segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Vó Nena e os Caçadores: A Maldição da Caneta Azul

A movimentação em frente ao Grande Hotel, o maior da cidade, era intensa. O café diante dele, do outro lado da rua, não estava menos cheio, mas Daniel e Vó Nena conseguiram uma mesa de onde viam todo o panorama.
Uma dupla de adolescentes passou diante deles na calçada, e do celular que um segurava na mão saía a maldita música.

Nota do autor: Caro leitor, se quiser saber qual é a maldita melodia que representa o grande inimigo desta história, clique aqui por sua conta e risco. Não diga que não avisei.


Daniel viu que Vó Nena crispou a mão que segurava sua bengala de pau-brasil e ameaçou erguê-la, e disse:
- Calma, Vó!
- Calma é o caralho! – respondeu a anciã indignada. – Meu neto, estou caçando essa porra dessa caneta desde a década passada! Essa gentinha sem cérebro que fica fazendo graça e ouvindo essa merda de música não sabe com o que está mexendo!
O celular de Daniel tocou, ele atendeu, era Tatiana.
- Oi, amor. Ainda estamos aqui no lobby do hotel aguardando a “celebridade” – e os aspas ficaram nítidos com a entonação que Tati deu à palavra. – Alguma novidade?
- Vó quase acertou uns “aborrecentes” que passaram com o celular tocando a música maldita, e o Samuel ligou dizendo que conversou com Batista – disse Daniel após colocar o celular no viva-voz.
- Aqueles hackers de São Paulo? E o que disseram?
- Comentaram somente a teoria da conspiração de que as canetas são sondas alienígenas, e ele falou algo sobre Máquinas Von Neumann, algo assim.
- Uma máquina replicadora que aproveita os materiais do ambiente que se encontra para criar cópias de si mesma.
- Como você sabe disso!?
- Eu leio, amor, você não?
- Aqui temos máquinas que se multiplicam também – comentou Vó Nena. – São esses idiotas que se multiplicam conforme escutam essas merdas compartilhadas por outros idiotas.
- Vó – disse Tatiana – o Aristeu, aquele repórter da Tamara Bonfá, está aqui.
- Essa biscate quer a porra da caneta, claro. Chame se ela aparecer, filha, essa filha da puta não costuma sair no meio da multidão, mas todo cuidado é pouco.
Tatiana despediu-se e desligou, guardou o celular no bolso do blazer, ajeitou a blusinha propositalmente justa que usava por baixo e ficou olhando o movimento intenso no lobby do hotel. Jornalistas de vários veículos da cidade e da região haviam vindo cobrir a visita do autor da porcaria, melhor dizendo música de sucesso, e além deles vários curiosos e aproveitadores circulavam e conversavam em pequenas rodas.
Tatiana às vezes preferiria não ser vidente, pois algumas das impressões que tivera ali foram as piores possíveis.
Aristeu, o famoso repórter de Tamara Bonfá, discutia com a equipe do programa por vezes em tom ríspido. Tati já havia percebido que ele olhava para ela em algumas ocasiões com expressão de dúvida, e procurou se manter afastada. Sabia que Vó Nena e os meninos tiveram vários encontros com o sujeito, que a anciã dizia que tinha parte com tudo que é criatura das trevas, mas como ela era praticamente recém-chegada naquele grupo de caçadores, não era tão conhecida. Foi por isso que se voluntariou para aquela missão.
Um garçom passava com uma bandeja cheia de bebidas e ela pegou um copo de refrigerante. Enquanto bebia, reparou em mais uma figura que entrava no salão, e que desta vez a reconheceu de imediato e veio em sua direção. Não podia evitar, já que sua família e a dela eram próximas uma da outra, logo tomou um gole e armou seu melhor sorriso.
- Juíza Arlete, que surpresa!
- Você aqui, querida?
Apertaram-se as mãos. Arlete vinha acompanhada de duas garotas adolescentes, que Tati sabia serem suas filhas. Cumprimentou ambas e a mulher disse:
- Resolveu retornar à faculdade de jornalismo, meu amor?
- Ainda não, juíza. Mas o editor do Jornal da Cidade continua amigo do meu pai, e eu me ofereci para ajudar na cobertura deste evento.
- Entendo. Minhas meninas aqui são fãs do Mané Gomes, e ficaram insistindo para que viéssemos. Aliás olha o Aristeu ali, depois vou tentar conseguir um lugar no programa da Tamara. Quer que coloque você também, Tati?
A vidente quase engasgou com a bebida, mas se controlou a tempo. Depois de respirar fundo respondeu:
- Obrigado, juíza. Mas tenho outros planos para hoje à noite.
Arlete mandou as garotas circularem, se aproximou de Tatiana e disse:
- Tatiana, sei que não é da minha conta, mas parece que você continua namorando o Daniel, o neto da Nena.
- Acertou duas vezes, juíza – respondeu Tatiana bebendo o último gole e colocando o copo na bandeja de outro garçom que passava, ao mesmo tempo dizendo “obrigada”. – Estou muito feliz com o Daniel, e não é da sua conta com quem passo meu tempo.
Arlete a olhou com expressão espantada, mas em um instante já se mostrava a mesma juíza conhecida pela frieza no trato com as pessoas. Comentou:
- Não queria ofender, minha querida. Como sabe nossas famílias já tiveram uma história juntas, e eu gostaria muito que voltasse a ser como nos velhos tempos. O desentendimento com sua avó Esmeralda...
Poucas coisas realmente irritavam Tati, e aquela pessoa que ela sabia ser execrável, além das histórias que Vó Nena contava sobre os desentendimentos com a mulher, a faziam sentir como inaceitável que ela sequer se referisse à sua querida avó, também vidente e parceira de Vó Nena. Mas lembrando da missão controlou-se, sorriu e respondeu:
- Juíza Arlete, amava e amo minha avó mais do que tudo. Sei que ela teve excelentes razões para fazer o que fez. Assim como eu tenho. Com licença.
Virou as costas, mas deu dois passos e se virou:
- Aliás, minha avó sempre dizia que cada um escolhe seu caminho, e sendo assim merece totalmente o que vai encontrar ao final dele. Um bom evento, juíza!
Com as coisas horríveis que Vó Nena havia contado sobre Arlete se misturando à agonia que sentia pela proximidade com aquela mulher, Tatiana chegou ao ponto de se sentir tonta. Ficou muito claro para ela que a juíza queria a caneta, mas como sabia de sua existência e para quê a queria, a jovem vidente não conseguiu saber. Apanhou um copo d´água com outro garçom, bebeu tudo de um gole, verificou as canetas que trazia no outro bolso do blazer e ficou ao lado de uma janela para tomar ar.
Esforçou-se para rememorar tudo que Vó Nena havia contado na noite anterior a respeito da maldição da caneta azul.

- A caneta azul, meus netos – começou Nena na sala subterrânea de sua casa, que uma vez fez parte da maior fazenda da região – não foi sempre maléfica. No começo passou de mão em mão dos maiores compositores da música brasileira. A primeira, que me contou pessoalmente sua história, foi Inezita Barroso.


A anciã contou como a compositora, uma das maiores da música raiz, escreveu várias músicas de sucesso com a caneta. Depois, como se tornou comum ao longo de sua trajetória, o objeto foi passando de uma pessoa para outra.


- Uma porcaria de uma caneta esferográfica vagabunda! – prosseguiu Nena. – Mas como disse, desde os anos 60 até os 70, 80, a coisa foi passando de mão em mão em shows, encontros, bastidores... um emprestava pro outro que emprestava para o seguinte...


Apesar de não gostar nem um pouco, Vó Nena comentou que o auge mesmo foram os anos 80. Uma das mais criativas e prolíficas fases da música brasileira, principalmente o rock.


- O rock brasileiro dos anos 80 foi o melhor! – comentou Daniel.


- Tem quem goste – riu Vó Nena. – Mas concordo, meu neto, muito melhor do que o que se fez depois.
- A partir dos anos 90 começou a chuva de merda – disse Samuel.
O rapaz levou um cascudo de Vó Nena, que vociferou:
- Olha a porra da linguagem, caralho! Essa é a educação que sua mãe deu a vocês?
- Desculpa, Vó – disse Samuel massageando o cocuruto, bem onde a bengala dela havia acertado.
- Alimentada pela criatividade natural do brasileiro, a caneta nessa época não chegava a ser um objeto ruim. Mas de qualquer modo, foi quando começaram os rumores, e todas as coisas de poder como ela têm que ser tratadas com respeito, ou podem ficar perigosos. E foi isso que aconteceu a partir dos anos 90.
Quase ninguém havia se tocado, até então, que a caneta azul, além de nunca terminar, permitia que alguém talentoso desse livre fluir à sua imaginação e criatividade. Os rumores, correndo entre a comunidade mística e dos caçadores, chegaram enfim aos ouvidos de um empresário ganancioso, que em um golpe de sorte conseguiu obter a caneta.
- E foi aí que toda a merda começou – comentou Vó Nena. – Podem contar, meus netos, essas porcarias que o povo chama de música desde então, a partir dos anos 90 e começo dos anos 2000, a maioria absoluta foi escrita por essa caneta maldita.
- E conforme era usada para compor músicas cada vez piores, mais apelativas e “grudentas”, a maldição da caneta foi ficando pior, é isso? - perguntou Tatiana.
- Isso mesmo, minha querida – respondeu a anciã.
- Lembro quando começaram um pancadão lá no bairro – comentou Tatiana. - Os moradores se reuniram e reclamaram, mas nada dos folgados parar com o barulho. Nem chamar a polícia adiantou. Precisou o Seu Abílio, barbeiro conhecido de lá, dar uns tiros de espingarda para dispersá-los.
- Eu lembro – disse Daniel. - E o delegado Esperidião queria prender o Seu Abílio!
- O povo não deixou – acrescentou Tati. – Fez um cordão humano na frente da casa dele e o delegado teve que desistir. Aí na noite seguinte esse mesmo grupo começou a fazer barulho perto da Praça dos Pássaros, perto de onde estavam.
- Mas daí se estreparam, pois o José mora lá – disse Vó Nena. – Chamou toda a cambada de lobisomens dele e tocaram o terror com os filhos da puta dos funkeiros. Eles bem que tentaram chamar a polícia, mas o Esperidião nem se meteu a besta desta vez.
- Claro, quando tem algum Encantado envolvido ele acoberta tudo – acrescentou Samuel.
- E esses arruaceiros tentaram mais uma vez, mas como era perto da casa do Ramalho, ele no dia seguinte conseguiu aprovar na Câmara de Vereadores um projeto proibindo esse lixo de pancadão na cidade – finalizou Vó Nena. – Pra alguma coisa boa aquele pastor de merda serviu.
Todos riram. Então Nena passou os olhos pela ampla sala subterrânea, guardada por uma porta de carvalho muito sólida e cheia de trancas, além de vários feitiços. Ali estavam guardados livros, amuletos, e todo tipo de objeto místico ou mágico que a velha caçadora havia coletado ao longo das décadas. Apontou para uma caneta tinteiro exposta em seu estojo, sob uma cúpula de vidro, e acrescentou:
- Então, meus filhos, do jeito que está agora, a caneta azul só é menos perigosa que essa outra, que o calhorda do Vargas usou pra escrever aquela porra daquela carta testamento.
Os garotos se entreolharam. Também já haviam ouvido aquela história. O documento escrito pelo ditador é unanimidade entre a comunidade mágica e de caçadores como um dos objetos místicos mais maléficos do país. Vó Nena ouviu até mesmo de Esmeralda que, como parte de sua missão, ela um dia conseguiria destruí-la, ajudando a trazer novos tempos para o Brasil.
- E ainda tem a caveira de burro enterrada em Brasília – comentou Samuel.
- Isso mesmo, meu querido – aprovou Vó Nena. – E que, dizem os boatos, foi levada para São Bernardo durante os últimos dias de governo daquele outro filho da puta, poucos anos atrás. Disso não temos certeza, mas as buscas prosseguem.
Vó Nena se levantou apoiando-se na bengala de pau-brasil, olhou para os jovens e pensou como fora abençoada com aqueles meninos. Depois, com voz firme, concluiu:
- Mas nosso trabalho amanhã é a caneta azul. Vamos dormir, meninada, que teremos um dia cheio!

Samuel circulava com o Fusca Azul, apesar de continuar a não se sentir confortável no carro. Este tampouco gostava dele, fazendo brilhar os instrumentos do painel com uma luz vermelha, coisa que ele preferia ignorar. O semáforo fechou, e calhou que ele ficou parado junto à calçada, bem perto da mesa de Daniel e Vó Nena.
- Tatiana disse que encontrou a juíza Arlete, e sentiu que ela quer a caneta – veio dizer Daniel. Seu irmão respondeu:
- Só falta aparecer o Ramalho.
Fulgêncio Ramalho, autointitulado “pastor”, era vereador da cidade, enriquecera depois de fundar sua própria igreja, e era um dos maiores inimigos de Vó Nena. Daniel riu e comentou:
- A Vó duvida, porque o Ramalho é “carola” demais para usar um objeto mágico.
- Mas ele transformou o Vladimir, que ajudou Vó Nena por anos, em capanga. E o traíra deu a ele assunto para seus cultos. Dois filhos da puta que se merecem!
- O que você disse aí, moleque? – gritou Vó Nena da mesa.
- Nada Vó, tenho que ir, o farol abriu – respondeu Samuel.
Atrás já começavam as buzinadas, e o Fusca Azul acendeu os instrumentos e faróis com vermelho intenso, e chegou a engatar a ré para acertar o carro do impaciente que buzinara atrás, antes de Samuel forçar o câmbio, engatar a primeira e sair.
Ao lado, dois moleques que passavam ficaram se socando e dizendo “Fusca Azul”. Daniel riu e voltou para a mesa.

Tatiana ainda precisaria, após obter a caneta azul de Mané Gomes, escrever a matéria para o jornal do amigo de seu pai. Assim, após o começo da entrevista tomou notas em um pequeno caderno, fez uma pergunta genérica para a mais conhecida sensação da música brasileira, e escreveu a resposta esperando conseguir entender sua própria letra apressada.
Ela reparou que Mané estava acompanhado de um auxiliar, um rapaz forte de terno, e que carregava uma pequena bolsa que Gomes lhe havia entregado antes de sentar-se em uma cadeira diante dos jornalistas. E Tatiana observou também que foi dela que o candidato a músico famoso tirou algumas canetas a fim de assinar autógrafos para quem quisesse, ao final da coletiva.
Tati apanhou o celular, afastou-se até um canto e ligou para o namorado.
- Daniel, vou precisar de você aqui. Tenho uma ideia, mas seria bom contar com apoio próximo.
- Estou indo, meu amor – disse o rapaz desligando.
A vidente ligou em seguida para o outro irmão, pedindo que Samuel ficasse com o Fusca pronto para partir na viela atrás do hotel.
A equipe de Tamara Bonfá filmava tudo, Aristeu gravou uma conversa mais longa com Gomes após as perguntas dos demais jornalistas, que ficaram todos por ali aproveitando o coquetel servido e conversando. Tatiana reparou que Gomes bebera muitos copos das bebidas alcoólicas servidas, e viu quando ele se encaminhou para o banheiro, com o auxiliar atrás.
Ela viu Daniel nesse momento e apontou para a direção em que eles seguiram. Desviando-se das pessoas Tatiana chegou ao corredor isolado onde se situavam os banheiros, e viu que o sujeito alto aguardava na porta. Ela se aproximou, abriu o blazer e percebeu que chamou a atenção do rapaz.
- Oi, tudo bem? Estou cobrindo a coletiva do senhor Gomes para o Jornal da Cidade, e queria saber se poderia falar com ele.
- Não, o senhor Gomes só falará com exclusividade para o programa da Tamara Bonfá.
Tatiana fez cara de emburrada, aproximou-se mais do rapaz e passou a mão por seu braço, dizendo:
- Ah, por favor, vai. São só duas ou três perguntinhas... e claro que depois vou querer uma entrevista sua também, saber como é trabalhar para o novo astro da música brasileira. Vai ajudar a alavancar sua carreira com certeza!
Tatiana já havia descoberto que, aliada a um pouco de charme e lábia, sua faculdade permitia que tivesse certa influência sobre as pessoas, principalmente aquelas de “mente fraca”. “Mestre Obi-Wan”, era como Daniel às vezes a chamava. Conferindo-a de alto a baixo, o auxiliar de Gomes acabou cedendo.
Daniel, perto de onde o corredor começava, se misturava à multidão e assistia discretamente à “performance” da namorada.
Quando Gomes apareceu, Tatiana usou dos mesmos subterfúgios, e no estado em que se encontrava o projeto de músico não resistiu a ela.
- Você é mesmo uma graça, menina.
- Obrigada, senhor Gomes. Então, ao que o senhor atribui o sucesso da música?
- Ah, dou graças a Deus por isso, tenho mais de mil outras que escrevi, e espero que possa fazer sucesso com elas também!
- Que bom, torço para isso – respondeu Tatiana continuando a escrever no caderno. Ela então balançou a caneta que usava, e lançou um olhar sedutor para Gomes, ao mesmo tempo em que sinalizava discretamente para Daniel com a outra mão.
- Senhor Gomes, o senhor poderia me emprestar uma caneta? Acho que a tinta da minha acabou.
- Claro, minha querida – e o auxiliar abriu a bolsa, remexeu nela e tirou dali uma caneta verde.
Tatiana olhou para a caneta, depois para Mané e disse:
- Senhor Gomes... fico até sem graça de pedir...
- Tudo que uma moça bonita assim quiser!
- Sabe, sou uma jornalista muito meticulosa, e faço questão de escrever sempre em azul no meu caderno. Método profissional, sabe?
- Mas claro! – disse Gomes ainda enrolando a língua. – Sei bem o que é isso!
Ele remexeu na bolsa e tirou uma caneta azul. Tatiana no mesmo instante sentiu algo a respeito do objeto, ao que Mané acrescentou:
- Sabia que foi esta mesma a caneta azul com que eu escrevi Caneta Azul?
Tatiana segurou o objeto, esforçou-se por um instante para ignorar as energias que dela fluíam, e respondeu:
- Nossa, mas que honra! É bem rápido, senhor Gomes, muito obrigada!
Tatiana colocou a ponta da caneta sobre a folha, mas deixou o caderno cair ao chão.
- Como sou desastrada! – ela disse.
Gomes deu um cutucão no auxiliar, que se abaixou para apanhar o caderno. Ao mesmo tempo Daniel chegou fingindo que também havia bebido demais, e disse com voz enrolada:
- É aqui o banheiro? Acho que aquele último copo foi demais!
- É sim, moço.
E com os dois distraídos Tatiana aproveitou, enfiou a caneta azul maldita no bolso e escreveu no caderno entregue pelo auxiliar com uma esferográfica comum, que entregou a Gomes dizendo:
- Muito obrigada, senhor Gomes! O senhor não faz ideia de como me ajudou!
- Eu que agradeço, minha querida!
Gomes já foi abraçando Tatiana, ela retribuiu a contragosto mas logo conseguiu se livrar. O pretenso músico comentou:
- Vejo a menina bonita hoje no programa da Tamara Bonfá?
- Depois desta exclusiva, pode contar com isso!
O auxiliar guardou a caneta na bolsa e conduziu Mané Gomes de volta para os jornalistas. Ele não tirava os olhos de Tatiana, que aguardou pacientemente que eles desaparecessem para bater na porta do banheiro. Daniel saiu, e o casal foi andando no sentido oposto, passando por uma porta que era um acesso auxiliar à cozinha.
- Deu vontade de bater nesse safado – comentou Daniel.
- Oh, o cavaleiro quer salvar a dama em apuros – ironizou Tatiana.
Eles se deram as mãos, mas a vidente se mostrava cada vez mais incomodada com o objeto místico que estava em seu bolso. Por cima sentiu uma presença atrás deles, enquanto desviavam dos cozinheiros e outros trabalhadores da grande cozinha, e após cruzarem mais uma porta ela olhou pela pequena janela desta.
A juíza Arlete os seguia, e sua expressão parecia furiosa.
Depois de cruzarem mais alguns aposentos e corredores acharam a saída para a viela, onde Daniel os esperava. Arlete abriu a porta segundos depois e ficou olhando para o trio no carro.


O Fusca Azul acendeu instrumentos do painel e faróis em um vermelho intenso, e engatou sozinho a primeira, roncando forte o motor. A juíza se assustou, mas Samuel engatou a ré e eles se afastaram, entrando no trânsito sob uma saraivada de buzinas. Mais uma volta no quarteirão do hotel e apanharam Vó Nena, rumando em seguida para casa.
Arlete ainda olhava para a viela vazia, depois apanhou o celular e teclou um número.
- Esperidião, sou eu. Os netos de Nena pegaram a caneta. Olha a linguagem! Eu sou uma juíza, enquanto você é só o delegado da cidade. É, conversamos depois.
Arlete virou as costas e entrou pela mesma porta por onde saíra.

- Esse programa da Bonfá valeu a pena! – comentou Vó Nena descendo as escadas do porão. – A cara que a filha da puta fez quando voltou do intervalo foi a melhor!
Segundo a anciã sua história com a apresentadora vinha de longa data, mas nunca entrara em maiores detalhes. Os jovens esperavam que, quando sentisse a necessidade, a experiente caçadora falasse a respeito com eles.
A caneta azul foi depositada junto a outros objetos, incluindo outras canetas bem mais refinadas, um par de óculos, abotoaduras, alguns monóculos e um par de luvas femininas, em uma gaveta trancada a chave de uma velha escrivaninha de carvalho. Sobre esta, entre dois aparadores, vários livros que Vó Nena alertara a eles repetidas vezes para nunca abrir sem que ela estivesse presente, incluindo um que ela dizia que era a versão original do Necronomicon, do árabe louco Abdul Alhazred, dado a conhecer ao mundo pelo escritor e mestre do horror cósmico H. P. Lovecraft.
- Então, e agora Vó? – perguntou Tatiana.
A anciã se aproximou da garota, deu-lhe um beijo e acariciou lhe o rosto, antes de dizer:
- Agora a caneta azul maldita está segura, minha filha, assim como todas estas coisas. E você, tá melhor?
- Sim, Vó, obrigada. Carregar essa coisa me deixou cansada, só isso.
Vó Nena sorriu, deu um tapinha na lombada do Necronomicon e disse:
- Nem te conto como sua avó ficou quando conseguimos nos apossar deste aqui. Pela baba de Cthulhu! – e riu.
- Outra história que adoraríamos ouvir, Vó – comentou Samuel.
- Quando for o tempo, meu neto – disse ela. – E você, Daniel, agiu bem, gostei muito de ver como trabalharam bem em equipe.
Eles subiram as escadas, Vó Nena fechou todas as trancas e recitou um encantamento.

Noites depois, Tatiana acordou sobressaltada. Sentou-se na cama banhada em suor, tremores tomaram conta de seu corpo, e ela voltou a sentir as mesmas as energias negativas de quando a caneta azul maldita esteve em seu bolso.
Um rumor se aproximou, e ela percebeu que era um carro vindo pela rua. O som estava no último volume, e ela ouviu a música composta pelo instrumento maléfico.
A vidente suspirou, acalmou-se, bebeu um copo d´água e jogou-se novamente na cama.
Pelo menos da ameaça de coisas piores vindas daquela coisa estavam livres.

Gostou? Saiba mais sobre Vó Nena e os Caçadores nas tags abaixo, e confira VÓ NENA E OS CAÇADORES: O FUSCA AZUL.


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Até a próxima!

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Superpato Novas Aventuras parte 24

SUPERPATO 50 ANOS

PKNA 46 Nell'ombra


O lançamento deste número foi em 1 de outubro de 2000. Tem início em um distante planeta, com vários alienígenas reunidos em uma taberna que praticamente nada deve a uma famosa cantina, a de Mos Eisley. Um ancião afirma ser um contador de histórias, é ameaçado pelo barman, mas uma coisa que ele diz chama atenção de um dos clientes. Ele afirma conhecer a história do fim de Evron. E o frequentador interessado é ninguém menos que Zoster, que foi um importante cientista evroniano, e que conhecemos de PKNA 1 (conforme vimos na parte 3) lançado no Brasil como Sombras sobre Vênus, e também de PKNA 15 Motore/Azione, parte 10.

O ancião conta a história de Xadhoom, como ela derrotou o Império Evroniano e como se tornou uma estrela para ajudar seu povo. Zoster sai com um grupo variado de alienígenas. Enquanto isso, na Ducklair Tower, Superpato e Um analisam o dispositivo de armazenamento no qual a amiga xerbiana deixou registrada suas memórias. Nisso, Zoster interroga o ancião, que havia mencionado que as memórias de Xadhoom não estavam perdidas, e que ela possuía um aliado: o Superpato!


Nosso herói e Um tentam obter mais informações com uma projeção holográfica de Xadhoom a partir do dispositivo, mas a fala da xerbiana é enigmática. A caminho da Terra, Zoster discute com seus aliados, enquanto o ancião conta a uma mãe e seu filho a história de Xado, como ela era feliz em Xerba e amava as estrelas. Um continua a análise do cartucho de memória, mas um vírus nele embutido causa alguns problemas com os equipamentos da Ducklair Tower, acordando Donald.

Zoster participa de um ritual do líder dos alienígenas que o acompanham, enquanto é ativado algum tipo de esporo monstruoso, o último haga conforme lhe dizem. O monstro é lançado e começa a invadir a Ducklair Tower, Um experimenta um alarme e chama Donald, que entra em ação como o Superpato. O ancião prossegue sua história, descrevendo como Xado se tornou uma das mais importantes cientistas de seu mundo (onde todos são cientistas, aliás) e descobriu o amor com Xari. Nosso herói encontra e começa a batalhar contra os invasores monstruosos, mas ele e Um enfrentam uma dura prova já que são muitos.


O pato descobre que os invasores estão atrás do cartucho, tenta impedir que o levem, mas leva um tremendo choque. Os monstros conseguem seu intento, mas o Superpato, em um grande momento, se recusa a permitir que levem a última lembrança da amiga. Em uma lindamente desenhada página cheia de ação (a arte, aliás, é do grande mestre Disney Lorenzo Pastrovicchio) ele literalmente voa pelo labirinto da Ducklair Tower até seu objetivo, o hangar!

A bordo de sua nave, Zoster começa a decifrar o cartucho, enquanto o ancião conta como a maior descoberta de Xado chegou simultaneamente a maior tragédia possível, a destruição de Xerba com a invasão evroniana. Tudo que restou para a agora Xadhoom foi a vingança. O Superpato se aproxima da nave inimiga, que está sendo tomada pelo monstro haga, e combate seus tripulantes em seu velho estilo, e encontra finalmente o cartucho com as memórias da amiga. Porém, Zoster move a nave para perto do Sol, tendo aprendido todos os segredos transmitidos pela memória da xerbiana.


Voltando para casa na nave de Everett Ducklair, Superpato conversa com a projeção de Xadhoom e se alarma quando ela diz que deu ao evroniano Poder e Potência (o mote dessa raça, que depois se tornou o título do retorno do universo de Ficção Científica de nosso herói, na primeira história de Superpato Nova Era publicada no Brasil na Mega Disney 7). O evroniano, em uma sequência dramática de páginas, adquire os poderes inimagináveis da ciência de Xadhoom, prometendo fazer mundos se ajoelharem diante dele.

Nosso herói teme o pior, mas Xadhoom explica que poder é controle. Discernimento. É medido por força e orientação. E poder é também o seu oposto, e contém os germes de sua própria derrota. Então ela explica que o inimigo não possui nenhuma dessas qualidades. Nisso, o ancião repete essas mesmas palavras, enquanto Zoster, diante do poder sem controle, se desintegra.

Xadhoom obtém sua última vingança, contra seu último inimigo. O ancião termina sua história, dizendo que o último inimigo conheceu sua última derrota, e não irá retornar. À criança que pergunta ele responde quem sabe a moça um dia retorne, e explica para a mãe desta que ele conhece a história porque a viveu, já que a moça era sua filha. Com lágrimas nos olhos deseja que Xadhoom finalmente descanse. A projeção da amiga desaparece, e Superpato ruma para casa.


Uau! Nem seria necessário comentar, mas com certeza essa foi uma história emocionante e um digno final para a trajetória de Xadhoom em Superpato Novas Aventuras. Outras referências na história são do monstro alienígena, que lembra muito o Alien, e as cores da transformação de Zoster no final. Branco, vermelho e preto são também as cores da transformação alquímica, almejada séculos atrás. Finalmente, o momento da metamorfose do evroniano tem semelhanças com a que David Bowman experimenta ao final de 2001: Uma Odisseia no Espaço.

Um dos melhores da série sem dúvida! E vamos adiante!

PKNA 47 Prima dell'alba


Publicada em 1 de novembro de 2000, esta trama desenhada por Marco Gervasio representou outra despedida, desta vez a de Angus Fangus. Nosso herói encontra o repórter nas docas, e após uma agradável conversa com várias trocas de insultos, eles se separam. Nisso, pescadores em um barco no oceano observam um objeto vindo do céu cair na água, e dele emerge um alienígena muito semelhante ao Predador, já antecipado pela capa da edição.

Na página seguinte, estranhamente, vemos um sujeito com cara de poucos amigos conversando com um grupo de primatas que acaba de inventar a roda, com dinossauros ao fundo. Alguns reclamam dessa composição, que evidentemente contraria o que sabemos da paleontologia, já que os dinossauros foram extintos muito antes do surgimento dos primeiros primatas. Mas o fato é que já é um clichê clássico do cinema e dos quadrinhos, basta lembrar dos Flintstones!


Angus Fangus, nesse meio tempo, encontra o Câmera 9, que afirma que tem um furo para ele, mostrando uma maleta. Bandidos surgem bastante interessados no objeto, mas seus planos são atrapalhados por uma explosão. Superpato está lutando contra o alienígena, que se apresenta como Raznor, e evidentemente Angus fica todo animado pensando em como usar o que vê para suas habituais matérias contra o herói. O alien derruba um helicóptero da polícia e o pato se afasta para salvar os oficiais. Raznor então encontra Angus e Câmera 9, e os dois são salvos pela arma de dardos tranquilizantes dos bandidos. Após uma breve luta conseguem escapar também destes.

Outra cena do sujeito com os primatas antecede o contato do paralisado Raznor com sua nave, que emite um campo de energia que cerca as docas. Ninguém consegue entrar ou sair, e enquanto Um fala com Superpato surge novamente o alienígena para atacar o herói. A luta é duríssima e nosso pato recebe a improvável ajuda de Angus Fangus. Eles fogem, enquanto o alien retorna para sua nave.

Em cenas em flashback descobrimos que Raznor foi incumbido da tarefa de vir à Terra e obter um aparelho alienígena cuja função não é explicada. Na cena seguinte ele visita seu arsenal, em outra cena muito semelhante a algumas vistas nos filmes do Predador. Melhor equipado ele tem um novo confronto com o Superpato, que depois opta por uma retirada. Raznor aciona os sensores de sua armadura, e finalmente detecta o aparelho que está procurando.

Escondidos, Angus e Câmera 9 abrem a maleta e descobrimos que ela contém o dispositivo alienígena. Câmera 9 comenta que, a noite, tem o hábito de percorrer os subterrâneos de Patópolis filmando escondido os tipos mais estranhos e perigosos, pretendendo com isso um dia produzir um documentário. E ele descobriu negócios escusos de um conhecido tenente da polícia, da mais elevada reputação, com um criminoso muito conhecido. Bandidos subitamente confrontam os policiais, e na confusão Câmera 9 foge com a maleta, mas é seguido.


Os bandidos chegam nesse momento, e logo surge também Raznor. Os meliantes não são páreo para o alien, que em seguida ameaça a dupla. Superpato chega para o resgate, mas no confronto o dispositivo é acionado, e eles também vão parar em tempos pré-históricos. Descobrimos então que o sujeito que apareceu antes é Tod Buster, informante de Angus, e que primeiro havia descoberto o dispositivo alienígena. Após muita confusão o Superpato o aciona e eles voltam para seu tempo. Infelizmente para Angus nada foi gravado por Câmera 9, pois a bateria da câmera acabou, mas Buster comenta com ele que possui informações sobre falcatruas do mesmo tenente da polícia visto pelo Câmera 9. Arqueólogos descobrem estranhos desenhos rupestres de primatas perseguindo uma criatura desconhecida, e nossos heróis são brindados por um belo nascer do Sol.

A história é divertida, e vemos como Angus desenvolveu até um carinho, bem a seu modo, para com o Superpato. A atmosfera da aventura varia grandemente conforme as cenas, trazendo até alguns momentos dignos de detetives noir, e brincando com o mistério do conteúdo da maleta.

E antes de encerrar, mais novidades sobre as publicações de quadrinhos Disney! Quem acompanha o blog deve ter lido a respeito das notícias da sequência das séries de encadernados em capa dura que a Panini já está lançando, e que eram publicadas pela Abril. Mais recentemente, o tradutor e editor Marcelo Alencar confirmou a informação, postada no grupo Disneyanos do Facebook, de que um dos próximos encadernados será de Fantomius! Já existe inclusive o ISBN e outros dados:


Conforme Marcelo Alencar ainda comentou o autor da série, Marco Gervasio, adorou a capa feita pelo artista Fábio Figueiredo, que inclusive postou a seguinte imagem em sua página no Facebook:


Onde será que já a vimos anteriormente?

Com 236 páginas, o volume em capa dura com As Espantosas Façanhas de Fantomius – Ladrão de Casaca, trará ainda de acordo com Marcelo Alencar oito dos episódios do mestre Marco Gervasio. Sim, amigos, é o primeiro, outros virão, e cada um terá também textos extras e desenhos do autor. Vale ainda lembrar que foi Marcelo Alencar o responsável por textos extras que saíram na antológica edição Superpato – O Legado da Abril em 2013, quando da publicação das primeiras histórias de Fantomius no Brasil, além de ter sido o responsável pela tradução das histórias do universo de Superpato Nova Era que saíram na Disney Big nos últimos tempos da Abril.

Mais excelentes notícias para os fãs dos quadrinhos Disney, que andavam muito nostálgicos a respeito das grandes histórias, grandes aventuras e grandes sagas protagonizadas por esses personagens inesquecíveis. Marcelo Alencar ainda deu a entender que o universo PK, precisamente o que analisamos neste especial do Escritor com R, pode igualmente ser publicado pela Panini. Ainda não ficou claro se será a fase Novas Aventuras, de que tratamos aqui, ou das histórias mais recentes da fase Nova Era.

Mas o que importa mesmo é que as grandes aventuras Disney estão voltando!

Semana que vem, a parte final deste especial Superpato 50 Anos!

Até a próxima!

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

O Halloween


O grupo de adolescentes vinha batendo à porta de todas as casas da rua, gritando o bordão “gostosuras ou travessuras”. Chegaram finalmente àquela casa antiga, com ar de mansão mal-assombrada. Vultos eram visíveis pelas janelas acesas, através das espessas cortinas. O grupo bateu na velha porta de madeira, enquanto lá dentro se ouviam vozes:

- Bob, cacete, se esconde seu zé-ruela! Eles vão reparar nesse seu cabeção se ficar parado na frente da janela!

- Joca, sua finesse intelectual me surpreende... Só falta dizer que vai atender a porta...

- Mio-o-o-lo... – disse uma voz tenebrosa.

A turma deu de ombros, confiante que haviam chegado a uma festa de Halloween, e se animaram diante do que parecia mais um saque bem sucedido. Bateram de novo e repetiram “gostosuras ou travessuras”. 

O que houve a seguir foi absolutamente inesperado. Do velho lustre que pendia do pequeno telhado sobre a porta de entrada saiu um cone de luz muito brilhante, e no mesmo instante os adolescentes se viram em outro local. Assustados se agarraram uns aos outros buscando proteção, e começaram a gritar diante das três figuras que os observavam.

Joca, o lobisomem, abriu as imensas mandíbulas e abocanhou o rapaz com fantasia de esqueleto. O alienígena cinza Bob olhou os recém chegados com as mãos nos bolsos da bermuda de surfista e voltou a dirigir-se para a mesa, onde um homem nu estava preso por correias e amordaçado. Já Zé, o zumbi, disse:


- Mio-o-o-lo...

E avançou contra a namorada do jovem fantasiado de esqueleto, começando a devorá-la sem se importar com seus gritos.

Vanda, a bruxa morena vestida com um tubinho preto e botas até o joelho, ergueu o o rapaz fantasiado de zumbi com o poder de sua varinha e o jogou no caldeirão onde uma poção verde-gosma borbulhava. Já a namorada desse infeliz, que usava caninos postiços se fazendo de vampira, foi agarrada por Nicolas, vampiro que nesta noite se vestia de motoqueiro, camiseta branca e calça jeans, além da jaqueta de couro, já mandando um xaveco típico e batido:

- Olá, a menina vem muito aqui? – ao mesmo tempo em que mostrava os dentes.

Denis, o serial killer, observou por um momento os amigos ocupados em seus afazeres, e voltou em seguida a dedicar sua atenção à vítima amarrada com fita adesiva a sua mesa:

- Pois é, caro ex-ministro Horlando Silveira, suas falcatruas e as dos seus pares, que custam bilhões dos impostos que o povo sofrido é obrigado a pagar, com certeza ceifam mais vidas que eu e meus amigos aqui... Veja estas reportagens, mortos nas filas dos hospitais, favelas proliferando na imundície, crianças sem escolas... Quem são os verdadeiros monstros, nós ou os responsáveis por tais calamidades, ou seja, vocês políticos? Eu poderia perguntar o que tem a dizer a respeito, mas este não é um julgamento, e sim uma execução.

Denis observou a comprida e afiada faca, enquanto o amordaçado Horlando lutava contra as amarras, desesperado com o fim chegando. O serial killer perguntou ao gray:

- Ei, Bob, tem certeza que encerrou com este aqui?

O alienígena se aproximou, postando-se junto à ponta da mesa, e tamborilando o crânio do ex-ministro:


- Caro Denis, já estudei o cérebro deste corrupto por tanto tempo quanto minha paciência permitiu, e devo dizer que não pude tirar muitas conclusões. São incompreensíveis os motivos deste indivíduo! Diante de tantos malfeitos, por exemplo, não apenas jurava inocência, como tentava fazer parecer que eles eram, na verdade, virtudes, passos necessários para o bem do povo ao qual servia. Muito peculiar... depois “céticos” como você, Kaijiro, perguntam qual o interesse que nós alienígenas podemos ter em relação a Terra! Este fenômeno é um grande desafio para nós!

Kaijiro Matsuda lutou contra as amarras que o prendiam à mesa, mas estava agora de bruços e com um instrumento peculiar introduzido em um lugar nada confortável. Denis aproveitou para perguntar:

- Bob, em primeiro lugar, os aspas quando disse “cético” pareciam quase visíveis. Não é o caso desse aí?

- Claro que não, meu caro Denis! Nosso amigo Kaijiro Matsuda é líder de uma comunidade cujos membros dizem ser céticos, mas que na verdade não estão minimamente interessados no debate! Querem é desmentir tudo e abafar os fatos, por ego, vingança, futrica ou coisa parecida.

- Aposto que esse frosô não vai mais dizer que você não existe, né, Bob? – perguntou Joca roendo um fêmur.

- Nunca podemos subestimar a estupidez humana, caro licantropo – respondeu Bob. – Mas até por isso não apliquei a meu amigo Matsuda aqui o apagador de memória. Faço questão de que se lembre de tudo!

Kaijiro tentou berrar contra a mordaça, sem sucesso. Zé, ainda lambendo o cérebro da vítima, disse:

- Mio-o-o-lo...


- E em segundo lugar – retomou Denis – qual é a dessa sonda anal? Para que serve?

Bob deu uma risadinha, apoiou o cotovelo na mesa, e a cabeça grande e oval na mão de quatro dedos, respondendo:

- Caro Denis, vou contar um segredo: para nada! Como dizem os terráqueos, é pura sacanagem mesmo, um arremate especial de um processo de abdução para quem merece, certo, Kaijiro? Eu e meus compatriotas tivemos a idéia depois de os terráqueos começarem a criar lendas urbanas a respeito.

O falso cético tentou berrar de novo, sem sucesso. Bob completou:

- Também fiz uma sondagem bem caprichada no Horlando aqui, que pareceu gostar bastante!

Ele e Denis riram, enquanto o ex-ministro se debatia. O serial killer finalmente se posicionou, ergueu a faca, e a enterrou no coração do corrupto. O sangue logo escorreu pela mesa, começando a cair ao chão recoberto por plástico. Vanda, ainda mexendo a mistura no caldeirão, disse:

- Denis, querido, não se esqueça que preciso da cabeça, hein? Esta poção necessita de cérebro fresco de corrupto!

- Mio-o-o-lo – disse Zé.

- Ah, não dá! – reclamou Nicolas. – Garota, para sua informação, se fantasiar de vampira, mas usar uma camiseta do Justin Bieber, não funciona nem neste e nem em nenhum universo! Aí, Zé, tá a fim?

- Mio-o-o-lo – respondeu o zumbi.

- Ah, sobremesa, você fica com o mio-o-o-lo e eu com o resto, Zé – riu Joca.

Zé bateu o crânio da menina no chão como se fosse um coco, e depois sorveu a iguaria que tanto apreciava produzindo uma trilha sonora de muitos “SCHLEPT” e “SLURP”. Joca por sua vez avançou nas tripas, miúdos, e depois palitou os dentes com o antebraço da menina, enquanto perguntava para Nicolas:

- Mas e aí, ô do sanguinho, por que diacho não quis a menina?

- Já disse, cachorrão, vampira fã de Justin Bieber não dá!

- Esse Justin Biba é aquele frosô que a mina da semana passada estava ouvindo?

O vampiro fez um ar de enfado, suspirou e respondeu:

- Esse mesmo. O que passa como música hoje em dia?! Ainda lembro dos show dos Beatles em Liverpool, e do Elvis em Los Angeles. Aquilo era música! E suas fãs eram especialmente suculentas...

- Mio-o-o-lo – disse Zé lambendo os beiços.

Bob, por sua vez, acionou alguns comandos depois que parte de seus instrumentos deixou de funcionar, e apanhou a arma de raios apontando-a para uma criatura de pele escamosa, grandes olhos e garras, e que saiu correndo e rindo, dizendo com voz esganiçada:

- Gizmo, caca!

No instante seguinte o ser explodiu diante da descarga da arma de Bob, que praguejou:

- Malditos Gremlins! Por pouco não desativam a camuflagem de casa mal assombrada de minha nave!

Depois de se acalmar, Bob aciona mais alguns comandos, e uma luz se acende sobre Kaijiro. O “ceticuzinho”, como o alienígena o chama, desaparece, e ele comenta:

- Pronto, devolvido, quero ver o que ele vai escrever em seu fórum da Internet depois dessa!

- O abestado deve ter ficado fulo, hahahaha – riu Joca. – Ei, Bob, e as roupas do cabra ali no canto?

Bob olhou para onde o lobisomem apontou, deu de ombros e respondeu:

- Que coisa, esqueci... depois jogo no reator da nave. Só o teletransportei para uns quatro quarteirões da casa dele, não será problema.

Nicolas ainda estava sentado no sofá todo largado, e Joca sentou-se a seu lado, dizendo:

- Ô, Nicolas, deixa de ser frouxo, homem! Largou uma menina toda gostosinha só porque ela gosta de cantorzinho que significa?

O vampiro cruzou os braços, olhou para Joca, e se manteve com cara de emburrado. Depois finalmente respondeu:


- Lobisomem caipira ninguém merece! Escuta aqui, Joca, nós vampiros temos classe e finesse, não basta ir enfiando os dentes, não! A sedução e o mistério fazem parte de uma boa caçada. São o tempero de uma farta e sangrenta refeição! A vítima, no fundo, tem de querer que suguemos seu sangue, entendeu?

- Pois o sanguinho dela tava bom demais, sô! E o resto também, hehehe – disse o lobisomem soltando um arroto caprichado.

Vanda apanhou a cabeça de Horlando Silveira, mas Denis fez questão de abri-la para a bruxa. Com um golpe certeiro o cérebro ficou exposto, e a bela morena o apanhou, comentando com uma expressão de asco:

- Eca, não é o primeiro cérebro humano, ou quase, que uso em uma poção, mas isto não deveria cheirar assim!

- Mio-o-o-lo – disse Zé, fazendo cara de criança a quem é negado um presente, quando a bruxa jogou o cérebro no caldeirão.

- Pois é, até nisso os corruptos se mostram diferentes, não é mesmo? – disse Denis abraçando a bruxa por trás. Nicolas, que se revezava com o serial killer na preferência dela, não tentou disfarçar o ciúme.

Vanda beijou a bochecha de Denis e fez com que ele a largasse, continuando a mexer a poção com um comprido bastão. Disse:

- Mas retomando o que vocês conversavam, verdade, meninos, a decadência dos humanos é algo espantoso! Vejam só nosso próprio caso, criaturas sobrenaturais e alienígenas, ninguém mais tem medo da gente! Viramos motivo de diversão, personagens da literatura, lendas urbanas, teorias da conspiração...

- O que está querendo dizer? – perguntou Bob.

- Quero dizer, cabeçudinho – respondeu a bruxa – que me assusto com isso. É verdade! Vejam o caso deste pulha, Horlando Silveira, por exemplo. Como Denis bem colocou, indiretamente ele e seus comparsas, e também colegas da política, mataram muito mais gente que nós. Bem mais!


- E aí, boniteza? – quis saber Joca.

A bruxa largou o bastão, fechou o caldeirão e tirou as luvas, examinando a roupa para ver se não havia respingado. Depois dirigiu-se à poltrona vermelha, cujo revestimento de couro era artisticamente costurado em grandes gomos, os saltos altos das botas produzindo um agradável som a cada passo. Sentou-se, dando uma cruzada de pernas digna de Sharon Stone, e fez pose como se fosse a rainha daquele clube. Olhou para os amigos e finalmente respondeu:

- O que quero dizer é que tudo, absolutamente tudo que os humanos fazem, tem se tornado a cada dia menos inspirado, menos vibrante, e cada vez mais sem imaginação, medíocre mesmo! Minha amiga, Magali...

- Você sabe que a Magali é doida, né? – disse Nicolas. – Para quê uma bruxa precisaria de uma coleção de bolas de cristal, e outro tanto de baralhos de tarot? Essa mania de prever o futuro... Ela não tem se saído melhor que aqueles malucos, profetas do juízo final que ganharam o Ignobel esse ano!

Vanda o fulminou com um olhar penetrante, cruzou os dedos onde reluziam as unhas pintadas de esmalte vermelho berrante, e disse:

- Nicolas, meu vampirão gostosão, a questão não são as  previsões de Magali, mas o pano de fundo delas. Todos esses sinais, a mediocridade reinante, e nem preciso lembrar-lhes da classe política deste país, com quem nosso amado Denis faz um trabalho brilhante... – o serial killer sorriu para ela nesse momento – Quero dizer que tenho consultado minhas fontes, e algo parece estar mesmo se aproximando!

- Abestagem, fofa – disse Joca.

- Besteira! – discordou Nicolas.

- Não tenho opinião formada, e de qualquer jeito, matéria prima para fazer meu trabalho certamente nunca irá faltar – disse Denis alisando a faca.

- Mio-o-o-lo – concordou Zé.

- É claro que, entre os humanos – comentou Nicolas – existem monstros muito piores do que nós. Sempre existiram, e o mundo até hoje não acabou por isso. Veja o caso de Denis, por exemplo. Claro que ele presta um serviço público, mas seus atos não seriam aceitos pela lei humana. Sem ofensas, meu caro!

- Sem problema, amigo – disse Denis sorrindo, terminando de guardar suas mortíferas ferramentas.

- Pois é o que penso – reagiu Vanda. – Provavelmente até nós teremos com o que nos preocupar em 2012.

- Minha cara, não se preocupe. Não há nenhuma invasão alienígena programada para 2012, asseguro.

Vanda cruzou os braços, olhou para o gray e perguntou:

- E quem aqui falou de invasão alienígena, Bob? O que quer dizer com isso?

Com expressão de menino sendo pego fazendo alguma travessura, Bob olhou para Vanda, depois para os amigos, e finalmente voltou-se para sua tela holográfica, desconversando:


- Então... parece que a ronda dos aborrecentes caçadores de doces terminou.

- Eu soube que ia rolar um concurso de cosplay na praça aqui perto – comentou Denis.

- Poderíamos ir lá – animou-se Vanda.

- Ah, sim, ninguém iria reparar em nós – ironizou Nicolas.

- Pois seu abestalhado, não iam mesmo! – respondeu Joca.

- Isso é lógico, com todos fantasiados, poderíamos nos misturar à multidão sem problemas – comentou Bob.

– Viu? Até o Spock aí concorda! Tá a fim, sua boniteza?

O lobisomem ofereceu o braço para a bruxa, que aceitou depois de vestir um sobretudo, e ambos saíram em direção a porta. Zé foi atrás:

- Mio-o-o-lo...

Denis, Nicolas e Bob olharam um para a cara do outro, e decidiram acompanhar o resto do grupo. Saíram para a noite, enquanto passavam por eles crianças barulhentas com os pais, adolescentes com as mais variadas fantasias, e pessoas normalmente vestidas que só queriam ver o movimento.

- Fantasia legal, moço! – disse para Bob um menino que passou correndo. O garoto cutucou os amigos que acompanhava, e todos olharam para o alienígena sorrindo, levantando polegares em aprovação.

- Já esses dois – disse um dos moleques, apontando para Nicolas e Joca – que fantasias fraquinhas...

- A bruxa está gostosa, olha só – aprovou um terceiro.


Vanda, satisfeita, ajeitou os seios dentro do vestido muito justo, arrumando a gola do sobretudo que deixava o decote bem a mostra. Com o casaco fechado somente até a cintura, suas esculturais pernas calçadas nas longas botas sobressaíam enquanto andava. Depois de acompanhar Joca para fora ficou um pouco com Nicolas, e já estava de braço dado com Denis, que apenas sorria.

- E você, moço? – quis saber o menino que elogiara a “fantasia” de Denis.

- Ah, eu estou de serial killer, sabe, eles se parecem com pessoas normais.

- Tá bom – o garoto deu de ombros e correu para junto dos amigos. Deu uma olhada em Zé, que se arrastava atrás do grupo, mas não pareceu gostar do zumbi, que dizia:

- Mio-o-o-lo...

- Crianças de hoje em dia, não apreciam a classe, tudo tem que ser o mais espalhafatoso possível! – reclamou Nicolas.

- Esses moleques estão muito folgados, deveria dar é um corretivo nessas pestes! – revoltou-se Joca. O lobisomem ergueu as orelhas, e instantes depois disse:

- Acho que é lá na frente...

Os monstros chegaram a uma grande concentração de pessoas na praça. Um palco havia sido montado, e quem estava fantasiado ali subia para fazer algum tipo de apresentação.

- Pelo visto o concurso de cosplay já começou – disse Denis.

- Os pretensos vampiros presentes são uma ofensa à minha venerável raça – reclamou Nicolas.

- Se eu cruzar com um lobisomem frufru descamisado, o cabra vai lamentar o dia em que nasceu  - prometeu Joca.

- Que pena, nenhum alienígena, temo que assim eu acabe chamando muita atenção...

Os temores de Bob se mostraram verdadeiros quando os mesmos garotos se aproximaram correndo e o puxaram, praticamente o obrigando a subir ao palco. O gray não teve escolha a não ser ficar ali, enquanto muitos aplaudiam pedindo que fizesse uma apresentação.

Vanda e Denis ficaram preocupados, mas Joca uivando, e Nicolas aplaudindo, incentivaram o visitante a prosseguir. Zé, por sua vez, observava com expressão confusa os fantasiados de zumbis, dizendo:

- Mio-o-o-lo...

Bob, vencido pela insistência, finalmente disse:

- Caros terráqueos, é um prazer estar entre vocês nesta tenebrosa noite de Halloween. Preparem-se para ser abduzidos!

Ele apanhou sua arma de apagar mentes, apontando para a platéia que aplaudia entusiasmada, alguns gritando “já ganhou”. No último instante Bob decidiu não usar o instrumento, guardou-o e deu um pequeno aceno como despedida.

- Não tem medo de que os terráqueos ameacem sua missão? – perguntou Vanda quando o gray voltou para perto deles.

- Nem um pouco, minha cara. Como sabe é muito fácil para mim ler as mentes terráqueas, e todos acreditam que sou mesmo alguém fantasiado. Gravei todas as informações com meu dispositivo de vigilância, e elas talvez se revelem úteis – encerrou, apontando para o medalhão também de surfista que pendia de seu pescoço.

Uma garota vestida de bruxa subiu ao palco e, fazendo às vezes de apresentadora, anunciou o último grupo da noite. Um trio de jovens surgiu, uma garota em roupas normais de adolescente, um rapaz musculoso de calça jeans e sem camisa, e um outro jovem com maquiagem pesada que clareava bastante sua pele. A menina começou:

- Oh, Jacobi, eu gosto de você como amigo, mas amo o Edwaird!

O moço sem camisa agarrou o braço dela dizendo:

- Ele é um vampiro, e vai machucar você!

O outro garoto empurrou o primeiro, dizendo:

- Você não pode interferir no que existe entre mim e Bellah, lobisomem!

Nicolas e Joca se entreolharam, abriram caminho entre a platéia e subiram ao palco. A apresentadora protestou:

- Ei, o que estão fazendo? O concurso é somente para quem estiver com fantasias caprichadas!

- Ah, mesmo? – Nicolas cruzou os braços e ficou encarando a menina.

- Não gosta da gente, é guria? – perguntou Joca.

- Ei, é nossa vez aqui, ô, mané! – o “Jacobi” do trio já chegou empurrando o ombro de Joca. O lobisomem olhou seu falso congênere e disse:

- Seu lobisomem descamisado e abestado de araque, se encostar de novo...

- Vai fazer o que, mané, com essa máscara ridícula?

“Edwaird” também resolveu mostrar sua “macheza”, cruzando os braços e encarando Nicolas, dizendo:

- E você, que coisa ridícula! Vampiro de jaqueta de couro e com presas, ah, vá, que coisa mais out e fora de moda! É um mané também!

Nicolas o encarou também, enquanto o outro rapaz empurrou Joca mais uma vez, e os demais ficaram olhando. O lobisomem só olhava para o pulha, e suas orelhas tremiam de indignação pela afronta. O garoto estendeu o braço mais uma vez dizendo:

- E aí, mané, calou a boca?

No mesmo instante Joca abocanhou o braço, arrancando-o como se fosse de papel. O sangue jorrou forte, e por alguns momentos o silêncio só foi quebrado pelos gritos de dor de “Jacobi”. A seguir, todos começaram a berrar em pânico e correr desordenadamente para todos os lados.


Bob quase foi derrubado pela apresentadora, que corria como se Joca estivesse atrás dela. Mas o lobisomem jogou o braço do moleque atrevido no chão e avançou contra ele, terminando o serviço.

Nicolas agarrou a menina que interpretava “Bellah”, dizendo:

- Agora vai conhecer um vampiro de verdade, e não essa fadinha delicada e purpurinada!

Enterrou com vontade as presas. “Edwaird” berrou histericamente e saiu correndo, e depois de largar a menina, Nicolas saiu trás dele, dizendo:

- Não esqueci de você não, moleque, deixa eu te mostrar como um vampiro autêntico e com presas faz, venha cá, venha!

Minutos depois, os monstros andavam até em casa.

- Ainda bem que o ataque de Joca espantou o restante das pessoas – disse Bob. - De todo modo, as poucas cenas porventura gravadas por alguém vão acabar na Internet. Vi muitas câmeras e celulares funcionando.

- A coisa mais fácil é fazer truques com o computador, todos dirão ser uma fraude – comentou Denis.

- Mio-o-o-lo... – disse Zé, parecendo satisfeito pela refeição que teve no meio da confusão.

- Lobisomem descamisado é o  fim da picada! – reclamou Joca. – Essa gente abestada precisava mesmo de uma lição!

- Acredito que restauramos nossa reputação – comentou Nicolas.

Vanda ia comentar alguma coisa, quando parou subitamente ao ouvir algo. Os demais iam perguntar, mas ela fez sinais para pedir silêncio. Os murmúrios vinham de trás da cerca de uma casa, e ela caminhou para lá cautelosamente.

Os demais a seguiram, e todos puderam ouvir as palavras:

- Molokhai... maledictum... Nosferatus...materializandus corporalis... Diabólicus! Blasfemum! Abominabilis!

- Mio-o-o-lo... – disse Zé.

Gritos abafados foram ouvidos, e logo três meninas apareceram exibindo expressões assustadas. Uma delas disse:

- Vanda! Tudo bem? Que susto.. ei, que legal a fantasia de zumbi do seu amigo!

- Oi, Laurinha... pessoal – disse Vanda virando-se para os amigos – essa é Laura, uma amiga minha, e suas amigas.

- Que fantasias legais! Eu sou Michele.

- Olha que lobisomem e vampiro legais! Meu nome é Amanda.

Nicolas e Joca ficaram se “achando”, e o vampiro disse, dirigindo-se a Vanda:

- E você dizendo que a humanidade estava em decadência... anda existem aqueles humanos que nos têm em alta conta! Obrigado, minhas jovens!

- Mas o que estavam fazendo, Laura? – perguntou Vanda.

- Ah, estávamos lendo este livro, comprei essa semana em um sebo – respondeu a menina. – Tudo a ver com Halloween, né?


Vanda observou o grande volume exibido com orgulho pela menina, e subitamente sua expressão mostrou susto e medo. No mesmo instante raios e trovões encheram o ar, nuvens negras revolutearam sobre o lugar onde estavam, e uma imensa sombra surgida atrás deles percorreu o chão, finalmente cobrindo a todos de forma ameaçadora.

Eles se viraram, e Vanda constatou que o livro de Laura não era uma publicação qualquer. Aproximou as mãos, fazendo crescer um vórtice de energia mística azul diante do peito, enquanto dizia:

- Queridos, acredito que ainda teremos trabalho neste Halloween...

Bob apanhou o controle remoto da nave, acionando o comando de prontidão máxima de combate. Denis, que adorava crianças, afastou as meninas enquanto Joca e Nicolas se preparavam para a luta contra a presença gigantesca que se aproximava. Zé disse apenas:

- Mio-o-o-lo...


Escrevi esta peça em 2011, e espero que tenham gostado, especialmente da fusão de elementos. Fantasia, ficção científica, horror... e toda a diversão do Halloween, claro.

E, se o leitor me permite sugerir, se seu negócio é ficção científica, fique com A Lista: Fenda na Realidade.

Alienígenas? Sem problemas, confira Filhas das Estrelas.

Prefere fantasia, horror, folclore? Experimente Vó Nena e os Caçadores: O Fusca Azul.

E claro, tenha um horripilante e muito divertido halloween! Ou Dia do Saci, , opções não faltam.

Até a próxima!