, e podia ser visto em sua totalidade. O que estava diante deles não diferia muito das fotos já obtidas pela Astronomia terrestre e das concepções artísticas. Um enorme espaço negro e esférico era rodeado por um halo distorcido de matéria muito brilhante. O espaço central era absolutamente preto, a coisa mais escura que qualquer um ali jamais vira.

As faixas na atmosfera do planeta brilhavam em várias cores, abrangendo quase todo o espectro, e acentuando o azul da atmosfera. O oceano incrivelmente límpido e calmo refletia aquelas tonalidades, e todos os membros da expedição tinham certeza de jamais esquecer aquele espetáculo multicolorido.

Nesse momento um alarme barulhento soou nos comunicadores de todos. Lucas e Sandra se entreolharam, observaram no alto da elevação Raquel olhar na direção deles, e saíram correndo para lá.


Raquel observou o alarme na tela de um computador portátil semelhante a um laptop, mas dotado de tecnologia derivada da ciência que tornara o Projeto e a Esfera possíveis. A astrofísica abriu espaço e Lucas dedilhou comandos no teclado, mas depois que alguns avisos apareceram na tela disse:

- É um arquivo de vídeo, mas parece ter alguma anomalia. Vou tentar reproduzi-lo...

Depois de mais alguns comandos o programa abriu o arquivo, mas nada distinguiram além de uma imagem borrada e um zumbido no áudio. Raquel comentou:

- É impressão minha, ou parece alguém falando?

Lucas diminuiu a velocidade do vídeo, e a imagem passou a se assemelhar a uma sombra. Mesmo assim a extensão do vídeo não chegava a um segundo, e o zumbido se tornara mais grave.

Sandra pediu que ele prosseguisse naquela tarefa, e mandou que os demais começassem a se preparar para um retorno de emergência.

- Não custa prevenir – comentou ela. – Vamos prosseguir nas tarefas programadas, mas preparados para partir a qualquer momento.

Os três fuzileiros reuniram seus equipamentos e cada um deles correu para fazer uma ronda em sua área determinada. Joana sentou-se diante do equipamento astronômico e fez a programação final do sistema. Também inseriu nas memórias dos três satélites em órbita os comandos e instruções finais. Um permaneceria ao redor do planeta até o final, o segundo se afastaria antes de chegar à região do disco de matéria do buraco negro, e o terceiro regressaria para a base depois da equipe. O Projeto não tinha muita folga orçamentária, e reter intacto qualquer equipamento dispendioso como aquele era uma medida salutar.

- Major, doutora!

Lucas chamou as duas, que vieram prontamente. Ele exibiu na tela do computador o resultado de seus esforços.

Já era possível ver que era André Lozano, porém o vídeo ainda estava acelerado demais. Sandra perguntou:

- Será possível que a distorção temporal tenha feito o vídeo ficar mais rápido que o normal?

- Major, foi gravado em um espaço-tempo diferente do que estamos – teorizou Raquel. – Isso será certamente discutido nas reuniões das equipes científicas. Guardou o arquivo original, Lucas?

- Sim senhora!

O militar continuou trabalhando no vídeo para tornar seu conteúdo inteligível. No céu o centro do sistema continuava seu espetáculo de proporções verdadeiramente cósmicas. A estrela amarela estava visivelmente mais próxima do buraco negro, e o fio de matéria que saía desta e mergulhava através do horizonte de eventos havia se tornado ainda mais espesso.

Evidentemente não escapou a nenhum deles que os eventos que observavam haviam acontecido várias horas antes, devido à distância que os separava daquela mortífera região. Distância essa que, conforme sabiam, diminuía lentamente conforme o Mundo do Céu Perfeito seguia sua órbita ao redor do sorvedouro espacial.

Lucas trabalhou febrilmente, e enfim conseguiu que fosse possível assistir ao vídeo. Todos observaram André dizer:

- Equipe da major Sandra, vocês devem voltar imediatamente! – o cientista dizia enquanto empunhava seu comunicador. Atrás deles passavam pessoas que eles reconheceram como a outra equipe que estava no planeta. André prosseguiu:

- A equipe de Joana demorou seis horas, entre entrar no portal aí no planeta e surgir aqui na base, para retornar. A influência do buraco negro está aumentando de forma não prevista, e ainda existem outras anomalias cuja origem não conseguimos determinar. Aqui em casa já é manhã de 23 de dezembro, e peço a vocês que retornem o quanto antes! Repito, regressem imediatamente!

Ninguém precisou de mais nada para agir. Todos se apressaram a terminar suas tarefas. Lucas asseverou que o arquivo original e o que manipulara haviam sido salvos na memória e guardou o computador na mochila. Os fuzileiros já se encontravam a postos, e o tenente auxiliou Sandra e Joana nos últimos ajustes do equipamento.

Lá no céu a estrela amarela havia diminuído sensivelmente de tamanho, mas alguma matéria dela restara, e possivelmente segundo Raquel algum planeta ainda em órbita. O disco ao redor do buraco negro emitia flashes de luzes intensos e jatos de matéria, e a astrofísica apontou o equipamento, prevendo que emissões fortíssimas de radiação vinham na direção do planeta. Felizmente ainda levariam horas para atingi-lo, quando esperavam não estar mais ali.

Finalmente todos se reuniram na areia da praia. O cenário paradisíaco desta vez encerrava uma ameaça que não compreendiam em sua totalidade, mas a beleza daquele mundo de cores não podia ser ignorada. Antes de acionar o comando de retorno Sandra disse:

- André vai se ver comigo quando chegarmos!

- Major, com todo o respeito, a senhora é a segunda da fila – respondeu Raquel.

A militar conseguiu exibir um sorriso irônico, e por fim acionou no comunicador o comando de retorno. A familiar esfera luminosa surgiu diante deles. Sandra pediu que Lucas passasse primeiro, mas nesse instante o portal pareceu piscar, fazendo estalar partículas na atmosfera ao redor.

O tenente parou, e todos continuaram a observar a esfera luminosa. Mais alguns segundos torturantes se sucederam com o portal assobiando, estalando e piscando, mas finalmente se estabilizou na reconfortante esfera branca que representava o caminho de casa.

Lucas se adiantou e desapareceu na esfera, no que foi seguido por todos. Sandra foi a última a cruzar, depois de uma última olhada no equipamento no alto da elevação e no belo panorama do Mundo do Céu Perfeito.


Lucas olhou ao redor e não viu mais ninguém. O que via lhe fez crer que percorria um longo túnel formado por luzes, algumas vezes brancas, outras multicoloridas. O túnel dava voltas, se curvava e era transparente, e além dele o tenente via estrelas, planetas e galáxias vindo em sua direção e sendo deixados para trás em elevadíssima velocidade. Tudo que havia ouvido e aprendido durante sua participação no Projeto lhe dizia que aquilo não poderia existir, e ficou pensando se as séries e filmes que assistira, ou os livros que lera, estavam influenciando sua mente.

Sandra não conseguia ver os demais, e olhando para frente via somente um círculo multicolorido do qual parecia se aproximar, e de outras vezes se afastar. Deduzira isso pelo tamanho aparente da visão, e decidiu que estava imaginando coisas. Fechou os olhos e reparou que não havia ruídos nem qualquer outra sensação. Esticou os braços para o lado. Nada. Começou a se lamentar por ter decidido atravessar o portal sem aguardar mais um pouco.

Raquel se sentiu percorrendo um longo túnel escuro, onde por vezes reluziam reflexos de luz. Prestando atenção poderia jurar que vira cenas ali, e intuitivamente percebeu que o túnel parecia se curvar. Também de forma instintiva sabia que a única direção certa era direto em frente, e que qualquer desvio representava perigo. Apavorou-se com aquilo e gritou, ou pensou ter gritado. Não ouviu a própria voz e ficou com mais medo ainda. Tentou gritar de novo, mas subitamente tudo ficou escuro.


A próxima sensação que Raquel teve foi pisar em uma superfície sólida. Abriu os olhos e se viu em uma plataforma metálica no meio de um enorme aposento feito de concreto. Diante dela uma grande janela onde os técnicos que controlavam o portal observavam tudo espantados. A moça olhou ao redor e viu os demais companheiros, os emissores do portal que formavam a Esfera, e abraçou Lucas quando sentiu tontura.

Um momento depois uma equipe de cientistas e médicos recebia os seis recém-chegados. Raquel ainda abraçava Lucas, e quando o soltou e olhou para a rampa de descida viu André com cara de espanto olhando para eles. A astrofísica esboçou um sorriso, apoiou a mão no corrimão e começou a descer a rampa, trocando um rápido olhar com o cientista. Ainda sentia vestígios do pavor recente, mas a expressão de André era um alívio para ela, e a fez sorrir mais.


Todos foram rapidamente examinados enquanto André explicava o que havia acontecido. O portal operara por sete horas seguidas, um novo recorde, e finalmente conseguira trazer todos de volta em segurança. O fato de estarem vivos e por unanimidade afirmarem que para eles a viagem durou no máximo poucos minutos poderia se dar, conforme disse, tanto aos efeitos inéditos da proximidade com o buraco negro quanto pela física ainda não totalmente compreendida do portal transdimensional.

Ficaram espantados ao serem informados que já eram 16:58 h de 24 de dezembro. As complexas interações entre os dois contínuos espaço-temporais, e especialmente os efeitos da dilatação temporal nas proximidades do buraco negro, haviam provocado aquilo. O comandante do Projeto ficou satisfeito ao saber do retorno da equipe, e a major Sandra transmitiu sua ordem de que estavam todos dispensados para aproveitar o Natal com as famílias.

- Presente de Natal será sem dúvida o que a equipe de Astronomia e Astrofísica irá receber com os dados que trouxemos, e ainda serão transmitidos do sistema! – comentou Raquel.

A moça brincava, abraçou os companheiros e foi para seu alojamento se trocar. Mas o que sentira ainda a fazia tremer.


Sandra tivera permissão para requisitar um avião da Força Aérea Brasileira para levá-los a tempo para casa. Joana e Lucas aproveitaram a carona, e todos conseguiram chegar em casa a tempo.

Joana fez questão de continuar na base aguardando o retorno dos colegas e ajudando no que podia, mas respirou aliviada ao se sentar à mesa. Olhou ao redor, viu seu irmão com a esposa, seus pais, e sentiu-se feliz. Tentando não pensar na experiência incrível, dedicou-se a saborear a ceia em família.

- Mamãe, você veio!

Susana pulou nos braços de Sandra mal a major abriu a porta de casa. A militar não conteve as lágrimas, e a mãe dela se emocionou ao ver a filha e a neta juntas.

Lucas não aparecia em casa fazia meses, e tocou a campainha um tanto apreensivo. Continuava a pensar na estranha experiência do retorno, e na rápida conversa que teve com André. O cientista fazia pouco caso de suas observações, mas por vezes o tenente o surpreendia com informações e ideias que o faziam pensar. Terminaram por combinar que conversariam mais quando regressasse à base.

- Filho, que bom te ver!

A mãe de Lucas o abraçou forte e o trouxe para dentro. A família toda, incluindo tios, primos e sua avó, estava ali reunida. Ele nem sabia quanto tempo fazia que não via muitas daquelas faces, mas se sentiu feliz por estar ali com eles.


André estava em seu escritório na base. Dedilhava no laptop sobre a mesa, e se levantava para escrever uma equação ou esboçar algum gráfico na comprida lousa que ocupava uma das paredes.

Repetiu esse trajeto várias vezes, alternando com idas à estante abarrotada de livros da parede oposta, quando abria um volume, corria os dedos por uma página, e retornava para a mesa.

Raquel entrou bem no momento em que André, de costas, escrevia algo na lousa. Ao se virar e dar de cara com ela ergueu o tronco e arregalou os olhos de espanto.

A astrofísica estava de camisa branca, calça jeans e tênis. O jovem cientista a olhou por um instante, retornou ao computador e continuou trabalhando.

A moça se aproximou e sentou-se na cadeira do outro lado da mesa. Esperou por algum tempo mas, fora um ou dois momentos em que ergueu os olhos para ela, André permanecia concentrado.

- E aí, o que acha que aconteceu? Por que cada um de nós viu ou sentiu o que descrevemos?

Raquel fez a pergunta lembrando da conversa que tiveram logo após sua chegada. A moça ainda se sentia perturbada pelo que experimentara, tentava usar seus próprios conhecimentos para entender o que houve, e usava de ironia e sarcasmo tanto para provocar André quanto para se animar.

Fez outras perguntas, mas o cientista continuava a ignorá-la. Refez o trajeto ao se levantar, testar uma equação na lousa e consultar um livro. Tornou a dedilhar o teclado do computador, e quando fez menção de se levantar de novo a moça explodiu:

- Vou te bater tanto se fizer isso de novo!

André olhou para ela espantado. Por um momento ambos ficaram sérios, se encarando. Por fim sorriu, deu um comando para salvar o trabalho que fazia e fechou o laptop. Raquel também sorriu, lembrando de outros momentos semelhantes nos últimos meses, desde que entrara para o Projeto.

- As vezes invejo você, Raquel – comentou ele.

Pega de surpresa, a moça perguntou:

- Por quê?

- Claramente, mesmo depois de tão pouco tempo, você está em casa aqui.

- Ué, e você não?

André cruzou os braços apoiando-os sobre a mesa, e por um momento ficou olhando para a mão dela, que brincava com um dos botões da camisa. Ela percebeu e sorriu maliciosamente, ao que ele virou o rosto, ajeitou os óculos, voltou-se de novo para a moça e disse:

- Pela ciência e tecnologia feita aqui, sim. Mas ainda é difícil lidar com as pessoas. Eu vejo como todos já gostam de você, do que faz, enquanto eu...

Raquel apoiou as mãos na mesa, aproximou o rosto dele, e disse:

- Ciúmes do Lucas, é?

- Ha, ha, ha, boa tentativa.

Ela voltou a se recostar na cadeira, ainda sorrindo com malícia. Mas sua voz era séria quando disse:

- Quem sabe, André, se você fosse um pouco menos arrogante, e não tentasse corrigir os outros o tempo todo...

- Você sabe que este Projeto só existe por minha causa, né?

- Claro que sim! Eu e todos aqui. E sim, cada um tem um jeito de manifestar afeição, e todos gostam sim de você, André. De um jeito diferente, claro...

- Ah, é? Por exemplo?

- Sandra e eu conversamos muito no Mundo do Céu Perfeito. Ela te admira muito, e sempre será grata pelo que fez por ela, na época do comandante anterior.

- Ele era um babaca machista que não aceitava o fato dela ser mãe solteira. Ainda por cima era um ignorante, e estava no cargo por amizades políticas.

- E vocês dois o derrubaram, e agora o Projeto está em mãos muito melhores. Muitos te admiram pelo que fez, e também por isso são tolerantes com seu jeito e suas manias.

André recostou-se na cadeira, parecendo ao mesmo tempo confuso e agradecido. Tirou os óculos e esfregou os olhos, e Raquel ficou em dúvida se estava emocionado. Completou:

- Então não fique com inveja de mim, e trate de ser um pouco mais tolerante e aberto com todos, certo?

- Logo, logo, você vai ser a nova psicóloga da base desse jeito.

Raquel se levantou com expressão de poucos amigos. André se assustou, baixou os olhos, tornou a olhar para ela e disse:

- Quero dizer, sim senhora!

Ele exibiu um sorriso irônico, ao que Raquel retribuiu e tornou a se sentar. Ela voltou a mexer no botão da camisa por um instante, novamente o flagrando olhando para seu ato. Riu e perguntou:

- Não foi pra casa para o Natal?

- Nunca gostei muito das festas de final de ano. E sempre tive um relacionamento difícil com minha família.

O silêncio durou alguns instantes antes de André parecer se dar conta de algo e dizer:

- E você?

Raquel sorriu, pensou um pouco e finalmente disse:

- Meus pais são separados. Mamãe sempre apoiou minha carreira acadêmica, já meu pai é tradicionalista demais. Brigamos demais quando eu era adolescente, e faz anos que não o vejo. Sou a filha mais velha, e minhas irmãs ainda moram com minha mãe... pensei em visitá-las no Natal, mas sei lá, perdi a vontade.

- Sei. Este lugar... o que fazemos aqui.

Raquel se levantou e foi até a estante. Leu muitos dos livros ali dispostos, alguns até que possuía em sua coleção. Comentou o fato com André, e sentiu que ele passou a tratá-la com mais deferência depois disso.

- Acho que isso é o mais difícil daqui – disse ela. – Se escrevesse um artigo só com o que já descobri no sistema do Mundo do Céu Perfeito e seu buraco negro, e se pudesse provar naturalmente, teria lugar garantido em qualquer uma das melhores instituições acadêmicas do mundo!

- Sempre pensei exatamente o mesmo! E Lucas volta e meia comenta que prefere continuar no Projeto a fazer uma graduação, diz que aqui aprende muito mais – comentou André.

- Exatamente! Sandra comentou que conversou isso com ele enquanto estávamos no planeta.

A astrofísica disse que havia passado na sala de controle e examinado os últimos dados. Tudo transcorrera conforme ela havia programado os satélites, e um deles acompanhava a uma distância segura a trajetória daquele mundo. Um grupo de câmeras menores continuava a transmitir imagens da superfície do planeta, que permanecia tão incrível como eles haviam testemunhado.

- E veja só, os vídeos enviados desde a superfície parecem estar em câmera lenta – completou Raquel. – O contrário daquele que nos mandou. Aliás...

A moça voltou a se sentar e ficou encarando o cientista. Depois disse:

- Que raio de ideia foi aquela de mandar um vídeo!? Por que não uma mensagem de texto, que teríamos lido com muito mais facilidade?

O cientista a olhou, abriu a boca para responder, mas manteve o silêncio. Momentos depois respondeu:

- É verdade, deveria ter pensado nisso. É o modo habitual de comunicação com equipes lá fora. E na pressa ninguém lembrou da possibilidade de, em outro contínuo e ainda mais afetado pela gravidade...

Raquel riu alto, se sacudindo na cadeira. André riu também, e os dois ficaram assim por algum tempo.

O cientista finalmente sossegou, tornou a abriu o laptop e o virou para ela. Raquel se endireitou e examinou os dados, enquanto ele explicava:

- Os gráficos em nosso monitor de continuum mostram de fato uma anomalia associada ao sistema do Mundo do Céu Perfeito. Lembre-se que se trata de um buraco negro supermassivo um pouco menor que o de nossa galáxia, e essa foi a primeira vez que estivemos tão perto de um objeto assim.

- As teorias existentes dão conta de explicar alguns fenômenos – disse Raquel. – A dilatação temporal pela imensa gravidade distorcendo o tecido da realidade nas proximidades do buraco negro, principalmente.

- É provável que abrir um portal transdimensional nas proximidades de um local assim cause efeitos ainda não previstos – prosseguiu André. – A própria física do portal ainda é uma coisa cujo entendimento precisamos melhorar.

- Mas o que explica o que observamos no retorno?

- Não sei. Mas estive nas últimas horas pensando sobre este outro gráfico, que transferido para o monitor de continuum, comprova uma outra influência, além do portal aqui na base e do sistema onde vocês estavam.

Raquel observou os gráficos, estudou os dados, e em alguns momentos percebeu André a olhando de uma forma que ela nunca vira. Esboçou um sorriso involuntário antes de se controlar e perguntar:

- E o que descobriu sobre essa influência externa?

André recostou-se na cadeira, entrelaçou os dados atrás da nuca, olhou para o teto e respondeu:

- Por enquanto nada. Mas continuo estudando os dados e aguardando novas informações. É frustrante não saber, mas ao mesmo tempo isso é um incentivo para nunca parar de procurar respostas.

- É isso mesmo!

Raquel concordou com André, e eles ficaram em silêncio por algum tempo. Ela reparou que os olhos dele corriam dos cadernos em seu lado da mesa, onde também fizera anotações até ela, e por fim a moça levantou-se sorrindo.

- Bem, quase onze da noite – disse após consultar o relógio. – Vou passar no restaurante, soube que o pessoal preparou uma bela ceia, e estou com fome.

Ela se virou e foi até a porta. A abriu e estava a ponto de sair quando ouviu:

- Raquel... Feliz Natal.

A moça se virou, olhou para o rapaz e sorriu. Respondeu:

- Feliz Natal, André.

Raquel saiu, fechou a porta, e por um momento ficou pensando sobre aquele instante. Sorriu, um sorriso radiante de contentamento, e se dirigiu ao restaurante da base.

André tentou voltar a se concentrar no trabalho. Conferiu algumas equações em um caderno, mas tudo parecia se confundir diante da lembrança do adorável sorriso de Raquel. Fechou o caderno, apoiou os cotovelos na mesa e o queixo nas mãos, e pensou por um instante.

Percebeu duas coisas. Estava com fome, e sentiu uma estranha vontade de ver Raquel sorrindo de novo.

Ele riu, se levantou, saiu e apagou a luz do escritório antes de fechar a porta.


Nota do autor:

Vocês já conhecem Raquel Serendipi, astrofísica; Joana Medeiros, bióloga; Lucas Oliva, tenente; e Sandra Botelho, major. Além do cientista prodígio André Lozano. Todos eles aparecem em A Lista: Monstros, conto de minha autoria publicado em Monstros, antologia da Editora Buriti publicada em 2015. Espero que tenham gostado deste conto natalino e de ficção científica, já que as últimas histórias dA Lista publicadas aqui eram decididamente distópicas. Basta de problemas e temores com os noticiários atuais, concordam? Acho que nós fãs de Ficção Científica e Fantasia, assim como as demais pessoas, precisamos de mais escapismo, de mais incentivos para voltarmos a sonhar com um mundo e um futuro melhores. E nada melhor para isso do que uma aventura no velho estilo “audaciosamente indo onde ninguém jamais esteve”. E se preparem, pois é possível que no futuro próximo vocês os encontrem novamente, no romance dA Lista. Sonhar ainda não paga imposto!

Lembrando que continua disponível na Amazon o e-book A LISTA: FENDA NA REALIDADE.


Por sinal, o filme mencionado por Sandra não teve nada a ver com a elaboração deste conto! O que me inspirou foi uma imagem que vi dias atrás na parede da sala de espera da clínica oftalmológica onde aguardava uma consulta de rotina. É incrível como funciona a cabeça de um escritor, capaz de criar uma história a partir de uma imagem, que por sinal é esta:


Os últimos meses foram movimentados. Quem me acompanha nas redes sociais sabe que publiquei mais um e-book na Amazon, VÓ NENA E OS CAÇADORES: O LIVRO MALDITO. O retorno tem sido bom, o que inclui o prelúdio publicado no mesmo volume, Vó Nena e os Caçadores: O Diário de George Angelo, no qual presto uma homenagem ao mestre do horror cósmico H. P. Lovecraft. Nunca havia imaginado seguir o mesmo estilo e temas de outro autor, mas essa história me surpreendeu e agradou muito pelo resultado final. Confiram vocês também! E claro, a tag “Vó Nena e os Caçadores” está aí no final deste post para ser usada, combinado? Assim como “A Lista”.


E a melhor notícia de todas, a editora Underline Publishing irá publicar em 2021 meu romance CÉU DE GUERRA, uma história ao mesmo tempo Dieselpunk e de História Alternativa! Se pensaram na pergunta “o que aconteceria se...?” acertaram! Basicamente a trama, que se passa na Segunda Guerra Mundial, irá explorar o que aconteceria se fosse criada uma indústria aeronáutica no Brasil em meados dos anos 1920, por parte de certo famoso pioneiro da aviação. Outros detalhes ainda estão sendo acertados, mas esse lançamento já está cercado de expectativa, e espero que vocês apreciem tanto quanto eu. Foi uma grande surpresa e uma honra participar do anúncio da Underline Publishing na Bienal do Livro de São Paulo Edição Virtual anunciando a novidade! E vocês, claro, devem se lembrar do conto Céu de Guerra: a Batalha da Inglaterra, publicado na antologia Retrofuturismo da saudosa Tarja Editorial, que na prática funciona como prelúdio para o livro.

Assim deixo vocês, caros leitores, com um muito obrigado e os melhores votos de um Feliz Natal e um excelente Ano Novo (esperamos todos que seja MESMO muito, muito, MUITO melhor do que este).

Continuem nos acompanhando: @renatoa.azevedo, @mlzotarelli, @corujiceliteraria e @2sobrevoandoporai.

Até a próxima!

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Vó Nena e os Caçadores: A Placa do Fusca Azul

Nota do autor: Este conto de terror com muita violência e sangue é dedicado a todos que já tiveram o dissabor de ter seu querido Fusquinha levado por vagabundos. Espero que seja ao menos um pequeno e catártico consolo.

Aquela dupla seguiu discretamente e a distância o Fusca Azul impecável logo que o viu passar na pequena estrada rural. Estacionaram antes de uma curva, e na posição em que estavam conseguiam ver, em meio às árvores e vegetação que cobriam as laterais da via, quando o carro estacionou e uma velha apoiada em uma bengala e um casal de jovens desceram.
Esperaram alguns instantes, e então voltaram a mover seu veículo, parando atrás do Fusca.
- Caraio, véio, está inteirão!
- Não tô gostando, já ouvi muitas histórias sobre Fuscas assombrados nesta região...
- Tá com medinho, é? Vai lá que a gente leva esse aí, ninguém mandou deixarem dando sopa!
O outro saiu, olhando para todos os lados, enfiou a ferramenta entre o vidro e a porta e conseguiu entrar no Fusca. Depois de fazer ligação direta o motor pegou, e os dois ladrões saíram em velocidade pela via de terra.


Dentro da propriedade Daniel ia à frente conversando com a proprietária do lugar, e enquanto sentia no caminho arborizado e florido as energias estranhas que pareciam mover os bizarros acontecimentos, razão pela qual haviam sido chamados, Tatiana segurou o braço de Vó Nena e cochichou:
- Vó, acho que ouvi barulho do motor do Fusca...
- Filha, garanto que isso não vai ser problema. Vamos resolver o que nos trouxe aqui, depois a gente vê.

O desmanche da quadrilha ficava a menos de oito quilômetros do lugar onde haviam roubado o Fusca, que agora era estacionado no meio de um grande galpão atulhado por peças de carros, carrocerias completas de um lado, e motores do outro. Mais cinco homens vieram receber os dois recém-chegados.
- Olha só que beleza, fazia anos que não via um desses!
- Caramba, acho que é um 1962 monocromático.
- Beleza, vamos começar a desmontar...
- Deixa de falar merda, moleque! Inteiro esse carro pode valer muito mais!
- Tem razão! Liga aí pro seu contato, aquele colecionador lá!
O que havia recebido a ordem apanhou o celular do bolso e logo começou a falar com um sujeito que frequentava o meio dos colecionadores de carros. Descreveu o Fusca Azul enquanto dava voltas ao redor do carro, depois parou diante dele.
- Ele tá perguntando a quilometragem.
O que dera a ordem de ligar para o colecionador, e que era o líder do bando, enfiou a cabeça pelo vidro da porta, que havia sido deixado aberto pelo ladrão que o trouxera, e observou o velocímetro.
- Diz pra ele que o hodômetro tá marcando... que merda é essa?
O líder do bando ficou espantado e imóvel por um instante, ao ver que os instrumentos do painel subitamente brilharam em um tom vermelho vivo.
E depois sentiu só uma dor terrível e súbita, antes de não sentir mais nada.
Os demais bandidos imediatamente começaram a gritar em pânico, vociferando palavrões e termos desconexos enquanto se afastavam do carro. Nem repararam que o motor havia ligado sozinho.
Estavam todos concentrados em contemplar a cena horrenda do corpo de seu chefe decapitado pelo rápido fechamento do vidro da janela, que desabou ao chão e ficou imóvel depois de poucos espasmos.
A porta do Fusca, tingida de sangue, abriu, e o horror deles aumentou quando viram sobre o banco a cabeça do sujeito exibindo uma expressão de terror nos olhos arregalados. O líquido vermelho gotejava pingando do assento.


Uma força invisível lançou a cabeça sobre os dois ladrões que estavam ao lado do Fusca. Dois dos que estavam na frente do carro sacaram as armas e atiraram nele enquanto gritavam.
- Mas que merda é essa? Caralho, o que essa coisa fez com o Mané?
Os tiros furaram a lataria do Fusca e estilhaçaram os vidros. Quando as armas ficaram descarregadas, para espanto de todos os seis ainda vivos, os vidros se refizeram após os estilhaços voarem de volta para o carro, e sua lataria fechou os buracos, ficando como nova.
- Olha... olha a placa! NEN 42...
- Que merda você tá falando?
O Fusca acelerava, arrastando um pouco os pneus. Seus faróis brilhavam em um intenso tom de vermelho.
- NEN 4 parece Nena... Tem uma lenda na região sobre uma bruxa chamada Nena, que dirige um Fusca amaldiçoado! Não pode ser...
O Fusca arrancou, avançando contra os dois que haviam atirado. Um deles não teve tempo de correr, e os demais viram como se fosse em câmera lenta o terrível impacto atingi-lo, dobrando-o ao meio e partindo seu crânio sobre o capô do Fusca.
O cadáver escorregou lentamente e caiu ao chão, deixando o capô e o para-brisa cobertos de uma mistura de sangue e miolos.
O impacto atingiu um guincho que segurava um pesado motor de caminhão. O outro bandido que atirara, atônito com a cena horrenda que presenciou, mal teve tempo de olhar para cima antes de ser atingido e esmagado pelo motor.
Restavam outros quatro ali, imobilizados pelo horror e pelo pavor. Uma televisão sobre uma escrivaninha ligou de repente, e movidos por uma força incompreensível eles se voltaram para ela.
Em uma cena em uma prisão, após derrubar outro prisioneiro, um personagem diz aos outros:
- Vocês não entendem. Eu não estou trancado aqui com vocês. Vocês estão trancados aqui comigo!
Os ladrões olharam para o Fusca Azul. O tom vermelho vivo de seus faróis ficou ainda mais intenso, o motor acelerou e o carro amaldiçoado avançou contra eles.

Quem estivesse fora do galpão naquele momento, em meio às luzes minguantes do crepúsculo, teria ouvido gritos aterrorizantes de puro horror e dor, o som de um motor roncando alto e pneus guinchando, e objetos de todos os tamanhos sendo derrubados.
Em segundos tudo ficou em silêncio. Os gritos emudeceram, dando a certeza de não haver mais nada vivo dentro do galpão.
O ruído de motor foi ouvido de novo, e com um impacto as portas do galpão foram abertas. O Fusca Azul saiu e parou, e pouco da tonalidade em sua carroceria era visível, já que em grande parte estava tingida de sangue.
Vidros de janelas e faróis se consertaram, a lataria voltou a ficar alinhada, e o sangue que cobria o carro começou a desaparecer, como se sugado para dentro do metal. Uma mão decepada com somente quatro dedos e outros restos humanos no para-brisa foram varridos para o lado pelos limpadores.
O Fusca saiu lentamente pelo caminho de terra, mas depois de alguns metros parou. A antena instalada à frente da coluna esquerda do para-brisa começou a ser recolhida devagar.
Um olho fincado em sua ponta desceu junto com a antena, e quando esta desapareceu dentro de sua base ele caiu e rolou pelo chão.
O olho ficou observando enquanto o impecável Fusca Azul se afastava pela estrada de terra, suas luzes traseiras logo desaparecendo na noite.

Daniel, Tatiana e Vó Nena voltavam pelo caminho da propriedade, satisfeitos por mais um caso resolvido. O rapaz já ia dar pela falta do Fusca Azul, quando o carro veio devagar e parou diante do portão.
Os três entraram nele, o moço no banco traseiro e as duas na frente. Nena pediu a Tatiana para dirigir.
A jovem vidente, desde a primeira vez que andara naquele carro, sentia coisas terríveis relacionadas a ele. Daquela vez definitivamente havia algo, mas ela notou que a alma penada que o assombrava a impedia de ver tudo.
Vó Nena percebeu, colocou a mão sobre a de Tati, e disse:
- Não se preocupe, filha. Este carro safado sabe muito bem que ai dele se fizer mal a uma pessoa boa. Nem se preocupe com isso, até acho que de vez em quando ele precisa se divertir um pouco. Quem sabe se essa sina dele não faça com que ele preste algum bom serviço, não é mesmo?
Tatiana olhou para ela, sorriu, e virou a chave. Fez o carro dar uma volta e retornaram pela estrada de terra. A viagem de volta para casa terminou sendo bem agradável, ouvindo causos de Vó Nena.

Vó Nena e os Caçadores retornarão.


Espero que tenham gostado deste conto de terror! Se quiserem saber mais a respeito do universo de Vó Nena e os Caçadores confiram pelas tags abaixo. E claro, leiam como tudo começou com o carro mais assombrado do Brasil em VÓ NENA E OS CAÇADORES: O FUSCA AZUL.


Apesar da situação geral, essas últimas semanas foram muito movimentadas! Vó Nena e seu Fusca Azul ainda tomaram parte de outro projeto, unindo arte em forma de ilustrações e contos, no magnífico site Contos de Vampiros e Terror, iniciativa dos amigos Adriano Siqueira e Maria Dutra. Cliquem aqui para conferir!

E a maior novidade sem dúvida é a Coleção Fênix de Literatura Fantástica! Iniciativa de Richard Diegues, que foi meu editor nos bons tempos da Tarja Editorial, o projeto se destina a produzir e-books gratuitos, repetindo, GRATUITOS, para incentivar a leitura nestes tempos difíceis que atravessamos. Exatamente o que sempre foi o objetivo deste Escritor com R!

Confira a página da Coleção Fênix no Facebook, e os e-books podem ser baixados (de novo, gratuitamente), clicando aqui ou então na Amazon, onde já estão disponíveis o Volume 1, Volume 2 e o Volume 3.



Lá no Corujice Literária temos publicado muitas resenhas, e ainda uma série especial de entrevistas com vários quadrinistas, confira que está muito legal!

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Até a próxima!

UPDATE! Já saiu o Volume 6 da Coleção Fênix, com minha segunda participação no projeto. Confira esse e os volumes anteriores clicando aqui.