segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

O Sexto Gatinho


Os gatinhos corriam pelo mato em desabalada carreira. O assassino de sua mãe vinha logo atrás, rosnando e resfolegando.
Maria era por alguns minutos a mais velha de seus cinco irmãos. Todos haviam completado dois meses, e ainda mamavam. Agora, sem a mãe, e correndo cada vez para mais longe de sua casa, sua sobrevivência dependeria exclusivamente da sorte.
A gatinha na verdade não refletiu muito tempo sobre isso. Em pânico como seus irmãos, só o que importava naqueles momentos de terror era salvar a própria vida.
E seu perseguidor se aproximava cada vez mais...
Um súbito clarão que iluminou toda a área fez todos os gatinhos pararem, e buscarem um lugar seguro. Maria escondeu-se com dois de seus irmãos, enquanto os outros dois enfiavam-se por baixo de uma moita próxima. Felizmente, ali o mato era bem mais alto, cheio de lugares para se esconderem.
Maria percebeu quando o imenso cachorro parou ao ver o clarão, afastando-se um pouco em seguida, ganindo baixinho. Mas ela não tinha ilusões, sabia que ele voltaria para tentar pegá-los.
Pegá-los como fizera com sua mãe. A pequena gatinha sentia-se triste, pois não teria mais o calor materno, nem seu quente leite que a alimentava tão bem. Não era justo!
Esses sentimentos abandonaram sua jovem mente, quando uma sombra grande veio andando em sua direção. Era vagamente semelhante aos humanos que já conhecia, mas havia algo errado. Seus braços, pernas e cabeça eram diferentes, as proporções dos mesmos não eram de um humano normal. E definitivamente nenhum humano seria tão magro.


Maria viu a sombra aproximando-se cada vez mais. As folhas que a cobriam foram afastadas, e a gatinha olhou para dentro de imensos olhos negros, mais escuros que a noite que os envolvia.
Algo aconteceu a seguir, enquanto ela sentia uma onda infinita de carinho e amor. A sombra que via diante de si encolheu com uma rapidez espantosa, até ficar não maior que sua própria sombra. Maria decidiu sair de seu esconderijo e investigar, enquanto seus irmãos ainda se escondiam, temerosos.

Ela era a mais velha, e agora tinha que cuidar da família.
Sua surpresa chegou ao infinito ao ouvir um miado, idêntico aos que ela e seus irmãos soltavam frequentemente.
Outro gatinho surgiu, quase idêntico a todos eles. Maria aproximou-se devagar, preparada para tudo, farejando e por vezes sibilando. Se fosse outro agressor, ao menos dessa vez ela confiava que poderia encará-lo. Ser do seu tamanho ajudava em muito.
Voltou a sentir a onda de carinho, que inundou todo seu ser. Aparentemente também o de seus irmãos, pois todos aproximaram-se do recém-chegado. Ele foi farejado longamente por todos, e logo era aceito como parte da família, ao se esfregarem mutuamente, ronronando de satisfação.
Algo disse a Maria que o nome de seu novo irmão era Zed. Por que o sabia, não conseguiria explicar. Na verdade, a gatinha estava muito satisfeita por ter mais um irmão, mais um que ajudaria a defender o grupo.
Nesse exato momento, ouviram um rosnado por trás deles.
Era o cachorrão, o mesmo monstro que assassinara cruelmente sua mãe. A fraca luz da Lua em quarto crescente, os gatinhos olharam aterrorizados para os olhos faiscantes, e os dentes que breve, certamente, iriam destroçá-los impiedosamente.
Todos se encolheram, menos aquele recém-chegado. Zed encarou o cachorro com ar de paciência, parecendo em sua muda linguagem, estar tentando fazê-lo desistir de seus planos de trucidar aquela família.
O cachorrão continuou rosnando, aproximando-se devagar. Quando mais próximo, mais forte o rosnado. Maria manteve-se a frente dos irmãos, tentando ao máximo protegê-los. Afastaram-se o quanto puderam, e ela via apenas as sombras de Zed e do cão.
O que seu novo irmão estava fazendo?
O cachorro passou a latir, e finalmente atacou, soltando um rosnado que arrepiou os pêlos de todos eles. Zed não poderia ter qualquer chance.
O rapidíssimo movimento das sombras que Maria viu não lhe permitiu acompanhar direito a cena. Mas os ruídos medonhos que escutou provaram que alguma coisa espantosa estava acontecendo. Pois o cachorrão, aquele monstro temível que os aterrorizara, de repente soltou um ganido, logo substituído por uivos de desespero. Estes, por sua vez, logo deram lugar a urros de dor, uma dor horrenda, indescritível...
O mais arrepiante para Maria foi ouvir ruídos de mastigação, carne sendo dilacerada, ossos sendo quebrados... Em instantes, tudo passou, e os arredores voltaram a mergulhar no silêncio.

Maria viu a sombra de Zed, e percebeu quando ele voltou a fechar uma boca estranhamente imensa, muito maior do que se poderia esperar de um gatinho de seu tamanho. Ela também ouviu quando ele emitiu alguns sons borbulhantes, como se vomitasse algo.
Zed por fim aproximou-se deles, sentou-se, e lambeu os pêlos sujos de sangue das patas. Maria aproximou-se dele, cheirou-o, e percebeu que não estava ferido. Ele ainda soltou um soluço, e cuspiu um grande objeto circular de couro, com uma fivela de metal.
Como esse objeto fora parar dentro de Zed, Maria também não sabia. Só o que sabia era que, milagrosamente, estavam a salvo. Ronronou, esfregando-se em Zed, e finalmente ambos conduziram seus ainda trêmulos irmãos para longe dali.
A difícil e perigosa viagem de volta para casa havia começado.

Na manhã seguinte, o sítio nas proximidades da periferia de Campinas estava bem movimentado. Era aniversário da esposa do dono, e um churrasco estava sendo preparado. Mas nem tudo era festa.
Fernanda não havia parado de chorar, desde que dera pela falta da gata e dos filhotes. E tudo piorou ainda mais, ao encontrarem o corpo dilacerado da mesma. Dos pequenos, nenhum sinal.
Quem não estava envolvido na preparação do churrasco encarregou-se de dar buscas na propriedade, ver se encontrava os gatinhos. Já passava de onze da manhã, e nada.
Leonardo Ramos havia chegado, pedindo desculpas por haver se atrasado. Cumprimentou o tio e a tia aniversariante, e explicou que seu telefone não havia parado a manhã inteira:
 - Muita gente viu um objeto brilhante no céu, exatamente aqui pela região. Pode se outro caso de ovni.
- Quando é que você vai abandonar essas lorotas, rapaz, isso não existe!
Seu tio sempre fora cético, só acreditava em coisas que pudesse ver e tocar. A tia, com a mente menos fechada, gostava muito de ouvir e contar histórias, ligadas a folclore, misticismo, e casos estranhos.
A prima, Fernada, veio e abraçou Leonardo. Ainda tinha os olhos vermelhos, e explicou o que havia acontecido. O tio, fazendo piada, disse:
- Vai ver, esse tal de disco voador que você falou raptou os gatinhos...
A menina, que fizera treze anos havia pouco, brigou com o pai e saiu andando. Leonardo disse que o tio não tinha jeito, e foi atrás da prima, dizendo que iria ajudá-la. E ainda completou:
- Daqui a pouco Kássia chega com o namorado, eles podem ajudar também.

Zed conduziu o grupo pelo mato alto com grande segurança. Maria não sabia em que direção estavam indo, mas confiava que o amigo iria levá-los para casa.
Por volta do meio dia, estavam todos com fome, e enquanto Maria ficava com os irmãos, Zed foi caçar. Voltou minutos depois, trazendo dois peixes que havia pego no riacho próximo. Saiu novamente, e voltou com mais dois. Maria não se preocupou em refletir como um gato tão pequeno como Zed, do mesmo tamanho que todos eles, poderia pegar peixes tão grandes.
Todos comeram, e ainda ficaram um bom tempo ali descansando. A viagem poderia ser bem longa, e valia a pena perder um pouco de tempo.

Kássia, irmã de Leonardo, chegou por volta do meio dia com Roberto Azevedo. Desde que se conheceram, enquanto pesquisavam um estranho caso ufológico na região de Jarinu, eles sempre se falavam, e haviam afinal começado um namoro.
Assim que chegaram, foram informados dos acontecimentos por Leonardo:
- E enquanto preparam o churrasco, estamos tentando encontrar os gatos, mas sem sucesso. Encontramos uma pista, em um terreno próximo ao limite da propriedade, e...
O casal estranhou que Leonardo parasse de falar de repente, e Roberto, por fim, perguntou:
- E o que mais, Leonardo?
Sem dizer nada, ele apenas fez sinal para que o acompanhassem. Seguiram por uma trilha até a cerca que delimitava a propriedade, onde havia uma porteira. Depois de a atravessarem, ainda andaram uns cinco minutos, e de longe viram um pequeno grupo de pessoas, colonos e funcionários daquele e de outros sítios, reunidos em uma roda. Todos olhavam algo estranho no chão.
Quando chegaram perto, já sentiram um cheiro esquisito. Roberto aproximou-se mais, protegendo o nariz daquele fedor, e observou o que haviam encontrado.
Era um amontoado de carne, ossos esmigalhados, sangue e outros materiais, obviamente de origem animal. Um objeto nas proximidades era inconfundível, e parecia denunciar que tipo de bicho era aquele.
Roberto apanhou um graveto, erguendo a coleira, enquanto dizia:
- Acho que pegaram o cachorro de alguém.
- Mas o que é essa... coisa, essa baba toda? Eca, que coisa nojenta!
Leonardo riu da observação da irmã, aproximando-se para também examinar o achado. Foi quando outras pessoas se aproximaram, e ele logo as reconheceu:
- São do sítio aqui ao lado, meu tio odeia o proprietário, vivem brigando.
Como que para confirmar isso, o sujeito mal encarado que vinha na frente, vendo o que Roberto sustentava pendurado no graveto, agarrou a coleira e disse:
- O que vocês estão fazendo aqui? Essa é a coleira do meu cachorro, o que é que...
Apenas então viu os restos, olhou para a coleira em sua mão, e a jogou no chão com asco. Roberto sorriu com leve ironia, voltou a erguer a coleira com o graveto, e disse:
 - Reconhece isto, senhor...
- Meu nome é Osvaldo. Sim, é a coleira do meu cachorro. Esse monte de... coisa, aqui, não está querendo me dizer...
Roberto deixou a coleira cair ao chão, jogou o graveto longe, olhou para os amigos, a seguir para Osvaldo, e respondeu:
- Acho que isso é o que restou de seu cão, senhor...
O homem vociferou, ameaçou, xingou, mas Leonardo devolveu a ofensa, dizendo:
- Acho que sabemos quem matou a gata de minha prima, ela foi praticamente mastigada, e sei que esse seu cachorro vivia invadindo a propriedade de meu tio!
- Eu sempre falei para ele reforçar essa cerca, mas não, sempre tem que ser como ele quer!
- E o senhor não facilita em nada também, disse Kássia. Não é a primeira vez que acontece, seus cachorros vivem invadindo aqui e matando a criação de meu tio! E agora ele espantou os filhotes da gata, não sei como faremos para encontrá-los.
Osvaldo chamou os funcionários que o acompanhavam, se afastando. Parou, virou-se e ainda disse:
- Se encontrar essas pragas em minha propriedade, eu mesmo os esfolo, estejam avisados. E vocês também, nem tentem entrar em minhas terras!

Depois que haviam se afastado, Roberto comentou:
- Que panaca!
Todos riram, e o funcionário de outro sítio vizinho comentou:
- Ele anda bravo, ainda mais depois que perdeu a criação de galinhas faz uns dois meses.
Os ufólogos ficaram interessados, e o homem disse que houve mortes estranhas de animais nos sítios da região. Alguns falavam em cachorros do mato, outros em criaturas estranhas.
- Andaram dizendo que até o tal de chupacabras tem atacado por estas bandas...
Eles se entreolharam, sem encontrar uma explicação. Leonardo e Kássia dispunham-se a continuar a procura, e Roberto, diante do que o amigo dissera, sobre o avistamento da noite anterior, começou a ligar os pontos.
Acabaram todos sendo chamados para o churrasco, e assim ficaram, saboreando muitas variedades de carne até o final da tarde. O sítio estava lotado, e todos bebiam e se divertiam.
- O que acha dessa história de chupacabras?
Leonardo fizera a pergunta, e depois de mais um pedaço do delicioso bolo que era parte da sobremesa, Roberto respondeu:
- A maioria absoluta dos casos é de animais nativos, predadores naturais. Até mesmo cachorros abandonados viram feras.
- E aqui na região, será que algum caso pode ser exceção?
Roberto limpou os lábios da namorada, ganhando um beijo em retribuição, e disse:
- Duvido. O cercado onde seu tio mantém os animais, por exemplo, não seria problema para um cachorro faminto. Agora, quando animais aparecem mortos dentro de um cercado, onde existe uma porta mais elaborada... Aí fica mais complicado.

Mantiveram aquele papo por algum tempo, até que Fernanda veio correndo, desta vez acompanhada pela irmã Paola, dois anos mais velha, e disse:
- Disseram que viram seis gatinhos andando pelo acostamento da estrada, não muito longe daqui!
- Seis? Mas eram cinco filhotes, não, Fernanda?
Ela olhou para Kássia, que fizera a pergunta, ergueu os ombros, e respondeu:
- É meio estranho, outro grupo de gatinhos perdidos, não acham?
Roberto voltou, depois de colocar o prato de sobremesa na mesa, e por fim disse:
- Já que terminamos de comer, o que acham de pegarmos o carro e irmos investigar?
O tio de Kássia e Leonardo ainda apareceu, e fez outras piadas sobre o assunto ovni, mas acabou deixando que as meninas fossem com eles.

A noite já ia caindo, e os seis gatinhos continuavam andando. Maria estava cansada, e sabia que seus irmãos também deveriam se sentir assim.
Por outro lado, Zed os conduzia com segurança, e parecia nunca ficar cansado. Quando paravam para recuperar as forças, era ele que sempre ficava de guarda.
Chegaram finalmente a uma vila, na entrada da cidade. Continuaram andando, esgueirando-se pelas ruelas, encontrando aqui e ali pessoas, indo e vindo do trabalho, ou de qualquer outro lugar. Maria achava aqueles humanos muito estranhos.
Só não se sentia assim com sua dona. Fernanda sempre cuidara deles com carinho, e subitamente a gata percebeu que era a única mãe que lhes havia restado.
- Olha só, que gatinhos lindos, vem, vem...
Todos olharam na direção de onde vinha a voz. Maria, com horror, viu que eram três ou quatro moleques, que apanharam pedras e começaram a atirar neles. Todos correram, com Zed fechando a fila para assegurar que nenhum ficaria para trás.
Correram muito, o máximo que suas forças permitiam, quando chegaram em um beco sem saída. O medo não lhes permitira ver onde estavam indo.
Maria olhou para trás, e viu os moleques. Um deles apanhou um estilingue, colocou uma pedra no mesmo, e puxou o elástico até o máximo de seu curso, enquanto dizia:
- Agora vamos nos divertir...
O maldito mirou em dois de seus irmãos, que estavam encolhidos em um canto. Maria sentiu uma infinita raiva, e eriçou os pêlos, sibilando para tentar espantar os moleques. Um outro entre eles comentou, rindo:
- Me passa aquela pedra, acho que essa gatinha tem que aprender uma lição...
A pedra finalmente deixou o estilingue, voando com uma velocidade tremenda na direção dos dois indefesos gatinhos.

Foi quando algo extraordinário aconteceu. A pedra bateu em uma barreira invisível. Os moleques lançaram outras pedras, mas a mesma coisa aconteceu.
 - “Troço” esquisito!
 - O que “tá” acontecendo?
- É coisa ruim, meu, “vamo” embora!
 - Não mesmo, vou acabar com eles!
O que falou por último pegou um pedaço de pau, avançando em seguida contra os gatinhos. E Maria viu outra coisa extraordinária.
 Zed avançou, urrando de uma forma como nunca a gata julgaria possível em um gato igual a ela.
O mais aterrorizante foi sua boca, aberta e imensa, quase maior que o próprio corpo dele. E, pensando bem naqueles rapidíssimos instantes, todo o corpo de Zed parecia pulsar e aumentar de tamanho.
 De qualquer forma, foi mais que suficiente. Ele não machucou os atacantes, que saíram em disparada, gritando apavorados. Quase no mesmo instante, Zed voltou ao normal.
Logo estavam sozinhos e em paz novamente.
Os demais acariciaram e lamberam Zed, e Maria finalmente conseguiu fazê-lo entender que queriam ir para casa. Ali, na cidade, só o que encontrariam era mais perigos.
Zed pareceu concordar, e uma luz intensa surgiu sobre eles. Maria e seus irmãos olharam para a mesma com expressão de assombro, mas por algum motivo sabiam que não havia perigo. Sentiram-se flutuar, e depois descobriam que pisavam chão firme novamente.

Roberto conduziu o carro pela estrada, parando aqui e ali para perguntar a algum andarilho se tinha visto os gatinhos. Com exceção de um, mais ninguém os havia visto.
- Pela direção que estamos seguindo, eles já podem ter chegado a cidade, comentou Kássia.
Concordaram, e Roberto acelerou. Leonardo, no banco de trás, conversava com as meninas para tentar animá-las, e casualmente olhando pela janela, observou algo estranho no céu:
- Olhem lá, gente!
Todos viram um ponto de luz se erguer, aproximadamente sobre a vila para onde estavam indo, quase e Campinas. A luz ergueu-se lentamente, para a seguir passar a deslocar-se na horizontal, aumentando a velocidade. Depois deu um salto, desaparecendo em instantes por trás dos morros, na mesma direção do sítio de onde haviam vindo.
Todos ficaram espantados, e Roberto acelerou. Talvez houvessem testemunhas adiante.
Chegaram a vila, indagando aqui e ali se alguém havia visto um grupo de gatinhos. Uma senhora disse que havia visto uns moleques perseguindo alguns filhotes, e acrescentou:
- Essa molecada é muito “arteira”. Mereciam uma bela sova!
Agradeceram, e foram adiante. As meninas nada falavam, com medo do que pudesse acontecer aos filhotes.

Finalmente, chegaram a uma praça, onde havia um grande número de pessoas. Algumas olhando para o céu, outras conversando animadamente.
 Kássia ficou com Fernanda e Paola, enquanto Leonardo e Roberto iam sondar o ambiente. Para surpresa dos ufólogos, todos falavam exatamente na estranha aparição.
- Uma luz brilhante, que saiu “avoando” prá longe!
- Deve ser coisa do capeta!
- Que nada! É uma sonda, um aparelho dos ets.
- Você “tá” delirando!
Com jeito, os dois fizeram, aqui e ali, algumas perguntas, e parecia mesmo ser um caso interessante para ser pesquisado. Entretanto, tinham pressa, e a prioridade ainda eram os gatos.
- Eu “tava” lá, moço, com os outros que queriam “tacar” pedras nos bichinhos!
Um garoto, de uns dez anos, parecia muito assustado ao descrever a cena. Roberto animou-o a continuar:
- E o que aconteceu?
O menino olhava para todos os lados, e parecia sentir frio, pois estava encolhido e abraçava-se. Depois que Roberto repetiu a pergunta, ele respondeu:
- Não sei como, mas um dos seis gatos avançou, abrindo uma boca enorme, inchando, e urrando “que nem” um leão! Os olhos ficaram vermelhos, e foi a última coisa que vi, pois saí correndo com meus amigos!
 Roberto e Leonardo se entreolharam, e fizeram mais perguntas, sempre rodeando e voltando a determinado aspecto da narrativa, para tentar apanhar o garoto em contradição. Mas não conseguiram, e pela expressão do mesmo, sua experiência parecia mesmo real.
- Eram seis gatos, então?
Leonardo perguntou pela última vez, e o garoto confirmou, para ainda acrescentar:
- Juro que nunca mais jogo pedras em animal nenhum! Depois dessa...
Os ufólogos agradeceram, e se afastaram depois de falar com mais algumas pessoas. Roberto comentou com o colega, em voz baixa:
- Ao menos, esse aí irá se comportar melhor daqui por diante.
Leonardo estava confuso, e comentou:
- Muito estranho! Nunca vi um gato que fizesse o que esse garoto descreveu!
- Será que era um gato mesmo? Ou esse sexto gatinho apenas se parece com um?
A pergunta de Roberto ficou no ar.
Ainda foram até o beco, e não encontraram nada. Roberto lembrou-se que havia calibrado a bússola digital de seu relógio no mesmo dia, e a apontou para onde sabia que era o norte.
Havia uma diferença considerável. Mesmo descontando que a calibragem fora feita em São Paulo, a leitura não iria variar tanto assim.
- Efeito eletromagnético?
A pergunta de Leonardo, lembrando um dos efeitos físicos mais comumente associados a aparições de ovnis, tinha razão de ser. Seria mais uma, entretanto, que ficaria sem resposta.
Decidiram que a melhor coisa a fazer era retornar ao sítio.
Uns vinte minutos depois, estavam de volta. E havia uma certa movimentação. Entraram, e quando encontraram o tio de Kássia e Leonardo, este disse:
- A coisa mais estranha que já vi! Uma luz diferente, esquisita, desceu ali atrás do bosque! Mas não deixei ninguém ir até lá.
Evidentemente, isso não iria impedir Roberto e Leonardo. Kássia foi com eles, e Fernanda também, apesar dos protestos do pai.

Maria não saberia dizer como haviam chegado ali. Seguramente não vieram andando. Mas ela reconheceu o terreno, e sabia que estava próxima de casa.
Seus irmãos mostraram-se animados também, andando e saltitando, esquecendo completamente o cansaço e o medo que sentiram.
Zed os conduziu, e finalmente, reconheceram uma clareira, que se situava em um bosque bem próximo da casa.
Definitivamente, era o final de sua aventura.

Subitamente, focos de luz varreram o terreno, e Maria viu-se ofuscada quando foi iluminada diretamente. Uma voz juvenil disse alegremente:
- Maria! Que bom que encontrei você!
Fernanda abraçou a gata, que também parecia muito feliz por encontrar a dona. Roberto e o casal de irmãos aproximaram-se, e ficaram comovidos com a cena. E também curiosos, pois um gatinho extra subitamente saiu correndo, desaparecendo no mato alto.
- Maria!
Fernanda gritou quando a gata escapou de suas mãos, seguindo o outro bichinho. Todos enfiaram-se pelo mato.
Logo encontraram Maria, ronronando satisfeita. Olharam para cima, e ainda tiveram tempo de ver uma luz, similar a uma estrela, fazer movimentos que pareciam erráticos e finalmente desaparecer no céu.

Todos os gatinhos foram levados ao veterinário. Apesar de cansados e sujos, estava bem de saúde, sem qualquer sequela da aventura.
- Todos vocês viram aquele sexto gato, correndo para o mato, não é?
Roberto parecia inseguro. Kássia riu, e respondeu:
- Claro que sim, até reparei que era igualzinho a Maria e seus irmãos.
- Agora, essa sua teoria...
Leonardo fazia piada, mas de fato não havia qualquer explicação para o que haviam visto. Procuraram no dia seguinte pelas redondezas, mas não encontraram qualquer sinal de possível atividade ufológica.

Maria não se importava com aquilo. Todas as noites, ficava longas horas na varanda, e depois que cresceu o suficiente, no telhado da casa, olhando as estrelas.
Sabia que Zed voltaria um dia. Quem sabe, então, mostraria mais daquelas maravilhas a ela.


Eles dizem que agem com absoluta transparência.

Eles dizem que é evidente que não existem conspirações.
Eles afirmam que é absurda a ideia de extraterrestres nos visitando.
Eles estão mentindo!

O contato com alienígenas é um dos temas mais explorados na ficção científica, motivando histórias plenas de fascínio, terror, suspense, ação e mistério. Esses são elementos presentes em Filhas das Estrelas, uma coletânea de seis contos inspirados por histórias, teorias e conspirações a respeito de discos voadores e seres extraterrestres.



Até a próxima!

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Fantomius o ladrão de casaca parte 8

E chegamos à última parte deste especial sobre o antecessor do Superpato, cujo universo foi brilhantemente criado e expandido graças ao talento e genialidade do quadrinista italiano Marco Gervasio! Até bem pouco tempo atrás estávamos, nós fãs dos quadrinhos Disney, verdadeiramente desamparados, e nossa única esperança para continuar lendo as histórias do Ladrão de Casaca era ter sorte em encontrar as raras edições da Topolino que chegam ao Brasil. Felizmente o trabalho já sendo realizado brilhantemente pela Editora Culturama seguramente fará Fantomius aparecer novamente em nossas bancas!


Criador e criatura: Marco Gervasio e Fantomius!

E em outros locais, já que a casa editorial gaúcha tem um inovador sistema de distribuição, que ainda envolve livrarias, supermercados, papelarias e outros locais, fator que deverá trazer muitos novos leitores, vários dos quais que serão alfabetizados graças aos personagens Disney. Coisa que ocorreu com muitos de nós, claro, o que incluiu, evidentemente, também os personagens de Mauricio de Sousa!

Assim, neste último artigo sobre As Espantosas Façanhas de Fantomius, Ladrão de Casaca, apresento as três histórias ainda inéditas no Brasil. Ao contrário dos textos anteriores este será bem mais enxuto, pois evidentemente não irei revelar detalhes fundamentais das tramas, já que a Culturama deverá apresentá-las a partir de março aos leitores. Os links apresentados, como nas partes anteriores, levam ao excelente site Inducks, mas quem quiser clicar nos mesmos o faça por sua conta e risco, já que ali são revelados detalhes e personagens que constituem surpresas das tramas, combinado?

Antes, porém, por favor visitem o Corujice Literária, onde está no ar a resenha elaborada por este escriba daquela que é provavelmente a mais grandiosa e emocionante história em quadrinhos Disney já publicada, a Saga do Tio Patinhas! Já mencionada na parte 6 deste especial, aliás. Confira a parte 1 e a parte 2 e emocione-se você também!

Vamos então retornar aos anos 20 e as grandes aventuras do Ladrão de Casaca!

La notte delle gemme

Aqui apresento os títulos originais ainda não traduzidos, mesmo que a conversão ao português seja muitas vezes óbvia. Esta trama, que poderá ser apresentada como “A noite das gemas”, foi publicada em Topolino 3273, de 15 de agosto de 2018. Como vimos ao final de O Desafio de Fantomius, Dolly recebeu um telefonema de Lucrécia, sua melhor amiga, que deseja ir visitá-la para apresentar seu novo namorado.


Claro que se lembram da parte 6 deste especial, não é mesmo? Uma das histórias ali apresentadas é justamente a da origem de Dolly Páprika, na qual um dos temas fundamentais é a forte amizade entre ela e Lucrécia.


Na primeira página da trama, sempre revelada no site oficial da Topolino, vemos que John e sua amada ouvem um noticiário no rádio, que comenta um negócio a ser realizado pelos proprietários das cinco Gemas do Marajá. Nosso ladrão preferido logo se interessa, claro!

Não chega a ser surpresa que o dono de uma das joias é o namorado de Lucrécia, o que evidentemente cria uma tensão entre Dolly e John. O que é possível dizer é que o Ladrão de Casaca se revela surpreso por certos desenvolvimentos da trama, mas surpresa mesmo é a revelação no final de quem é o grande vilão da história!

Uma das cenas mais legais da aventura é uma perseguição automobilística entre Fantomius e, claro, o Comissário Pinko. Aproveito esta oportunidade para analisar melhor mais essa referência inserida pelo genial Marco Gervasio. No material que saiu na Itália, reprisado nas edições portuguesas da série As Melhores Histórias Disney (confira nossa análise dos dois primeiros volumes no Corujice Literária), os meios de transporte de Fantomius e Dolly Páprika são descritos em textos ilustrados.


E o mais frequente deles, o fabuloso automóvel cheio de truques chamado de Carro Móvel, é descrito nas fichas como inspirado em um Duesenberg, autêntico supercarro norte-americano dos anos 1920 e começo dos 1930. A fábrica fez seu nome nas corridas, especialmente Indianápolis, e graças a isso desenvolveu uma avançada tecnologia para a época, tornando seus carros capazes de superar, em suas versões mais sofisticadas, os 200 km/h. Iniciando pelo modelo J, a Duesenberg introduziu um compressor no motor para maior potência no modelo SJ.


Depois produziu o SSJ, com dois compressores, modelo do qual somente dois exemplares foram feitos. Naquele começo de anos 30, época de acentuada crise econômica mundial, esses carros caríssimos foram parar nas mãos de dois astros do cinema, Gary Cooper e Clark Cable. Que, claro, chegaram a disputar um “racha”!


Mas mesmo com essas informações, ainda considero que o autor pode ter se inspirado em outro modelo fenomenal da mesma época. Visto sob outros ângulos em outras tramas, o Carro Móvel de nosso herói aparece com formas um tanto mais esguias, ganhando semelhança com o Mercedes-Benz SS, cujo modelo mais radical para corridas foi o SSK.


Um detalhe interessante nesses modelos alemães é que o engenheiro responsável por seu projeto em 1927 foi ninguém menos que Ferdinand Porsche. Sim, ele transitou em várias das marcas alemãs antes de ser o principal responsável pela criação do Fusca, e depois da Segunda Guerra Mundial criou sua própria empresa, sucesso no segmento de carros esporte até hoje.

Não é de hoje que a tecnologia na realidade dos patos é mais adiantada que a nossa, já que as aventuras de Fantomius transcorreram até 1924 nas tramas já publicadas.

Então, o que acham? De minha parte, penso que Fantomius está muito bem servido por ambas as marcas!

La notte delle gemme termina com Fantomius desvendando a trama, porém o grande vilão por trás do esquema permanece oculto de nosso Ladrão Cavalheiro. Vamos aguardar a versão brasileira, a ser lançada pela Culturama!

I due vendicatori

Para mim a Culturama talvez utilize a tradução “Os dois vingadores” para esta trama, originalmente publicada em Topolino 3275 em 29 de agosto de 2018. Com 52 páginas é a mais longa história do Ladrão de Casaca já publicada, e as razões para isso podem ser conferidas já pela maravilhosa capa da revista italiana!


Sim, o que parecia impossível foi realizado com brilhantismo por Marco Gervasio! Na primeira página da trama vemos uma noite chuvosa sobre Patópolis, e uma figura de capa percorrendo as ruas escuras. O que é possível dizer é que John Quackett conhece Donald, pois precisa da ajuda dele para descobrir onde está Dolly. E como eles vieram parar no presente? Talvez os leitores devessem dar uma olhada na parte 1 deste especial, é tudo que eu posso dizer!


A segunda parte da trama, na mesma revista, também teve sua primeira página revelada no site oficial da Topolino, e vemos nossos heróis presos em uma armadilha, com o Tio Patinhas entrando esbaforido. Nas mãos de Fantomius vemos o objetivo da invasão dos Dois Vingadores, e só posso dizer que esse objeto é mencionado tanto nas histórias de Carl Barks como de Don Rosa.


Seja na parte 1 ou na parte 2 da história há montes de referências, uma recriação lindíssima da gênese do Superpato, a descoberta de mais segredos de Vila Rosa, e um final absolutamente arrebatador e emocionante, com a revelação do grande vilão, e outras referências que farão delirar o fã da boa, velha e querida Ficção Científica. Não poderia haver final melhor para esse encontro histórico e belíssimo entre Fantomius e seu digno sucessor, o Superpato! Culturama, vamos apressar aí, hein, a vontade de ler essa obra-prima em português só aumenta!

La settima arte

História publicada em Topolino 3280, de 3 de outubro de 2018.


A primeira página, disponível no site oficial da publicação italiana, mostra um trem chegando a Patópolis, e pelos comentários dos personagens logo nos damos conta de que os passageiros são Gloria Squackson e Ducklas Fairbarks, casal de atores muito famoso graças ao imenso sucesso de seus filmes sobre Fantomius. Naturalmente todos se lembram deles, pois apareceram em uma das melhores histórias de toda a série, Silêncio na Sala, da qual falamos na parte 2 deste especial!


Vale destacar a locomotiva, logo no primeiro quadrinho da história, um modelo bem avançado e aerodinâmico. Em sua dianteira vemos o nome da máquina, The Duck, e o número, 60009. Nada como uma boa pesquisa para descobrir que a locomotiva desenhada por Marco Gervasio é uma reprodução exata do tipo LNER Class A4, lançada em 1935 pela companhia London and North Eastern Railway (daí a sigla). Tais máquinas a vapor foram utilizadas nos Estados Unidos e Inglaterra até o início dos anos 1960.

E de novo, a tecnologia no Universo dos Patos é mais adiantada do que no nosso!


As A4 eram máquinas potentes e aerodinâmicas, e estavam entre os primeiros trens de alta velocidade utilizados comercialmente. Por sinal uma dessas, a 60022 Mallard, detém até hoje o recorde mundial de velocidade para locomotivas a vapor, com 203 km/h obtido em 3 de julho de 1938. E aqui vai a graça desta referência, pois Mallard é também o nome de um pato selvagem comum na Europa e Estados Unidos!

O casal de atores não são os únicos personagens que retornam, e também descobrimos a presença surpreendente de alguém que faz parte do passado de John. Ele e Dolly estão de olho em outra joia que Gloria Squackson irá utilizar nas filmagens de seu novo filme, que têm sido atrasadas devido aos ataques de estrelismo da atriz.

A trama ainda conta com romance, perseguições e reviravoltas, além de uma bela lição nos vilões. Também temos um surpreendente gancho para a próxima aventura do Ladrão de Casaca. Diante do título da história, que poderia ser traduzido como “A sétima arte”, Fantomius e Dolly Páprika sem dúvida merecem um Oscar por sua atuação!


Termina assim este especial sobre Fantomius, o Ladrão de Casaca, uma das melhores séries dos quadrinhos Disney na atualidade, e até de todos os tempos! A Topolino 3280 ainda traz uma entrevista com Marco Gervasio, na qual fala sobre como Fantomius é um filho para ele, e comenta a respeito das premiações que recebeu em Portugal, a Bande Dessinée Disney Portugal como Melhor Desenhista, Melhor Quadrinho e Melhor Série em Quadrinhos.


No evento Romics acontecido em outubro último em Roma, sua cidade natal, Marco teve uma grande exposição de sua obra, e também recebeu o Romics de Ouro como Mestre dos Quadrinhos.


Mais que merecido!

Conforme anunciado, esta parte 8 que encerra o especial sobre Fantomius é bem menor, pois como são histórias inéditas não é possível acrescentar mais detalhes sem dar spoilers. Nós fãs dos quadrinhos Disney estamos todos muito ansiosos pela chegada do mês de março, quando nossos queridos personagens retornarão para as bancas através do já excelente trabalho sendo feito pela Editora Culturama.

Como dito anteriormente, as edições serão Pato Donald, Tio Patinhas, Mickey, Pateta e Aventuras Disney, iniciarão pelo número 0, mas respeitando a venerável trajetória das publicações Disney em nosso país, também trarão os números de sequência de suas respectivas séries. Uma bela homenagem aos leitores fiéis com certeza!

Aguardamos com muita ansiedade também a publicação destas histórias inéditas de Fantomius, enquanto só podemos especular em qual revista elas estarão. Serão mantidas em Tio Patinhas, ou migrarão para a Aventuras Disney? E a revista maior em formato americano e com artigos diversos, quando sairá?

E falando em novidades da Culturama, confira esta entrevista do editor Paulo Maffia ao canal Comics TV!


Aguenta coração!

E lembrando que neste ano de 2019 nosso herói preferido, o Superpato, completa 50 anos, podem aguardar que brevemente faremos um especial sobre ele aqui no Escritor com “R”!

Obrigado a todos que curtiram este especial! Vocês podem reler todo ele na íntegra nos seguintes links: parte 1, parte 2, parte 3, parte 4, parte 5, parte 6 e parte 7.

E claro que não poderia deixar de mencionar Fantomius e a origem do Superpato no roteiro que escrevi para um possível episódio da série Ducktales introduzindo nosso maior herói nesse universo, confira aqui Ducktales: O Implacável Vingador.

Até a próxima!

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Literatura Punk

Os vários tipos de literatura punk compõem juntos uma das tendências mais duradouras da fase atual da literatura fantástica. E eu tenho a grande satisfação de haver explorado vários dos gêneros ali apresentados. Vou apresentar aqui algo do que já escrevi e está disponível para os leitores, mas antes quero publicar essa imagem, que dá uma excelente ideia a respeito dos vários tipos de punk já desenvolvidos:


Steampunk

Já havia escrito dois contos anteriormente, um que por sinal se tornou um e-conto lançado pela Estronho, mas minha história Steampunk mais bem sucedida foi Utopia e Nova Atenas: Um Provável Passado. Lançada na Steampunk Tales Collection, faz parte ainda da antologia Steampunk: Contos do Mundo do Vapor da Dragonfly, e tenho recebido muitos elogios por ela.



Abaixo um trecho:

            Nova Atenas começou a ser construída na planície, e aos poucos novos níveis foram subindo pelas encostas da cordilheira, com a Torre Atenas sobressaindo do ponto mais alto desta. De seu último pavimento era possível ter uma visão irrestrita de ambas as cidades. Utopia, construída na planície após a serra ao leste, era mais convencional, com construções ficando progressivamente mais altas conforme se aproximava do centro. Havia grandes edifícios, mas nada remotamente semelhante à Nova Atenas.
            De fato, o nome não chegava a reproduzir perfeitamente o que era a cidade vizinha. Para Pedhro seu aspecto era até bem comum, lembrando os bairros da planície em Nova Atenas. Havia mais autocarros e trens funcionando, e tudo era mais limpo que em sua cidade. Mas pelas ruas ele observou que a vida nem de longe era mais fácil. Multidões se locomovendo a pé, a maioria vestindo roupas bem desgastadas, e muitos rostos exibindo um ar de desesperança que era bem familiar. Aguardando a liberação para atravessar uma grande avenida, ele observou o jornal que era lido por um homem a seu lado.
            Os cabeçalhos das notícias eram reclamações sobre o alto custo dos serviços, as dificuldades de reconstrução, e questionamentos sobre os projetos conjuntos com os inimigos. Pedhro se surpreendeu, pois aquilo diferia e muito da ideia que faziam sobre os vizinhos em Nova Atenas.
            Impaciente, ele se adiantou quando o guarda de tráfego ordenou a parada dos veículos, permitindo a passagem dos pedestres. Depois de andar mais alguns quarteirões, chegou ao destino.
            O Gazeta de Utopia era o maior jornal da cidade, cujas edições eram disputadas até mesmo em Nova Atenas. O trem inaugurado havia pouco permitia uma cobertura muito maior dos acontecimentos nas duas cidades, e a troca de informações e notícias mais rápida que proporcionava poderia mesmo ser um motor para os novos tempos que todos ansiavam. Pedhro observou tanto na fachada quanto no interior que aquele prédio igualmente já passara por dias melhores, e espantou-se pelo intenso movimento no interior.
            Deu seu nome à recepcionista, e recebeu as indicações necessárias. Subiu ao sexto andar, e logo encontrou a mesa da pessoa que viera encontrar. O nome estava escrito em uma pequena tabuleta, e a ocupante estava distraída datilografando um texto.
            — O que é? – perguntou ela continuando a dividir sua atenção entre notas manuscritas em um surrado caderno e a folha na máquina de escrever.
            Ele hesitou um pouco. Fazia muito tempo que não se dirigia a uma moça, especialmente uma que fosse bonita. Pigarreou e finalmente disse:
            — Sou Pedhro Sullivan. Fui mandado pelo professor Artemius Roots para...
            — Ah, sim, o sujeito de Nova Atenas – interrompeu a moça. – Espere um momento.
            Ela continuou datilografando em uma velocidade que impressionou Pedhro, até que finalmente parou, puxou a folha da máquina e passou os olhos atentos sobre ela. Satisfeita, fez uma rubrica no canto inferior direito, refestelou-se na cadeira e pela primeira vez olhou para o visitante.
            Marcie Almara era bonita. Cabelos ruivos presos em um rabo de cavalo, rosto delicado, vestia camisa branca e calças pretas. Um blazer preto estava pendurado no encosto da cadeira onde estava sentada. Observou Pedhro de alto a baixo, levantou-se, vestiu o blazer e saiu andando.
            Quatro passos depois parou, virou-se e perguntou:
            — Como é, você não vem?
            Pedhro, nada acostumado com aquela mulher tão diferente das que conhecia, a seguiu depois de alguns segundos.

O e-conto já mencionado, O Império, o Meteoro e a Guerra dos Mundos, saiu pela Editora Estronho e traz várias referências, a principal sendo evidente, o livro A Guerra dos Mundos do pioneiro H. G. Wells. Segue um trecho:


            O General incentivou o cientista-chefe a ir direto ao assunto. Isabel herdara não apenas o trono mas também o gosto do pai pelo conhecimento e pela ciência.
            Macedo explicou que vinha acompanhando um objeto desconhecido em seu telescópio no Observatório Nacional pelas últimas três noites, e chamou sua atenção que essa coisa vinha se tornando mais brilhante a cada nova observação.
            - Majestade, – disse Macedo – tenho quase total certeza de que se trata de um bólido celeste, um meteoro. E ele segue diretamente para nós. Temo que possa cair nesta noite.
            - E o senhor já determinou onde se dará tal queda?
            Octávio olhou para Ferdinando, tornou a encarar a imperatriz, e finalmente respondeu:
            - Calculei o local do impacto, Majestade, entre o leste do estado de São Paulo e o sul do Mato Grosso. É uma região relativamente desabitada, mas como ainda tenho dúvidas quanto ao tamanho do bólido...
            - Não pode precisar o potencial de destruição, estarei correta?
            - Sim, Majestade.
            - Há mais algum perigo em potencial, Doutor?
            Isabel abraçou o livro que tinha nas mãos, e nesse momento Octávio pôde ler o título na capa: “A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells”. O cientista-chefe se permitiu a ousadia de sorrir levemente, dizendo:
            - Minha amada Imperatriz, se está se referindo ao perigo em potencial contido na leitura que tem em mãos, posso assegurar-lhe que quase certamente não é o caso. A obra do cavalheiro Wells, apesar de muito instigante, resume-se somente a ficção produzida por sua prodigiosa imaginação, nada mais.
            Valente se absteve de fazer comentários, e Isabel suspirou aliviada, mas recomendou:
            - Gostaria que enviassem, de qualquer forma, pessoas capacitadas para as proximidades do local do impacto, se este produzir vítimas. Tem certeza que nenhuma área povoada pode ser atingida?
            - Sim senhora, essa certeza ao menos é absoluta – respondeu Macedo.
            - Se é do desejo de Sua Majestade – disse o General Valente – tomarei providências para que a nau aérea Espírito Santo parta imediatamente para aquela região.
            - Agradeço, General, e devo dizer que também estou imensamente satisfeita com os preparativos da festa da vitória contra a Intentona Republicana. O povo precisa saber que a Casa Imperial sempre estará aqui para servi-lo.
            - Apenas cumpro meu dever, Majestade!

            Maria acelerava o mais que podia o autocarro, sem se abalar pelo golpe de vento que se seguiu ao impacto. Observou ao longe um dirigível da Armada Aérea rumando na mesma direção, e acelerou pela estrada de terra tentando acompanhá-lo.
            Cerca de quarenta minutos após o evento, e baseando-se em uma estimativa grosseira da distância do local até o observatório, a moça presumiu que estava se aproximando.
            Contudo, não estava preparada para o que viu a seguir. Um estrondo pavoroso a fez frear o carro, estacioná-lo na lateral do caminho e seguir a pé. A estrada subia levemente, e quando Maria chegou ao ponto culminante, não conseguiu acreditar no que via.
            A distância de cerca de quatro quilômetros se estendia uma grande planície, e sobre esta o dirigível que avistara antes queimava. E queimava porque era alvo de estranhas máquinas sustentadas por três longas pernas, emitindo disparos que destroçavam a aeronave.
            Maria contou horrorizada um total de dez máquinas que se distanciaram do ponto ainda fumegante da queda do bólido, e depois de destruírem o dirigível rumaram ameaçadoramente para a direção em que estava.
            A jovem correu de volta ao autocarro, dando graças por tê-lo mantido funcionando, deu a volta e disparou para Araçatuba. Sob a fraca luz da lua crescente, no assento a seu lado ela viu de relance a capa do livro que estava lendo.
            A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells.
            - Não é possível! – gritou Maria. Ela acelerou ao máximo, tentando fugir dos monstros que a perseguiam.

            A jovem finalmente encontrou um local de observação, em meio a árvores e arbustos, de onde poderia ver tanto a cratera quanto o terreno além dela. Olhou, e surpreendeu-se com o que viu.
            No momento em que o pensamento de correr de volta ao autocarro atravessou-lhe a mente, foi agarrada e imobilizada. Tentou gritar, mas uma mordaça rapidamente sufocou seus apelos, enquanto suas mãos eram amarradas atrás das costas. Indefesa e apavorada, foi arrastada na direção da cratera.

            Fez pontaria contra o mais distante e disparou o mosquete. O homem caiu morto no mesmo instante, e enquanto o segundo sujeito olhava atônito o companheiro, Rober aproximou-se e transpassou-o com a baioneta. O inimigo teve a boca inundada de sangue, e caiu sem dizer palavra.
            A moça ainda se debatia e o soldado correu até ela. Primeiro livrou seus pés e a colocou no chão, dizendo:
            - Olá, senhorita, sou o Tenente Rober Santos e a livrarei em um instante!
            Correu até a porta, ainda a tempo de ver o pequeno dirigível decolar. Fez novamente pontaria com o mosquete e disparou até acabar a munição. O militar no dirigível, que começou a expelir fumaça do motor, devolveu o fogo com sua pistola obrigando Rober a se abrigar. A aeronave finalmente desapareceu por trás dos morros que circundavam a grande planície.
            Maria surgiu na porta lutando por dizer alguma coisa. Assim que Santos lhe livrou a boca, ela disse:
            - Que tipo de resgate é este? E um dos inimigos ainda se mexe lá dentro!
            Rober novamente a deixou sozinha e entrou novamente, mas a poucos passos porta adentro reparou que o homem ensanguentado conseguiu chegar ao comando de acionamento dos explosivos. Santos voltou a sair, segurou a jovem pelo braço e a arrastou o mais depressa possível.
            A explosão a seguir os jogou ao chão, varrendo o que restava do acampamento inimigo. Santos se recompôs e levantou, auxiliando a moça a também ficar de pé.
            - Está bem, senhorita?
            - Apesar de ainda estar com as mãos amarradas, sim. Se importa?
            Maria virou-se de costas, e Rober percebeu que segurava um livro. Enquanto a desamarrava, perguntou:
            - Por que se preocupa em carregar isso, senhorita?
            Maria massageou os pulsos avermelhados, olhou no rosto de seu salvador e respondeu:
            - Porque é meu exemplar de A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, e não quero perdê-lo de vista.

Referências cinematográficas? Muitos comentam sobre o filme As Loucas Aventuras de James West de 1999, mas eu prefiro o muito mais divertido A Liga Extraordinária, de 2003:


Calma, é claro que a HQ A LigaExtraordinária, de Alan Moore e Kevin O´Neil (com a qual o filme praticamente não tem nada a ver) é um material incomparavelmente melhor. Como falamos de Steampunk aqui, os dois primeiros volumes são os mais adequados. Absolutamente recomendada!

Como referências visuais não poderia deixar ainda de recomendar que conheçam o trabalho do ilustrador brasileiro Alvin Correa. O próprio H. G. Wells se encantou com suas ilustrações, e recentemente a editora Suma lançou uma caprichada edição de A Guerra dos Mundos com suas belas artes!


Dieselpunk


Para mim tanto o Steampunk como o Dieselpunk são gêneros muito visuais, razão pela qual os ilustrei com as imagens que os leitores podem apreciar. Por sinal acima podem ser conferidas duas imagens do V-3, um dos protótipos do Fusca construído e testado em 1936. Abaixo outro veículo, este que faz parte de minha obra, o caça britânico Supermarine Spitfire, um dos mais importantes da Segunda Guerra Mundial.


Uma grande inspiração para mim foi o filme Capitão Sky e o Mundo de Amanhã de 2004. Já pelo trailer dá para ver que a película, com Jude Law, Gwyneth Paltrow e Angelina Jolie, é espetacular!


O que pouca gente sabe é que primeiro os produtores realizaram um curta metragem, tão lindo visualmente quanto o filme:


A produção me inspirou primeiro a escrever um livro, e me valendo ainda de muita leitura e pesquisa sobre a Segunda Guerra Mundial. Uma das fontes foram fascículos da coleção Guerra nos Céus, os anos 1980 foram uma época maravilhosa, por vezes acho que o mundo era melhor nesse tempo...

O livro permanece inédito, e estou no processo de contatar editoras interessadas. Felizmente tive o grande prazer de escrever um conto baseado nele e que, na visão geral da história é um prequel desta, para a antologia Retrofuturismo - Um Compêndio do Comendador Romeu MartinsSobre As Variantes do Punk, da saudosa Tarja Editorial (eis aí outra época que foi deliciosa!). O conto tem o título Céu de Guerra: A Batalha da Inglaterra, uma versão de minha autoria para um dos momentos mais importantes da Segunda Guerra Mundial.


A premissa que torna este universo diverso do nosso é que aqui Santos Dumont, o Pai da Aviação, criou uma indústria aeronáutica no Brasil, que levou adiante a vocação de inovação do pioneiro. Apreciem um trecho:


            O avião de Ricardo Almeida havia acabado de pousar em uma base próxima a capital britânica, e o capitão apanhou sua exígua bagagem.  Desceu, e à distância acompanhou a decolagem de um grupo de Hurricanes, saindo para mais uma patrulha.
            Ricardo caminhou até o carro que, segundo as informações recebidas, aguardava por ele. Apresentou suas credenciais ao motorista, um sargento que fez uma continência desleixada e o convidou por gestos a se sentar. O rádio repetia as palavras do discurso de Winston Churchill, proferidas em 13 de maio último: “Lutaremos nas praias, lutaremos nos campos de pouso, lutaremos nas campinas e nas ruas; jamais nos renderemos!”.
            O brasileiro considerou as palavras inspiradoras, mas ao mesmo tempo pensou que a Inglaterra estava em severa desvantagem, sozinha contra um inimigo cruel e impiedoso, que tomara a maior parte da Europa e agora se voltava contra o Império Britânico.

            À sua espera havia uma figura baixa e franzina, que ele conhecia muito bem. Trocaram um abraço e um aperto de mão, e ele disse:
            - Kirk, você não mudou nada!
            Matheus Kirk, com seu ar de moleque mal saído da adolescência, realmente não aparentava o fato de ser um gênio da mecânica. Respondeu:
            - Ricardo, amigo, não faz tanto tempo assim, não é mesmo?
            Fazia cerca de um ano desde que eles haviam trabalhado juntos na Base Aérea de São José dos Campos, nas instalações da Aeronáutica Dumont, a inovadora indústria fundada em 1923 por Alberto Santos Dumont. Fiel aos princípios do Pai da Aviação, a empresa colocava sua marca de inovação em todos os projetos que elaborava. O avião quadrimotor em que Almeida fora passageiro e voara para a Inglaterra, por exemplo, o Dumont D-55, era o exemplo máximo dessa filosofia. Seus quatro motores sobrealimentados faziam dele o avião mais veloz e de maior alcance em sua classe, desde seu primeiro voo em 1934. Seria um sucesso comercial se a ditadura Vargas não tivesse cortado seu desenvolvimento.
            Santos Dumont, depois de mais atritos com o ditador, havia desaparecido em dezembro de 1934, sendo declarado morto no ano seguinte. Os dois amigos entraram no edifício, e Kirk fez uma pergunta:
            - Alguma notícia de Valentina?
            A americana Valentina Sheridan era a principal razão do exílio de Almeida. Os dois haviam se apaixonado no momento em que o piloto participava dos testes de mais dois dos inovadores produtos da Dumont, o jato de pesquisa D-89 de um motor, seguido meses depois pelo D-90 de duas turbinas e já um protótipo de um futuro caça a jato. Almeida não resistiu à insistência da namorada jornalista, e a levou para conhecer os aviões.

            - Já mostramos como nossos Spitfire com motores radiais Centaurus se mostram melhores em elevadas altitudes que os modelos normais. O pessoal da Hawker, fabricante dos Tornado e Typhoon, também insiste para o Alto Comando dar atenção a nossos relatórios, mas os imbecis dos burocratas insistem que motores refrigerados a ar são menos eficientes.
            - Bom, continuemos usando o que temos, Kirk, é o jeito!
            - Você não entende, Ricardo! A Hawker vai se concentrar no Typhoon, e não teremos mais nenhum Tornado. E para reequipar os Spitfire com o Centaurus, só pegando exemplares já danificados.
            - Por que não tentar melhorar o Rolls-Royce Merlin, então?
            A pergunta foi feita por Denise Landron, que entrava naquele momento. Ela se sentou no sofá ao lado de Almeida, e continuou olhando o engenheiro até que ele respondesse:
            - Estamos trabalhando em uma forma de aumentar a potência do Merlin. Os primeiros ensaios com turbocompressores que fizemos com seu avião, Ricardo, foram promissores. O pessoal da Rolls-Royce ficou bem interessado, e disseram que vão começar seus próprios testes.
            - E o sistema de injeção? – perguntou Denise. – Os diabos dos Messerschmidt Me-109 usam, e ficamos em maus lençóis quando somos obrigados a persegui-los em grandes altitudes, no momento em que os nazistas entram em mergulho invertido. Nossos carburadores engasgam e o motor chega a parar, tomei um susto danado no outro dia.

            Ricardo empurrou os manetes das duas turbinas ao máximo para frente, e sentiu a pressão de toda a potência contra as costas. O caça subia em velocidade vertiginosa, acima de 750 km/h. Nos testes ele já havia levado o D-90 a 14,8 mil m sem forçar muito, e estava confiante em conseguir atingir a altitude necessária para dar combate ao intruso.
            Ele acompanhava pelo rádio as mensagens da batalha que ocorria muito abaixo. Os pilotos das bases do sul da Inglaterra haviam abatido mais de trinta bombardeiros alemães naquele dia, além de outros quarenta caças, e isso contando com números bem inferiores aos dos alemães. Não havia sido por outro motivo que o próprio Winston Churchill havia declarado no dia 20 de agosto: “nunca antes no campo do conflito humano, tantos deveram tanto a tão poucos”.

            - Meu Deus, esse troço é enorme! Pelo menos do tamanho do Hindenburg!
            Ele já conseguia ver nitidamente o imenso dirigível, totalmente prateado e com a suástica nazista pintada nos lemes traseiros. Ricardo reparou que havia uma grande gôndola na parte inferior, e em sua metade traseira portas se abriram no fundo, começando a liberar bombas.
            A tripulação do dirigível deveria tê-lo notado, pois disparos traçantes passaram zunindo muito próximo de seu avião. Almeida acelerou mais, chegando a 790 km/h, e naquela velocidade os artilheiros não conseguiam enquadrá-lo. Fez uma passagem por baixo do dirigível, disparando na direção da gôndola. Conseguia ver através das janelas os alemães correndo ali dentro, e viu pipocar focos de incêndio.
            Mas também viu outra coisa. Um objeto cilíndrico saiu ou foi lançado da parte traseira da gôndola, caindo na vertical. Ricardo teve a impressão de ver o objeto estender asas que estavam dobradas ao longo de sua fuselagem, mas não teve tempo de pensar naquilo.

            Mas Almeida não pôde responder. O avião foguete voltou a atirar nele, agora vindo diretamente por cima. Almeida fez seu jato girar para o lado, mas mesmo assim sentiu o impacto das balas em seu avião. O foguete passou por ele, e o brasileiro iniciou uma perseguição.
            O avião foguete nazista liberou um cilindro de sua parte traseira, com o que sua velocidade foi sensivelmente diminuída. Ricardo viu aí uma chance e disparou, mas no mesmo instante um segundo foguete voltou a disparar na traseira do inimigo, e ele fez uma longa curva ascendente. Almeida o seguiu, forçando suas duas turbinas ao máximo, e em um rápido relance dos instrumentos percebeu que teria combustível no máximo para mais cinco minutos.
            Prosseguiu na subida, e por um momento ficou maravilhado com a extraordinária máquina que perseguia. A fuselagem era alongada, e as três asas giravam ao redor dela estabilizando-a. O pensamento de que tais aeronaves avançadas poderiam dar aos nazistas uma vantagem decisiva lhe deu calafrios.
            Almeida logo percebeu que tinha problemas, pois o D-90 Bis estava perdendo velocidade enquanto o inimigo continuava subindo. Sabia que se estolasse estaria perdido, e disparou mais algumas vezes contra o foguete antes de virar e começar sua descida. Acelerou ao máximo para fugir, e olhando para trás viu que o alemão igualmente interrompera a subida e começava a persegui-lo. Mais disparos cruzaram o céu a seu redor, mas subitamente pararam. Ricardo deduziu que o inimigo ficara sem munição, e novamente obrigou seu caça a fazer uma longa curva.

Escrevi este conto entre 2010 e 2011, e estou perfeitamente ciente de que o avião foguete nazista descrito é praticamente o mesmo que o Caveira Vermelha usa para escapar da explosão da fábrica em Capitão América: O Primeiro Vingador, também de 2011, um dos melhores filmes da Marvel! Este, por sinal, é outro ótimo exemplo cinematográfico de Dieselpunk.


Em tempo, ver o Retrofuturismo na Livraria Cultura foi uma enorme e grata satisfação. Bons tempos!


Cyberpunk

Referência cinematográfica de Cyberpunk? A maioria irá falar de Matrix, mas o divertido Jogador Número 1 também é muito legal, inclusive pelas inúmeras referências nerd.


Explorei essa vertente da literatura punk no conto A Chave, publicado em 2011 na antologia Imaginários 4 da Editora Draco. Aí vai mais um trecho:


            Arisia sentou-se na beirada da mesa, cruzou as pernas e tirou de um bolso interno da bota esquerda uma plaqueta de dados de memo-cristal translúcido e atirou sobre a mesa. O dispositivo de memória caiu precisamente no slot de leitura do terminal de Malthus. Ele examinou a lista e respondeu:
            - Tenho praticamente tudo, meu bem, menos um item. Mas isso não sairá barato.
            - E qual seria o preço, “meu bem”?
            Malthus examinou Arisia de cima a baixo e sorriu. Ela completou:
            - Se for sexo, garanto que pode ser menos prazeroso do que imagina. O sujeito da noite passada teve fratura na bacia após eu terminar com ele. Fratura nem um pouco virtual, se me permite acrescentar.
            - De fato, a mente pode pregar peças no corpo – riu-se Malthus. – Você tem talento, minha cara, se consegue provocar reações psicossomáticas assim.
            Ele mexeu em mais alguns comandos do terminal, e descarregou vários arquivos para o memo-cristal de Arisia. Entregou o dispositivo para a moça, que o guardou no mesmo lugar de antes, e recostou-se sem deixar de olhar para ela.
            - Só isso? – Arisia perguntou.
            Malthus levantou e caminhou pelo escritório. Os pedaços gementes de seus capangas já haviam sumido após estes obviamente terem desconectado. Bons capangas continuavam sendo artigo raro mesmo em um mundo tecnológico como aquele, pensou o empresário. Ele virou-se para Arisia e finalmente respondeu:
            - Na verdade, disponibilizei em seu cristal todos os itens que pediu, mas a senha para abrir os arquivos e o lugar onde poderá encontrar o encriptador quadrifásico só fornecerei se participar de uma... aventura comigo!
            - Que aventura?

            Sem dizer nada, entrou pela porta depois que ele lhe deu passagem. Viu-se em um tipo de boxe onde havia duas hipermotos com as carlingas transparentes abertas. Diante deles, uma pista incrivelmente extensa com variados trechos que mais pareciam um pesadelo.
            - Se chegar na frente darei tudo o que quer, benzinho, talvez até mais!
            Arisia apertou um botão de comando em sua pulseira, e seu traje mudou instantaneamente para uma roupa inteiriça e justa. O capacete pendia como um capuz em suas costas, ela o vestiu e ajeitou os óculos, dizendo apenas:
            - Duvido que estará em condições de fazer qualquer outra coisa ao terminarmos, Malthus.
            - Ah, sempre determinada, gosto disso. Vamos correr!
            Arisia viu a capota transparente fechar-se sobre ela quando deitou e agarrou o guidom. As duas hipermotos alinharam-se na linha de partida, e ao sinal verde dispararam.
            Não demorou para atingirem velocidade supersônica, cruzando a interminável reta do deserto como dois raios. Malthus obviamente sabia o que fazia, pois logo tomou a dianteira.
            No final do deserto, havia o impressionante muro de uma cordilheira, com apenas uma estreita passagem para onde o caminho apontava. Arisia chegou a emparelhar, mas percebeu que Malthus não iria aliviar por nada que fosse. As laterais dos veículos roçaram, se esfregaram e bateram. E como um morto não estaria em condições de fornecer informação nenhuma, ela permitiu que o sujeito entrasse na passagem primeiro.
            Dali seguiram por um circuito sinuoso em meio a uma floresta, repleto de subidas, descidas e curvas fechadas. Malthus pilotava como um maníaco e Arisia estudava suas trajetórias a fim de descobrir como ultrapassá-lo.

            Saíram e foram andando, sem se importar com a chuva que caía. Conversavam sobre a experiência, e Arisia estava entusiasmada:
            - Marc, todos os personagens são mesmo IAs? O servidor de vocês deve ser monstruoso!
            - A empresa tem o que de melhor está disponível, querida. Não sabe como fiquei contente quando consegui o emprego!
            Depois de alguns instantes, ele acrescentou:
            - Faz muito tempo, um filósofo da Universidade de Oxford chamado Nick Bostron disse que, se a humanidade conseguisse mesmo criar um mundo virtual tão convincente quanto o mundo real, então não haveria como provar que o mundo real que já conhecíamos não fosse também ele uma simulação.
            - Quer dizer – disse Arisia – Que podemos agora estar em uma realidade virtual sem saber?
            - Exatamente! E o Postulado Bostron, como ficou conhecido, diz isso, se criássemos uma realidade virtual seria então muito provável que outros já tivessem criado essa simulação antes de nós. Seríamos então apenas programas em uma R.V. ainda maior e impossível de descobrir.
            - Nossa!

Sim, essa parte sobre Nick Bostron é autêntica, o cara realmente disse isso.

Então esses são alguns exemplos de meus trabalhos dentro dos vários gêneros da literatura punk. Aprecio bastante experimentar criar fora da caixa, como se diz por aí, me aventurando por outras vertentes das letras. Vocês podem encontrar o que está disponível nos links, e espero que gostem e comentem!

Até a próxima!