segunda-feira, 18 de setembro de 2023

GIBI SP FESTIVAL 2.0, NÓS FOMOS


  Aconteceu em 02 e 03 de setembro o Gibi SP Festival 2.0, e nós fomos e nos divertimos muito!

Foi a segunda edição desse já grande evento dos fãs, colecionadores de quadrinhos e nerds em geral (contamos tudo aqui a respeito de como foi a primeira edição em 2022). Desta vez o local escolhido foi a Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social, o tradicional Bunkyo, palco de eventos da cultura nerd já há vários anos. Um lugar bem mais amplo para um evento muito maior, com uma enorme variedade de editoras, sebos, colecionadores e fãs da Nona Arte que compareceram aos dois dias da festa.

E, de longe, o melhor de eventos assim é encontrar amigos e falar por horas a fio sobre as nerdices que tanto amamos! Tivemos o prazer e a grande satisfação de estar com os amigos Carlos Baku (@carlos_baku), Walter Júnior (@wallyjunior), Tony Fernandes (@tonyfernandes213) (que finalmente conhecemos depois de muito contato somente online), Batson Júnior (@batson_artes) (organizador do também excelente Festival Gibis e Ideias que cobrimos aqui), o colega escritor Eduardo Marchiolli (@mutantexis), o nerd profissional Maurício Muniz (@mauricio_muniz_oficial), Manoel de Souza (@manoelspfilho) da Editora Heroica, Edson Diogo (@edsondiogo23) do Guia dos Quadrinhos e muitos outros. Vale destacar que conhecemos também Francisco Moreira, autor de Guardião Noturno, primeiro super-herói do Acre, que veio daquele distante estado para participar do evento. Por sinal ele também é responsável pelo canal Multiverso AC (@multiversoac).













Várias editoras se fizeram presentes como a já mencionada Heróica, a Mythos, a Pipoca e Nanquim (conversamos com eles e disseram que no final do ano deve chegar a nova edição da trilogia Conan o Cimério, trazendo as histórias originais de Robert E. Howard), JVC e Editora 85.





Como já mencionado, o evento organizado pelo casal Helena e Wilson (@gibispfestival) foi bem maior que o do ano passado, e devemos destacar que a organização estava excelente. Tudo funcionou a contento, e os visitantes podiam circular à vontade para curtir a festa. A variedade de quadrinhos, artes e produtos da cultura nerd expostos foi assombrosa, e claro que como sempre deixamos o final para comentar a respeito das aquisições.





Vale comentar que foi muito bom conhecer a Figura Editora, e me encantei com Pinturas Fantásticas de Frazetta, abordando a arte do inigualável Frank Frazetta. Quem sabe em breve caiba no bolso!




Como atividades os tradicionais cosplayers estiveram presentes (havia um Dick Vigarista sensacional com quem infelizmente não conseguimos bater fotos), Quiz Nerd do qual um grande vencedor foi o amigo Batson júnior e conversas com profissionais dos quadrinhos. Destes, destaque total para o já legendário Flávio Teixeira de Jesus, roteirista da Maurício de Sousa Produções.



Todo e qualquer nerd de respeito sabe que Flávio é o autor dos antológicos Clássicos de Cinema da Turma da Mônica. Em conversa com o polivalente Maurício Muniz ele descreveu diversos aspectos de como é trabalhar na fábrica de sonhos do maior nome dos quadrinhos do Brasil.



Uma das particularidades da metodologia da MSP é que os roteiros são desenhados, não escritos, de forma muito simples e similar à dos storyboards que se utiliza na indústria cinematográfica. Conforme Flávio, isso facilita a leitura, feita ao mesmo tempo por Maurício e por sua filha Marina, editora de conteúdo, e agiliza a finalização e produção. Outra revelação foi de que não há roteirista especializado em somente um personagem, todos trabalham com todos os personagens.

Falando nesses heróis que alfabetizaram a maioria de nós, Flávio contou que vários deles começaram como coadjuvantes, como a própria Mônica e Chico Bento, e depois se tornaram os principais. Isso, claro, dá esperanças a todos nós que torcemos pelo sensacional, excelente e quase sempre injustiçado Xaveco!

Claro, como nosso amigo comentou, todos também amamos o Xaveco em seu eterno papel de secundário!



Emocionante foi o momento em que Flávio comentou que estava planejando uma longamente aguardada visita ao Museu Nacional, quando ficou sabendo do incêndio na instituição. Essa tragédia inominável e imperdoável inspirou a maravilhosa história Insubstituível, da Turma do Penadinho, que ele roteirizou (Desenho: Jairo A. dos Santos, Arte-Final: Kazuo Yamassake, Letrista: Eliza T. K. B. Lacerda) e que foi primeiro publicada online gratuitamente, e depois nas páginas de Mónica 2º série 44, da Panini, de dezembro de 2018, integrante do Grande Encontro Turma da Mônica & Liga da Justiça. Leiam com lenços preparados!

Falando nesse grande encontro com os personagens da DC, a ideia surgiu em um evento da cultura pop acontecido anualmente em São Paulo, e quando foi aprovado pelas duas casas editoriais Flávio confessa que sentiu uma expectativa como poucas, pela responsabilidade de trabalhar com figuras icônicas que fizeram e fazem parte da vida de tantos fãs. O resultado, claro, foi excelente, mais que recomendado!

E evidentemente, a joia da coroa da conversa não poderia ser outra! Flávio comentou sobre os maravilhosos Clássicos do Cinema da Turma da Mônica, o trabalho que o tornou uma lenda entre os fãs de quadrinhos no Brasil. O primeiro, Coelhada nas Estrelas (primeira publicação Gibizão Turma da Mônica 8, 1997) veio ao mundo depois que Flávio conversou com Maurício e assistiu a Edição Especial da Trilogia Clássica de Star Wars, a fim de conhecer as novidades e inserir as sempre presentes piadas e homenagens. O resultado? Nem precisa falar, ou no caso escrever: primoroso!



Desde então inúmeras produções do cinema já foram satirizadas e homenageadas nas páginas dos Clássicos do Cinema. Entre nossas preferidas, aliás, estão além de Coelhada nas Estrelas (also known as Tauó) Coelhada para o Futuro, Star Treko, Caçadores da Coelhada Perdida e a fantástica e hilária O Senhor dos Pincéis. Todas, absolutamente todas, repletas de piadas e homenagens às grandes produções do cinema e da cultura pop. E que lançaram uma nova tradição entre os nerds e fãs de quadrinhos: encontrar e saborear a página onde são feitas inúmeras referências e homenagens a produções relacionadas à história publicada.

Faz um bom tempo que não sai um novo Clássicos do Cinema, e na abertura das perguntas questionei o Flávio a respeito da conclusão das trilogias Indiana Jones e De Volta para o Futuro. Ele disse que o trabalho na MSP tem sido intenso nos últimos tempos, mas que o próprio Maurício perguntou a ele quando os Clássicos voltam a sair. Então, caríssimos, lembrem-se das palavras de Aragorn: sempre há esperança!






Resta falar das aquisições do evento. Com o Comic Hunter pegamos Crônicas do Fantasma 1 e 2 da Mythos. Da Editora Heroica o novo volume de Rocketeer, e entre os colecionadores presentes chamou a atenção o número 1, lacrado, de A Espada Selvagem de Conan com destaque para a história A Cidadela dos Condenados. Além de presentes e outras coisinhas dos amigos!







Aproveito aqui para anunciar que houve mudanças nas publicações de artigos e coberturas de eventos em outros locais, então a partir deste teremos mais um assunto aqui no Escritor com R. Aguardem pois em breve vem a cobertura da Jedicon SP, que aconteceu em 16 de setembro último!


Ficam os maiores parabéns aos organizadores do Gibi SP Festival 2.0, que foi um evento raiz como nos bons tempos, com uma incontável variedade de opções para o fã de quadrinhos, ótimas apresentações e um excelente ambiente para encontrar os amigos. Já aguardamos ansiosamente a edição 3!



        Não deixem de seguir: @renatoa.azevedo.

Até a próxima!

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

UM DIA NORMAL DE TRABALHO E A CONSPIRAÇÃO GLOBAL



BLF Informática, Centro de São Paulo, 10:13 h.

 

            Começo de semana, Leandro e Franco em viagem, e Batista não sentia a mínima vontade de realizar qualquer esforço. Cumprimentou os funcionários ao chegar e disse que não queria ser incomodado, subindo ao último dos três andares de que dispunham no edifício.

            Nenhum funcionário sabia daquele terceiro andar. Nem muito menos que a empresa de segurança de informática na qual trabalhavam era na verdade a fachada respeitável do maior centro de informações clandestino do Brasil. A BLF prestava serviços a dezenas de empresas por todo o país, além de vários políticos graúdos de Brasília. E eram essas as fontes para o principal “produto” confeccionado ali, o newsletter clandestino O Farol.




            Batista sentou-se e checou os e-mails, dedilhando com rapidez no teclado. Para sua surpresa, o vídeo falso do tal “ETdo Panamá” ainda estava “bombando” na rede. Disse:

            — Ah, mas não é possível! Deu até nos programas dominicais que é falso!

            Apanhou o telefone e ligou para um número. Ao mesmo tempo realizou uma busca para verificar se o vídeo do Fantástico já estava online. A amiga atendeu antes que Batista pudesse conferir os resultados:

            — Alô?

            — Cris, é o Batista. Como foi ontem na TV?

            Finalmente ele achou o vídeo, enquanto a bióloga que a contragosto era consultora dO Farol respondeu:

            — Batista, eles não me procuraram mais. Chamaram outro cara, lá no Rio de Janeiro mesmo, você não viu o programa?

            Agora ele achava o vídeo, e realmente era outra pessoa que expunha os fatos. O biólogo explicou que o cadáver mostrado no vídeo mexicano não era um ET como estava sendo divulgado, mas um infeliz bicho-preguiça em adiantado estado de decomposição.

            — É, tal como a revista OVNI havia divulgado em seu site semana passada... – disse Batista.

            — Pois é, como tem maluco no mundo, hein? – perguntou Cristina.

            — Nosso dever é denunciar o que é mentira, e divulgar a verdade, você sabe.

            — Sei... ETs que nos visitam, chupacabras, conspirações... Não sei como conseguem me convencer a colaborar com vocês!

            — Digamos que seja meu charme habitual?

            Cristina nada respondeu, e Batista percebeu que o assunto havia acabado. Antes que o silêncio constrangedor se prolongasse, ele se despediu. Cris ainda comentou:

            — Quando quiser ligar fora do “trabalho” esteja à vontade, viu?

            Ela desligou, e Batista ficou pensando. O vídeo, ao contrário de outras fraudes, chegava a ser patético. Ele e os colegas haviam conversado muito com seu amigo jornalista e ufólogo, Roberto Monteiro, e este confirmou que os membros da equipe da revista OVNI igualmente haviam sido procurados por jornalistas de vários canais. O assunto já parecia encerrado na última quinta, por que ainda dar destaque no domingo seguinte?

            O programa dominical de maior audiência seguramente não deveria ter alguma alternativa para compor aquele quadro... Mas Batista se lembrou de haverem rastreado e-mails com o vídeo do “ET do Panamá” até endereços bem suspeitos, em Brasília e outras cidades ao redor do mundo.

            E havia, claro, os recentes fatos lá no Planalto Central, que seus colegas estavam investigando.

 

Necrotério de Planaltina, 10:56 h.

 

            Macedo era funcionário do necrotério municipal, e não estava nada contente com a situação. Mesmo o maço de notas de 100 em sua mão não parecia ser compensação suficiente.

            O homem baixo mas forte, vestindo um terno surrado e barba por fazer, disse as suas costas:

            — Ô, mano, tá pensando duas vezes, tá? Essa grana que pus na tua mão não foi suficiente?

            O homem por diversas vezes ficou mexendo no paletó, deixando a mostra a pistola enorme e cromada em um coldre no cinto. Macedo resolveu se mexer, abriu a porta e disse:

            — Só não quero ter problema, senhor!

            — E não terá, se manter teu bico calado, tá entendendo?

            O homem falava estranho para a idade que aparentava, mas o funcionário decidiu que não iria se preocupar em memorizar esse detalhe. Na verdade, faria questão de esquecer tudo o mais depressa possível.

            Assim que Macedo voltou a fechar a porta Franco se pôs a trabalhar. Abriu a gaveta indicada e colocou de lado o plástico que cobria o cadáver.

            Aquele infeliz parecia literalmente haver sido comido. Marcas profundas de garras afiadas cobriam pescoço, braços e tronco. As marcas de mordidas ele só havia visto antes durante a onda de ataques em São Paulo algum tempo atrás, nas proximidades da USP e Marginal Pinheiros.

            Fotografou tudo, e ainda obteve uma amostra de impressão digital. Já sabia quem era o sujeito, e fez aquilo apenas para juntar evidências. Voltou a cobrir o corpo e a fechar a gaveta, e encaminhou-se para a saída. Nem se preocupou em despedir-se do funcionário. Sabia que ele não diria nada.

 

Delegacia de Polícia de Planaltina, 11:48 h.

 

            Franco, depois de muita conversa e de exibir uma carteira funcional habilmente forjada, conseguiu que um dos policiais que cuidava do caso lhe revelasse importantes informações.

            O corpo, como suspeitava, havia sido simplesmente despejado em Planaltina. Amanhecera em uma praça na quarta da semana anterior, mas como a criminalidade na região era elevada, ninguém deu muita atenção ao caso.

            O policial confidenciou que outros homens que se identificaram como assessores parlamentares haviam aparecido nos últimos dias, todos querendo saber quem era o morto.

            — Olha, doutor, na minha opinião isso foi encomendado. O cara foi todo cortado para servir de exemplo, acho que algum traficante local está querendo assustar a concorrência, sabe?

             Franco agradeceu e saiu. Entrou no carro e ficou meditando a respeito.

            Sabia como operavam traficantes e outros criminosos, o que não encaixava com o que sabia daquele caso. Por cima apenas um jornal local havia se ocupado do assunto. Já a informação sobre a desova do corpo parecia consistente.

            Se o quadro que já formava em sua cabeça era o correto, seria ainda mais consistente com os fatos que já conheciam. Franco não tinha mais dúvidas, outra daquelas aberrações produzidas em laboratório, que o povo havia apelidado de chupacabras, estava à solta em Brasília.

            Só precisava saber por que a vítima havia sido precisamente aquela.

 

Senado Federal.

Antessala do gabinete de José Ribamar, 12:26 h.

 

            Leandro ajeitou o terno bem cortado e sentou-se. A recepcionista o observou, por certo achando estranho um negro vestindo Armani. Ele nem se incomodou, apanhou os fones e os colocou nos ouvidos, enquanto manipulava seu celular último tipo.




            Aquele aparelho estava ligado ao sistema de segurança que a BLF Informática havia instalado no gabinete e no sistema de computadores do senador Ribamar, presidente do Senado e, como todos sabiam, virtual “dono” do Maranhão. A recepcionista passou a se dedicar a seus afazeres, enquanto Leandro ouvia as palavras trocadas durante a tensa reunião que acontecia na outra sala.

            — Se alguém voltar a tentar me sacanear, vai ver só uma coisa!

            Aparentemente, o senador Ribamar se sentia suficientemente confortável em seu gabinete para dispensar a aura de “bom velhinho” que alimentava no palanque do Senado. Leandro voltou a ouvir sua voz, carregada de sotaque:

            — O Almeida era um bom assessor, e de toda confiança. Ser morto dessa forma... quero saber quem foi o calhorda que trouxe outra dessas coisas para Brasília!

            Pela primeira vez Leandro ouviu a voz do interlocutor. Uma voz rouca que já havia sido descrita para ele em inúmeras ocasiões por seus amigos:

            — Senador, veja bem...

          — Veja bem o seu rabo! – o senador, também ex-presidente, realmente se transformava quando não estava em público. – Esse programa não tinha sido cancelado?

            — E foi, senador. Mas com tantos grupos, espalhados pelas mais diversas repartições deste país... não existe um comando central, como sabe. Então cada grupo se move apenas por seus próprios interesses.

            Silêncio por alguns instantes, até que o homem de voz rouca voltou a falar:

            — Com todos esses escândalos ocorrendo no Senado, é natural que muitos dos demais podem estar preocupados. Todos sabem o quanto o senhor está envolvido, senador...

            — Está me gozando? Querem vocês também me derrubar!? Não basta essa campanha terrorista daquele jornalzinho de São Paulo, agora vocês também?

            — Eles publicaram alguma mentira, senador? Não, claro que sabe que não! Até que o senhor e sua família moveram uma ação para censurar o jornal, e chamar ainda mais atenção.

            — O que você quer?

            Era óbvio que Ribamar não queria discutir aquele assunto. Leandro aguardou mais alguns instantes e enfim ouviu:

            — Não quero nada, senador. Digamos que foi apenas uma visita de cortesia, para informá-lo de nossos progressos.

            — Pegaram a coisa, então? Ela matou o Almeida próximo a minha mansão no Lago Paranoá. Meus seguranças atiraram mas o bicho fugiu.

            — Ainda não, mas estamos rastreando o ser. Desta noite não passa.

            — Isso não pode chegar à imprensa, entendeu bem? Eu soube que já havia jornalistas da grande mídia vindos para investigar. Um e outro vizinho ainda abriu a boca, e custou caro pagar pelo silêncio dos outros. Deus me livre se aqueles malditos daquele jornaleco, O Farol, publicarem meu nome de novo!

            Leandro se lembrava, e como! Na última vez O Farol publicara fotos do desaparecido assessor de Ribamar ao lado de pessoas bem interessantes, o que incluía o próprio homem da voz rouca, figuras públicas envolvidas em eventos nebulosos tais como o Caso Varginha, e alguns militares de alto escalão. Aquilo comprovava o envolvimento de Ribamar com a conspiração para acobertar a presença extraterrestre.

            — O pessoal dO Farol é profissional. São mestres em encobrir seus rastros.




            — Um dia precisamos ter gente competente no seu lugar, isso sim!

            — Não me ameace, senador.

            — Eu te criei, seu desgraçado! Não passava de um intendente de merda lá no Pará quando começaram os ataques de ovnis em Colares! Eu estava com os militares quando viram o filme da nave, eu recomendei encerrar aquela operação.

            — Os bons tempos da Operação Prato...

            — Bons nada! Não sabe o que pode acontecer com o mundo se isso vier à tona!?

            — Tanto sei que foi por isso que espalhamos aquele vídeo do tal ET do Panamá pela Internet, deu até no programa de domingo! E eles estavam prontos para falar do “chupacabras de Brasília”, a morte de seu assessor, e chegar ao senhor. Tivemos muito trabalho para salvar seu rabo, senador!

            Leandro conseguiu ouvir uma exclamação de espanto, e depois entrou novamente aquela voz rouca e desagradável:

            — Infelizmente, Ribamar, você tem metido os pés pelas mãos. Sabe que quanto mais a mídia escarafuncha em suas falcatruas, maior é a chance de descobrir as ligações de “vossa Excelência” com todo o esquema. Essa foi a última vez. Está por sua conta agora.

            Leandro rapidamente guardou o equipamento, e levantou-se para servir-se de água no bebedouro. De costas para a porta do gabinete, bebeu calmamente e depois segurou os óculos escuros contra a luz.

            Pelo reflexo nas lentes viu um sujeito de aparência corriqueira, vestindo um terno barato, saindo do gabinete e indo embora. Quando ele saiu Leandro voltou a seu lugar, e finalmente a mocinha lhe disse que podia entrar.

            — Senhor Leandro, como vai?

            O jeito simpático voltou a ser exibido por Ribamar quando se levantou e apertou a mão de Leandro. Conversaram rapidamente sobre banalidades enquanto o hacker ia ligando o laptop. A conversa gravada já havia sido transmitida para o servidor que mantinham na Capital Federal.

            — Bem, senador Ribamar, espero que esteja disposto a tratar de negócios! Como solicitado, irei lhe mostrar a última atualização em nosso sistema de segurança.

            — Isso vai proteger todo meu sistema? Inclusive celulares? O senhor sabe, como homem público, sempre estou vulnerável a todo tipo de espionagem e escuta clandestina.

            — Não tem com o que se preocupar, senador. Nosso novo sistema é o que de mais moderno existe. Claro, a menos que dinheiro seja problema...

            O ex-presidente e senador pelo Maranhão soltou uma risada, e respondeu:

            — Mas claro que não, meu amigo!

            Leandro, satisfeito mas não pelas razões de que o homem a sua frente pensava, começou sua apresentação.



 

Proximidades do Lago Paranoá, 16:16 h.

 

            Depois de alertado por Leandro, Franco passou toda a tarde vigiando as proximidades do lago. Teve o cuidado de não chamar a atenção dos seguranças das muitas mansões das redondezas. Nuvens negras se formavam no céu e escureceu tanto que as luzes dos postes começavam a se acender.

            Subitamente ele viu um furgão preto se aproximar de um matagal, ao mesmo tempo em que o som do rotor de um helicóptero era ouvido. Quatro homens penetraram na mata, e logo o som de tiros de fuzil foi percebido.

            Dois sujeitos vieram correndo, carregando um saco preto. Um outro apoiava o quarto homem, que mancava e parecia ferido. O saco foi jogado para dentro pela porta lateral e todos entraram.

            O furgão arrancou e o helicóptero afastou-se. Franco conseguiu gravar toda a cena.

 

Universidade de Brasília, 18:32 h.

 

            — Não, absolutamente não!

            Marco Valdez era cientista e biólogo, atualmente lecionando na UnB. Leandro insistiu:

            — Marco, soltaram outra dessas coisas em Brasília, apesar de você ter nos garantido que havia destruído seu trabalho...

            — E o custo para mim, hein? – o cientista estava justificadamente nervoso. – Tive que pedir favores depois de ser demitido da USP. Vocês não fazem ideia de que tipo de pressão enfrentamos aqui em Brasília, sabendo o que eu sei!

            — “Enfrentamos”, Marco? – perguntou Leandro. – Você e mais quem?

            O cientista deu-lhe as costas e saiu andando. Leandro rememorou os incidentes de São Paulo. Quatro mortes, mas os maiores comentários na imprensa foram gozações com a edição de O Farol que ligava a criação em laboratório do chupacabras com experimentos genéticos ligados ao Caso Varginha.

            Iriam novamente omitir o nome de Marco. Mas a matéria sairia mesmo assim.

 

Em incontáveis caixas de correio eletrônico, 19:12 h.

 

O FAROL

EDIÇÃO DE 22 DE SETEMBRO

 

            Caros leitores, como exposto, ficou tudo muito claro. O senador José Ribamar, um dos principais nomes no Brasil da conspiração global que controla as informações concernentes a extraterrestres, conseguiu abafar os estarrecedores fatos ocorridos nas proximidades de sua propriedade. Para tanto, seus comparsas na conspiração deram grande publicidade ao falso vídeo do chamado “ET do Panamá”, que na verdade não passa de um bicho-preguiça. Com isso, o senador logrou até mesmo ocultar a morte de um de seus mais fiéis colaboradores.




            Entretanto, o ataque do chamado chupacabras em Brasília novamente evidencia que o submundo da conspiração está em guerra. Ribamar, devido aos escândalos no Senado Federal, tem chamado muita atenção para seu nome. Sua ligação com a grande operação de acobertamento global, mais cedo ou mais tarde, será exposta, e com ela toda a verdade.

            Quanto tempo mais Ribamar poderá resistir?

 

Casa em algum lugar de Brasília, 20:20 h.

 

            — Como sempre, muita gente irá rir disto aqui.

            Roberto Monteiro, agora correspondente em Brasília, aceitara a contragosto o convite para jantar com Leandro e Franco na casa que eles mantinham na Capital Federal. Leandro respondeu:

            — Mas irá “levantar a lebre”, Roberto. E como em outras ocasiões, as informações dO Farol serão confirmadas pelos fatos.

            Roberto tirou os óculos, esfregou o rosto com as mãos e disse:

            — E eu que vim para Brasília para tentar me afastar de tudo isso...

            — Por que você acha, Roberto, — disse Franco — que Ribamar fez aquele discurso irado contra a imprensa agora a pouco? Por nossa causa! Porque estamos revelando a verdade. A gravação de Leandro fez sucesso na Internet. Imagine, flagrar o Ribamar e o rouco juntos!

            — Além de ter sido tremendamente insensato, não é mesmo?

            — Relaxe, Roberto – disse Leandro. – O Ribamar acabou de telefonar. Concordou em instalar o novo sistema de segurança. Assim, poderemos ter acesso a tudo que ele faz no Senado, repassar informações a nossos contatos na imprensa...

            — A verdade irá prevalecer – disse Franco.

            — Então, tudo isso também foi uma conspiração de vocês, para facilitar seu trabalho de espionar o Ribamar e conseguir mais informações sobre a conspiração?

            — Elementar, meu caro Roberto! – respondeu Franco.

            Leandro, normalmente o mais sisudo da equipe que publicava O Farol, não pôde evitar também sorrir.


Espero, caros leitores, que tenham gostado deste conto! Na verdade, como a própria referência ao caso do famigerado ET do Panamá comprova, ele foi escrito ainda em 2009, para ser publicado em outro blog. Como este já não existe, fiz algumas atualizações para ser lido aqui.

Decidi sua republicação principalmente devido às audiências que estão acontecendo no Congresso norte-americano, onde revelações muito interessantes estão sendo feitas. Confiram um vídeo:



 

Aqui um vídeo de um canal brasileiro resumindo as ocorrências:



 

Será que a verdade que está lá fora finalmente será confirmada? Essa nem Mulder e Scully podem responder...

 


Reler esse conto foi um retorno às origens, já que no início de minha carreira como escritor me dedicava muito às histórias com alienígenas.

Falando neles, recomendo muito a Revista OVNI Pesquisa, da qual sou consultor, e cujo número 17, dedicado á Operação Prato, está bombando!

 


Nessa edição meu artigo explora como a OP foi tratada na mídia, especialmente nos documentários Chupa-Chupa e no Linha Direta. Além de em certos livros de seu autor preferido, claro!

Boa parte de vocês deve conhecer o conto Tudo Está Conectado, na qual eu trouxe nossos queridos Faroleiros para nossa época. Além de haver deixado pistas de que eles habitam o mesmo universo de Vó Nena e os Caçadores. Confiram clicando aqui.

Mais sobre alienígenas? Além das tags logo abaixo, continua disponível meu livro de contos FILHAS DAS ESTRELAS:




Quanto ao mais, muitas coisas acontecendo, e histórias sendo escritas. Novidades devem chegar em breve. Continuem lendo e apoiando os autores nacionais!

E não deixem de nos seguir no Instagram: @renatoa.azevedo , @corujiceliteraria ; @2sobrevoandoporai

Até a próxima!

quinta-feira, 1 de junho de 2023

VÓ NENA E OS CAÇADORES: O TERROR DE TATIANA NO PRÉDIO ABANDONADO


Nota do autor.

Este é o primeiro conto publicado aqui no Escritor com R que realmente tem uma capa, além de ser ilustrado. Assim fica clara, além de qualquer dúvida, a natureza da história. Então, se você tem algum problema com mulheres de pouca roupa em situações permeadas de sensualidade e suspense, é preferível que não siga adiante.

O aviso está dado, reclamações e mimimis serão sumariamente excluídos.

Quem tiver mente aberta e procura uma boa história, por outro lado, espero que se divirta.

Obrigado.


            Tatiana desde o começo não havia gostado da sugestão de Daniel.

            Marcarem um encontro justamente naquele quarteirão do centro de Boa Graça, onde todos os prédios permaneciam abandonados havia anos, não era uma boa ideia. Por cima ele sabia que aquele horário era logo após ela sair da academia.

            Estava cansada, suada, e sentia-se um tanto exposta vestindo camiseta, legging e tênis. Manteve a bolsa junto ao corpo, e chegou finalmente ao prédio de número 66.

            Ao menos outras três construções daquela rua exibiam placas de “interditado”, mas não aquele. A escada de entrada imunda dava para um portão de ferro enferrujado que estava entreaberto, e a vidente suspirou por não sentir nenhuma presença nas proximidades. Sobre o portão, na beirada da laje, ainda estava o letreiro com o nome Edifício Jason Teodoro, de uma época em que nomes em inglês ainda não eram moda. Depois de olhar para os lados e não ver ninguém decidiu entrar.



            O portão rangeu ao ser aberto, e as impressões que ela teve ao tocá-lo não foram das melhores. Felizmente, nada comparável ao que sentia quando passava com os rapazes ou Vó Nena diante do Casarão da Rua das Dores. Este, conhecido como a casa mais mal-assombrada da cidade, era um lugar no qual a jovem vidente torcia ardentemente para jamais precisar entrar.

            Depois de passar pelo hall de entrada, caminhou por um corredor repleto de lixo e restos de reboco e tinta das paredes. Apanhou o celular da mochila e acendeu a lanterna, pois conforme se distanciava do portão a escuridão aumentava. Pelas portas entreabertas restos de móveis, uma e outra peça de roupa esquecida havia décadas, e as coisas típicas que se podia encontrar em um prédio abandonado.

            Tatiana decidiu subir as escadas depois de mandar uma mensagem de texto, avisando Daniel que havia chegado.

            O hall de escadas tinha amplas janelas que contribuíam para um pouco de iluminação, mas a sujeira que cobria os vidros garantia que a penumbra de final de tarde continuasse. Tatiana voltou a guardar o celular na mochila e sentiu os dedos roçarem em um velho livro.

            Aquele tratado de bruxaria fora presente de Daniel, que disse ter lembrado dela ao passar no Sebo do Hugo. Tati disse, ao folheá-lo:

            - Amor, você sabe que não sou bruxa.

            - Vó Nena também não é, mas manda muito bem nos feitiços – ele respondera. – E me disse que você tem ficado muito boa nessas artes, ajudando também nessa parte!

            Ela riu, eles se beijaram, e Tati abriu o livro mais ou menos no meio, onde estava o marcador com o logo e as informações da livraria. Hugo, depois da bronca de Nena no último Natal, e as constantes visitas que a Caçadora vinha semanalmente fazendo ao sebo, havia feito uma pequena revolução na loja. Até no noticiário do canal municipal da cidade já havia aparecido, e o marcador personalizado era um símbolo dessa nova fase.

            Tatiana viu uma bela gravura, que no entanto trazia um quê de bizarro e sobrenatural que combinava com o livro, representando um sabá em uma antiga floresta. As bruxas dançavam nuas em torno de uma fogueira, e a ilustração era bastante detalhada nesse sentido. Deu uma cotovelada no namorado, dizendo:

            - Agora já sei por que colocou o marcador bem nesta página, não é?



            Tatiana, cada vez mais imersa na atmosfera mórbida do prédio abandonado, lembrou-se da cena e riu. Depois voltou à sua mente a lembrança do texto, que mencionava como as bruxas acreditavam que a energia sexual, do mero ato de se livrar das roupas, ajudava a aumentar a sensibilidade para as energias místicas.

            A vidente pensou nisso, ao mesmo tempo em que procurava evitar os detritos e o lixo do prédio. Parou um momento diante de uma sala sem porta, observando na penumbra do cômodo uma velha cadeira de madeira. Fechou os olhos, e em sua concentração não captou nada dentro do prédio. Ali haviam funcionado vários escritórios e pequenas empresas ao longo dos anos, e a moça não conseguiu sentir nada tão tenebroso, nem qualquer presença humana.

            Abriu os olhos, sorriu, e em pensamento desejou dar um beliscão no namorado. Certamente Daniel tivera alguns bons motivos e várias segundas intenções naquela semana. Primeiro a presenteando com o livro, destacando o capítulo sobre as bruxas e a energia sexual, e depois marcando aquele encontro bem ali. Tati sabia que aquele prédio por vezes era usado por casais para encontros, inclusive aqueles mais íntimos. Uma boate e dois bares haviam aberto recentemente nas proximidades, e em breve aquele trecho da rua estaria lotado de gente.

            Mas por enquanto, naquele horário, não haveria maiores riscos.

            A vidente decidiu experimentar. Sua sensibilidade já havia captado um e outro ponto onde, recentemente, pessoas haviam sentido prazer. Apesar de perturbada pela mistura de morbidez, o fundo de energias místicas pesadas que emanavam de outros locais nas proximidades, e o próprio gosto pela aventura, Tati sentiu também a própria excitação.

            Olhou para as duas pontas do corredor escuro, colocou a mochila sobre a cadeira, e por fim tirou a camiseta. Dobrou-a e a guardou na mochila, e começou a tirar a calça. Felizmente tinha o hábito de usar biquíni debaixo da roupa quando ia para a academia, mas mesmo assim sentia-se praticamente nua.

            Depois de fechar a mochila deixou a cadeira ao lado da porta, na escuridão, de forma que não seria vista caso passasse alguém. Ajeitou o biquíni, verificou os cadarços dos tênis que manteve nos pés, já que não queria se arriscar a pisar em algo e se machucar, marcou bem em qual sala do segundo andar deixara suas coisas e saiu caminhando.



            A moça verificou novamente que as peças do biquíni estavam no devido lugar, e antes que se desse conta passou as mãos pelo corpo suado. Seu físico vinha melhorando nos últimos meses, o corpo, braços e pernas mais torneados, e Daniel não cansava de elogiá-la.

            Tati sentiu prazer, percebendo ao mesmo tempo, aos poucos, sua percepção ser ampliada. Contornou a curva do corredor, e as energias do lugar fluíram para sua mente, e ela conseguia ver aquele corredor que percorria como havia sido anos antes, com circulação de pessoas que iam de lá para cá, procurando uma sala específica, resolvendo problemas e questões profissionais ou simplesmente fazendo seu trabalho.

            A vidente parou no exato ponto em que um casal estivera no máximo dias antes. Esforçou-se para evitar tocar o ponto na parede onde haviam se apoiado, mas não conseguiu. Colocou a mão nos tijolos aparentes, e quase podia vê-los em pleno ato.

            Seu corpo foi percorrido por um profundo arrepio. Medo, repulsa, excitação e desejo se misturavam em sua mente, e a moça sentiu o coração bater mais forte no peito e a respiração ficar ofegante.

            Tirou a mão depressa.

            Outra coisa, que parecia distante mas subitamente a invadiu arrepiando sua pele, surgiu. Medo.

            Um terror profundo, eco de coisas horríveis que haviam acontecido nas proximidades, ali e em alguns dos demais prédios. E também mais distante, no portal das trevas que era o Casarão da Rua das Dores.

            Tati sentiu-se exposta e desprotegida. Aquela havia sido uma péssima ideia, amaldiçoou o livro e o namorado, e correu para a sala onde havia deixado a mochila.



            Teve a pior das surpresas. Suas coisas não estavam lá.

            Tatiana segurou a cadeira, olhando-a como se de alguma forma a mochila estivesse escondida ali. Nada. Vasculhou a sala o melhor que a penumbra permitia, mas havia somente lixo.

            A moça, somente de biquíni e tênis, foi tomada por desespero e medo. Não podia sair daquele jeito. Teria que esperar Daniel chegar e arrumar roupas antes que pudesse ir para casa. O pensamento de estar quase nua era incômodo, jamais sentira tanta vergonha na vida, mas ela se surpreendeu ao ainda experimentar a mesma excitação de antes.

            Aguçou sua percepção, e reparou em algo indefinível bem na direção da escada por onde havia vindo. Com medo, decidiu continuar em frente. Sabia existir uma saída no térreo pelos fundos, e torcia para que houvesse outra escada também.

            Foi andando com todo o cuidado, superando outra esquina do corredor. Prendeu a respiração por um momento, e rapidamente levou as mãos à boca para abafar um grito de puro terror.



            Uma caveira jazia no chão logo à frente.

            Tatiana escondeu o rosto com as mãos, sentiu lágrimas encherem seus olhos e o desespero inundar sua alma. Um suor frio percorreu seu corpo, e ela lutou por um tempo que pareceram horas para recuperar o controle.

            Descobriu o rosto, e olhou para a caveira no chão. Enegrecida pelos anos em que estava largada ali, e a impressão de sua vidência lhe dizia que havia sido furtada de uma das faculdades de medicina das cidades vizinhas. Tatiana percebeu a ideia de algum trote ou brincadeira de mau gosto envolvendo a caveira, e afinal se tranquilizou.

            O insólito e o medo da situação, sentindo-se exposta tanto física quanto psiquicamente, contribuíra para se desesperar. Conseguiu finalmente rir da situação, afinal já havia visto coisas incomparavelmente piores, mais aterrorizantes e tétricas do que uma simples caveira no corredor de um prédio abandonado. Por precaução contornou o objeto desagradável e continuou em frente com cuidado redobrado.

            Lá fora já escurecia, a moça continuava pensando como sairia daquela situação seminua como estava. E ainda havia sua vidência, revelando-lhe impressões do passado daquele prédio que a invadiam sem controle. Tatiana precisava se esforçar para não perder o contato com a realidade, afinal não queria estar devaneando nas lembranças dos outros, conforme por vezes dizia que se sentia durante aqueles fenômenos, e ser surpreendida daquele jeito.



            Seguiu pelo corredor à direita, em meio à penumbra, e esforçando-se para manter o controle. Impressões sobre o passado, pessoas trabalhando, enfrentando a rotina, discutindo com colegas ou chefes, e até mesmo lidando com affairs continuavam a invadi-la. Tatiana parou diante de uma porta entreaberta, e sua vidência revelou que ali já funcionara um escritório de alguma empresa de comércio. Mas o que a incomodou foram as lembranças, impregnadas na energia do lugar, de um caso envolvendo a secretária e o gerente.

            Eles ficavam até tarde da noite em “hora extra”.

            A vidente de novo sentiu sua excitação aumentar. Um arrepio percorreu seu corpo, seus braços a envolveram como se abraçasse a si mesma, e ela por fim soltou um profundo suspiro.

            De novo pensou que tinha vontade de esganar Daniel. Sentindo-se nua de corpo e alma deu mais alguns passos até a curva à esquerda do corredor.

            Tampou a boca com a mão e depressa se escondeu, apertando as costas junto à parede.

            Depois de respirar fundo tentando não fazer barulho, olhou de novo para ter certeza de que estavam mesmo ali, e não eram impressões do passado que sua vidência revelava.

            Sim, estavam. Um jovem casal.

            Ela de frente para a parede, apoiando nela as mãos. O rapaz, atrás dela, a abraçava forte, beijava sua nuca e mordiscava suas orelhas. Com as mãos erguia a saia jeans que a menina vestia, a apalpando por baixo.

            Tatiana sentiu seu desejo aumentar. Suava, teve que controlar sua mão esquerda, que queria descer entre suas pernas, enquanto continuava a tapar a boca com a direita.

            Seu estado de excitação era tal que as visões e impressões a invadiam sem controle. E ela sentia o que os namorados a poucos metros dela sentiam. Ficou aterrorizada com a possibilidade de perder o pouco controle que ainda tinha, fazer barulho e ser flagrada.



            Tentou se concentrar, e conseguiu bloquear parte das impressões. Recuperada um pouco, deu mais uma olhada no casal, vendo que o rapaz , depois de subir a saia da moça, começava a baixar suas calças. Escondeu-se de novo, e decidiu entrar em uma das salas para esperar que fossem embora.

            Tati se virou, e seu pé inadvertidamente chutou uma lata enferrujada, de uma bebida ou produto irreconhecível, que ela não havia visto no chão. Ela então ouviu:

            - Que merda foi essa? – o rapaz perguntou.

            - Meu Deus, o que foi isso? – a moça acrescentou, já em pânico.

            A vidente ainda ouviu o barulho deles arrumando as roupas, enquanto tentava correr sem fazer ruído. Enfiou-se na primeira sala que viu aberta.



            Que vinha a ser a do escritório dos dois amantes, a secretária e o gerente.

            Na quase obscuridade do cômodo ela tateou. À esquerda da porta havia um armário, e ao lado dele um espaço vazio. Encostou as costas na parede e ficou ali quieta, cobrindo a boca e o nariz com as mãos para não fazer ruído.

            Ouviu as vozes deles se aproximando.

            - Eu ouvi alguma coisa – disse o rapaz. Tentava parecer valente, mas seu medo era nítido.

            - Também ouvi. Será fantasma? Dizem que toda essa vizinhança é assombrada! – a voz da menina evidenciava como estava trêmula e apavorada.

            Eles pararam bem diante da porta do escritório.

            Tatiana esforçou-se para respirar o mais levemente possível, tentando não fazer ruído. Ao mesmo tempo as energias do lugar, as imagens que via dos encontros da secretária com o gerente a faziam tremer de vergonha, medo e desejo.

            Uma luz varreu a parede oposta. O rapaz vasculhava o cômodo, desde a porta, com a lâmpada do celular.

            - Pelo amor de Deus, vamos embora! – insistia a moça.



            Mais uma varrida de luz, e depois esta se apagou. Tatiana, em seu transe, mal conseguindo se conter entre a excitação e a vergonha de estar somente de biquíni e tênis, sentia o desespero tomando conta de si. O pavor de se trair a qualquer instante a invadiu.

            Finalmente, conseguiu ouvir os passos do casal se afastando. Correram pelos corredores, e então desceram a escada para o térreo. Depois, nada.

            Ela ainda esperou mais alguns instantes até tudo ficar silencioso para finalmente tirar as mãos do rosto.

            Soltou um profundo suspiro, e não mais conseguiu controlar as energias, que percorreram seu corpo livremente. Desejo, excitação, medo, terror, vergonha, tudo se misturou em seu interior, e ela por fim perdeu a noção de realidade.

            A próxima coisa que se deu conta foi de estar de volta ao corredor, sentada no chão com as costas apoiadas na parede próxima à porta. Uma das mãos entre as pernas, enquanto o indicador da outra estava em sua boca.

            O desejo enfim dominou Tatiana, e ela suspirou longa e ruidosamente. Sentiu o corpo amolecer.

            Ao se dar novamente por si pensou em Daniel. Se ele chegasse agora, primeiro ela bateria nele.

            Depois o agarraria, beijaria e violentaria.

            Trêmula e suada, a vidente olhou para todos os lados. Não se lembrava de como havia chegado ao corredor. Suspirou aliviada por não haver mais ninguém à vista. Aqueles garotos já deveriam estar bem longe.



            A noite se iniciava lá fora, estava escuro e dentro do prédio mais ainda.

            Tati se levantou enquanto pensava de novo em sua situação. Estava somente de biquíni e tênis, sozinha em um prédio abandonado, suas roupas e seu celular estavam na mochila que havia sumido, e nem sinal de que Daniel chegaria em breve.

            Como sairia daquela roubada?

            Nisso, de novo sobressaltou-se e ficou ofegante.

            A vidência revelou que alguém a observara enquanto estava ali, desfrutando e se aliviando de seu desejo intenso. Tati sentiu medo e vergonha, mas novamente tudo era temperado por um tesão que não conseguia entender.

            E ela também ouviu um ruído na direção do corredor onde o jovem casal namorava.

            O pavor foi mais forte. Correu de volta ao antigo escritório para se esconder no mesmo lugar. Conseguiu em meio à penumbra ver uma vassoura velha jogada no chão, e a ideia que teve lhe deu coragem.

            Segurou o cabo do utensílio ao mesmo tempo em que punha o pé sobre a parte de baixo, que exibia poucas cerdas restantes. Forçando com as duas mãos partiu o cabo próximo à base, e ficou satisfeita ao constatar que a ponta resultante era razoavelmente afiada.

            Escondeu-se novamente atrás do armário, segurando firme o cabo da vassoura. Na confusão de sentimentos, impressões e emoções em que estava, não conseguia dizer se a presença que sentia à distância era humana ou sobrenatural. O cabo de vassoura bastaria caso fosse um vampiro. Contra um atacante humano, por sua vez, Tatiana sabia bem quais pontos atacar com aquela arma, a fim de causar danos não permanentes.

            Ou mesmo permanentes, conforme vinha aprendendo com Vó Nena e os rapazes.            Ouviu passos distantes, e sua respiração ficou ofegante. Sentiu o corpo suado, e as impressões daquela sala ameaçavam turvar sua consciência novamente. A jovem vidente forçou ao máximo sua concentração no agora, apertou as mãos ao redor do cabo da vassoura e procurou respirar o mais levemente possível.

            Os passos se aproximaram, e ela colocou a estaca improvisada em posição de ataque. Porém, subitamente, o som parou, para ser ouvido em seguida desta vez se afastando.

            Tati saiu de seu esconderijo e olhou com cuidado pela porta do antigo escritório. Bem na direção de onde vieram os jovens conseguiu divisar uma sombra virando a curva do corredor.

            E havia mais. A última coisa que desapareceu no outro corredor era sua mochila, nas costas do indivíduo que vira de relance.

            A vidente desta vez sentiu raiva, e teve ganas de gritar com ele. Mas voltou a entrar no escritório e, encostando as costas ao lado da porta, fechou os olhos e respirou fundo algumas vezes.

            De novo se lembrou que estava quase nua, de biquíni e tênis, constrangida, envergonhada, exposta e com medo. Mas pensou que poderia usar aquilo a seu favor. Ao vê-la assim, aquele estranho poderia hesitar pelo tempo necessário para Tati dominar a situação.

            Mas teria que segui-lo e encontrar uma forma de emboscá-lo. Para isso, a primeira coisa que fez foi sair devagar do velho escritório e andar com todo o cuidado na direção em que ele sumira. Chegou à curva do corredor e olhou rapidamente.

            Não viu ninguém. Segurando com firmeza a longa estaca improvisada, seguiu adiante no escuro. Já era noite lá fora, e a pouca iluminação da rua não era suficiente para ver muita coisa dentro do prédio.

            Tatiana chegou a outro corredor, e pensou em qual direção seguir. Fechou os olhos por alguns instantes tentando sentir algo, mas então se assustou com um ruído distante.

            Vinha do hall de escadas da parte de trás do prédio, que ficava à direita de onde estava. Com cuidado, procurando não chutar novamente nada que estivesse no chão, ela prosseguiu.

            Estava excitada e atenta àquela caçada, mas o sentimento de estar quase sem roupa, a vergonha e o medo a tomaram novamente. Desta vez, entretanto, Tati forçou a si mesma para continuar em frente, e chegou à escadaria. Olhou para cima, mas em meio à penumbra não viu nada.

            Porém, desta vez, sua vidência lhe forneceu a direção aproximada de para onde o estranho havia seguido. E, enquanto subia devagar as escadas com a estaca em riste, começou a divisar um plano.



            Chegou ao terceiro andar e olhou para os lados. Nada. Fechou os olhos novamente, respirando pausadamente e buscando ampliar seus sentidos. E viu que o estranho havia rumado para a esquerda, talvez para contornar o andar pelo corredor principal.

            Tatiana abriu os olhos e, pela primeira vez em muito tempo, sorriu. Considerou que tinha uma boa chance. Seguiu pela direita, o mais depressa possível, sempre atenta para não pisar em nada e fazer barulho, o que arruinaria seu plano.



            Subitamente, um novo terror a assaltou. Sua vidência revelou um corredor diferente daquele em que estava, ou pensava estar. Ainda mais sombrio, decadente, e que parecia se estender ao infinito.

            A moça sentiu então algo ainda pior. Presenças tenebrosas e inomináveis pareciam espreitar de todos os cantos. Ela quase fraquejou ao constatar a evidente malignidade daquela visão.

            Levou uma das mãos à boca para não gritar de horror, e nesse momento a lembrança de sua avó, Esmeralda, de quem havia herdado a vidência, surgiu em sua mente. O efeito calmante foi mais que bem-vindo, e Tati se recordou das longas conversas que tinha com a amada vozinha. E ela se lembrou, afinal, de Esmeralda lhe dizer que havia vislumbrado locais ocultos, onde o mal sempre está à espreita.



            A jovem vidente recordou como a avó havia dito que nada dissera a respeito para uma grande amiga dela, combatente de todas as forças das trevas. Mas Esmeralda ainda deixou claro que sua neta um dia também conheceria aquela amiga, e juntas derrotariam o mal.

            As lembranças contribuíram para que Tatiana relaxasse. Mas a visão sombria continuava ali, e ela finalmente cambaleou e apoiou uma das mãos na parede, lutando com todas as forças para não cair. Nesse momento a visão se dissipou, e a moça se viu novamente no corredor do Edifício Jason Teodoro. Suspirou fundo por não haver deixado a estaca cair, e quase se sentia aliviada por estar naquele ambiente já familiar, menos sombrio e maléfico.

            Tatiana caminhou pelos corredores escuros e imundos. A brisa da noite entrava pelas janelas quebradas e arrepiava sua pele, e ela se sentiu sendo novamente tomada pelo medo, vergonha, e por aquela inacreditável excitação. Sua vidência lhe revelou alguns ataques de criaturas da noite e Encantados naquele andar, mas a moça se esforçou para manter sua concentração no presente.

            Parou por um momento, apoiou as costas na parede do corredor e se concentrou. Encostou a estaca na testa, e pensou o quanto deveria estar imunda por causa daquela experiência. Sentiu as costas tomadas por poeira que havia grudado em sua pele devido ao suor, mas deixou isso de lado. Estendeu sua vidência, e viu que o estranho estava próximo, andando devagar no corredor que estava bem adiante, à esquerda da próxima curva.

            Tati normalmente exploraria mais fundo, tentando descobrir a identidade do inimigo. Mas não havia tempo, ela estava cansada e sabia que precisava surpreendê-lo para ter uma chance. Abriu os olhos, deu mais alguns passos e encontrou à direita uma porta aberta. Entrou rapidamente e viu que também era um antigo escritório, mas felizmente nenhum sinal de antigos casos extraconjugais a atingiu dessa vez.



            Depois olhou adiante, e percebeu que, de um foco de luz na rua, vinha uma luminosidade que tornava aquele pedaço do corredor bem mais claro. E isso deu a ela uma ideia para distrair o estranho, o que aumentaria suas chances. Lembrou-se do caso da Caneta Azul, e de como não seria a primeira vez em que usaria sua sensualidade para obter o que queria.

            Mas era algo que a deixaria ainda mais exposta do que já estava. O medo, a vergonha e o constrangimento voltaram a assaltá-la. Mas, na situação em que estava, não havia alternativas.

            Sentindo que o estranho se aproximava ela rapidamente colocou a mão direita atrás das costas e desfez o nó da parte de cima do biquíni. Tirou a peça rapidamente e a deixou jogada bem no centro da parte iluminada.

            Agora se sentia ainda mais nua, mas não havia tempo. Deu dois ou três passos e entrou novamente no escritório escuro, apertando as mãos na estaca enquanto aguardava.

            Passos se aproximavam lentamente, e Tatiana sentia que estava esperando por uma eternidade. Seu coração martelava em seu peito, seus seios nus a deixavam ainda mais excitada, e um arrepio percorreu seu corpo, misturando o tesão com o frio que sentia devido ao vento que entrava pelas janelas.

            O som dos passos estava cada vez mais próximo. Com um olhar rápido Tati viu uma sombra no chão do corredor diante da porta, vindo pela esquerda, e ela se esforçou para controlar sua respiração ofegante.

            Alguns segundos depois um cara de calça jeans e camisa, com sua mochila nas costas, passou pela porta. Envolta em escuridão, Tatiana se concentrou na figura.

            Aconteceu como ela havia imaginado. O estranho deu mais alguns passos e parou bem diante da área iluminada. Tati se aproximou da porta sem ruído, e viu que ele observava a parte superior de seu biquíni jogada no chão.

            A moça se aproximou por trás dele, enfiou a estaca entre suas pernas e, com um golpe rápido, o derrubou. Depois girou a arma, acertando-o na lateral do corpo bem sobre o rim, e afinal pôs o pé em seu peito, mantendo a ponta da estaca a centímetros de seu rosto.

            Os olhos dele se arregalaram para ela.

            E os de Tati também pareciam haver dobrado de tamanho.

            Ela jogou para o lado a estaca, cobriu os seios com as mãos, e correu para apanhar a parte de cima do biquíni. Enquanto voltava a vestir a peça gritou:

            - Seu filho da puta!

            Depois de dar o nó no biquíni atrás das costas, as emoções aflorando em sua mente, tomada por vergonha, medo, raiva, tesão e desejo, ela apanhou a mochila que havia caído ao chão e a abraçou diante de seu corpo enquanto se encostava na parede.

            Daniel, depois de mais alguns instantes, respirou profundamente e soltou um:

            - Ai.

            - Te odeio! Eu gosto muito da minha sogra, então não posso te chamar de filho da puta. Mas você foi um grandessíssimo de um filho da puta!

            Massageando o lugar onde Tatiana o havia acertado, o rapaz se levantou reclamando.

            - Caramba, Tati, precisava bater com tanta força?

            - E como eu ia saber que você não era um bandido, um tarado ou um vampiro?

            - Você é vidente...

            - Cala a boca!

            Tentando se recompor, Daniel se aproximou e estendeu a mão. A namorada se afastou pro lado e disse:

            - Nem vem!

            - Tati, eu...

            - Você tinha que me dar esse livro aqui, né? – disse ela apanhando o volume na mochila. Depois de quase esfregá-lo na cara dele o enfiou de volta e prosseguiu: - Meu Deus, nem acredito que fiquei todo esse tempo aqui quase nua, e você se divertindo às minhas custas!

            Ele ia dizer alguma coisa, mas ela continuou:

            - Daí você disse para virmos aqui para treinar, e eu lembrei do raio da cena do sabá, e quis experimentar...

            - O que me lembra daquela volta de Brasília, quando paramos na estrada de madrugada para esfriar a bobina do Fuscão. Você tinha comprado esse biquíni pra essa viagem, e resolveu colocá-lo de novo naquela noite na estrada pra brincar um pouco...



            - É, eu estava inspirada e com tesão, foi gostoso... não muda de assunto, porra!

            Tatiana, tomada por emoções, quase esquecera que ainda estava praticamente sem roupa. Largou a mochila no chão e deu alguns passos, os braços cruzados sobre os seios.

            - Sim, toda essa excitação abriu mesmo minha percepção. Não é a à toa que muitas cerimônias e feitiços envolvem sexo.

            Ela sentiu novamente o desejo aumentar. Tentou ignorar, mas estava cada vez mais difícil. Por cima, de costas para Daniel, nem precisava da vidência para saber que ele a estava devorando com os olhos.



            - E depois tudo piorou quando minha mochila sumiu.

            - Achei que você tinha largado lá, e a apanhei para depois devolver a você. Pensei que estava explorando o prédio.

            - E estava.

            - Sim. Quase pelada. Não vou dizer que não gostei, muito pelo contrário...

            Tatiana se virou e teve ímpetos de avançar contra ele, mas se controlou.

            - Tive que me esconder quando aquele casalzinho apareceu – comentou Daniel. – Aí percebi que você estava do outro lado, e quase fiz barulho pra chamar a atenção deles.

            Tatiana, ainda brava, ouvia o relato do namorado. Ele prosseguiu:

            - Daí eles logo foram embora, e me aproximei. Vi você saindo da sala cambaleando e quase fui te acudir, mas então você sentou no chão, e...

            - E o quê? – Tati perguntou, já adivinhando o que ele diria.

            Daniel ficou ruborizado. Tatiana adorou vê-lo constrangido. Sua cena no corredor, como a vidência havia revelado, tivera mesmo plateia.

            - E... eu te vi. Tati... meu amor, me deixou sem fôlego! Nunca te vi gemer e suspirar daquele jeito!

            A moça, ainda somente de biquíni e tênis, permanecia de braços cruzados e com expressão séria no rosto, olhando para o lado. Depois se virou para ele, olhando com cara de poucos amigos.

            - E depois por que fugiu de mim e me deixou andando seminua pelo prédio, pensando no pior?

            A cara de tesão de Daniel, mais a conferida que ele lhe deu de alto a baixo, foram resposta mais que suficiente. Por fim a seriedade deixou o rosto de Tati, que abriu um grande e adorável sorriso.

            Um sorriso bastante sacana, que ela complementou mordendo o lábio inferior.

            - Vem cá!

            Daniel, apanhado de surpresa, demorou alguns instantes para entender. Depois de uma última olhada cheia de desejo para a namorada linda, cumpriu a ordem.



            Tatiana o agarrou, enlaçando-o com a perna esquerda, ao mesmo tempo que o beijava com a maior volúpia e desejo que já sentira na vida. Daniel sentiu a língua dela explorando cada canto de sua boca, ao mesmo tempo que suas mãos passeavam e o apertavam em todos os lugares. Ele, naturalmente, retribuiu apalpando e apertando cada canto do corpo suado e quente de Tati.

            Os dois ficaram ali por um bom tempo.


Espero que tenham gostado desta história! Como mencionado no conto, Tatiana já havia utilizado sua sensualidade na história da Caneta Azul (que até me rendeu um xingamento em um grupo do Facebook, que foi apagado pelos administradores) mas me surpreendi até onde ela se deixou levar nesta trama.

A ideia veio desta cena antológica do filme Todo Mundo em Pânico (Scary Movie, 2000) com a bela Carmen Electra:




Naturalmente cenas sensuais são tradição em histórias de terror, como podem ver conferindo as mais icônicas clicandoaqui.

E, por sinal, o biquini vermelho de Tatiana terminou por ser uma referência à icônica série Os Gatões (The Dukes of Hazzard, 1979 – 1985), especificamente a esta cena com a maravilhosa Daisy Duke (Catherine Bach):








UPDATE de 20/04/2025.

Por incrível que pareça, uma inspiração evidente havia ficado esquecida até este momento! Como meus leitores sabem, sou ardoroso admirador do automobilismo, especialmente o endurance, as categorias com provas longas como WEC e IMSA.

E nestas, como em todo o esporte a motor, eram comuns nos grids de largada as gridgirls ou pit babes, belas moças em sugestivos uniformes de patrocinadores. Graças à praga do politicamente correto, infelizmente, hoje poucas categorias mantém essa tradição de beleza (e mais de uma dessas meninas, graças aos rendimentos que obteve com esse trabalho, se tornou piloto, tá?).




Nas 24 Horas de Le Mans, a maior corrida do mundo, de meados dos anos 1990 até cerca de 2003, eram presença garantida as belas da Hawaiian Tropic, que animavam as festividades antes da largada com sua beleza.




Então, como podem conferir nas imagens, o biquini vermelho e os tênis batem com o figurinho que Tatiana veste na maior parte desta história.



Fim do UPDATE.

As imagens deste primeiro conto ilustrado no Escritor com R foram produzidas com o aplicativo Dream by Wombo, uma inteligência artificial (AI) para desenhos, utilizando tanto a versão para celular quanto o site.

Sim, foram centenas de tentativas e mais de 200 imagens até escolher as mais adequadas. Até por isso fica muito claro que esse e outros aplicativos que utilizam AI de forma alguma substituem artistas humanos.

Tenho feito posts em minha conta no Instagram, @renatoa.azevedo , utilizando imagens produzidas pelo Dream. Até mesmo as capas dos recentes e-books, A Lista: Diversidades e Os Gatos deVecruz, foram produzidas assim. Com adição de vários elementos a posterior, como títulos, claro.

De novo, nenhuma AI irá substituir artistas humanos. Bem, isso não é muito certo com relação aos roteiristas de Hollywood em greve, visto os fiascos colossais de certas produções lacradoras dos últimos tempos...

As AIs são ferramentas, somente isso, e foram criadas para auxiliar e não substituir. Claro que você não deve responder se alguma delas perguntar a respeito de Sarah Connor!

Então, “guerrinhas” e outras atitudes patéticas movidas por quem deveria ser profissional e se preocupar em contar e publicar boas histórias não fazem o menor sentido.

Abaixo, algumas imagens extras produzidas utilizando variados estilos no Dream.





E, se chegou até aqui, muito obrigado! Sua recompensa está abaixo:

Cena pós-créditos

            A noite estava fria quando Daniel saiu pelo portão de trás do prédio. Como no restante daqueles poucos quarteirões os imóveis estavam abandonados, e somente em um e outro fracas luzes bruxuleavam.



            Ele abriu a porta do Dodge Charger branco e entrou, a fim de aguardar Tatiana que tinha parado para se vestir. Porém, seu espanto foi enorme quando viu a namorada sair pelo portão, dar passos rápidos pela calçada, abrir a porta e entrar no carro.



            Ainda vestia somente o biquíni vermelho e os tênis com que a encontrara. Outro carro passou pela rua enquanto isso, mas Tati nem ligou.

            - Mas você não ia se vestir? – perguntou.

            - E você não ia me levar para casa? – ela devolveu com um sorriso sacana.

            O jovem Caçador sorriu depois de mais uma conferida no belo físico da amada, ligou o motor V-8 do carro e saiu.

            Tatiana abriu a mochila, tirou a camiseta e a vestiu. Depois, com a expressão mais tranquila deste mundo, ficou observando a paisagem que passava.

            Daniel, claro, estava adorando o espetáculo de vê-la assim. Deslizou a mão e a pousou na coxa da namorada, que se virou para ele e sorriu.

            - Você quer dizer alguma coisa, querido?

            Tatiana perguntou isso com o ar mais inocente do mundo, mas é claro que nem precisava ser vidente para adivinhar o que passava pela cabeça dele. Dali mais alguns segundos pararam em um semáforo, ela voltou a sorrir e disse:

            - Ah, amor, que coisa! A alça do meu biquíni desamarrou...

            Daniel voltou a olhar para ela, de novo conferindo-a de alto a baixo. A visão da alça lateral do biquíni frouxamente solta sobre o banco, deixando à mostra a lateral do quadril de Tatiana, fez com que em sua expressão várias emoções se misturassem. Surpresa, vergonha, desejo, tesão...

            Depois de mais alguns segundos em que os dois só se olhavam, alguém buzinou atrás deles. Tati sorriu de novo e disse:

            - Amor, dirige. Você não está se concentrando muito...



            Daniel teve certeza que a namorada o provocava de propósito. E ele sabia que merecia.

            Mais alguns quarteirões e eles chegaram a uma rua tranquila, perto da casa de Tatiana. Foi quando um Fusca Azul familiar surgiu logo adiante deles, vindo no sentido contrário.

            Vó Nena parou o Fusca, sua janela ao lado da de Daniel.

            - Oi, moçada, tudo bem? Como foi a experiência lá no prédio?

            Eles haviam comentado com ela no dia anterior que visitariam o local. Agora era Daniel que sorria, enquanto Tatiana tentava mostrar um ar de total normalidade.

            - Foi tudo bem, Vó, depois contamos – disse Daniel.

            - Só me poupem dos detalhes das safadezas – riu a anciã. – Sei bem o que vocês, moleques, aprontam em lugares assim. Ainda bem que não era um dos piores prédios daquela região filha da puta.

            A Caçadora fez uma pausa e acrescentou:

            - Bom, surgiu um negócio, e bem que a ajuda de vocês me seria útil.

            - Já vou fazer a volta e te seguimos, Vó.



            Daniel disse isso e, enquanto Vó Nena se adiantava no Fusca Azul, ele acelerou e rodopiou com o Dodjão. Tatiana, ao mesmo tempo, amarrava a alça do biquíni para depois apanhar a legging na mochila.

            - Ah, não vai ficar assim, amor? – disse ele com ironia, mas com voz carregada de desejo.

            Tatiana devolveu um olhar irônico para ele enquanto se vestia. Ajeitou a calça, o Dodge alcançou o Fusca Azul, e ela finalmente sorriu.

            - Você bem que gostaria, não é, querido?

            Eles se olharam, depois sorriram um para o outro e entrelaçaram os dedos das mãos. A aventura da tarde havia acabado, e a da noite estava somente começando.

 

Vó Nena e os Caçadores retornarão.


Claro, não esqueçam de conferir os e-books:

VÓ NENA E OS CAÇADORES: O FUSCA AZUL

VÓ NENA E OS CAÇADORES: O LIVRO MALDITO

Até a próxima!