segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Continua A Lista

Prosseguindo o resgate dos melhores textos publicados no antigo Escritor com "R" da Uol, apresento aos leitores mais três contos dA Lista. Lembro com muitas saudades os bons tempos em que estas histórias saíam na revista Sci-Fi News, pelo que sempre serei grato aos amigos Paulo, Silvia, Lu e Fabio. Lembro ainda que nos tempos dessa saudosa publicação ainda houve a tentativa da Sci-fi News Contos, porém as mesmas intriguinhas e egos inflados que ainda hoje atrapalham a Ficção Científica Brasileira atuaram fortemente para destruir essa louvável iniciativa.


Como seria bom se tal energia fosse utilizada positivamente, para compor boas histórias e para os escritores (ao menos os autênticos) se auxiliarem mutuamente. Entre outras coisas, não falariam tanto em crítica social, algo inerente à Ficção Científica desde seus primórdios, como se fosse uma descoberta atual. Talvez devessem ler mais, praticar a tolerância que eles mesmos defendem, esquecerem ideologias que só produziram fome, miséria e morte, e assim quem sabe a FC estaria em melhor situação entre nós. Só podemos especular ou sonhar com a realidade que teríamos hoje, caso a Sc-Fi News Contos tivesse sobrevivido...


Entre os contos que aqui apresento está A Lista 4, o primeiro realmente trágico deste multiverso, e que teve importância fundamental no trabalho de escrita do livro dA Lista, ainda inédito. O tema deste conto é a liberdade e a luta contra a opressão, neste caso em prol da liberdade total de criação, que deve ser o único elemento a pautar toda e qualquer obra. E interessante, a respeito do apartheid cultural ali descrito, uma figura execrável de nossa política, um pouco depois da publicação deste conto, alertou contra a "invasão de produtos culturais americanos". Ou seja, para certas mentes degeneradas até a cultura deve ser controlada, um absurdo total e completo. E recentemente outra figura execrável, produto da glorificação da ignorância, falou barbaridades contra Elvis Presley, quase como é descrito no conto.

Nesses momentos dá um certo receio ser escritor, confesso...

A Lista 5 discute a praga dos famigerados reality shows, que ainda hoje nos aflige. E em Guerreiros pela primeira vez coloquei algumas referências aos universos que inspiraram a mim e a vários colegas escritores.

A Lista 4

“- E nem parece que já faz mais de um ano!”, pensou Michelle.

A moça, encolhendo-se sob seu guarda-chuva, andava em ritmo apressado por aquela rua de Brasília.

Era mulata, e muito bonita. Já havia ouvido comentários nada publicáveis pouco antes, ao passar pela ronda policial. Muitos foram os que manifestaram o desejo de vê-la em uma roda de samba.

Mas Michelle nunca faria aquilo. Odiava samba.

Odiava muitas outras coisas que haviam acontecido naquele ano, desde o Seminário Brasileiro de Conteúdo.

A chuva apertou, e o guarda-chuva não estava mais dando conta. Ela parou sob uma marquise, fechou-o, e ficou olhando o aguaceiro, sabendo que era pouco prudente atrasar-se naquele final de tarde.

Seu celular tocou, era Marcelo:

- Onde você está?

Ela conseguiu sorrir, e respondeu:

- Oi para você também! Estou a uns dois quarteirões de casa.

- Pois vá logo! Pegaram Adolfo, e ele não resistiu, contou tudo! Um de nossos amigos dentro do sistema acabou de me ligar, eles estão indo atrás de todos! Maldito Suriaçuna! Ainda vou matar ele!

O veterano escritor Ariovaldo Suriaçuna foi o responsável direto por aquele estado de coisas. No referido seminário, no ano anterior, fizera uma defesa apaixonada do que considerava a verdadeira cultura brasileira. Sua pregação contra tudo que fosse estrangeiro acabou inspirando mudanças na política cultural do governo. O presidente Luíz Dirceu acatara projeto de seu ministro para a área, Belmiro Gil, que proibia toda e qualquer manifestação artística estrangeira, ou de origem estrangeira, em todas as mídias brasileiras.

Em tempos de fúria ideológica como aquele, as consequências foram gravíssimas. Michelle, quase chorando, perguntou:

- E Adolfo, conseguiu alguma notícia?

Marcelo suspirou, e depois de torturantes segundos respondeu:

- Não consigo mais contato com nosso informante... Escute, Michelle, acho que vou sumir por uns tempos...

Repetiu que iria matar Suriaçuna. Michelle já não sabia se a sensação molhada que sentia no rosto eram as lágrimas ou a água da chuva. Disse:

- Sabe, quando esse absurdo dessa medida foi publicada, todo mundo riu. Imagine, fazer um apartheid cultural como esse! Passeatas e eventos de protesto... A quantos fomos, Marcelo!

- Até o show, aqui mesmo em Brasília, com as bandas de rock locais... Parecia que os bons tempos da Legião Urbana e Cazuza estavam de volta!

Eles se lembravam do que houve a seguir. O show nunca fora aprovado pelas autoridades, e forças policiais já entraram atirando primeiro e perguntando depois. Diziam estar agindo em defesa da cultura nacional, e uma abominação musical importada, como o rock, não tinha mais lugar. Bem, isso é o que a mídia saiu publicando...

- Elvis, como podem considerar Elvis Presley um lixo americano, jogado aqui para nos dominar?

Michelle agora chorava. Amava o Rei, suas músicas, a influência dos ritmos negros que ele introduziu na música branca americana, e a revolução cultural que isso representou. Marcelo respondeu, com raiva:

- Nada disso importa, para esses nazistas! Especialmente para seu guru, o maldito Suriaçuna! Esse calhorda diz que Stálin foi um herói, apoiou a repressão chinesa em 1989, e até mesmo os fuzilamentos em massa em Cuba! Tudo por sua ideologia caduca! Maldito!

Eles eram escritores, e fãs de vários seriados americanos, todos proibidos e banidos da televisão. Possuir DVDs de alguma produção estrangeira era crime grave, dando no mínimo quinze anos de prisão, enquanto a maioria dos traficantes de drogas não ficava preso nem um quinto desse tempo. Todos os fã clubes haviam entrado para a clandestinidade, e gêneros como a fantasia ou a ficção científica, acusados de estrangeiros, oficialmente banidos.

No terreno musical, apenas ritmos nordestinos, sertanejos, pagode e funk carioca eram aceitáveis. As gravadoras tinham a obrigação de denunciar as autoridades qualquer gravação que recebessem, de qualquer música que não se enquadrasse nesses gêneros.

- Michelle, preste atenção, disse Marcelo. Corra até em casa, arrume suas coisas, e suma!

Ela saiu correndo, em meio a chuva, mas ainda falando com o namorado:

- E você, o que vai fazer?

- Irei para algum dos pontos de encontro. Me procure em Belo Horizonte ou Rio de Janeiro. São cidades maiores, deve ser mais fácil de se esconder...

Nisso, Michelle ouviu o que pareciam batidas na porta. Marcelo disse apenas:

- Chegaram!

Gritos foram ouvidos, e a seguir tiros. Michelle tentava uma resposta, mas não obteve nenhuma. A ligação, finalmente, caiu.

Chorando, ela correu pelo resto do caminho. Chegou finalmente a seu apartamento, nem ligando para o fato de estar ensopada.

Tinha que contatar a Lista. Reconhecida como uma das melhores autoras do movimento de resistência, ela havia arquivado centenas de obras de seus amigos, e agora precisava enviá-las para a Lista.

Enquanto aguardava o computador inicializar, jogou em um canto a roupa molhada, enxugou-se e vestiu outra. Ainda sentia uma sensação estranha ao trocar mensagens pela internet com aquela gente, que dizia estar em outros mundos, outras Terras diversas da sua. De qualquer forma, a haviam ensinado a despistar os severos controles de censura da rede, implantados por sugestão de Suriaçuna, e frequentemente trocavam obras com ela.

Michelle via na Lista uma forma de não deixar aquelas expressões de arte morrerem, diante da selvageria nacionalista do governo. Até mesmo pronunciar palavras estrangeiras na rua rendia multas pesadíssimas. As emissoras piratas de televisão multiplicavam-se, e do exílio, milhares de artistas brasileiros tentavam vencer aquele horror motivado pela ideologia aplicada a cultura.

Finalmente ela conseguiu conexão, e começou a enviar para a lista todo seu arquivo. Era muito grande, o que deu-lhe tempo de redigir uma rápida nota para os colegas. Dizia-lhes que conheciam a situação, e que estavam vindo atrás dela. Terminava com um certo otimismo, dizendo que os contataria assim que possível.

Ainda não tivera tempo de chorar por Marcelo, mas primeiro a missão, sempre, como ele costumava dizer.

- Maldito Suriaçuna, maldito Dirceu, malditos todos!

Sua fúria não tinha limites, enquanto acompanhava a lentidão agonizante com que os arquivos eram enviados. Letras de músicas, partituras do bom e velho rock and roll, poemas, contos e livros inteiros falando de dragões, viagens espaciais, vampiros, magos e alienígenas. Tudo estaria salvo, uma vez que chegasse a Lista.

- Agentes do Ministério da Cultura, Departamento de Pureza Cultural, abra a porta!

Michelle já previa isso. Chorou mais ainda, mas um sorriso resoluto afinal ficou estampado em seu rosto. Apanhou a submetralhadora e a pistola, e com a primeira atirou em direção a porta. Gritos lá fora lhe ordenavam que se rendesse, mas ela não se importava.

Tudo que importava era a missão. Enviar os arquivos para a Lista.

Eles atiraram de volta, mas Michelle era uma lutadora. Abriu fogo mais uma vez, decidida a levar alguns membros daquela Gestapo com ela.

O envio da mensagem estava quase no fim...

Mais alguns instantes de troca de tiros, e a submetralhadora ficou sem balas. Michele apanhou a pistola e apontou-a para a porta.

Atirou uma vez, no primeiro cara que apareceu através dela.

Uma segunda vez, e derrubou outro agente.

Continuou atirando, mas de repente, eram em muito maior número que sua destreza, ou a quatidade de balas que tinha...

Um dos agentes checou o pescoço da mulher, depois levantou-se e fez um sinal negativo com a cabeça. Um dos colegas olhou para Michelle, e disse:

- Pena, mulatinha gostosa, ela...

O líder os silenciou com um olhar, e ordenou que evacuassem os feridos, e cuidassem dos mortos também. Sentou-se a seguir defronte ao computador, mas algo estranho estava acontecendo.

Os arquivos estavam sendo apagados. Tentou de tudo, e por fim estendeu a mão em direção ao cabo que conectava a máquina a linha telefônica. Foi quando uma voz saiu dos auto-falantes:

- Não perca seu tempo, não há mais nada aí. Eu apaguei todos os arquivos.

O oficial gritou para dentro do microfone:

- Quem é você? Saiba que está cometendo um crime, pela Resolução de Pureza Cultural número...

- Você soa exatamente como qualquer pequeno ditador, acreditando em sua loucura existir essa alegada pureza. Pois digo que a cultura, a verdadeira cultura, é muito mais forte que todos vocês juntos. Seu regime não tem futuro, e eu e aqueles sob minha supervisão iremos garantir isso.

- Quem é você?

O agente exibia um suor nervoso, constatando, desolado, que os arquivos haviam sido todos apagados. Não tinham qualquer prova daquele crime, o que os obrigaria a forjar alguma coisa, a fim de justificar a morte da garota. Finalmente, a voz respondeu:

- Sou o Moderador.

No mesmo instante, faíscas pularam do computador, que por fim pegou fogo. Em instantes, estava inutilizado.

Dois dias depois, Marcelo finalmente pôde conectar-se a Lista, onde recebeu as condolências de todos. Havia sabido de Michelle no mesmo dia em que matara os dois agentes que vieram procurá-lo.

- Os desgraçados sabiam que era Michelle que guardava os arquivos.

- Agora é você o portador dos mesmos, Marcelo. Cuide bem deles.

Aquela foi a última mensagem do Moderador.

Marcelo retirou o DVD recheado de arquivos, abarrotado de preciosidades, obras as mais diversas que tinham que ser preservadas. Muita coisa ali tinha Michelle como autora. Era uma forma de ainda estar junto a ela.


Publicado na edição 85, de março de 2005, da Revista Sci-Fi News.

A Lista 5

Naquele dia, a Lista estava tomada por discussões acerca de certas aberrações televisiva que haviam tomado as tvs de assalto em inúmeros Brasis.

As variações dos chamados reality shows eram quase tão numerosas quanto as incontáveis realidades paralelas. Nas alternativas mais avançadas, os shows eram produzidos até mesmo em estações espaciais, ou outras luas e planetas.

Um participante da Lista, de um desses Universos mais evoluídos, narrou a produção de um show de sobrevivência em um dos locais mais extremos, Io, satélite de Júpiter, o corpo com o maior vulcanismo do Sistema Solar!

A audiência foi recorde. Infelizmente, parecia que também multiplicavam-se pelas incontáveis paralelas o hábito preguiçoso de pouco usar as faculdades mentais... Os participantes do programa, em trajes especialmente projetados, praticavam vários esportes, andavam de bicicleta, escalavam, e até faziam saltos radicais aproveitando a pouca gravidade.

Havia uma semana que o contato fora perdido. Agora era a audiência de telejornais cobrindo os acontecimentos que disparava.

Finalmente uma expedição de resgate conseguiu chegar até a lua, encontrando poucos vestígios de produção e participantes. Haviam sido atingidos por uma erupção violenta de um dos vulcões de Io, exatamente o que pretendiam escalar e que os especialistas do programa afirmavam ser terreno seguro.

A “competência” demonstrada não ficava muito atrás da vista em outras realidades. Claro que, entre as alternativas, havia mundos em que a tv era proibida ou desconhecida, ou que só transmitia reality shows. E claro, muitos manifestaram o desejo de mudar-se para outras realidades em que esse tipo de programa popularesco, e absolutamente abominável, era proibido.

Contudo, Anah, uma jornalista, narrou a passagem mais incrível.

Havia um programa chamado Emparedados, candidatos fechados em uma casa, fórmula bem conhecida. Grande audiência, anunciantes satisfeitos, quando o sinal foi cortado e entrou no ar o anúncio do plantão jornalístico.

Um conhecido jornalista apareceu, narrando com sua poderosa voz algo inacreditável:

- Senhoras e senhores, o que irão ver está de fato acontecendo, a imagem não é editada...

A imagem passa para um fundo negro, e logo se vê que a câmera está instalada no exterior da Estação Espacial Internacional, e o comentarista volta a falar:

- Nessa imagem obtida na órbita da Terra, os senhores podem observar um imenso objeto aproximando-se. Cientistas e governos em todo o planeta estão reunidos desde a divulgação das primeiras imagens, e seguidos comunicados pedem que a população mantenha a calma.

Anah descreveu um cenário absolutamente caótico, fanáticos religiosos conclamando a guerra santa, membros de seitas dizendo que era o fim do mundo, malucos por discos voadores dizendo que os visitantes vieram para nos salvar... Claro, sem faltar o estado de alerta máximo em todas as forças armadas.

Uma transmissão, aparentemente vinda da nave alienígena, foi captada ao mesmo tempo que outro objeto, diferente e muito menor, aproximava-se e penetrava na atmosfera, pousando em Brasília, na Praça dos Três Poderes. Do mesmo, desceram um homem e uma mulher, que rápida e discretamente foram recebidos por autoridades brasileiras, enquanto enviados de vários países chegavam a cidade.

Na noite do quarto dia após a entrada em órbita da imensa nave, finalmente a mensagem decodificada foi apresentada. Uma imagem mostrou o comandante da nave, um sujeito magro e de corpo pequeno, com uma grande cabeça oval e olhos negros imensos. Era careca, vestia um longo manto e estava sentado em um tipo de trono. Apresentou-se como comandante da nave, e a mensagem dizia:

- Nossa civilização está morrendo, e como última medida desesperada, percorremos o espaço a procura do conhecimento de outros povos buscando uma forma de nos salvar. Acompanhando suas transmissões no espectro eletromagnético, descobrimos quais de seus semelhantes são os mais capazes e com as maiores habilidades, os mais importantes de seu planeta. Elaboramos uma lista de tais indivíduos que irão nos ajudar, e que vocês devem nos entregar. A recusa em cooperar acarretará um ataque a seu mundo.

Na lista de centenas de nomes havia apenas um e outro cientista ou político. A maioria absoluta era composta por apresentadores dos mais populares programas de tv, e participantes dos reality shows presentemente sendo exibidos nos países mais desenvolvidos.

A jornalista continuou, dizendo como o casal que pousou em Brasília alertou que os outros visitantes eram na verdade conquistadores, cuja estratégia era acompanhar as transmissões de rádio e tv dos mundos visados, exigindo a seguir a entrega dos melhores cérebros dos planetas para ajudar sua civilização decadente. Na verdade o conhecimento dos indivíduos de que se apossavam era usado para atacar e dominar o planeta alvo.

O prazo dado era curto, e uma correria frenética teve lugar por todo o planeta. Vários dos listados eram pessoas com muitos recursos, alguns conseguiram forjar a própria morte, outros simplesmente suicidaram-se, vários dos apresentadores dos programas mais repudiados pela crítica tentaram fugir por todas as formas, mas um número surpreendente de indivíduos, especialmente entre os participantes de reality shows, concordou em ir por livre e espontânea vontade.

Respondendo a pergunta de alguns, Anah disse que, pela concepção dos alienígenas, estes consideravam que nos meios de comunicação apareciam apenas os feitos das pessoas mais importantes. O próprio casal de alienígenas disse que era assim no mundo deles, as transmissões eram ocupadas apenas por grandes estadistas, cientistas e artistas.

Afinal, os escolhidos foram reunidos, e levados para bordo da grande nave por um tipo de teletransporte. Rapidamente e sem qualquer sinal de despedida, a mesma afastou-se e desapareceu em um lampejo luminoso. Havia entrado no chamado hiperespaço, de acordo com os outros visitantes. O casal, naturalmente, ofereceu seus préstimos a fim de ajudar a resistência da Terra contra os alienígenas, que fatalmente voltariam.

“- E o que aconteceu?”, perguntaram a Anah. Ela ficou alguns minutos sem escrever, e alguns repetiram a pergunta, até que a mensagem da jornalista apareceu na Lista:

- Não sabemos o que houve. O casal extraterrestre ficou meses como hóspede do governo brasileiro, e muitas de suas naves chegaram para nos ajudar. Mas esperamos, esperamos, e nada!

Ela disse que, na ausência do tipo de pessoas que costumava aparecer e apresentar as tais atrações ditas “populares”, outros programas foram concebidos. Assim, aquela realidade experimentou uma onda criativa como há muito não era vista. Uma renovação salutar, e foram muitos os que respiraram aliviados por isso.

Por fim, o casal de alienígenas decidiu retornar para seu planeta, deixando aos cuidados de todos os líderes mundiais instrumentos de defesa e comunicação, a fim de poderem ser contatados sem demora no caso dos invasores voltarem.

Muitos na Lista já riam abertamente, e Anah, por fim, completou:

- Mas eu e muitas outras pessoas consideramos que, levando em conta a capacidade e habilidade dos indivíduos que os invasores levaram, de acordo com suas próprias palavras, é improvável que eles apareçam novamente...

Aquela Terra, ao menos, parecia estar a salvo!


Publicado na edição 86, de abril de 2005, da Revista Sci-Fi News.

A Lista, Guerreiros

“E assim que tomou o poder e instituiu a ditadura nazista, Hitler rapidamente tratou de implantar suas políticas, tirando judeus e outras minorias de suas casas, os enviando a campos de concentração.

A invasão da Polônia, em 1939, serviu para a Inglaterra e a França declararem guerra a Alemanha. Entretanto, rapidamente a máquina de guerra nazista devastou a Europa, a França caiu e a Inglaterra se viu isolada, e pela primeira vez ameaçada por um perigo que parecia invencível!”.

Sara parou de escrever e releu suas palavras até ali. Tinha que apressar-se, e retomou o texto:

“O mais surpreendente movimento do ditador, entretanto, foi sua decisão de propor conversações de paz com a Inglaterra e os países que a apoiavam. Numa iniciativa que deixou todos atônitos, concordou em destruir os campos, e a destinar um imenso montante em recursos para financiar a criação de um enclave judeu na Palestina.

Em pouco tempo, com o armistício, o novo estado de Israel foi estabelecido, para o ódio da comunidade de estados árabes da região, que se declararam inimigos de Hitler.”.

Sara parou de escrever no momento em que o bombardeiro, carregando a mais poderosa arma nuclear até então desenvolvida, levantou vôo com os reatores a jato a toda potência. Com o coração apertado e lágrimas nos olhos, ela viu a aeronave comandada por seu marido desaparecer nos céus.

A guerra no Pacífico fora de qualquer forma desencadeada, como em muitas outras realidades com as quais ela travara contato na Lista, com o ataque japonês a Pearl Harbour. E teve o mesmo final, em Hiroshima e Nagazaki, de tantos outros mundos. É verdade que em vários outros o desenvolvimento da guerra fora tão diverso, quanto as infinitas realidades que existiam.

Um equilíbrio tenso manteve as armas silenciadas na Europa. Secretamente, mesmo que se enfrentassem no campo ideológico, Estados Unidos e Rússia, combinados com algumas nações européias, mantinham os nazistas sob vigilância. Os árabes, por sua vez, combatiam tanto Israel como os nazistas, utilizando-se de táticas terroristas. O que se descobriu depois foi que Hitler abastecia a guerrilha árabe, e afinal, pouco antes de sua morte no começo da década de oitenta, o plano foi revelado.

De uma só vez, as forças do general Bernd Schumacher atacaram Israel. Imediatamente, vários dos fanáticos ditadores árabes apoiaram os nazistas, entrando na guerra.

Só não contavam com a traição nazista. Enfraquecidos pela luta com os israelenses, os árabes foram presas fáceis quando o sucessor de Hitler, Von Eklelston, ordenou ao general Schumacher a passagem a segunda fase do plano, o extermínio dos árabes, começando pela destruição de Jerusalém.

O desenvolvimento tecnológico do mundo de Sara havia sido tremendo, uma das consequências do permanente estado de beligerância. Já no final dos anos setenta havia computadores e internet. A jornalista Sara foi uma das primeiras participantes da Lista. O objetivo da mesma, de propagar os ideais da liberdade por todas as realidades, não poderia ter encontrado defensora mais dedicada naquele mundo.

Como em muitas outras realidades que lutaram e venceram a tirania nazista, todos acabaram deixando de lado suas diferenças para combater o inimigo comum.

E isso era exemplificado pela tripulação do bombardeiro. O marido de Sara, Mordechai Sharon, tinha como companheiro o navegador Yassin Abbas. Um israelense judeu e um palestino muçulmano, em cujas mãos estava a esperança de todos os povos.

O bombardeiro era o mais moderno dos Aliados, capaz de subir mais alto que qualquer dos interceptadores nazistas. Estes, seguindo fielmente a ideologia de seu insano líder, usavam fartamente de propaganda para dizer que os Aliados jamais atacariam Berlim.

O bombardeiro finalmente sobrevoava a capital do Reich, sendo recebido pelos caças nazistas que não conseguiam aproximar-se de sua altitude e velocidade. Os pilotos faziam os últimos procedimentos para o lançamento da bomba.

Foi quando perceberam que o radar anunciava uma imensa formação de caças a frente. Inúmeros mísseis foram lançados pelos mesmos, e os avisos sonoros comprovaram que havia perigo considerável.

Uma explosão, bem perto deles, fez multiplicar os alertas de perigo. Abbas fez uma verificação dos sistemas.

Logo, uma péssima notícia chegava ao controle da missão. O dispositivo de liberação da bomba fora danificado. Só havia uma única possibilidade de levar a missão a cabo.

Sara não conseguia conter as lágrimas, enquanto se lembrava das apressadas despedidas feitas pelo rádio. Juntos, Sharon e Abbas ainda fizeram uma prece, antes de finalmente acionar o dispositivo nuclear.

Tudo o que puderam saber foi que Berlim fora tomada por uma imensa bola de fogo. Os informes iam chegando freneticamente, as vezes contraditórios, mas finalmente parecia que a maré da guerra, graças ao sacrifício de Sharon e Abbas, virava a favor dos Aliados.

Leorc Sauegg teve pouco tempo de ler aquilo. Não era propriamente um soldado, apenas um controlador auxiliar da base montada naquela lua.

Acima, o gigantesco planeta enchia o céu. Ele não conhecia a Terra, que pelo que aprendera na Lista, nem sequer ficava em sua Galáxia. Mas conhecia a luta contra a tirania.

Era o que estavam fazendo ali, enquanto a colossal arma de guerra do inimigo se aproximava, inexorável.

Os pilotos decolaram em seus caças, e Leorc invejava sua coragem. Especialmente daquele rapazinho recém-chegado, que tinha tanta vitalidade.

Por sua tela de controle, ele pôde acompanhar grupo após grupo de atacantes, engalfinhando-se com os defensores da imensa estação bélica. Assombrava-se com o número de baixas. Em seus fones de ouvido, ordens eram gritadas a todo instante.

Sentiu que a hora da verdade havia chegado para eles.

Finalmente, grupo após grupo, atacaram a trincheira onde ficava o alvo, o único ponto vulnerável daquele monstro que já havia destruído todo um planeta. Sauegg, com mudo desespero, viu seus pilotos caírem um a um.

Com o canto dos olhos, viu todas aquelas figuras importantes do movimento de resistência, mal sendo capazes de dizer uma palavra. O medo era comum, ali, todos sentiam que suas vidas estavam nas mãos e na habilidade daqueles pilotos.

Finalmente, o jovem recém-chegado, um dos últimos a decolar com seu caça, fazia a corrida. Leorc acompanhava em seu monitor a aproximação dos inimigos, já alvejando seu piloto. Parecia ser o fim.

Como um milagre, o mercenário que trouxera o jovem até a base surgiu com sua nave, livrando-se dos inimigos e deixando o caminho livre para o rapaz.

Instantes depois, um tiro certeiro! Assim que as naves sobreviventes se afastaram, o colosso de guerra explodiu.

A primeira e mais importante vitória dos que defendiam a liberdade!

E tudo graças a um jovem e intrépido piloto.

A luta contra o cruel regime que oprimia a Galáxia poderia continuar!


Publicado na edição 87, de maio de 2005, da Revista Sci-Fi News.

Leiam os contos dA Lista já publicados aqui e aqui.

A primeira publicação dA Lista em livro foi no Volume Laranja de A Fantástica Literatura Queer, da Tarja Editorial (a capa está na coleção de obras das quais participei na imagem de fundo do blog, aí acima). Infelizmente agora esgotado, mas creio que podem procurá-lo em sebos ou na Estante Virtual. Estou considerando uma republicação de meu conto A Lista: Letras da Igualdade, e enquanto isso, fiquem com as resenhas muito legais que estão aqui e aqui.

Como e-book, convido vocês a conhecerem A Lista: Fenda na Realidade, uma de minhas histórias preferidas, e A Lista: Nêmesis.

Na próxima quarta-feira mais uma parte da série de artigos sobre Fantomius, o Ladrão de Casaca.

Até a próxima!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Fantomius o ladrão de casaca parte 2

Depois da primeira parte desta série de textos, na qual abordamos as histórias produzidas pelo quadrinista italiano Marco Gervasio que antecederam aquelas com Fantomius protagonista, agora trazemos as primeiras histórias do elegante Ladrão de Casaca. As cinco tramas de que falaremos foram publicadas de novembro de 2012 a abril de 2013 na Topolino, e aqui no Brasil reunidas no magnífico especial Superpato – O Legado, de setembro de 2013.


O caprichado especial de 308 páginas trazia ainda histórias do Superpato e textos extras, sendo o primeiro assinado por Marcelo Alencar no qual era descrita um pouco da trajetória do Superpato, além de apresentar Fantomius para o público, e detalhando como Gervásio ambientou as tramas deste nos anos 1920. O artigo ainda detalha as excelentes referências que Marco coloca na maioria de suas histórias e que apresentaremos abaixo, na análise de cada uma delas. O texto termina com um breve histórico da trajetória do alter-ego de Fantomius, Lorde John Lamont Quackett.


O Monte Rosa

Cada história do ladrão cavalheiro é precedida pelo título As Espantosas Façanhas de Fantomius – Ladrão de Casaca. Outro ponto comum é o quadro com o texto:

Sob a identidade de Lorde Quackett, nobre inepto e trapalhão, oculta-se Fantomius, famoso ladrão de casaca, cujo diário dará origem ao Superpato!


Publicada em Topolino 2972 de 13 de novembro de 2012, O Monte Rosa, como tornou-se comum nas primeiras histórias do elegante ladrão, começa com uma competição esportiva na qual Lorde Quackett comprova sua inaptidão para esse tipo de atividade. Uma evidente menção aos heróis cujas identidades secretas são o oposto a seus auter-egos heróicos, como Superman e Clark Kent, e Batman e Bruce Wayne. Em uma partida de golfe o taco de John vai parar na cabeça do Barão Gaitanamão, que naquela noite irá mostrar sua mais recente aquisição, o Monte Rosa, maior diamante do mundo. Devido ao incidente no jogo, ele diz que Quackett não está convidado, o que evidentemente não é problema para Fantomius.

Nosso ladrão preferido se disfarça de Lorde  Van Precious, amigo de Gaitanamão, com o auxílio da noiva Dolly Páprika. Van Precious iria confirmar a autenticidade do diamante, e Fantomius, interpretando o papel, diz que a gema é falsa. Quando a cúpula desta é aberta pelo eterno rival, o comissário Pinko, ele se aproveita da confusão e escapa com a pedra. Pinko o persegue, mas Dolly chega para o resgate com o carro aéreo, que tal como as máscaras de outros personagens que o casal utiliza também é uma criação do genial Copérnico Pardal.

Contudo, na Vila Rosa, o inventor e cientista descobre que o diamante é mesmo falso, e nossos heróis chegam à conclusão de que foi tudo um plano de Gaitanamão para embolsar o dinheiro do seguro e ainda ficar com a gema. Fantomius confronta o barão depois de roubar de seu cofre a pedra verdadeira e uma quantia em dinheiro pelo inconveniente. Nesse momento chega Pinko com a polícia, e a tramóia do barão é revelada. Fantomius, como sempre, escapa, não sem algum incidente causado pela memória por vezes falha de Copérnico. Nosso ladrão fica com o Monte Rosa, que entrega à eterna amada Dolly, e o dinheiro vai para os necessitados, pois Fantomius, claro, é um cavalheiro!

A Fuga de Fantomius


Em 20 de novembro de 2012 esta história foi publicada em Topolino 2973. De novo John Quackett apronta no esporte, desta vez em uma partida de polo, e ouve no rádio o comissário Pinko afirmar que, uma vez que for preso, Fantomius não sairá mais da cadeia. John aceita o desafio, e se deixa capturar em um roubo na mansão Preziosi. Ele deixa até mesmo que Pinko o desmascare, e o policial fica pasmo ao ver que o nobre conhecido como incapaz é o audaz ladrão de casaca. Na prisão Quackett se comporta como um nobre esnobe, enquanto o duque Preziosi recebe uma correspondência com uma ameaça de roubo sobre suas jóias. Junto segue o cartão de visitas de Fantomius, outro elemento já clássico das histórias.

Com o auxílio das invenções de Copérnico, Fantomius não somente escapa das barras de ferro como rouba as jóias do duque. Alertado, Pinko vai até a cadeia a tempo de ver o ladrão de casaca retornar da movimentada noite. O policial promete que ele será transferido para uma prisão mais segura. Porém, graças a um estratagema brilhante e divertido, além de mais uso de máscaras, Fantomius escapa novamente, desta vez de maneira definitiva, da cadeia, além de fazer Pinko acreditar que John Quackett não é o ladrão. O pobre Pinko, como Marco Gervasio afirmou em uma entrevista, é o estereótipo do policial trapalhão destinado a ser eternamente enganado pelo Ladrão de Casaca.

Fantomius a Bordo


Nesta trama, publicada em Topolino 2974, de 27 de novembro de 2012, descobrimos que Dolly Pata (identidade secreta de Dolly Páprika) é amiga de Adelaide, esposa do comissário Pinko, cujo primeiro nome, por sinal, é Alcmeone. Os dois casais saem em um cruzeiro a bordo de um navio, e novamente John se mostra um desastre no esporte, sendo a “vítima” da vez o pobre Pinko.

O alvo do ladrão de casaca é um precioso colar ostentado pela condessa Schnobb. Enquanto nosso herói se prepara em sua cabine, ao lado de Dolly, reparem no famoso Diário de Fantomius sobre a cama! Marco inseriu mais referências nessa história, como personagens inspirados no seriado O Barco do Amor, outro calcado em Louis Armstrong, e quadros nas paredes com cenas de Titanic e 20.000 Léguas Submarinas.

Porém, Fantomius encontra o cofre da condessa já vazio, e o mistério é debatido por todo o navio. Na noite seguinte o ladrão cavalheiro descobre a localização do colar e a identidade do verdadeiro culpado, e fica com a jóia. Em sua fuga encenada repare no casal que está na proa do navio, mais uma referência cinematográfica. De novo Fantomius derrota Pinko em uma trama muito bem humorada.

Brutfagor


John  e Dolly visitam Paris nesta trama, publicada em Topolino 2975, de 04 de dezembro de 2012. O pato joga tênis com Patoste, “versão pato” de René Lacoste, francês criador da grife de roupas esportivas, com os resultados de sempre. Em uma feira nas ruas da cidade a atenção do casal é voltada para o Louvre, e depois eles visitam um antiquário vizinho ao museu mundialmente famoso.

É ali que conhecem Hercule Patorot, o famoso detetive francês (quer dizer, belga!), inspirado no grande Hercule Poirot da Dama do Crime, Agatha Christie. Patorot também está interessado no misterioso fantasma do Louvre, onde Fantomius e Dolly entram naquela noite. E de fato eles topam com uma figura misteriosa, fazendo descobertas que os aproximam da resolução do mistério. Na noite seguinte o culpado é detido por Patorot depois de ser enganado por Fantomius, e ele e Dolly retornam para Patópolis com seu butim. No mesmo voo de dirigível está Hercule Patorot, cujo novo objetivo é capturar o Ladrão de Casaca.

Silêncio na Sala


A trama publicada na Topolino 2994, de 16 de abril de 2013, fecha brilhantemente a parte de Fantomius de Superpato – O Legado. Uma declaração de amor ao cinema, conforme disse Marco Gervasio em uma entrevista, foi inspirada pelo filme O Artista, de 2011. Como estamos em tempo de cinema mudo a trama não tem balões de diálogo, somente textos ao lado dos quadros, e começa com a exibição do filme Fantomius, estrelando Douglas Fairbarks e Gloria Squackson, e dirigido por David F. Graffit. Evidentemente todos nomes inspirados pelos personagens reais do cinema da época. Douglas e Gloria anunciam mais uma pelicula inspirada pelo ladrão de casaca, na qual ela usará a esmeralda mais preciosa do mundo. John e Dolly, na platéia, ficam evidentemente interessados.

O casal então se dirige para Pollywood e entra nos Estúdios Metro Goldwyn Pato. John toma o lugar de Fairbarks, mas tem que enfrentar Pinko após o comissário encontrar o ator dormindo. Fantomius foge com a esmeralda e é perseguido pelo policial, e eles atrapalham as gravações de vários clássicos do cinema, incluindo O Fofo e o Parco, Spatacus e Nosfepato. Porém, novamente acontece de descobrirem que a gema é falsa, e o Fantomius e Dolly vão até a mansão Squakcson, libertando Gloria e descobrindo a verdadeira culpada. Claro que levam a esmeralda. A trama se encerra com a estreia do filme Fantomius Ataca Outra Vez, mas claro, todos sabemos que Fantomius só existe o autêntico!

A magnífica Superpato – O Legado, prossegue com a clássica O Diabólico Vingador, a HQ que mostra o surgimento do maior herói de Patópolis e da Disney. O especial a apresenta sem os cortes da publicação original, com o então anti-herói enfrentando a polícia. Depois prossegue com O Castelo das Três Torres, que igualmente havia sido um esconderijo para Fantomius no passado. Depois de uma encrenca com Tio Patinhas Donald vê os segredos do Superpato ameaçados, e precisa correr para ludibriar o avarento e o primo Gastão. É bem sucedido, porém acaba preso! Nosso herói precisa utilizar muita inteligência e vários truques para salvar o dia, mas é finalmente bem sucedido e de novo aplica uma bela lição no tio pão-duro e no primo. Em O Castelo dos Segredos visitamos novamente o Castelo das Três Torres, novamente em uma trama de muitos mistérios. Histórias divertidas de somente uma página completam o especial que, conforme o site Planeta Gibi, deveria ter trazido mais uma história, O Verão na Vila Lalla.


Existem três diários de Fantomius, o encontrado pelo Donald em O Diabólico Vingador, o que nosso herói descobriu em Retorno à Vila Rosa (publicada em Disney Big 19), e o terceiro, descrito nessa história. Contudo essa trama de Marco Gervasio e Fabio Michelini, infelizmente, nunca foi publicada no Brasil. Na Itália saiu em Topolino 2437 de 2002 e Paperinik 21 de 2018 entre outras, e em Portugal em Donald 98 2º série de 2003 e Pato Donald 20 de capa dura. Na história, Donald descobre em Vila Rosa o terceiro Diário de Fantomius, no qual ele descreve Vila Lalla, seu refúgio de verão e onde, conforme algumas teorias, ficaria o esconderijo secreto do submarino do Ladrão de Casaca, do qual falaremos em breve. Quem sabe em 2019 tenhamos novidades sobre a retomada de publicações Disney no Brasil, e esse importante pedaço da história de Superpato e Fantomius possa ser recuperado.


Superpato – O Legado, se encerra com uma entrevista de Marco Gervasio para Marcelo Alencar. O italiano nasceu em 1967, dois anos antes do Superpato, e assim que leu O Diabólico Vingador quando criança ficou fascinado pela figura do misterioso Fantomius.  Quando se tornou artista de quadrinhos se propôs responder as muitas questões surgidas em sua imaginação, primeiro nas histórias de que falamos na Parte 1. Revela como o Ladrão de Casaca foi inspirado em personagens como Arsene Lupin e Robin Hood, e como O Passado sem Futuro, já descrita na Parte 1, foi fundamental para os editores da Topolino proporem a criação de uma série. Marco promete muitas histórias que depois pudemos ler, incluindo as origens de Fantomius e Dolly Páprika, e termina com um desenho especial feito para a edição brasileira!

Não poderíamos deixar de comentar ainda a feliz notícia, dada pelo site Planeta Gibi, de que o contrato para o retorno das publicações regulares Disney ao Brasil já foi assinado! Conforme a notícia, “A nova casa de Pato Donald, Mickey, Tio Patinhas e outros títulos clássicos fará o anúncio em janeiro e em grande estilo, conforme apurado”. O site promete novidades para os próximos dias, fiquem ligados!

Encerramos assim a segunda parte de nossa série de artigos sobre As Espantosas Façanhas de Fantomius. Na semana que vem mais três histórias do sensacional Ladrão de Casaca, e algumas das melhores referências inseridas nas histórias por Marco Gervasio!

Até a próxima!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Vó Nena e os Caçadores: Sheila e Ariele

Samuel, como sempre, estava cismado.

— Essa P. desse carro tá querendo aprontar alguma comigo!

Daniel dirigia em meio ao tráfego pesado para a Festa do Peão. Era sempre a mesma história quando saíam com o Fusca de Vó Nena.

— Dá para relaxar?

— Olha, olha agora! – disse Samuel, apontando para os mostradores do painel. – Ficaram com luz vermelha, como ele faz sempre quando estou aqui!

O irmão mais velho desviou os olhos por um instante, e constatou que o velocímetro e o marcador de combustível de fato exibiam uma leve luminescência vermelha. Atento ao trânsito pesado, respondeu:

— Mas Samuel, o que você queria? Conhece muito bem a história da Vó com esse carro! Falando nisso, liga prá elas já que não tá fazendo nada!

Samuel ia dizer alguma coisa, mas desistiu. Pegou o celular e olhou pela janela, tentando se esquecer do quanto não gostava daquele carro. Tatiana logo atendeu:

— Oi, Samuel!

— Coloca na viva-voz – disse Daniel.

Samuel fez isso, e o irmão perguntou:

— Tati, tudo bem?

— Tudo, e vocês?

— Quase chegando, e como sempre Samuel está de birra com o carro – riu Daniel.

— Essa P. desse carro é que tem birra comigo! – protestou o irmão mais novo.

Ouviu-se uma voz indignada:

— Mas que P. de linguagem é essa, Samuel, seu moleque! – Vó Nena gritou entre duas fortes tossidas. — Essa é a M. de educação que sua mãe te deu?

Daniel riu mais ainda, e perguntou:

— Vó, como a senhora está?

Nena tossiu de novo, ouviu-se também um espirro, e ela respondeu:

— Esses médicos filhos de uma P. já deveriam ter inventado um remédio contra essa M. de gripe, meu filho! Tô que não me aguento! E falando nisso, tá cuidado direitinho do Fusca?

— O Poizé tá excelente, Vó! Só o Samuel que não gosta muito dele...

Ouviram-se as risadas de Nena e Tatiana, e a anciã respondeu depois de nova tossida:

— O Fusca também não gosta muito do Samuel, he, he, he... meus netos, tomem cuidado.

— Tati, teve mais alguma visão? – perguntou Samuel tentando mudar de assunto.

— Não, nada, só aquela – disse a vidente. — Meninos, cuidado, duas forças muito poderosas estão a ponto de se enfrentar, e tudo aponta para a Festa do Peão.

— Pode deixar, amor – respondeu Daniel. – Trouxemos tudo que podemos precisar, e nenhuma coisa ruim vai escapar da gente.

— Qualquer coisa vocês liguem, meus netos – disse Nena.

Todos se despediram no momento em que entraram com o Fusca, um raro modelo azul monocromático ano 1962, no enorme estacionamento do evento. Rodaram um pouco pelos corredores apertados e Daniel reparou quando, em dado momento, passaram por um casal e três filhos, dois meninos e duas meninas, a pé. O garoto menor apontou o carro e deu um soco no braço do irmão, para em seguida o mais velho sair correndo atrás do mais novo. Até Samuel deu risada, e após mais algumas voltas viram um carro liberando uma vaga. Depois que ele saiu Daniel manobrou e estacionou o Fusca de ré, mas Samuel olhou para o lado e disse:

— Tá apertado aqui, não vai querer que amasse a porta no carro do lado.

— Refaço a manobra, então.

Daniel saiu um pouco da vaga, virou o volante, e dessa vez o Fusca encaixou-se bem. Desligaram no momento em que um utilitário esportivo compacto parou na frente deles. O motorista baixou o vidro e gesticulou. Daniel saiu primeiro e fez sinal negativo com a mão.

Porém, o outro resolveu insistir. Tirou o chapéu e o abanou, mas os dois irmãos continuavam a ignorá-lo enquanto pegavam as mochilas no banco de trás.

— Ô, sujeito, cê tava saindo! – berrou finalmente o outro.

— Não estava, amigo – respondeu Daniel. – Só manobrando para estacionar melhor.

O motorista do jipe olhou para o lado, e eles repararam na garota também de chapéu. O sujeito voltou a gritar com eles:

— Caramba, tô circulando aqui faz tempo, tira essa M. daí para eu estacionar!

Samuel, pela primeira vez, olhou para o Fusca e sorriu. Do painel emanava um brilho vermelho mais forte. Daniel, por sua vez, tentou argumentar:

— Olha colega, estamos chegando e já estacionamos. Vamos tratar dos nossos negócios, e não temos tempo a perder.

— Pois vão perder é essa tranqueira que puseram na minha vaga, seus frouxo!

O sujeito arrancou com o jipe, andou poucos metros, freou e engatou a ré. Os dois irmãos se afastaram, observando tranquilamente.

O jipe veio e bateu no Fusca, amassando o para-lama e o para-choque esquerdos e um pouco do capô. O motorista do jipe olhou pela janela, e estranhou os dois irmãos de pé a pouca distância, simplesmente observando. Ele olhou para a moça a seu lado, engatou a primeira, afastou-se um pouco, e voltou de ré pela segunda vez.

No momento em que o jipe ia novamente acertar o Fusca, o capô deste abriu-se e em seguida se fechou contra a traseira do utilitário esportivo. O motorista do jipe olhou pela janela, e abriu a boca espantado. De dentro do Fusca emanava uma luminosidade vermelha, visível também nos faróis, e o carro continuava a abrir e fechar o capô, dando verdadeiras mastigadas na traseira do jipe. A lataria do utilitário ficava cada vez mais amassada, e os dois ocupantes começaram a gritar.

— Mas que P. é essa!?

— Acelera, C., vamos fugir daqui, tá esperando o quê?

— Tô acelerando, mulher, tô acelerando!

O Fusca segurava o canto esquerdo do utilitário com a roda traseira deste no ar. Finalmente, após arrancar um pedaço da lateral traseira, abriu o capô e o jipe saiu em disparada, guinchando os pneus.

Daniel e Samuel simplesmente observaram tudo sem fazer nada. O Fusca havia saído um pouco da vaga, e recuou de ré enquanto sua lataria amassada retornava ao formato original. Quando parou em seu lugar, não havia mais qualquer sinal do incidente, exceto o pedaço do jipe no chão.


Samuel se aproximou, abaixando-se para apanhar a peça de metal e dizendo:

— Esses são os únicos momentos em que gosto desse carro.

Como que respondendo, os faróis do Fusca se tingiram brevemente de uma luminescência vermelha. O irmão mais novo parou, encarou o carro, e finalmente desistiu. A peça de metal ficou no chão.

Samuel voltou para junto de Daniel, que ria muito, e os dois rumaram para a entrada da Festa do Peão.

O evento estava lotado, com presença de pessoas de todas as cidades da região, e até vindas de outros estados. Na arena peões se exibiam montando cavalos e touros bravos, e na feira e na praça de alimentação havia muito o que ver e muito onde gastar.

O barulhento grupo que se acomodou em um dos stands de churrasco no meio da tarde, entretanto, queria consumir outro tipo de mercadoria. Todos se vestiam como autênticos peões de boiadeiro, mas seu interesse estava nas moças que passavam. Alguns do grupo já aproveitavam a companhia de garotas em roupas típicas, short ou calça jeans, camisa e chapéu, mas Fernando dizia que ainda estava esperando a dele.

E nesse momento a viu passando: morena, bronzeada, vestindo um short pequeno e justo, top, chapéu e botas. Ele se virou para os amigos, que exibiram sorrisos de aprovação, levantou-se do banco e aproximou-se da moça. Enlaçou sua cintura e foi logo dizendo:

— A moça tá desacompanhada, tá?

A morena virou o rosto para ele, e Fernando teve a impressão de ver um brilho diferente em seus olhos. Mas então ela abriu um sorriso e respondeu:

— Não estou mais.

Ela agarrou-o pela nuca e o beijou, enfiando a língua em sua boca com vontade. Os amigos berraram em aprovação, e a menina puxou Fernando para um canto, não muito longe da barraca onde sua turma comia e se bolinava.

A morena parecia insaciável, e Fernando ria com a sorte que teve.

— Mas você é gostosa mesmo, hein?

Ela acariciava todo o corpo do rapaz, arrancou sua camisa que estava presa na calça, e disse:

— Meu nome é Sheila, e o seu?

— Fernando, fofa. Mas você quer aqui mesmo? Assim?

Sheila o provocava, passava as mãos em seu corpo, e conduziu a mão dele para sua bunda, enquanto dizia:

— Por quê? Você não quer?

Em resposta, o peão de asfalto a agarrou, apalpando todo seu corpo. Sheila sorria enquanto ele beijava seu pescoço, depois tirou o chapéu do rapaz, segurando-o pelos cabelos e o beijou.

Fernando poderia jurar que jamais havia sido beijado daquela forma. Sheila parecia querer comê-lo vivo.

E foi quando sentiu. Os lábios da morena começaram a esquentar, um fogo parecia vir de dentro dela, e passar através do beijo para Fernando. Mas o que sentiu não era prazer.

O terror se espalhou por seu ser. Tentou gritar, mas a mulher o segurava com firmeza incomum, beijando e sugando sem parar. O tormento não tinha fim.

E então Fernando não sentiu mais nada.

Os gritos aterrorizantes chamaram a atenção de Samuel e Daniel, que haviam parado em uma barraca na praça de alimentação para um lanche. Sequer haviam tomado café antes de sair, apressados por Vó Nena diante da visão que Tatiana tivera, e se aprontavam para saborear grandes hambúrgueres, quando um tumulto lhes chamou a atenção.

Chegaram correndo, abrindo caminho entre a multidão. Garotas choravam, e alguns dos rapazes pareciam que iam borrar as calças em breve. Um vomitava no canto, quando os dois irmãos viram o motivo da balbúrdia.

Um corpo estava estirado no chão, vestindo roupas novas de caubói. Entretanto, o cadáver estava seco, com aparência mumificada. Samuel rapidamente tirou a câmera da mochila e bateu várias fotos, depois mudou a configuração para filmar a cena.

Enquanto isso Daniel interrogava as pessoas próximas:

— Alguém viu o que aconteceu?

Algumas pessoas evitavam encará-lo, outras saiam apressadas. Enquanto Samuel continuava a registrar o cadáver e procurar alguma evidência ao redor, Daniel repetia suas perguntas.

— Ele... ele parecia feliz, saiu com uma morena gostosa que chegou..

Daniel se virou e encarou um rapaz jovem, que disse ser amigo do morto. Conversou rapidamente com ele, mas era basicamente tudo que sabia. Observando uma e outra pessoa apontando a câmera do celular para o cadáver, ele perguntou ao rapaz:

— Será que ninguém tirou foto dessa mulher?

Outro sujeito da turma amparava o que havia vomitado, enquanto dois ainda estavam com as garotas que haviam conhecido. Diante da pergunta de Daniel, uma delas apanhou o celular e começou a mexer no aparelho. Finalmente passou a olhar fixamente para a tela, acompanhada das amigas que a rodeavam.

Daniel abriu caminho e ficou diante da menina. Ela percebeu, ergueu os olhos, e por fim virou a tela do celular para ele.

Aquele cavalo estava bem mais agitado que de costume, e quatro homens não conseguiam segurá-lo. O bicho relinchava e escoiceava, enquanto os peões tentavam com muito esforço introduzi-lo no cercado por onde seria conduzido até a arena.

Não muito longe dali um jovem casal passeava com a filha de quatro anos. A menina segurava a mão da mãe, e virava a cabeça para todos os lados, olhando o movimento.

O cavalo continuava a escoicear. Um grupo de pessoas assistia a cena a pouca distância.

A menina andava com um cavalo de pelúcia na outra mão, mas o brinquedo caiu, e ela se virou, soltando-se da mãe. Esta a chamou pelo nome, mas a menina correu para apanhar o bicho de pelúcia.

O cavalo finalmente acertou um coice de raspão, derrubando um dos homens. Os demais não conseguiram segurá-lo, e o animal saiu em disparada. O grupo de pessoas que assistia se dispersou, as pessoas corriam apavoradas e o cavalo passou galopando por elas.

A menina apanhou o cavalo de pelúcia, mas foi derrubada por pessoas que fugiam, assustadas com o cavalo que se aproximava.

Os pais da menina gritaram, paralisados pelo pânico, observando o animal se aproximar de sua filha.

Nesse instante uma moça loira, linda, usando um vestido curto delicado, chapéu e botas, se interpôs entre o cavalo em disparada e a menina.

O animal avançou mais alguns passos e parou diante da loira. A moça o olhava fixamente, e o cavalo baixou a cabeça. A loira o acariciou, enquanto o casal se aproximava correndo e tomava a menina nos braços.

— Obrigado, muito obrigado, moça! – disseram eles.

A loira os olhou com ar indiferente, virou-se e fez uma carícia final no cavalo. Os peões chegaram correndo nesse momento, olhando a cena sem conseguir acreditar.

A moça lançou um último olhar para o cavalo e se afastou andando, desaparecendo em meio à multidão.

O casal e sua filha seguiram em outra direção, enquanto os peões não tiveram qualquer dificuldade em conduzir o cavalo de volta à arena. Um e outro ainda olhava para trás procurando a loira, e comentavam entre si perguntando como ela pôde parar um animal bravo como aquele.

Na Festa do Peão também acontecia uma exposição com as novidades da moderna indústria agropecuária. Tratores, máquinas e implementos estavam em exposição e, assim como o restante do evento, o local também estava apinhado de gente.

Carla era uma das promotoras, e por mais que morresse de vontade de estar com as amigas, que aproveitavam a festa vestidas a caráter, já havia parado de reclamar do conjunto blazer e saia que vestia. O dinheiro que pagavam fazia valer a pena, e ela aproveitava um intervalo para esticar as pernas depois de comer algo.

Lembrou-se da morena de short e top que já havia chamado sua atenção quando passou várias vezes por seu estande, e Carla pensou em como seria bom encontrá-la. Suspirou com a recordação dos olhares que trocaram e já estava voltando, quando seu sonho se tornou realidade.

A morena surgiu de trás de um dos enormes tratores, olhando para Carla com desejo.

— Oi, sou Sheila – disse.

— Oi — respondeu Carla.

A morena apanhou sua mão, conduzindo-a para um canto sossegado. Carla olhou o relógio e viu que ainda tinha alguns minutos, e afinal ela tinha direito de aproveitar a festa. Conversaram um pouco enquanto andavam e, ao constatar que ninguém mais as incomodaria, Carla beijou Sheila com vontade

A promotora passeava com as mãos pelo corpo da morena, que retribuiu seus carinhos. Parecia que uma queria devorar a outra.

— Alguém viu a Carla?

O gerente da revendedora de tratores estava furioso. A promotora havia saído para seu intervalo e ainda não retornara.

Um grito aterrorizante veio de trás de uma colheitadeira exposta em outro estande. As pessoas correram para lá e não acreditaram no que viram.

— Mas que P. é essa ceufi?

— É selfie, Vó – explica Tatiana. – A mesma coisa que autorretrato.

— Esse povo tá é cada vez mais besta, isso sim! – comenta a anciã.

As duas observaram a foto enviada pelos rapazes, enquanto Samuel explicava:

— Faz uns vinte minutos soubemos de outro zunzunzum, e descobrimos um segundo corpo, uma moça que era promotora num estande da feira agropecuária, aqui ao lado.

— Algumas pessoas disseram que a moça estava no intervalo e se engraçou com uma morena gostosa – acrescentou Daniel.

— Sei, morena gostosa – comentou Tatiana.

— Amor, você sabe que só tenho olhos prá você.

— Vamos deixar de sem-vergonhice enquanto a gente caça, vocês dois? – disse Vó Nena entre duas tossidas.

— Daí demos sorte, pois uma das meninas do primeiro grupo fotografou o tal Fernando saindo com a morena, e quando mostramos essa foto para as testemunhas do segundo caso, confirmaram que é a mesma mulher.

— Além disso, soubemos de outra coisa estranha – comentou Samuel. – Um cavalo desembestou para cima de uma menina pequena, e uma loira também gostosa... eu posso comentar, viu, mano? Enfim, essa loira apareceu de repente e amansou o bicho.

Samuel fez uma pausa, e prosseguiu:

— Tipo, amansou mesmo! O cavalo era para ser montado durante a competição dos peões, mas ficou manso, não serve mais pro rodeio!

Ouviram pelo telefone Vó Nena tossir bastante, e depois de alguns instantes a anciã, com voz rouca, disse:

— Meus netos, a primeira vagabunda deve ser uma súcubo

— Súcubo? – perguntou Samuel.

— É, um demônio que seduz e rouba a energia das pessoas – completou Nena. – E não faz diferença, homem, mulher, o que aparecer prá ela tá bom.

— E como matamos, Vó? – perguntou Daniel.

— Faca, espada, fogo, bala de prata, tudo isso serve, meus netos. Mas tomem cuidado, essas filhas da P. são muito fortes, resistentes, e principalmente vocês que são homens, podem cair no papo dela muito fácil. Não vão abrindo as calças aí prá qualquer uma, hein?


— Vó!? – disse Tatiana indignada.

Nena riu, bem como os rapazes, mas a anciã completou:

— Filha, essas pestes seduzem até quem já passou da idade! E até você, linda desse jeito, pode cair na conversa de uma delas.

— E essa outra, Vó? – perguntou Samuel. – Acha que a gente deve investigar?

— Pelo visto a Tati acertou, Samuel, meu neto – comentou Nena entre duas tossidas. – Não é normal uma moça amansar cavalo bravo assim, só de olhar e tocar. Fiquem de olho, vou mandar a Tati pesquisar, pois não lembro de cabeça qual criatura influencia bicho assim.

— Vamos ficar de olho, Vó – disse Daniel.

— E você se cuide! Principalmente com esses rabos-de-saia! – disse Tatiana.

— Eu te amo, Tati!

Daniel desligou, Tatiana segurou o celular contra o peito, preocupada com o namorado.

O grupo de quatro peões comentava o desempenho inédito de dois dos competidores do rodeio.

— C., nunca vi o Mané e o Severino montarem tão bem!

— Eles sempre foram uns frôxo – comenta outro. – Como é que agora tão quase na final?

— Ara, agora só quero saber é de pegar mulher. E olha só que boazuda essa...

Os quatro observaram a loira passando, de vestido delicado, chapéu e botas, e foram atrás. Percebendo como ela parecia perdida, olhando para todos os lados como se procurasse alguma coisa, um deles se adiantou e perguntou:

— A moça parece perdida, carece de precisá de ajuda?

A loira se virou, e os peões fizeram um semicírculo diante dela.

— Preciso ver os animais.

— Ah, então a moça falou c´as as pessoas certa! – um deles se adiantou, piscou para os demais, e passou o braço pelos ombros dela. – Como é seu nome, belezura?

— Ariele.

— Pois então, a gente é tudo peão, e podemos te levar pra ver os bicho. Prefere touro ou cavalo?

— Quero ver todos.

— Então, vem com a gente!

O peão saiu andando com Ariele, e seus três companheiros foram atrás. Nesse momento cruzaram com Samuel e Daniel, e o mais velho se virou, observando o grupo.

— Se essa loira não tiver cuidado, pode se dar mal... – comentou Samuel.

Daniel apanhou um objeto do bolso, colocou-o na palma da mão, e apontou os dedos para o grupo. A agulha da bússola se moveu, apontando para as pessoas que se afastavam.

— Não sei se é ela que pode se dar mal... vamos, mano!

Sem explicar, Daniel saiu correndo atrás dos peões. Samuel o seguiu a contragosto.


Dois dos peões estavam caídos ao chão, um deles gemendo e segurando o braço quebrado, o outro desacordado.

O terceiro tentava segurar a loira por trás, enquanto o quarto berrava com ela:

— Sua piranha! A gente só queria se divertir um pouco.

— Vocês são esses homens horríveis que maltratam os animais! Me larguem!

Ariele se debatia, mas o peão a segurava pelos braços. Nesse momento chegaram Daniel e Samuel.

— O que tá acontecendo aqui?

O peão encarando Ariele se virou, olhou os dois rapazes e disse:

— Vão embora, seus frangote, antes que sobre proceis também!

O que segurava a loira se distraiu, e Ariele aproveitou. Ergueu o pé e rapidamente o desceu, acertando a ponta do pé do homem com o salto de sua bota. O peão a largou berrando.

— Sua filha da p.!

Mas o homem não desistiu. Fez um movimento rápido com a mão para acertar um soco na loira, mas só conseguiu derrubar seu chapéu. Este esvoaçou e caiu perto de Daniel, que observou a peça de relance e disse:

— Essa não...

No mesmo instante eles foram derrubados por uma súbita ventania. O peão diante do irmão mais velho se virou, somente para ser acertado por um raio bem no peito. O outro se afastou pulando no pé que não fora pisado, de olhos arregalados para a loira.

Ariele flutuava a centímetros do chão, uma luz intensa saía de seus olhos, e raios crepitavam e saltavam de suas mãos. O vento, do qual ela própria era a origem, fustigava seus cabelos e só aumentava.

Os quatro peões por fim levantaram, olhando em pânico para a loira.

— Vão embora daqui, seus M., se quiserem viver! – berrou Samuel. Foi a senha para os quatro saírem correndo e desaparecer.

Daniel, enquanto isso, apanhou o chapéu da loira, e tentou se aproximar dela. Ele não ouvia os gritos de Samuel, enquanto avançava passo após passo. A moça ainda flutuava, e ele conseguiu se esquivar de alguns dos raios que saíam dela.

Finalmente, com um salto, Daniel colocou o chapéu na cabeça da loira. Os dois caíram ao chão.

A próxima coisa que o irmão mais velho viu foi Samuel quase em cima deles, apontando a arma com balas de prata para a moça e gritando:

— Mas que P. é você? Vou te mandar bala de qualquer jeito, então é melhor falar, se quiser que doa menos!

Daniel se levantou e segurou a arma, obrigando o irmão a baixá-la. Samuel não entendeu:

— Tá louco, mano? Não viu o que essa coisa fez?

— Vi sim, e foi você que não viu no chapéu dela.

— Chapéu? Mas que P. é essa de chapéu? – perguntou Samuel, virando-se para olhar para a loira, que já se levantava. – O que tem o chapéu...

— Obrigada por devolvê-lo a mim, estranho – disse a loira com uma voz suave e melodiosa. Ela tirou o chapéu, segurando-o junto ao corpo, e nesse momento Samuel viu.

Na parte da frente, acima da aba, havia uma estrela de cinco pontas cujo brilho variava como um caleidoscópio. A moça passou uma das mãos, e o brilho se espalhou por todo o chapéu. Em seguida, a forma luminosa se alongou e estabilizou, com a estrela em uma das pontas.

— Tá de brincadeira comigo!? – disse Samuel incrédulo.

— Soube no momento em que vi a estrela – comentou Daniel. – E quer guardar essa arma, cacete?

Samuel voltou a apontar a arma para a moça, que disse:

— Sou Ariele, e vim a este lugar para defender os animais de uma presença maléfica.

— A única coisa aqui que não é natural é você, moça – comentou o irmãos mais novo ainda com a arma apontada.

— P., Samuel, já mandei guardar isso! – disse Daniel. E, virando-se para a moça, disse:

— E você, fada, daqui a pouco vai ter um monte de gente aqui por causa dessa confusão. Melhor irmos conversar em um lugar seguro, pois já sabemos dessa presença maléfica.


Daniel apanhou sua mochila do chão e foi andando. Ariele e Samuel olhavam para ele incrédulos, quando o irmão mais velho se virou e acrescentou:

— Ou podem os dois ficar aí se encarando. Vocês que sabem.

Daniel se afastou. A varinha de Ariele voltou a ser um chapéu e ela seguiu o rapaz. Deixado sozinho, Samuel resmungou alguns palavrões, voltou a colocar a arma na mochila, e finalmente os seguiu.

— Fadas são seres elementais, como as iaras, alamoas, sacis e outros da nossa terra – explicou Vó Nena. A anciã deu uma forte tossida e prosseguiu: — Não são naturais do Brasil, então os daqui não gostam muito delas. Mas elas não são maléficas como os filhos da P. dos vampiros, que também são estrangeiros no nosso país.

— Vó, essa coisa causou uma confusão dos diabos quando perdeu o chapéu, que na verdade era a varinha dela – disse Samuel com ao telefone. – Tem certeza?

— Os poderes das fadas são enormes, Samuel – disse Tatiana, entrando na conversa. – As varinhas servem para canalizá-los, e também como controle no caso de fadas muito jovens, provavelmente como é o caso da que vocês encontraram.

A vidente fez silêncio por um momento, depois acrescentou:

— E o Daniel, onde está?

— Foi com ela ver mais uma etapa do rodeio.

— Ah, foi? Ele vai ver só quando voltar!

— Fica quieta, menina! – disse Nena. – Samuel, meu neto, a fada disse por que queria ver o tal rodeio? Perceberam alguma outra coisa anormal?

— O comentário que ouvimos por todo lado aqui é que dois peões que eram desconhecidos estão tendo muito destaque. Essa etapa é a semifinal, e parece que eles nunca foram tão longe.

Nena tossiu, e nem ela nem Tatiana falaram nada por alguns segundos. Então a anciã finalmente respondeu:

— Ás vezes, uma filha da P. dessas súcubos não suga a vítima de uma vez. Essas desgraças gostam de manipular, e pode acontecer de fazer isso com mais de uma pessoa, tirando proveito da energia delas.

— A senhora acha então que essa súcubo, a tal da morena gostosa, pode ter influenciado esses peões?

— E a fada pode ter sentido essa energia também – comentou Tatiana. – Acabei de sentir também, Samuel, foi só pensar na Festa do Peão que me veio essa imagem.

Tatiana ficou em silêncio, e depois acrescentou com voz trêmula:

— Imagem de muito sangue e morte, Samuel. E você e o Daniel no meio. Tomem cuidado, pelo amor de Deus!

— Vamos tomar, Tati. Mais alguma coisa, Vó?

— Quando forem matar a coisa, meu neto, tomem cuidado. A fada pode ajudar, mas não confiem muito.

Eles se despediram e Samuel desligou, guardando o celular. Pessoas passavam por eles, apressadas para chegar à arena, onde a semifinal começaria em poucos minutos. E ele voltou a ouvir comentários, aqui e ali, a respeito do incrível desempenho dos dois peões desconhecidos.

Samuel ajeitou a mochila e correu.

As arquibancadas estavam lotadas para a competição. Os peões se revezavam no lombo dos cavalos, tentando ficar os oito segundos regulamentares sobre os animais. Estes, por sua vez, escoiceavam e muito, dificultando ao máximo o trabalho dos competidores.

A cada peão que conseguia completar o tempo e pular da montaria o público berrava. Vários deles tinham sua própria torcida organizada, porém vários grupos já haviam deixado a arena, devido à desclassificação de seus favoritos.

Porém, dois dos concorrentes estavam chamando a maior parte da atenção, e também da torcida, na competição desse ano. Quando Mané foi anunciado, aquela parte da torcida que gosta de vibrar com um azarão se ergueu e gritou o nome do peão a plenos pulmões. Depois de se preparar, a porteira foi aberta e Mané tratou de se segurar sobre o cavalo, uma das mãos para cima e a outra firmemente segura na corda que contornava o corpo do animal. A multidão vibrava, e quando os oito segundos se passaram, Mané largou o cavalo, saltou e aterrissou com uma cambalhota.

O peão observou os auxiliares apanharem o cavalo bravo, e abriu os braços. O público vibrou, gritando seu nome.

— Esses brutos estão machucando os animais! Vou parar com isso!

Ariele, observando a cena entre a grade que separava a arquibancada da arena, estava furiosa. Daniel, a seu lado, observou Mané estender o braço e apontar para outro peão que se preparava. O locutor do rodeio anunciou o nome de Severino, e a multidão foi ao delírio mais uma vez.

— Vem cá, foram nesses dois mesmo que você sentiu algo diferente?

— O que importa? – perguntou a fada.  – Os animais estão sofrendo.

— Importa que tem alguma coisa muito ruim aqui, e pessoas podem morrer.

— Não me importo com os humanos.

Daniel olhou para a loira, sorriu com o canto da boca e disse:

— Isso não combina com as histórias que contam sobre vocês.

Ariele se virou para ele, mostrando uma curiosidade que até então Daniel não havia visto, e perguntou:

— Que histórias?

Foi a vez do caçador ficar curioso. Perguntou:

— Nunca ouviu falar em contos de fada? Cinderela, Branca de Neve, Bela Adormecida, essas coisas?

— Estive pouco no mundo dos humanos, sou uma fada jovem.

Daniel viu aí uma oportunidade, e decidiu tentar obter mais informações.

— E o que veio fazer aqui? Só proteger os animais?

— Sim.

— Mas esse rodeio existe há anos, por que só agora? Vieram outras com você?

Ariele, que até então observava a arena e a multidão, tornou a encarar Daniel. Respondeu:

— Muitas de nós sentiram a escuridão, mas somente eu decidi vir, contra o conselho de minhas irmãs.

— Por que outras fadas não vieram? – perguntou Daniel enquanto voltava a apanhar os binóculos.

Na arena, Severino já estava pronto, e quando a porteira abriu o mesmo roteiro se repetiu. Oito segundos depois ele também saltava do cavalo e agradecia aos aplausos, mas rapidamente olhou nas proximidades do corredor que contornava a arena, parecendo procurar algo.

Subitamente o peão fixou o olhar em um ponto, e seguiu correndo para lá. Daniel moveu os binóculos, e conseguiu ver de relance Mané, o outro peão, com o braço ao redor da cintura de uma morena. A mesma da foto que haviam conseguido.

Daniel baixou os binóculos e pensou em sair correndo para lá. Ariele, nesse meio tempo, respondeu:

— Minhas irmãs acham que a escuridão já cresceu muito, e não devemos nos envolver.

Daniel olhou decidido para a loira, agarrou a mão dela e disse:

— Pois agora você está envolvida mesmo. Vem!

O caçador saiu correndo, desviando das pessoas, puxando a fada com ele.

Chegaram a um ponto do corredor circular que ficava entre a arena e a arquibancada, onde a passagem só era permitida a competidores e imprensa. Um leão de chácara estava ao lado de funcionários da Festa do Peão para desencorajar os mais atrevidos, mas isso não deteve Daniel.

— Somos da imprensa, colega, tá aqui a credencial.

Ariele observou Daniel mostrar ao homem um pedaço de papel. O portão foi aberto e eles puderam passar. A fada estendeu a mão, e o caçador deixou que ela visse o objeto.

— Mas isso é só um papel em branco – disse a fada.

— Mas não é qualquer papel – disse Daniel, guardando-o. – É um pedaço do mesmo bloco onde Getúlio Vargas assinou sua carta-testamento, o maldito.

Daniel, como parte de uma tradição familiar, parou e cuspiu no chão ao falar o nome do ditador, depois explicou:

— Muitas das desgraças que minha avó, eu, meu irmão e outros como nós combatemos começaram com ele, que tinha gente em seu governo trabalhando com magia negra, criaturas maléficas e coisas piores. Esse papel é encantado, e mostra qualquer coisa que pensemos. Mas não funciona com seres mágicos como você. E espere para ver o que a caneta que o bastardo usou faz!

Eles continuaram correndo, e nesse momento o celular de Daniel tocou. Atendeu e ouviu a voz do irmão:

— Cacete, cadê vocês?

— Estamos na área fechada, indo atrás do tal Severino. Ele viu o outro peão com a súcubo.

— E agora, como entro aí?

— Contorne por trás. E você tá com ela, né?

— Tá na mochila, afiada como sempre.

Daniel suspirou aliviado. Disse:

— Que bom, porque acho que vamos precisar!

Desligou, e continuou puxando a fada. Severino, bem distante deles, tomou um corredor lateral que se afastava da arena. Daniel começou a pensar que não conseguiria salvar os dois peões do encanto da súcubo.

Mané se sentia no paraíso. Sheila o agarrava e beijava como se quisesse devorá-lo.

— Ah, minha morena, você é muito gostosa, minha querida!

— Você que é, meu peão campeão – disse a morena sussurrando enquanto lambia sua orelha.

Mané se afastou, olhando nos olhos dela. Eram de uma cor que ele não se lembrava de ter visto antes. Na verdade, pensando um pouco a respeito, pareciam variar entre o castanho, o amarelo e o vermelho. Aquilo, por um instante, pareceu estranho demais, assim como o calor que ele sentia no corpo e nos lábios dela. Mas logo se esqueceu daquilo, voltando a agarrá-la e beijá-la.

— Minha morena, vou ganhar esse rodeio procê!

— Mas não vai mesmo, zé-ruela!

Severino, que havia ficado por um momento olhando a cena, correu e acertou um soco em cheio no rival. Toda sua raiva estava dirigida contra Mané, e só depois se veria com aquela vagabunda... não, espere... por que ficaria bravo com Sheila, a morena mais maravilhosa que já vira? Ia é acabar com aquele safado que tentava se aproveitar dela, isso sim.

Por sinal, o que mais queria era agarrar e traçar Sheila ali mesmo. Mas antes ia acabar com a raça do rival.

— Vou acabar com você, seu frôxo!

— É mesmo, seu fio d'uma quenga? Você e quem mais?

Mané ameaçou algumas vezes, depois deu um salto e caiu ao chão agarrado a Severino. Acertou vários socos no rival, mas recebeu vários golpes também. Tudo que queria era matar aquele safado para ficar com a morena.

Acabar com Mané para poder amar Sheila era tudo que Severino também queria. Enquanto os dois se engalfinhavam pelo chão, nem desconfiavam que trilhas com suas energias fluíam, indo direto para a súcubo. Sheila se deliciava com isso, e mal conseguia se conter na expectativa de qual deles iria sobrepujar o outro, e ganhar o grande prêmio.

O de ser sugado por ela, claro.

Tatiana voltava com mais uma bacia com água, para manter úmidos os lenços que punha na testa de Vó Nena. A febre da anciã havia voltado, mas logo que a vidente colocou o vasilhame sobre a mesinha ao lado da cama, sentiu tontura e precisou se segurar para não cair.

— Que foi, filha? – perguntou a anciã com voz fraca.

Tatiana estava trêmula, e precisou fazer um esforço enorme para se manter de pé. Conseguiu sentar-se na cama, e olhou com expressão lívida para Nena. Disse:

— Os meninos estão em perigo!

Daniel finalmente encontrou os peões, e ignorando por um momento a morena sorridente que parecia se divertir com a briga dos dois, correu para separá-los.

— Vocês parem com isso, idiotas! – berrou com toda a autoridade que conseguiu.

Severino o encarou com ódio, mas Mané agarrou Daniel pela jaqueta e o jogou para o lado. Os dois peões voltaram a brigar. Daniel caiu, depois se apoiou em um dos joelhos e observou a cena.

Lembrou-se nesse momento de Ariele. Olhou para a direção de onde havia vindo, e a fada estava apoiada em um dormente da cerca, parecendo sentir fraqueza.

— É isso mesmo, caçador? Trouxe uma fada para tentar me enfrentar?


Daniel virou o rosto, e Sheila surgiu diante dele. Assim, bem próxima, ele observou toda sua beleza e sensualidade. Sacudiu a cabeça, mas a voz da súcubo tornou a embalá-lo, enquanto os dois peões continuavam a brigar.

— Sim, Daniel, sei tudo sobre você e seu irmão. E sobre essa aí, que já havia percebido fazia tempo! Muito nova, e incapaz de resistir a mim.

Severino deu um golpe, e Mané foi lançado próximo de Sheila. O peão ficou aos pés dela, ergueu-se, e deu com o olhar da súcubo sobre ele. Sheila estendeu a mão, acariciou seu rosto, depois o puxou para junto de si, beijando-o. Daniel observou um brilho azulado passar do peão para a súcubo, antes que esta segurasse sua cabeça e com um rápido movimento quebrasse seu pescoço.

O brilho se intensificou, e o fluxo azul foi todo para a boca da demônio. Mané caiu morto ao chão.

— Uhn, delícia!

Severino olhava a cena, mas não havia qualquer medo em seu olhar. Dominado pela paralisia que sentia, Daniel estava impotente quando Sheila se aproximou do outro peão, acariciando-o.

— Doce Severino, você foi tão bom para mim! Quero mais desse seu fogo, vá lá e ganhe o rodeio! Depois volte para mim, quero você todinho!

Severino olhou embevecido para a morena, a beijou, e o brilho azulado passou da boca da súcubo para a dele. O peão, depois de mais beijos e abraços, saiu correndo pois os competidores da final estavam sendo chamados.

Sheila se virou para Daniel, que continuava desesperadamente lutando contra a paralisia.

— Está vendo, caçador? Suas esperanças não têm como durar. Como podem esperar nos vencer? Acham mesmo que podem impedir a escuridão?

Daniel arregalou os olhos, enquanto a súcubo acariciava seu rosto.

— A escuridão vai chegar, e quem vai ajudar vocês humanos? – perguntou ela.

Um rápido movimento, e a súcubo foi lançada longe. Ela bateu em uma grossa tora de madeira fincada no chão, partindo-a em duas. Daniel, liberto do encanto da demônio, levantou-se, olhou para o lado e viu Ariele.

— Nós, seres da terra, vamos ajudar, vagabunda!

O caçador mal conseguiu ver Sheila se aproximar, tão rápido que ela mais parecia um borrão, e atingir a fada fazendo-a bater contra a parede de um galpão próximo. O impacto abriu um rombo nele, mas lá de dentro saiu um potente raio que atingiu a súcubo, lançando-a no ar, girando descontrolada até cair e abrir uma vala no chão de terra batida a metros de distância.

Ariele saiu do galpão mancando, com a varinha na mão, delicadas asas vibrando em suas costas e expressão dura no rosto. Daniel se virou, e em meio a poeira viu a súcubo se levantando. Irradiava um brilho vermelho como fogo, e suas roupas ficaram em frangalhos. Sua pele rachou e quebrou, grandes pedaços que caíam ao chão e queimavam até sumir. Seus olhos ficaram amarelos, e ela disse:

— Vou matar vocês, hoje vão conhecer o verdadeiro inferno!

A súcubo abriu a boca, e um jato de chamas quase atingiu Daniel. Ele rolou pra o lado, já com uma pistola em punho, e disparou várias vezes contra a demônio.

A súcubo olhou para o próprio corpo, nos buracos feitos pelas balas de prata e que em poucos segundos se fecharam. Depois olhou para Daniel com um sorriso grotesco, antes de ser atingida por um tiro bem na testa. Ela ficou imóvel por um instante antes de cair de costas.

O caçador e a fada se aproximaram cautelosamente. Daniel mantinha a arma apontada, olhando o corpo ainda escultural da súcubo, agora nu e coberto por uma pele vermelha onde se viam marcas e linhas em preto e amarelo, delineadas por vários tons de vermelho. Ariele olhou por um momento, depois bateu as asas mais forte e flutuou para longe.

Nesse momento a súcubo abriu os olhos, chutando a arma na mão de Daniel e agarrando sua perna. Com um rápido giro lançou o caçador longe, atingindo Ariele. Os dois caíram ao chão, enquanto a demônio ficava em pé.

— Estou começando a me entediar, isso é tudo que têm?

Daniel olhou para ela, observando uma sombra se aproximando rapidamente por trás da súcubo. Em um rápido movimento, a cabeça do monstro foi separada do pescoço e caiu ao chão. O corpo se manteve poucos instantes antes de desabar também.

Os olhos da cabeça cortada ainda piscavam em desespero, enquanto Samuel brandia uma comprida faca para que todos vissem.

— A peixeira que decapitou Lampião, o Rei do Cangaço. Nunca falha!

Os olhos na cabeça da súcubo ficaram vidrados, e seu corpo parou com os espasmos. Ambas as partes finalmente pegaram fogo e queimaram em instantes, não deixando o menor rastro.

Samuel se aproximou, e ajudou o irmão a se levantar. Ariele se pôs de pé, escondendo as asas.

— Outros humanos estão vindo – ela disse.

— Já encerramos por aqui – comentou Samuel. – Melhor irmos.

Os três se afastaram em passos rápidos, mas Daniel teve tempo de dar um soco no braço do irmão:

— Cacete, onde você estava!

Samuel riu, e respondeu:

— Fiquei olhando a luta de vocês, tentando decidir o melhor momento de atacar. Eu que não queria apanhar daquela coisa.

Daniel sentia-se todo dolorido, mas estava decidido a não dar mais motivos de piadas para Samuel. Tentando não mancar, no que não estava sendo bem sucedido, acompanhou o passo do irmão e da fada. Ouviram os gritos e comentários de pessoas, certamente diante do corpo de Mané, mas nesse caso não havia nada que pudessem fazer.

Severino acabou sendo a grande decepção da Festa do Peão. Já montado no cavalo para sua apresentação na grande final, de acordo com as descrições dos auxiliares exibiu subitamente a expressão de quem não sabia o que estava fazendo ali. A porteira se abriu, e em menos de três segundos o peão anteriormente revelação estava no chão.

— E é assim que acaba – comentou Daniel. – A influência da súcubo sobre ele sumiu, e toda a energia também.

— No fim, pode até se considerar um sortudo – acrescentou Samuel. – Viveu para montar outro dia.

— Vocês humanos são estranhos.

Ariele estava ainda mais radiante do que antes, comprovando que a influência da súcubo havia afetado até a ela. Alguns frequentadores da festa olhavam com desejo para a loira, mas a presença dos dois irmãos os mantinham longe.

— E agora? – perguntou Daniel.

— Vou voltar para junto de minhas irmãs, e contar o que vi aqui. Sei que vocês e outros seres naturais deste país nos consideram invasoras, mas também somos espíritos desta terra, e sentimos a influência nefasta que se aproxima.

Daniel e Samuel se encararam. O irmão mais novo nunca gostara de estar na presença de seres encantados, e se afastou. Entretanto, antes disso fez um pequeno sinal para a fada com a cabeça.

— Seu irmão não gosta de mim, mas o que foi isso que fez com a cabeça?

Daniel riu, olhou para Ariele e disse:

— Ele não gosta de nenhum ser que não seja humano. Mas não se preocupe, foi um sinal de cumprimento. Ele deve ter gostado de saber que você me ajudou.

A fada encarou diretamente o caçador. Os olhos dela eram do azul mais profundo e cintilante que se poderia imaginar, e Daniel ficou pensando que seria fácil se apaixonar por ela. Mas naquele momento ele só queria abraçar Tatiana.

— E eu também preciso agradecer. Se não fosse você, aquela súcubo poderia ter acabado comigo – comentou Daniel ao chegarem a um local discreto. Estendeu a mão, que a fada tomou em um cumprimento.

— Vocês devem tomar cuidado – disse Ariele. – A súcubo estava certa. Um tempo de trevas se aproxima, e vocês vão precisar de toda a ajuda possível.

A fada abaixou a cabeça, depois voltou a olhar para ele por um instante. Estendeu suas asas quase transparentes, elevou-se no ar, e de repente se tornou um ponto de luz, que revoou pela área antes de desaparecer.

Samuel já aguardava junto ao Fusca.

— Como é? – perguntou Daniel em tom divertido. – Você do lado do Fusca da Vó Nena?

— Para quem encarou, na mesma tarde, uma fada e uma súcubo, esse Poizé aqui é fichinha.

O carro ligou sozinho, fazendo Samuel estremecer de leve. Mas o irmão mais novo da dupla se conteve, e entrou no carro depois que Daniel abriu a porta do passageiro.

— Já contei tudo para elas. Vó Nena teve febre agora no final da tarde, mas já está melhor de acordo com a Tati. Sua namorada teve uma visão, aliás, e está preocupada.

— Vou ligar assim que sairmos deste estacionamento – comentou Daniel.

Depois de esperar um carro manobrar e entrar em uma vaga próxima, eles saíram com o Fusca. Já havia uma picape com quase dez pessoas na caçamba esperando para estacionar na vaga da qual saíram. Dois jovens foram os primeiros a descer da caminhonete, e um deles apontou para o carro dos irmãos antes de socar o braço do outro. O restante do grupo deu risada, e alguns repetiram a brincadeira, enquanto o Fusca se afastava.

Vó Nena e os Caçadores retornarão.


Esta foi a segunda história de Vó Nena e os Caçadores, e a primeira a mostrar o Fusca Azul amaldiçoado da experiente caçadora de monstros. Estou trabalhando em histórias maiores e mais elaboradas, fiquem na torcida para saírem em livros, e não somente em e-books! Aqui vocês podem reler a primeira, Neculai e a Escuridão, um crossover com a criação do amigo e colega Adriano Siqueira.

Falando em e-books, está disponível na Amazon Vó Nena e os Caçadores: O Fusca Azul, contando a história sobre como a caçadora conseguiu seu Fusca possuído. O volume digital ainda conta com O Casarão da Rua das Dores, uma das casas mais mal-assombradas da cidade.


Não percam na próxima quarta-feira a segunda parte do especial sobre Fantomius, o Ladrão de Casaca! E não poderíamos estar mais felizes com o retorno dos quadrinhos Disney, anunciado no último dia 30 pelo site Planeta Gibi!

No próximo 17 de dezembro nos encontraremos novamente com Vó Nena e os Caçadores, em um arrepiante conto de Natal!

Até a próxima!