Aconteceu em 02 e 03 de setembro o Gibi SP Festival 2.0, e nós fomos e nos divertimos muito!
Foi a segunda edição desse já grande evento dos fãs, colecionadores de quadrinhos e nerds em geral (contamos tudo aqui a respeito de como foi a primeira edição em 2022). Desta vez o local escolhido foi a Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social, o tradicional Bunkyo, palco de eventos da cultura nerd já há vários anos. Um lugar bem mais amplo para um evento muito maior, com uma enorme variedade de editoras, sebos, colecionadores e fãs da Nona Arte que compareceram aos dois dias da festa.
E, de longe, o melhor de eventos assim é encontrar amigos e falar por horas a fio sobre as nerdices que tanto amamos! Tivemos o prazer e a grande satisfação de estar com os amigos Carlos Baku (@carlos_baku), Walter Júnior (@wallyjunior), Tony Fernandes (@tonyfernandes213) (que finalmente conhecemos depois de muito contato somente online), Batson Júnior (@batson_artes) (organizador do também excelente Festival Gibis e Ideias que cobrimos aqui), o colega escritor Eduardo Marchiolli (@mutantexis), o nerd profissional Maurício Muniz (@mauricio_muniz_oficial), Manoel de Souza (@manoelspfilho) da Editora Heroica, Edson Diogo (@edsondiogo23) do Guia dos Quadrinhos e muitos outros. Vale destacar que conhecemos também Francisco Moreira, autor de Guardião Noturno, primeiro super-herói do Acre, que veio daquele distante estado para participar do evento. Por sinal ele também é responsável pelo canal Multiverso AC (@multiversoac).
Várias editoras se fizeram presentes como a já mencionada Heróica, a Mythos, a Pipoca e Nanquim (conversamos com eles e disseram que no final do ano deve chegar a nova edição da trilogia Conan o Cimério, trazendo as histórias originais de Robert E. Howard), JVC e Editora 85.
Como já mencionado, o evento organizado pelo casal Helena e Wilson (@gibispfestival) foi bem maior que o do ano passado, e devemos destacar que a organização estava excelente. Tudo funcionou a contento, e os visitantes podiam circular à vontade para curtir a festa. A variedade de quadrinhos, artes e produtos da cultura nerd expostos foi assombrosa, e claro que como sempre deixamos o final para comentar a respeito das aquisições.
Vale comentar que foi muito bom conhecer a Figura Editora, e me encantei com Pinturas Fantásticas de Frazetta, abordando a arte do inigualável Frank Frazetta. Quem sabe em breve caiba no bolso!
Como atividades os tradicionais cosplayers estiveram presentes (havia um Dick Vigarista sensacional com quem infelizmente não conseguimos bater fotos), Quiz Nerd do qual um grande vencedor foi o amigo Batson júnior e conversas com profissionais dos quadrinhos. Destes, destaque total para o já legendário Flávio Teixeira de Jesus, roteirista da Maurício de Sousa Produções.
Todo e qualquer nerd de respeito sabe que Flávio é o autor dos antológicos Clássicos de Cinema da Turma da Mônica. Em conversa com o polivalente Maurício Muniz ele descreveu diversos aspectos de como é trabalhar na fábrica de sonhos do maior nome dos quadrinhos do Brasil.
Uma das particularidades da metodologia da MSP é que os roteiros são desenhados, não escritos, de forma muito simples e similar à dos storyboards que se utiliza na indústria cinematográfica. Conforme Flávio, isso facilita a leitura, feita ao mesmo tempo por Maurício e por sua filha Marina, editora de conteúdo, e agiliza a finalização e produção. Outra revelação foi de que não há roteirista especializado em somente um personagem, todos trabalham com todos os personagens.
Falando nesses heróis que alfabetizaram a maioria de nós, Flávio contou que vários deles começaram como coadjuvantes, como a própria Mônica e Chico Bento, e depois se tornaram os principais. Isso, claro, dá esperanças a todos nós que torcemos pelo sensacional, excelente e quase sempre injustiçado Xaveco!
Claro, como nosso amigo comentou, todos também amamos o Xaveco em seu eterno papel de secundário!
Emocionante foi o momento em que Flávio comentou que estava planejando uma longamente aguardada visita ao Museu Nacional, quando ficou sabendo do incêndio na instituição. Essa tragédia inominável e imperdoável inspirou a maravilhosa história Insubstituível, da Turma do Penadinho, que ele roteirizou (Desenho: Jairo A. dos Santos, Arte-Final: Kazuo Yamassake, Letrista: Eliza T. K. B. Lacerda) e que foi primeiro publicada online gratuitamente, e depois nas páginas de Mónica 2º série 44, da Panini, de dezembro de 2018, integrante do Grande Encontro Turma da Mônica & Liga da Justiça. Leiam com lenços preparados!
Falando nesse grande encontro com os personagens da DC, a ideia surgiu em um evento da cultura pop acontecido anualmente em São Paulo, e quando foi aprovado pelas duas casas editoriais Flávio confessa que sentiu uma expectativa como poucas, pela responsabilidade de trabalhar com figuras icônicas que fizeram e fazem parte da vida de tantos fãs. O resultado, claro, foi excelente, mais que recomendado!
E evidentemente, a joia da coroa da conversa não poderia ser outra! Flávio comentou sobre os maravilhosos Clássicos do Cinema da Turma da Mônica, o trabalho que o tornou uma lenda entre os fãs de quadrinhos no Brasil. O primeiro, Coelhada nas Estrelas (primeira publicação Gibizão Turma da Mônica 8, 1997) veio ao mundo depois que Flávio conversou com Maurício e assistiu a Edição Especial da Trilogia Clássica de Star Wars, a fim de conhecer as novidades e inserir as sempre presentes piadas e homenagens. O resultado? Nem precisa falar, ou no caso escrever: primoroso!
Desde então inúmeras produções do cinema já foram satirizadas e homenageadas nas páginas dos Clássicos do Cinema. Entre nossas preferidas, aliás, estão além de Coelhada nas Estrelas (also known as Tauó) Coelhada para o Futuro, Star Treko, Caçadores da Coelhada Perdida e a fantástica e hilária O Senhor dos Pincéis. Todas, absolutamente todas, repletas de piadas e homenagens às grandes produções do cinema e da cultura pop. E que lançaram uma nova tradição entre os nerds e fãs de quadrinhos: encontrar e saborear a página onde são feitas inúmeras referências e homenagens a produções relacionadas à história publicada.
Faz um bom tempo que não sai um novo Clássicos do Cinema, e na abertura das perguntas questionei o Flávio a respeito da conclusão das trilogias Indiana Jones e De Volta para o Futuro. Ele disse que o trabalho na MSP tem sido intenso nos últimos tempos, mas que o próprio Maurício perguntou a ele quando os Clássicos voltam a sair. Então, caríssimos, lembrem-se das palavras de Aragorn: sempre há esperança!
Resta falar das aquisições do evento. Com o Comic Hunter pegamos Crônicas do Fantasma 1 e 2 da Mythos. Da Editora Heroica o novo volume de Rocketeer, e entre os colecionadores presentes chamou a atenção o número 1, lacrado, de A Espada Selvagem de Conan com destaque para a história A Cidadela dos Condenados. Além de presentes e outras coisinhas dos amigos!
Aproveito aqui para anunciar que houve mudanças nas publicações de artigos e coberturas de eventos em outros locais, então a partir deste teremos mais um assunto aqui no Escritor com R. Aguardem pois em breve vem a cobertura da Jedicon SP, que aconteceu em 16 de setembro último!
Ficam os maiores parabéns aos organizadores do Gibi SP Festival 2.0, que foi um evento raiz como nos bons tempos, com uma incontável variedade de opções para o fã de quadrinhos, ótimas apresentações e um excelente ambiente para encontrar os amigos. Já aguardamos ansiosamente a edição 3!
Começo de semana, Leandro e Franco
em viagem, e Batista não sentia a mínima vontade de realizar qualquer esforço.
Cumprimentou os funcionários ao chegar e disse que não queria ser incomodado,
subindo ao último dos três andares de que dispunham no edifício.
Nenhum funcionário sabia daquele terceiro
andar. Nem muito menos que a empresa de segurança de informática na qual
trabalhavam era na verdade a fachada respeitável do maior centro de informações
clandestino do Brasil. A BLF prestava serviços a dezenas de empresas por todo o
país, além de vários políticos graúdos de Brasília. E eram essas as fontes para
o principal “produto” confeccionado ali, o newsletter clandestino O Farol.
Batista sentou-se e checou os e-mails,
dedilhando com rapidez no teclado. Para sua surpresa, o vídeo falso do tal “ETdo Panamá” ainda estava “bombando” na rede. Disse:
— Ah, mas não é possível! Deu até nos
programas dominicais que é falso!
Apanhou o telefone e ligou para um
número. Ao mesmo tempo realizou uma busca para verificar se o vídeo do
Fantástico já estava online. A amiga atendeu antes que Batista pudesse conferir
os resultados:
— Alô?
— Cris, é o Batista. Como foi ontem na
TV?
Finalmente ele achou o vídeo,
enquanto a bióloga que a contragosto era consultora dO Farol respondeu:
— Batista, eles não me procuraram
mais. Chamaram outro cara, lá no Rio de Janeiro mesmo, você não viu o programa?
Agora ele achava o vídeo, e
realmente era outra pessoa que expunha os fatos. O biólogo explicou que o
cadáver mostrado no vídeo mexicano não era um ET como estava sendo divulgado,
mas um infeliz bicho-preguiça em adiantado estado de decomposição.
— É, tal como a revista OVNI havia
divulgado em seu site semana passada... – disse Batista.
— Pois é, como tem maluco no mundo,
hein? – perguntou Cristina.
— Nosso dever é denunciar o que é
mentira, e divulgar a verdade, você sabe.
— Sei... ETs que nos visitam,
chupacabras, conspirações... Não sei como conseguem me convencer a colaborar
com vocês!
— Digamos que seja meu charme
habitual?
Cristina nada respondeu, e Batista
percebeu que o assunto havia acabado. Antes que o silêncio constrangedor se
prolongasse, ele se despediu. Cris ainda comentou:
— Quando quiser ligar fora do
“trabalho” esteja à vontade, viu?
Ela desligou, e Batista ficou
pensando. O vídeo, ao contrário de outras fraudes, chegava a ser patético. Ele
e os colegas haviam conversado muito com seu amigo jornalista e ufólogo,
Roberto Monteiro, e este confirmou que os membros da equipe da revista OVNI
igualmente haviam sido procurados por jornalistas de vários canais. O assunto
já parecia encerrado na última quinta, por que ainda dar destaque no domingo
seguinte?
O programa dominical de maior
audiência seguramente não deveria ter alguma alternativa para compor aquele
quadro... Mas Batista se lembrou de haverem rastreado e-mails com o vídeo do
“ET do Panamá” até endereços bem suspeitos, em Brasília e outras cidades ao
redor do mundo.
E havia, claro, os recentes fatos lá
no Planalto Central, que seus colegas estavam investigando.
Necrotério
de Planaltina, 10:56 h.
Macedo era funcionário do necrotério
municipal, e não estava nada contente com a situação. Mesmo o maço de notas de
100 em sua mão não parecia ser compensação suficiente.
O homem baixo mas forte, vestindo um
terno surrado e barba por fazer, disse as suas costas:
— Ô, mano, tá pensando duas vezes,
tá? Essa grana que pus na tua mão não foi suficiente?
O homem por diversas vezes ficou
mexendo no paletó, deixando a mostra a pistola enorme e cromada em um coldre no
cinto. Macedo resolveu se mexer, abriu a porta e disse:
— Só não quero ter problema, senhor!
— E não terá, se manter teu bico
calado, tá entendendo?
O homem falava estranho para a idade
que aparentava, mas o funcionário decidiu que não iria se preocupar em
memorizar esse detalhe. Na verdade, faria questão de esquecer tudo o mais
depressa possível.
Assim que Macedo voltou a fechar a
porta Franco se pôs a trabalhar. Abriu a gaveta indicada e colocou de lado o
plástico que cobria o cadáver.
Aquele infeliz parecia literalmente
haver sido comido. Marcas profundas de garras afiadas cobriam pescoço, braços e
tronco. As marcas de mordidas ele só havia visto antes durante a onda de
ataques em São Paulo algum tempo atrás, nas proximidades da USP e Marginal
Pinheiros.
Fotografou tudo, e ainda obteve uma
amostra de impressão digital. Já sabia quem era o sujeito, e fez aquilo apenas
para juntar evidências. Voltou a cobrir o corpo e a fechar a gaveta, e
encaminhou-se para a saída. Nem se preocupou em despedir-se do funcionário.
Sabia que ele não diria nada.
Delegacia
de Polícia de Planaltina, 11:48 h.
Franco, depois de muita conversa e
de exibir uma carteira funcional habilmente forjada, conseguiu que um dos
policiais que cuidava do caso lhe revelasse importantes informações.
O corpo, como suspeitava, havia sido
simplesmente despejado em Planaltina. Amanhecera em uma praça na quarta da
semana anterior, mas como a criminalidade na região era elevada, ninguém deu
muita atenção ao caso.
O policial confidenciou que outros
homens que se identificaram como assessores parlamentares haviam aparecido nos
últimos dias, todos querendo saber quem era o morto.
— Olha, doutor, na minha opinião
isso foi encomendado. O cara foi todo cortado para servir de exemplo, acho que
algum traficante local está querendo assustar a concorrência, sabe?
Franco agradeceu e saiu. Entrou no carro e
ficou meditando a respeito.
Sabia como operavam traficantes e
outros criminosos, o que não encaixava com o que sabia daquele caso. Por cima
apenas um jornal local havia se ocupado do assunto. Já a informação sobre a
desova do corpo parecia consistente.
Se o quadro que já formava em sua
cabeça era o correto, seria ainda mais consistente com os fatos que já
conheciam. Franco não tinha mais dúvidas, outra daquelas aberrações produzidas
em laboratório, que o povo havia apelidado de chupacabras, estava à solta em
Brasília.
Só precisava saber por que a vítima
havia sido precisamente aquela.
Senado
Federal.
Antessala
do gabinete de José Ribamar, 12:26 h.
Leandro ajeitou o terno bem cortado
e sentou-se. A recepcionista o observou, por certo achando estranho um negro
vestindo Armani. Ele nem se incomodou, apanhou os fones e os colocou nos
ouvidos, enquanto manipulava seu celular último tipo.
Aquele aparelho estava ligado ao
sistema de segurança que a BLF Informática havia instalado no gabinete e no
sistema de computadores do senador Ribamar, presidente do Senado e, como todos
sabiam, virtual “dono” do Maranhão. A recepcionista passou a se dedicar a seus
afazeres, enquanto Leandro ouvia as palavras trocadas durante a tensa reunião
que acontecia na outra sala.
— Se alguém voltar a tentar me
sacanear, vai ver só uma coisa!
Aparentemente, o senador Ribamar se
sentia suficientemente confortável em seu gabinete para dispensar a aura de
“bom velhinho” que alimentava no palanque do Senado. Leandro voltou a ouvir sua
voz, carregada de sotaque:
— O Almeida era um bom assessor, e de
toda confiança. Ser morto dessa forma... quero saber quem foi o calhorda que
trouxe outra dessas coisas para Brasília!
Pela primeira vez Leandro ouviu a
voz do interlocutor. Uma voz rouca que já havia sido descrita para ele em
inúmeras ocasiões por seus amigos:
— Senador, veja bem...
— Veja bem o seu rabo! – o senador,
também ex-presidente, realmente se transformava quando não estava em público. –
Esse programa não tinha sido cancelado?
— E foi, senador. Mas com tantos
grupos, espalhados pelas mais diversas repartições deste país... não existe um
comando central, como sabe. Então cada grupo se move apenas por seus próprios
interesses.
Silêncio por alguns instantes, até
que o homem de voz rouca voltou a falar:
— Com todos esses escândalos
ocorrendo no Senado, é natural que muitos dos demais podem estar preocupados.
Todos sabem o quanto o senhor está envolvido, senador...
— Está me gozando? Querem vocês
também me derrubar!? Não basta essa campanha terrorista daquele jornalzinho de
São Paulo, agora vocês também?
— Eles publicaram alguma mentira,
senador? Não, claro que sabe que não! Até que o senhor e sua família moveram uma
ação para censurar o jornal, e chamar ainda mais atenção.
— O que você quer?
Era óbvio que Ribamar não queria discutir
aquele assunto. Leandro aguardou mais alguns instantes e enfim ouviu:
— Não quero nada, senador. Digamos
que foi apenas uma visita de cortesia, para informá-lo de nossos progressos.
— Pegaram a coisa, então? Ela matou
o Almeida próximo a minha mansão no Lago Paranoá. Meus seguranças atiraram mas
o bicho fugiu.
— Ainda não, mas estamos rastreando
o ser. Desta noite não passa.
— Isso não pode chegar à imprensa,
entendeu bem? Eu soube que já havia jornalistas da grande mídia vindos para
investigar. Um e outro vizinho ainda abriu a boca, e custou caro pagar pelo
silêncio dos outros. Deus me livre se aqueles malditos daquele jornaleco, O
Farol, publicarem meu nome de novo!
Leandro se lembrava, e como! Na
última vez O Farol publicara fotos do desaparecido assessor de Ribamar ao lado
de pessoas bem interessantes, o que incluía o próprio homem da voz rouca,
figuras públicas envolvidas em eventos nebulosos tais como o Caso Varginha, e
alguns militares de alto escalão. Aquilo comprovava o envolvimento de Ribamar
com a conspiração para acobertar a presença extraterrestre.
— O pessoal dO Farol é profissional.
São mestres em encobrir seus rastros.
— Um dia precisamos ter gente
competente no seu lugar, isso sim!
— Não me ameace, senador.
— Eu te criei, seu desgraçado! Não passava
de um intendente de merda lá no Pará quando começaram os ataques de ovnis em
Colares! Eu estava com os militares quando viram o filme da nave, eu recomendei
encerrar aquela operação.
— Os bons tempos da Operação
Prato...
— Bons nada! Não sabe o que pode
acontecer com o mundo se isso vier à tona!?
— Tanto sei que foi por isso que
espalhamos aquele vídeo do tal ET do Panamá pela Internet, deu até no
programa de domingo! E eles estavam prontos para falar do “chupacabras de Brasília”, a
morte de seu assessor, e chegar ao senhor. Tivemos muito trabalho para salvar
seu rabo, senador!
Leandro conseguiu ouvir uma
exclamação de espanto, e depois entrou novamente aquela voz rouca e
desagradável:
— Infelizmente, Ribamar, você tem
metido os pés pelas mãos. Sabe que quanto mais a mídia escarafuncha em suas
falcatruas, maior é a chance de descobrir as ligações de “vossa Excelência” com
todo o esquema. Essa foi a última vez. Está por sua conta agora.
Leandro rapidamente guardou o
equipamento, e levantou-se para servir-se de água no bebedouro. De costas para
a porta do gabinete, bebeu calmamente e depois segurou os óculos escuros contra
a luz.
Pelo reflexo nas lentes viu um
sujeito de aparência corriqueira, vestindo um terno barato, saindo do gabinete
e indo embora. Quando ele saiu Leandro voltou a seu lugar, e finalmente a
mocinha lhe disse que podia entrar.
— Senhor Leandro, como vai?
O jeito simpático voltou a ser
exibido por Ribamar quando se levantou e apertou a mão de Leandro. Conversaram rapidamente
sobre banalidades enquanto o hacker ia ligando o laptop. A conversa gravada já
havia sido transmitida para o servidor que mantinham na Capital Federal.
— Bem, senador Ribamar, espero que
esteja disposto a tratar de negócios! Como solicitado, irei lhe mostrar a
última atualização em nosso sistema de segurança.
— Isso vai proteger todo meu
sistema? Inclusive celulares? O senhor sabe, como homem público, sempre estou
vulnerável a todo tipo de espionagem e escuta clandestina.
— Não tem com o que se preocupar,
senador. Nosso novo sistema é o que de mais moderno existe. Claro, a menos que
dinheiro seja problema...
O ex-presidente e senador pelo
Maranhão soltou uma risada, e respondeu:
— Mas claro que não, meu amigo!
Leandro, satisfeito mas não pelas
razões de que o homem a sua frente pensava, começou sua apresentação.
Proximidades
do Lago Paranoá, 16:16 h.
Depois de alertado por Leandro,
Franco passou toda a tarde vigiando as proximidades do lago. Teve o cuidado de
não chamar a atenção dos seguranças das muitas mansões das redondezas. Nuvens
negras se formavam no céu e escureceu tanto que as luzes dos postes começavam a
se acender.
Subitamente ele viu um furgão preto
se aproximar de um matagal, ao mesmo tempo em que o som do rotor de um
helicóptero era ouvido. Quatro homens penetraram na mata, e logo o som de tiros
de fuzil foi percebido.
Dois sujeitos vieram correndo,
carregando um saco preto. Um outro apoiava o quarto homem, que mancava e
parecia ferido. O saco foi jogado para dentro pela porta lateral e todos
entraram.
O furgão arrancou e o helicóptero
afastou-se. Franco conseguiu gravar toda a cena.
Universidade
de Brasília, 18:32 h.
— Não, absolutamente não!
Marco Valdez era cientista e
biólogo, atualmente lecionando na UnB. Leandro insistiu:
— Marco, soltaram outra dessas
coisas em Brasília, apesar de você ter nos garantido que havia destruído seu
trabalho...
— E o custo para mim, hein? – o
cientista estava justificadamente nervoso. – Tive que pedir favores depois de
ser demitido da USP. Vocês não fazem ideia de que tipo de pressão enfrentamos
aqui em Brasília, sabendo o que eu sei!
— “Enfrentamos”, Marco? – perguntou
Leandro. – Você e mais quem?
O cientista deu-lhe as costas e saiu
andando. Leandro rememorou os incidentes de São Paulo. Quatro mortes, mas os
maiores comentários na imprensa foram gozações com a edição de O Farol que
ligava a criação em laboratório do chupacabras com experimentos genéticos
ligados ao Caso Varginha.
Iriam novamente omitir o nome de
Marco. Mas a matéria sairia mesmo assim.
Em
incontáveis caixas de correio eletrônico, 19:12 h.
O
FAROL
EDIÇÃO
DE 22 DE SETEMBRO
Caros leitores, como exposto, ficou
tudo muito claro. O senador José Ribamar, um dos principais nomes no Brasil da
conspiração global que controla as informações concernentes a extraterrestres,
conseguiu abafar os estarrecedores fatos ocorridos nas proximidades de sua
propriedade. Para tanto, seus comparsas na conspiração deram grande publicidade
ao falso vídeo do chamado “ET do Panamá”, que na verdade não passa de um
bicho-preguiça. Com isso, o senador logrou até mesmo ocultar a morte de um de
seus mais fiéis colaboradores.
Entretanto, o ataque do chamado
chupacabras em Brasília novamente evidencia que o submundo da conspiração está
em guerra. Ribamar, devido aos escândalos no Senado Federal, tem chamado muita
atenção para seu nome. Sua ligação com a grande operação de acobertamento
global, mais cedo ou mais tarde, será exposta, e com ela toda a verdade.
Quanto tempo mais Ribamar poderá
resistir?
Casa
em algum lugar de Brasília, 20:20 h.
— Como sempre, muita gente irá rir
disto aqui.
Roberto Monteiro, agora
correspondente em Brasília, aceitara a contragosto o convite para jantar com
Leandro e Franco na casa que eles mantinham na Capital Federal. Leandro
respondeu:
— Mas irá “levantar a lebre”,
Roberto. E como em outras ocasiões, as informações dO Farol serão confirmadas
pelos fatos.
Roberto tirou os óculos, esfregou o
rosto com as mãos e disse:
— E eu que vim para Brasília para
tentar me afastar de tudo isso...
— Por que você acha, Roberto, — disse
Franco — que Ribamar fez aquele discurso irado contra a imprensa agora a pouco?
Por nossa causa! Porque estamos revelando a verdade. A gravação de Leandro fez
sucesso na Internet. Imagine, flagrar o Ribamar e o rouco juntos!
— Além de ter sido tremendamente
insensato, não é mesmo?
— Relaxe, Roberto – disse Leandro. –
O Ribamar acabou de telefonar. Concordou em instalar o novo sistema de
segurança. Assim, poderemos ter acesso a tudo que ele faz no Senado, repassar
informações a nossos contatos na imprensa...
— A verdade irá prevalecer – disse
Franco.
— Então, tudo isso também foi uma
conspiração de vocês, para facilitar seu trabalho de espionar o Ribamar e
conseguir mais informações sobre a conspiração?
— Elementar, meu caro Roberto! –
respondeu Franco.
Leandro, normalmente o mais sisudo
da equipe que publicava O Farol, não pôde evitar também sorrir.
Espero,
caros leitores, que tenham gostado deste conto! Na verdade, como a própria
referência ao caso do famigerado ET do Panamá comprova, ele foi escrito ainda
em 2009, para ser publicado em outro blog. Como este já não existe, fiz algumas
atualizações para ser lido aqui.
Decidi
sua republicação principalmente devido às audiências que estão acontecendo no
Congresso norte-americano, onde revelações muito interessantes estão sendo
feitas. Confiram um vídeo:
Aqui
um vídeo de um canal brasileiro resumindo as ocorrências:
Será
que a verdade que está lá fora finalmente será confirmada? Essa nem Mulder e
Scully podem responder...
Reler
esse conto foi um retorno às origens, já que no início de minha carreira como
escritor me dedicava muito às histórias com alienígenas.
Falando
neles, recomendo muito a Revista OVNI Pesquisa, da qual sou consultor, e cujo
número 17, dedicado á Operação Prato, está bombando!
Nessa
edição meu artigo explora como a OP foi tratada na mídia, especialmente nos
documentários Chupa-Chupa e no Linha Direta. Além de em certos livros de seu
autor preferido, claro!
Boa
parte de vocês deve conhecer o conto Tudo Está Conectado, na qual eu trouxe
nossos queridos Faroleiros para nossa época. Além de haver deixado pistas de
que eles habitam o mesmo universo de Vó Nena e os Caçadores. Confiram clicando aqui.
Mais sobre alienígenas? Além das tags logo abaixo, continua disponível meu livro de contos FILHAS DAS ESTRELAS:
Quanto
ao mais, muitas coisas acontecendo, e histórias sendo escritas. Novidades devem
chegar em breve. Continuem lendo e apoiando os autores nacionais!
E não deixem de nos seguir no Instagram: @renatoa.azevedo , @corujiceliteraria ; @2sobrevoandoporai
Este é o primeiro conto publicado aqui
no Escritor com R que realmente tem uma capa, além de ser ilustrado. Assim fica
clara, além de qualquer dúvida, a natureza da história. Então, se você tem
algum problema com mulheres de pouca roupa em situações permeadas de
sensualidade e suspense, é preferível que não siga adiante.
O aviso está dado, reclamações e mimimis
serão sumariamente excluídos.
Quem tiver mente aberta e procura uma
boa história, por outro lado, espero que se divirta.
Obrigado.
Tatiana
desde o começo não havia gostado da sugestão de Daniel.
Marcarem
um encontro justamente naquele quarteirão do centro de Boa Graça, onde todos os
prédios permaneciam abandonados havia anos, não era uma boa ideia. Por cima ele
sabia que aquele horário era logo após ela sair da academia.
Estava
cansada, suada, e sentia-se um tanto exposta vestindo camiseta, legging e
tênis. Manteve a bolsa junto ao corpo, e chegou finalmente ao prédio de número
66.
Ao
menos outras três construções daquela rua exibiam placas de “interditado”, mas
não aquele. A escada de entrada imunda dava para um portão de ferro enferrujado
que estava entreaberto, e a vidente suspirou por não sentir nenhuma presença nas
proximidades. Sobre o portão, na beirada da laje, ainda estava o letreiro com o
nome Edifício Jason Teodoro, de uma época em que nomes em inglês ainda não eram
moda. Depois de olhar para os lados e não ver ninguém decidiu entrar.
O
portão rangeu ao ser aberto, e as impressões que ela teve ao tocá-lo não foram
das melhores. Felizmente, nada comparável ao que sentia quando passava com os
rapazes ou Vó Nena diante do Casarão da Rua das Dores. Este, conhecido como a
casa mais mal-assombrada da cidade, era um lugar no qual a jovem vidente torcia
ardentemente para jamais precisar entrar.
Depois
de passar pelo hall de entrada, caminhou por um corredor repleto de lixo e
restos de reboco e tinta das paredes. Apanhou o celular da mochila e acendeu a
lanterna, pois conforme se distanciava do portão a escuridão aumentava. Pelas
portas entreabertas restos de móveis, uma e outra peça de roupa esquecida havia
décadas, e as coisas típicas que se podia encontrar em um prédio abandonado.
Tatiana
decidiu subir as escadas depois de mandar uma mensagem de texto, avisando
Daniel que havia chegado.
O
hall de escadas tinha amplas janelas que contribuíam para um pouco de
iluminação, mas a sujeira que cobria os vidros garantia que a penumbra de final
de tarde continuasse. Tatiana voltou a guardar o celular na mochila e sentiu os
dedos roçarem em um velho livro.
Aquele
tratado de bruxaria fora presente de Daniel, que disse ter lembrado dela ao
passar no Sebo do Hugo. Tati disse, ao folheá-lo:
-
Amor, você sabe que não sou bruxa.
-
Vó Nena também não é, mas manda muito bem nos feitiços – ele respondera. – E me
disse que você tem ficado muito boa nessas artes, ajudando também nessa parte!
Ela
riu, eles se beijaram, e Tati abriu o livro mais ou menos no meio, onde estava
o marcador com o logo e as informações da livraria. Hugo, depois da bronca de
Nena no último Natal, e as constantes visitas que a Caçadora vinha semanalmente
fazendo ao sebo, havia feito uma pequena revolução na loja. Até no noticiário
do canal municipal da cidade já havia aparecido, e o marcador personalizado era
um símbolo dessa nova fase.
Tatiana
viu uma bela gravura, que no entanto trazia um quê de bizarro e sobrenatural
que combinava com o livro, representando um sabá em uma antiga floresta. As
bruxas dançavam nuas em torno de uma fogueira, e a ilustração era bastante
detalhada nesse sentido. Deu uma cotovelada no namorado, dizendo:
-
Agora já sei por que colocou o marcador bem nesta página, não é?
Tatiana,
cada vez mais imersa na atmosfera mórbida do prédio abandonado, lembrou-se da
cena e riu. Depois voltou à sua mente a lembrança do texto, que mencionava como
as bruxas acreditavam que a energia sexual, do mero ato de se livrar das
roupas, ajudava a aumentar a sensibilidade para as energias místicas.
A
vidente pensou nisso, ao mesmo tempo em que procurava evitar os detritos e o
lixo do prédio. Parou um momento diante de uma sala sem porta, observando na
penumbra do cômodo uma velha cadeira de madeira. Fechou os olhos, e em sua
concentração não captou nada dentro do prédio. Ali haviam funcionado vários
escritórios e pequenas empresas ao longo dos anos, e a moça não conseguiu
sentir nada tão tenebroso, nem qualquer presença humana.
Abriu
os olhos, sorriu, e em pensamento desejou dar um beliscão no namorado.
Certamente Daniel tivera alguns bons motivos e várias segundas intenções
naquela semana. Primeiro a presenteando com o livro, destacando o capítulo
sobre as bruxas e a energia sexual, e depois marcando aquele encontro bem ali.
Tati sabia que aquele prédio por vezes era usado por casais para encontros,
inclusive aqueles mais íntimos. Uma boate e dois bares haviam aberto
recentemente nas proximidades, e em breve aquele trecho da rua estaria lotado
de gente.
Mas
por enquanto, naquele horário, não haveria maiores riscos.
A
vidente decidiu experimentar. Sua sensibilidade já havia captado um e outro
ponto onde, recentemente, pessoas haviam sentido prazer. Apesar de perturbada
pela mistura de morbidez, o fundo de energias místicas pesadas que emanavam de
outros locais nas proximidades, e o próprio gosto pela aventura, Tati sentiu
também a própria excitação.
Olhou
para as duas pontas do corredor escuro, colocou a mochila sobre a cadeira, e
por fim tirou a camiseta. Dobrou-a e a guardou na mochila, e começou a tirar a
calça. Felizmente tinha o hábito de usar biquíni debaixo da roupa quando ia
para a academia, mas mesmo assim sentia-se praticamente nua.
Depois
de fechar a mochila deixou a cadeira ao lado da porta, na escuridão, de forma
que não seria vista caso passasse alguém. Ajeitou o biquíni, verificou os
cadarços dos tênis que manteve nos pés, já que não queria se arriscar a pisar
em algo e se machucar, marcou bem em qual sala do segundo andar deixara suas
coisas e saiu caminhando.
A
moça verificou novamente que as peças do biquíni estavam no devido lugar, e
antes que se desse conta passou as mãos pelo corpo suado. Seu físico vinha
melhorando nos últimos meses, o corpo, braços e pernas mais torneados, e Daniel
não cansava de elogiá-la.
Tati
sentiu prazer, percebendo ao mesmo tempo, aos poucos, sua percepção ser
ampliada. Contornou a curva do corredor, e as energias do lugar fluíram para
sua mente, e ela conseguia ver aquele corredor que percorria como havia sido
anos antes, com circulação de pessoas que iam de lá para cá, procurando uma
sala específica, resolvendo problemas e questões profissionais ou simplesmente fazendo
seu trabalho.
A
vidente parou no exato ponto em que um casal estivera no máximo dias antes.
Esforçou-se para evitar tocar o ponto na parede onde haviam se apoiado, mas não
conseguiu. Colocou a mão nos tijolos aparentes, e quase podia vê-los em pleno
ato.
Seu
corpo foi percorrido por um profundo arrepio. Medo, repulsa, excitação e desejo
se misturavam em sua mente, e a moça sentiu o coração bater mais forte no peito
e a respiração ficar ofegante.
Tirou
a mão depressa.
Outra
coisa, que parecia distante mas subitamente a invadiu arrepiando sua pele,
surgiu. Medo.
Um
terror profundo, eco de coisas horríveis que haviam acontecido nas
proximidades, ali e em alguns dos demais prédios. E também mais distante, no
portal das trevas que era o Casarão da Rua das Dores.
Tati
sentiu-se exposta e desprotegida. Aquela havia sido uma péssima ideia,
amaldiçoou o livro e o namorado, e correu para a sala onde havia deixado a
mochila.
Teve
a pior das surpresas. Suas coisas não estavam lá.
Tatiana
segurou a cadeira, olhando-a como se de alguma forma a mochila estivesse
escondida ali. Nada. Vasculhou a sala o melhor que a penumbra permitia, mas
havia somente lixo.
A
moça, somente de biquíni e tênis, foi tomada por desespero e medo. Não podia
sair daquele jeito. Teria que esperar Daniel chegar e arrumar roupas antes que
pudesse ir para casa. O pensamento de estar quase nua era incômodo, jamais
sentira tanta vergonha na vida, mas ela se surpreendeu ao ainda experimentar a
mesma excitação de antes.
Aguçou
sua percepção, e reparou em algo indefinível bem na direção da escada por onde
havia vindo. Com medo, decidiu continuar em frente. Sabia existir uma saída no
térreo pelos fundos, e torcia para que houvesse outra escada também.
Foi
andando com todo o cuidado, superando outra esquina do corredor. Prendeu a
respiração por um momento, e rapidamente levou as mãos à boca para abafar um
grito de puro terror.
Uma
caveira jazia no chão logo à frente.
Tatiana
escondeu o rosto com as mãos, sentiu lágrimas encherem seus olhos e o desespero
inundar sua alma. Um suor frio percorreu seu corpo, e ela lutou por um tempo
que pareceram horas para recuperar o controle.
Descobriu
o rosto, e olhou para a caveira no chão. Enegrecida pelos anos em que estava
largada ali, e a impressão de sua vidência lhe dizia que havia sido furtada de
uma das faculdades de medicina das cidades vizinhas. Tatiana percebeu a ideia
de algum trote ou brincadeira de mau gosto envolvendo a caveira, e afinal se
tranquilizou.
O
insólito e o medo da situação, sentindo-se exposta tanto física quanto
psiquicamente, contribuíra para se desesperar. Conseguiu finalmente rir da
situação, afinal já havia visto coisas incomparavelmente piores, mais
aterrorizantes e tétricas do que uma simples caveira no corredor de um prédio
abandonado. Por precaução contornou o objeto desagradável e continuou em frente
com cuidado redobrado.
Lá
fora já escurecia, a moça continuava pensando como sairia daquela situação
seminua como estava. E ainda havia sua vidência, revelando-lhe impressões do
passado daquele prédio que a invadiam sem controle. Tatiana precisava se
esforçar para não perder o contato com a realidade, afinal não queria estar
devaneando nas lembranças dos outros, conforme por vezes dizia que se sentia
durante aqueles fenômenos, e ser surpreendida daquele jeito.
Seguiu
pelo corredor à direita, em meio à penumbra, e esforçando-se para manter o
controle. Impressões sobre o passado, pessoas trabalhando, enfrentando a rotina,
discutindo com colegas ou chefes, e até mesmo lidando com affairs continuavam a
invadi-la. Tatiana parou diante de uma porta entreaberta, e sua vidência
revelou que ali já funcionara um escritório de alguma empresa de comércio. Mas
o que a incomodou foram as lembranças, impregnadas na energia do lugar, de um
caso envolvendo a secretária e o gerente.
Eles
ficavam até tarde da noite em “hora extra”.
A
vidente de novo sentiu sua excitação aumentar. Um arrepio percorreu seu corpo,
seus braços a envolveram como se abraçasse a si mesma, e ela por fim soltou um
profundo suspiro.
De
novo pensou que tinha vontade de esganar Daniel. Sentindo-se nua de corpo e
alma deu mais alguns passos até a curva à esquerda do corredor.
Tampou
a boca com a mão e depressa se escondeu, apertando as costas junto à parede.
Depois
de respirar fundo tentando não fazer barulho, olhou de novo para ter certeza de
que estavam mesmo ali, e não eram impressões do passado que sua vidência
revelava.
Sim,
estavam. Um jovem casal.
Ela
de frente para a parede, apoiando nela as mãos. O rapaz, atrás dela, a abraçava
forte, beijava sua nuca e mordiscava suas orelhas. Com as mãos erguia a saia
jeans que a menina vestia, a apalpando por baixo.
Tatiana
sentiu seu desejo aumentar. Suava, teve que controlar sua mão esquerda, que
queria descer entre suas pernas, enquanto continuava a tapar a boca com a
direita.
Seu
estado de excitação era tal que as visões e impressões a invadiam sem controle.
E ela sentia o que os namorados a poucos metros dela sentiam. Ficou
aterrorizada com a possibilidade de perder o pouco controle que ainda tinha,
fazer barulho e ser flagrada.
Tentou
se concentrar, e conseguiu bloquear parte das impressões. Recuperada um pouco,
deu mais uma olhada no casal, vendo que o rapaz , depois de subir a saia da
moça, começava a baixar suas calças. Escondeu-se de novo, e decidiu entrar em
uma das salas para esperar que fossem embora.
Tati
se virou, e seu pé inadvertidamente chutou uma lata enferrujada, de uma bebida
ou produto irreconhecível, que ela não havia visto no chão. Ela então ouviu:
-
Que merda foi essa? – o rapaz perguntou.
-
Meu Deus, o que foi isso? – a moça acrescentou, já em pânico.
A
vidente ainda ouviu o barulho deles arrumando as roupas, enquanto tentava
correr sem fazer ruído. Enfiou-se na primeira sala que viu aberta.
Que
vinha a ser a do escritório dos dois amantes, a secretária e o gerente.
Na
quase obscuridade do cômodo ela tateou. À esquerda da porta havia um armário, e
ao lado dele um espaço vazio. Encostou as costas na parede e ficou ali quieta, cobrindo
a boca e o nariz com as mãos para não fazer ruído.
Ouviu
as vozes deles se aproximando.
-
Eu ouvi alguma coisa – disse o rapaz. Tentava parecer valente, mas seu medo era
nítido.
-
Também ouvi. Será fantasma? Dizem que toda essa vizinhança é assombrada! – a
voz da menina evidenciava como estava trêmula e apavorada.
Eles
pararam bem diante da porta do escritório.
Tatiana
esforçou-se para respirar o mais levemente possível, tentando não fazer ruído.
Ao mesmo tempo as energias do lugar, as imagens que via dos encontros da
secretária com o gerente a faziam tremer de vergonha, medo e desejo.
Uma
luz varreu a parede oposta. O rapaz vasculhava o cômodo, desde a porta, com a
lâmpada do celular.
-
Pelo amor de Deus, vamos embora! – insistia a moça.
Mais
uma varrida de luz, e depois esta se apagou. Tatiana, em seu transe, mal
conseguindo se conter entre a excitação e a vergonha de estar somente de biquíni
e tênis, sentia o desespero tomando conta de si. O pavor de se trair a qualquer
instante a invadiu.
Finalmente,
conseguiu ouvir os passos do casal se afastando. Correram pelos corredores, e então
desceram a escada para o térreo. Depois, nada.
Ela
ainda esperou mais alguns instantes até tudo ficar silencioso para finalmente
tirar as mãos do rosto.
Soltou
um profundo suspiro, e não mais conseguiu controlar as energias, que percorreram
seu corpo livremente. Desejo, excitação, medo, terror, vergonha, tudo se
misturou em seu interior, e ela por fim perdeu a noção de realidade.
A
próxima coisa que se deu conta foi de estar de volta ao corredor, sentada no
chão com as costas apoiadas na parede próxima à porta. Uma das mãos entre as
pernas, enquanto o indicador da outra estava em sua boca.
O
desejo enfim dominou Tatiana, e ela suspirou longa e ruidosamente. Sentiu o
corpo amolecer.
Ao
se dar novamente por si pensou em Daniel. Se ele chegasse agora, primeiro ela
bateria nele.
Depois
o agarraria, beijaria e violentaria.
Trêmula
e suada, a vidente olhou para todos os lados. Não se lembrava de como havia chegado
ao corredor. Suspirou aliviada por não haver mais ninguém à vista. Aqueles
garotos já deveriam estar bem longe.
A
noite se iniciava lá fora, estava escuro e dentro do prédio mais ainda.
Tati
se levantou enquanto pensava de novo em sua situação. Estava somente de biquíni
e tênis, sozinha em um prédio abandonado, suas roupas e seu celular estavam na
mochila que havia sumido, e nem sinal de que Daniel chegaria em breve.
Como
sairia daquela roubada?
Nisso,
de novo sobressaltou-se e ficou ofegante.
A
vidência revelou que alguém a observara enquanto estava ali, desfrutando e se
aliviando de seu desejo intenso. Tati sentiu medo e vergonha, mas novamente
tudo era temperado por um tesão que não conseguia entender.
E
ela também ouviu um ruído na direção do corredor onde o jovem casal namorava.
O
pavor foi mais forte. Correu de volta ao antigo escritório para se esconder no
mesmo lugar. Conseguiu em meio à penumbra ver uma vassoura velha jogada no
chão, e a ideia que teve lhe deu coragem.
Segurou
o cabo do utensílio ao mesmo tempo em que punha o pé sobre a parte de baixo,
que exibia poucas cerdas restantes. Forçando com as duas mãos partiu o cabo
próximo à base, e ficou satisfeita ao constatar que a ponta resultante era
razoavelmente afiada.
Escondeu-se
novamente atrás do armário, segurando firme o cabo da vassoura. Na confusão de
sentimentos, impressões e emoções em que estava, não conseguia dizer se a
presença que sentia à distância era humana ou sobrenatural. O cabo de vassoura
bastaria caso fosse um vampiro. Contra um atacante humano, por sua vez, Tatiana
sabia bem quais pontos atacar com aquela arma, a fim de causar danos não
permanentes.
Ou
mesmo permanentes, conforme vinha aprendendo com Vó Nena e os rapazes.Ouviu passos distantes, e sua
respiração ficou ofegante. Sentiu o corpo suado, e as impressões daquela sala
ameaçavam turvar sua consciência novamente. A jovem vidente forçou ao máximo
sua concentração no agora, apertou as mãos ao redor do cabo da vassoura e
procurou respirar o mais levemente possível.
Os
passos se aproximaram, e ela colocou a estaca improvisada em posição de ataque.
Porém, subitamente, o som parou, para ser ouvido em seguida desta vez se
afastando.
Tati
saiu de seu esconderijo e olhou com cuidado pela porta do antigo escritório.
Bem na direção de onde vieram os jovens conseguiu divisar uma sombra virando a
curva do corredor.
E
havia mais. A última coisa que desapareceu no outro corredor era sua mochila,
nas costas do indivíduo que vira de relance.
A
vidente desta vez sentiu raiva, e teve ganas de gritar com ele. Mas voltou a
entrar no escritório e, encostando as costas ao lado da porta, fechou os olhos
e respirou fundo algumas vezes.
De
novo se lembrou que estava quase nua, de biquíni e tênis, constrangida,
envergonhada, exposta e com medo. Mas pensou que poderia usar aquilo a seu
favor. Ao vê-la assim, aquele estranho poderia hesitar pelo tempo necessário
para Tati dominar a situação.
Mas
teria que segui-lo e encontrar uma forma de emboscá-lo. Para isso, a primeira
coisa que fez foi sair devagar do velho escritório e andar com todo o cuidado
na direção em que ele sumira. Chegou à curva do corredor e olhou rapidamente.
Não
viu ninguém. Segurando com firmeza a longa estaca improvisada, seguiu adiante
no escuro. Já era noite lá fora, e a pouca iluminação da rua não era suficiente
para ver muita coisa dentro do prédio.
Tatiana
chegou a outro corredor, e pensou em qual direção seguir. Fechou os olhos por
alguns instantes tentando sentir algo, mas então se assustou com um ruído
distante.
Vinha
do hall de escadas da parte de trás do prédio, que ficava à direita de onde
estava. Com cuidado, procurando não chutar novamente nada que estivesse no
chão, ela prosseguiu.
Estava
excitada e atenta àquela caçada, mas o sentimento de estar quase sem roupa, a
vergonha e o medo a tomaram novamente. Desta vez, entretanto, Tati forçou a si
mesma para continuar em frente, e chegou à escadaria. Olhou para cima, mas em
meio à penumbra não viu nada.
Porém,
desta vez, sua vidência lhe forneceu a direção aproximada de para onde o
estranho havia seguido. E, enquanto subia devagar as escadas com a estaca em
riste, começou a divisar um plano.
Chegou
ao terceiro andar e olhou para os lados. Nada. Fechou os olhos novamente,
respirando pausadamente e buscando ampliar seus sentidos. E viu que o estranho
havia rumado para a esquerda, talvez para contornar o andar pelo corredor
principal.
Tatiana
abriu os olhos e, pela primeira vez em muito tempo, sorriu. Considerou que
tinha uma boa chance. Seguiu pela direita, o mais depressa possível, sempre
atenta para não pisar em nada e fazer barulho, o que arruinaria seu plano.
Subitamente,
um novo terror a assaltou. Sua vidência revelou um corredor diferente daquele
em que estava, ou pensava estar. Ainda mais sombrio, decadente, e que parecia
se estender ao infinito.
A
moça sentiu então algo ainda pior. Presenças tenebrosas e inomináveis pareciam
espreitar de todos os cantos. Ela quase fraquejou ao constatar a evidente
malignidade daquela visão.
Levou
uma das mãos à boca para não gritar de horror, e nesse momento a lembrança de
sua avó, Esmeralda, de quem havia herdado a vidência, surgiu em sua mente. O
efeito calmante foi mais que bem-vindo, e Tati se recordou das longas conversas
que tinha com a amada vozinha. E ela se lembrou, afinal, de Esmeralda lhe dizer
que havia vislumbrado locais ocultos, onde o mal sempre está à espreita.
A
jovem vidente recordou como a avó havia dito que nada dissera a respeito para
uma grande amiga dela, combatente de todas as forças das trevas. Mas Esmeralda
ainda deixou claro que sua neta um dia também conheceria aquela amiga, e juntas
derrotariam o mal.
As
lembranças contribuíram para que Tatiana relaxasse. Mas a visão sombria
continuava ali, e ela finalmente cambaleou e apoiou uma das mãos na parede,
lutando com todas as forças para não cair. Nesse momento a visão se dissipou, e
a moça se viu novamente no corredor do Edifício Jason Teodoro. Suspirou fundo
por não haver deixado a estaca cair, e quase se sentia aliviada por estar
naquele ambiente já familiar, menos sombrio e maléfico.
Tatiana
caminhou pelos corredores escuros e imundos. A brisa da noite entrava pelas
janelas quebradas e arrepiava sua pele, e ela se sentiu sendo novamente tomada
pelo medo, vergonha, e por aquela inacreditável excitação. Sua vidência lhe
revelou alguns ataques de criaturas da noite e Encantados naquele andar, mas a
moça se esforçou para manter sua concentração no presente.
Parou
por um momento, apoiou as costas na parede do corredor e se concentrou.
Encostou a estaca na testa, e pensou o quanto deveria estar imunda por causa
daquela experiência. Sentiu as costas tomadas por poeira que havia grudado em
sua pele devido ao suor, mas deixou isso de lado. Estendeu sua vidência, e viu
que o estranho estava próximo, andando devagar no corredor que estava bem
adiante, à esquerda da próxima curva.
Tati
normalmente exploraria mais fundo, tentando descobrir a identidade do inimigo.
Mas não havia tempo, ela estava cansada e sabia que precisava surpreendê-lo
para ter uma chance. Abriu os olhos, deu mais alguns passos e encontrou à direita
uma porta aberta. Entrou rapidamente e viu que também era um antigo escritório,
mas felizmente nenhum sinal de antigos casos extraconjugais a atingiu dessa
vez.
Depois
olhou adiante, e percebeu que, de um foco de luz na rua, vinha uma luminosidade
que tornava aquele pedaço do corredor bem mais claro. E isso deu a ela uma
ideia para distrair o estranho, o que aumentaria suas chances. Lembrou-se do
caso da Caneta Azul, e de como não seria a primeira vez em que usaria sua
sensualidade para obter o que queria.
Mas
era algo que a deixaria ainda mais exposta do que já estava. O medo, a vergonha
e o constrangimento voltaram a assaltá-la. Mas, na situação em que estava, não
havia alternativas.
Sentindo
que o estranho se aproximava ela rapidamente colocou a mão direita atrás das
costas e desfez o nó da parte de cima do biquíni. Tirou a peça rapidamente e a
deixou jogada bem no centro da parte iluminada.
Agora
se sentia ainda mais nua, mas não havia tempo. Deu dois ou três passos e entrou
novamente no escritório escuro, apertando as mãos na estaca enquanto aguardava.
Passos
se aproximavam lentamente, e Tatiana sentia que estava esperando por uma
eternidade. Seu coração martelava em seu peito, seus seios nus a deixavam ainda
mais excitada, e um arrepio percorreu seu corpo, misturando o tesão com o frio
que sentia devido ao vento que entrava pelas janelas.
O
som dos passos estava cada vez mais próximo. Com um olhar rápido Tati viu uma
sombra no chão do corredor diante da porta, vindo pela esquerda, e ela se
esforçou para controlar sua respiração ofegante.
Alguns
segundos depois um cara de calça jeans e camisa, com sua mochila nas costas,
passou pela porta. Envolta em escuridão, Tatiana se concentrou na figura.
Aconteceu
como ela havia imaginado. O estranho deu mais alguns passos e parou bem diante
da área iluminada. Tati se aproximou da porta sem ruído, e viu que ele
observava a parte superior de seu biquíni jogada no chão.
A
moça se aproximou por trás dele, enfiou a estaca entre suas pernas e, com um
golpe rápido, o derrubou. Depois girou a arma, acertando-o na lateral do corpo
bem sobre o rim, e afinal pôs o pé em seu peito, mantendo a ponta da estaca a
centímetros de seu rosto.
Os
olhos dele se arregalaram para ela.
E
os de Tati também pareciam haver dobrado de tamanho.
Ela
jogou para o lado a estaca, cobriu os seios com as mãos, e correu para apanhar
a parte de cima do biquíni. Enquanto voltava a vestir a peça gritou:
-
Seu filho da puta!
Depois
de dar o nó no biquíni atrás das costas, as emoções aflorando em sua mente,
tomada por vergonha, medo, raiva, tesão e desejo, ela apanhou a mochila que
havia caído ao chão e a abraçou diante de seu corpo enquanto se encostava na
parede.
Daniel,
depois de mais alguns instantes, respirou profundamente e soltou um:
-
Ai.
-
Te odeio! Eu gosto muito da minha sogra, então não posso te chamar de filho da
puta. Mas você foi um grandessíssimo de um filho da puta!
Massageando
o lugar onde Tatiana o havia acertado, o rapaz se levantou reclamando.
-
Caramba, Tati, precisava bater com tanta força?
-
E como eu ia saber que você não era um bandido, um tarado ou um vampiro?
-
Você é vidente...
-
Cala a boca!
Tentando
se recompor, Daniel se aproximou e estendeu a mão. A namorada se afastou pro
lado e disse:
-
Nem vem!
-
Tati, eu...
-
Você tinha que me dar esse livro aqui, né? – disse ela apanhando o volume na
mochila. Depois de quase esfregá-lo na cara dele o enfiou de volta e
prosseguiu: - Meu Deus, nem acredito que fiquei todo esse tempo aqui quase nua,
e você se divertindo às minhas custas!
Ele
ia dizer alguma coisa, mas ela continuou:
-
Daí você disse para virmos aqui para treinar, e eu lembrei do raio da cena do
sabá, e quis experimentar...
-
O que me lembra daquela volta de Brasília, quando paramos na estrada de
madrugada para esfriar a bobina do Fuscão. Você tinha comprado esse biquíni pra
essa viagem, e resolveu colocá-lo de novo naquela noite na estrada pra brincar
um pouco...
-
É, eu estava inspirada e com tesão, foi gostoso... não muda de assunto, porra!
Tatiana,
tomada por emoções, quase esquecera que ainda estava praticamente sem roupa.
Largou a mochila no chão e deu alguns passos, os braços cruzados sobre os
seios.
-
Sim, toda essa excitação abriu mesmo minha percepção. Não é a à toa que muitas
cerimônias e feitiços envolvem sexo.
Ela
sentiu novamente o desejo aumentar. Tentou ignorar, mas estava cada vez mais
difícil. Por cima, de costas para Daniel, nem precisava da vidência para saber
que ele a estava devorando com os olhos.
-
E depois tudo piorou quando minha mochila sumiu.
-
Achei que você tinha largado lá, e a apanhei para depois devolver a você.
Pensei que estava explorando o prédio.
-
E estava.
-
Sim. Quase pelada. Não vou dizer que não gostei, muito pelo contrário...
Tatiana
se virou e teve ímpetos de avançar contra ele, mas se controlou.
-
Tive que me esconder quando aquele casalzinho apareceu – comentou Daniel. – Aí
percebi que você estava do outro lado, e quase fiz barulho pra chamar a atenção
deles.
Tatiana,
ainda brava, ouvia o relato do namorado. Ele prosseguiu:
-
Daí eles logo foram embora, e me aproximei. Vi você saindo da sala cambaleando
e quase fui te acudir, mas então você sentou no chão, e...
-
E o quê? – Tati perguntou, já adivinhando o que ele diria.
Daniel
ficou ruborizado. Tatiana adorou vê-lo constrangido. Sua cena no corredor, como
a vidência havia revelado, tivera mesmo plateia.
-
E... eu te vi. Tati... meu amor, me deixou sem fôlego! Nunca te vi gemer e suspirar
daquele jeito!
A
moça, ainda somente de biquíni e tênis, permanecia de braços cruzados e com
expressão séria no rosto, olhando para o lado. Depois se virou para ele,
olhando com cara de poucos amigos.
-
E depois por que fugiu de mim e me deixou andando seminua pelo prédio, pensando
no pior?
A
cara de tesão de Daniel, mais a conferida que ele lhe deu de alto a baixo,
foram resposta mais que suficiente. Por fim a seriedade deixou o rosto de Tati,
que abriu um grande e adorável sorriso.
Um
sorriso bastante sacana, que ela complementou mordendo o lábio inferior.
-
Vem cá!
Daniel,
apanhado de surpresa, demorou alguns instantes para entender. Depois de uma
última olhada cheia de desejo para a namorada linda, cumpriu a ordem.
Tatiana
o agarrou, enlaçando-o com a perna esquerda, ao mesmo tempo que o beijava com a
maior volúpia e desejo que já sentira na vida. Daniel sentiu a língua dela
explorando cada canto de sua boca, ao mesmo tempo que suas mãos passeavam e o apertavam
em todos os lugares. Ele, naturalmente, retribuiu apalpando e apertando cada canto
do corpo suado e quente de Tati.
Os
dois ficaram ali por um bom tempo.
Espero que tenham gostado desta
história! Como mencionado no conto, Tatiana já havia utilizado sua sensualidade
na história da Caneta Azul (que até me rendeu um xingamento em um grupo do
Facebook, que foi apagado pelos administradores) mas me surpreendi até onde ela
se deixou levar nesta trama.
A ideia veio desta cena antológica do
filme Todo Mundo em Pânico (Scary Movie, 2000) com a bela Carmen Electra:
Naturalmente cenas sensuais são tradição
em histórias de terror, como podem ver conferindo as mais icônicas clicandoaqui.
E, por sinal, o biquini vermelho de
Tatiana terminou por ser uma referência à icônica série Os Gatões (The Dukes of
Hazzard, 1979 – 1985), especificamente a esta cena com a maravilhosa Daisy Duke
(Catherine Bach):
UPDATE de 20/04/2025.
Por incrível que pareça, uma inspiração
evidente havia ficado esquecida até este momento! Como meus leitores sabem, sou
ardoroso admirador do automobilismo, especialmente o endurance, as categorias
com provas longas como WEC e IMSA.
E nestas, como em todo o esporte a
motor, eram comuns nos grids de largada as gridgirls ou pit babes, belas moças
em sugestivos uniformes de patrocinadores. Graças à praga do politicamente
correto, infelizmente, hoje poucas categorias mantém essa tradição de beleza (e
mais de uma dessas meninas, graças aos rendimentos que obteve com esse
trabalho, se tornou piloto, tá?).
Nas
24 Horas de Le Mans, a maior corrida do mundo, de meados dos anos 1990 até
cerca de 2003, eram presença garantida as belas da Hawaiian Tropic, que
animavam as festividades antes da largada com sua beleza.
Então,
como podem conferir nas imagens, o biquini vermelho e os tênis batem com o
figurinho que Tatiana veste na maior parte desta história.
Fim do UPDATE.
As imagens deste primeiro conto
ilustrado no Escritor com R foram produzidas com o aplicativo Dream by Wombo, uma
inteligência artificial (AI) para desenhos, utilizando tanto a versão para
celular quanto o site.
Sim, foram centenas de tentativas e mais
de 200 imagens até escolher as mais adequadas. Até por isso fica muito claro
que esse e outros aplicativos que utilizam AI de forma alguma substituem
artistas humanos.
Tenho feito posts em minha conta no
Instagram, @renatoa.azevedo , utilizando imagens produzidas pelo Dream. Até
mesmo as capas dos recentes e-books, A Lista: Diversidades e Os Gatos deVecruz, foram produzidas assim. Com adição de vários elementos a posterior,
como títulos, claro.
De novo, nenhuma AI irá substituir
artistas humanos. Bem, isso não é muito certo com relação aos roteiristas de
Hollywood em greve, visto os fiascos colossais de certas produções lacradoras
dos últimos tempos...
As AIs são ferramentas, somente isso, e
foram criadas para auxiliar e não substituir. Claro que você não deve responder
se alguma delas perguntar a respeito de Sarah Connor!
Então, “guerrinhas” e outras atitudes
patéticas movidas por quem deveria ser profissional e se preocupar em contar e
publicar boas histórias não fazem o menor sentido.
Abaixo, algumas imagens extras produzidas
utilizando variados estilos no Dream.
E, se chegou até aqui, muito obrigado! Sua
recompensa está abaixo:
Cena pós-créditos
A
noite estava fria quando Daniel saiu pelo portão de trás do prédio. Como no
restante daqueles poucos quarteirões os imóveis estavam abandonados, e somente
em um e outro fracas luzes bruxuleavam.
Ele
abriu a porta do Dodge Charger branco e entrou, a fim de aguardar Tatiana que
tinha parado para se vestir. Porém, seu espanto foi enorme quando viu a
namorada sair pelo portão, dar passos rápidos pela calçada, abrir a porta e
entrar no carro.
Ainda
vestia somente o biquíni vermelho e os tênis com que a encontrara. Outro carro
passou pela rua enquanto isso, mas Tati nem ligou.
-
Mas você não ia se vestir? – perguntou.
-
E você não ia me levar para casa? – ela devolveu com um sorriso sacana.
O
jovem Caçador sorriu depois de mais uma conferida no belo físico da amada,
ligou o motor V-8 do carro e saiu.
Tatiana
abriu a mochila, tirou a camiseta e a vestiu. Depois, com a expressão mais
tranquila deste mundo, ficou observando a paisagem que passava.
Daniel,
claro, estava adorando o espetáculo de vê-la assim. Deslizou a mão e a pousou
na coxa da namorada, que se virou para ele e sorriu.
-
Você quer dizer alguma coisa, querido?
Tatiana
perguntou isso com o ar mais inocente do mundo, mas é claro que nem precisava
ser vidente para adivinhar o que passava pela cabeça dele. Dali mais alguns
segundos pararam em um semáforo, ela voltou a sorrir e disse:
-
Ah, amor, que coisa! A alça do meu biquíni desamarrou...
Daniel
voltou a olhar para ela, de novo conferindo-a de alto a baixo. A visão da alça
lateral do biquíni frouxamente solta sobre o banco, deixando à mostra a lateral
do quadril de Tatiana, fez com que em sua expressão várias emoções se
misturassem. Surpresa, vergonha, desejo, tesão...
Depois
de mais alguns segundos em que os dois só se olhavam, alguém buzinou atrás
deles. Tati sorriu de novo e disse:
-
Amor, dirige. Você não está se concentrando muito...
Daniel
teve certeza que a namorada o provocava de propósito. E ele sabia que merecia.
Mais
alguns quarteirões e eles chegaram a uma rua tranquila, perto da casa de
Tatiana. Foi quando um Fusca Azul familiar surgiu logo adiante deles, vindo no
sentido contrário.
Vó
Nena parou o Fusca, sua janela ao lado da de Daniel.
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Oi, moçada, tudo bem? Como foi a experiência lá no prédio?
Eles
haviam comentado com ela no dia anterior que visitariam o local. Agora era
Daniel que sorria, enquanto Tatiana tentava mostrar um ar de total normalidade.
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Foi tudo bem, Vó, depois contamos – disse Daniel.
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Só me poupem dos detalhes das safadezas – riu a anciã. – Sei bem o que vocês,
moleques, aprontam em lugares assim. Ainda bem que não era um dos piores
prédios daquela região filha da puta.
A
Caçadora fez uma pausa e acrescentou:
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Bom, surgiu um negócio, e bem que a ajuda de vocês me seria útil.
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Já vou fazer a volta e te seguimos, Vó.
Daniel
disse isso e, enquanto Vó Nena se adiantava no Fusca Azul, ele acelerou e
rodopiou com o Dodjão. Tatiana, ao mesmo tempo, amarrava a alça do biquíni para
depois apanhar a legging na mochila.
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Ah, não vai ficar assim, amor? – disse ele com ironia, mas com voz carregada de
desejo.
Tatiana
devolveu um olhar irônico para ele enquanto se vestia. Ajeitou a calça, o Dodge
alcançou o Fusca Azul, e ela finalmente sorriu.
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Você bem que gostaria, não é, querido?
Eles
se olharam, depois sorriram um para o outro e entrelaçaram os dedos das mãos. A
aventura da tarde havia acabado, e a da noite estava somente começando.